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A Reforma do Diário Carioca na


Década de 50

Izamara Bastos Machado - izamarabm@yahoo.com.br

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO - UFRJ

Rio de Janeiro, Maio de 2003.

Resumo

A proposta deste trabalho seria de uma discussão a respeito da reforma que ocorreu na imprensa a partir da década de 50, em especial dando um enfoque ao jornal Diário Carioca, pertencente a imprensa carioca.

Fundado em julho de 1928 e tendo circulado pela última vez em 31 de dezembro de 1964, o Diário Carioca foi um dos principais responsáveis pelas mudanças gráficas e editorias que ocorreram na imprensa carioca. Espelhando-se no modelo norte-americano de se fazer jornalismo, o Diário teve participação fundamental para o crescimento da imprensa.

O tema propõe uma reflexão a respeito não só das mudanças em si, como também aos acontecimentos históricos que envolviam a sociedade naquele período. Iniciava-se uma era industrial onde o tempo era muito precioso, onde necessitava-se não só de opiniões nos jornais, mas acima de tudo de informações concisas e objetivas.


Nada melhor do que nos remeter ao passado da imprensa brasileira para compreendermos as técnicas redacionais e gráficas vigentes nos jornais hoje. As estruturas dos textos jornalísticos que temos atualmente, certamente têm bases fundadas em acontecimentos históricos que não só envolviam a imprensa no Brasil, como também ao redor do mundo. Muito se fala sobre lead, sublead, pirâmide invertida etc., mas acima de definições, devemos buscar as origens. Buscar as origens é, acima de tudo, uma forma de compreender o mundo atual. E seria neste passado da imprensa que nos calçaríamos a fim de entendermos melhor como é feito o jornal de hoje.

A década de 50 foi o período em que jornais impressos sofreram grandes transformações. Diversas técnicas redacionais – como o lead e a pirâmide invertida – de origens norte-americanas começaram a ser adotadas, num primeiro momento, pela imprensa carioca. Além de também começarem a “copiar” a estrutura das empresas jornalísticas da sociedade americana. E é justamente nesse final da primeira metade do século XX que ocorre a passagem definitiva da imprensa artesanal à imprensa industrial, da pequena à grande imprensa. O jornalismo como empresa sente a necessidade de investimentos e começa a ocupar espaços no mundo capitalista.

Numa prévia pesquisa foi possível observar que dentre alguns dos jornais que começaram a aderir as técnicas norte-americanas e começaram a contribuir para a reforma da imprensa estavam o Jornal do Brasil, a Última Hora e o Diário Carioca. Como não seria possível, trabalhar a fundo todos eles, propomos a escolha de um deles para um estudo um pouco mais aprofundado.

O Diário Carioca foi um dos que mais nos chamou atenção por ter sido um dos que pioneiramente aderiu às técnicas redacionais americanas que ainda hoje estão vigentes no jornalismo moderno. Apesar de não mais existir, é importante levar em conta suas contribuições para os jornais de hoje. Estaríamos aqui nos propondo a uma discussão mais detalhada a respeito da reforma ocorrida no Diário Carioca na década de 50. O principal objetivo deste projeto, portanto, é compreender a importância do Diário Carioca, buscando conhecer mais detalhadamente a vida do mesmo e fazer uma correlação entre as técnicas redacionais introduzidas no período citado com o modelo hoje utilizado.

Debater como a reforma nas técnicas de construção do texto se articulava com o conjunto das transformações modernizadoras pelas quais passava o jornalismo (que englobavam reformas gerenciais, gráficas etc.) e certificar se essas mudanças já previam o “mito da objetividade”, seria uma discussão bastante esclarecedora a respeito da origem do jornalismo que hoje fazemos. É válido levarmos em conta que todas essas mudanças que ocorreram na imprensa neste período estavam, é claro, relacionada ao momento histórico que o Brasil vivia sócio-econômicamente. Durante a década de 50 o Brasil passou por profundas transformações econômicas, ingressando numa decisiva era de industrialização. Neste período a “indústria cultural” dá os seus primeiros passos com a massificação do rádio e os surgimento da televisão, entre outras mídias como o cinema e os discos que também se desenvolveram nesse período. É importante lembrar que o Brasil vivia um momento de entusiasmo. Juscelino Kubitschek construía Brasília, e tudo era liderado pelo um espírito do “novo”. O clima de liberdade em que vivia o país, no contexto constitucional e democrático – entre a queda da ditadura em 1945 e golpe militar de 1964 – estimulou o exercício de independência e de expansão dos meios de comunicação. Esse espírito do “novo”, essa vontade de mudança, ultrapassaram as esferas econômicas e política e contaminaram o campo das artes e da cultura, com isso, importantes movimentos artísticos nasceram e tomaram novo impulso.

A par da construção do novo, a produção cultural do período marcou-se pela valorização do popular como fundamento da nacionalidade brasileira. Buscaram-se, enfim, novas formas de expressões artísticas, capazes se integrar cultura, modernidade e desenvolvimento.

Duas décadas depois da revolução de 30, as conquistas sociais, a urbanização, o consumo, a renda interna, a produção industrial e o desenvolvimento da agricultura, criam, aos poucos, para a sociedade brasileira novos padrões de vida. Esses novos padrões foram recaindo sobre a imprensa brasileira, que aos poucos adquire traços da imprensa norte-americana. Com isso, nos anos 50 os grandes jornais se renovam, estimulados pelas transformações que exigem dinamismo e objetividade.

O que se chama de novo jornalismo para caracterizar as mudanças que se verificaram nos anos 50, tanto na forma, como no conteúdo da informação, pode refletir também o momento de ingresso dos nossos sistemas de comunicação na era das máquinas da notícia. Este período marca, então, a separação entre duas fases: a do “jornalismo literário”, que fica para trás, e a do “jornalismo empresarial”, que começa a se consolidar. Assim, a imprensa de iniciativa mais local e individual – remanescente do jornalismo de fins do século XIX – com ar opinativo bem claro, vai perdendo espaço. O jornalismo passa a ser visto pelo ângulo empresarial, algo que pudesse gerar lucros.

Alguns jornais foram criados neste período, e outros fizeram modificações na forma de se apresentar graficamente. As exigências geraram transformações na forma de se fazer os jornais, isto é, novas técnicas começam a ser implantadas de modo que o jornalismo ganha mais traços e nuances. Surgem regras, ou melhor, padrões.

Mudam os tipos, as medidas, os formatos, o material de impressão, a organização administrativa, os critérios de investimento, as técnicas da notícia, o marketing das empresas, a veiculação dos classificados, as promoções. Os jornais tornam-se mais leves na diagramação, mais técnicos na produção das matérias, e mais estrategicamente organizados no intuito de conquistar uma maior fatia no mercado. A renovação no conteúdo e na forma gerou uma imediata reação das empresas jornalísticas: maior empenho na defesa do patrimônio econômico e valorização do trabalho jornalístico. A qualificação editorial se completa com usos de estilos inspirados no jornalismo norte-americano, que fornece ao Diário Carioca a técnica do lead (depois aperfeiçoada pelo Jornal do Brasil ).

A parte gráfica dos jornais também sofreu diversas modificações a fim de tornar o visual mais atraente aos olhos dos leitores, e também com o intuito de dinamizar a leitura das notícias, que já começaram a trazer um perfil diferenciado. Tudo nos jornais é afetado por novas formas de edição que visam valorizar o conteúdo e o leitor ao mesmo tempo. A dependência do mercado obriga o jornal diário a parecer interessante ao maior número de leitores todos os dias, para poder manter ou expandir o eleitorado.

Uma nova configuração foi se impondo aos jornais e jornalistas da década de 50. Novas técnicas de produção e de administração foram introduzidas e uma nova linguagem se fez presente, dando prioridade à notícia em detrimento da opinião. Até os anos 50, a informação não era o que mais importava em um jornal.

Observa-se entre os jornais desse período, que alguns sofreram mudanças na forma de transmitir a informação: a linguagem tornou-se mais objetiva, a notícia passou a ocupar maior espaço do que a opinião. Estão nesse caso principalmente o Correio da Manhã, O Globo, Diário Carioca, Folha da Manhã, O Jornal. Outros introduziram também inovações técnicas na confecção do jornal, como o Diário Carioca e o Jornal do Brasil. O Correio da Manhã sofreu também uma reestruturação empresarial, passando a contar com uma administração e um gerenciamento mais de acordo com as empresas burocráticas modernas. O jornal Última Hora, fundado em 1951, é também um exemplo desse quadro de mudanças que já vinha adquirindo formas desde o início da década. A Última Hora revolucionou a imprensa introduzindo uma série de novas técnicas de comunicação de massa.

A imprensa brasileira, na década de 50, foi abandonando uma de suas tradições: o jornalismo de combate, de crítica, de doutrina e de opinião. Essa forma de jornalismo convivia com o jornal popular, que tinha como características o grande espaço para o fait divers, para crônica e para a publicação de folhetins. A política da atualidade não estava ausente, mas era apresentada com uma linguagem pouco objetiva. Esse jornalismo de opinião tinha forte influência francesa e foi dominante desde os primórdios da imprensa brasileira até a década de 60, e foi sendo gradualmente substituído pelo modelo norte-americano: um jornalismo que privilegia a informação e a notícia e que separa o comentário pessoal de transmissão objetiva e impessoal da informação.

Essas mudanças surgiram sob a influência da imprensa norte-americana, mas isso não significa que seja o brasileiro submisso, dependente ou meramente reprodutor da valores e conceitos alheios. Ele goza de relativa autonomia, reinterpreta o que absorve, incorpora suas próprias idéias, junta aspectos de outras escolas (a francesa, a britânica e a ibérica) para formar um jornalismo com características peculiares. Na verdade, essas técnicas transplantadas do jornalismo dos EUA vão sendo adaptadas a realidade do jornalismo e do momento histórico-social vivido pelo Brasil. Isso significa dizer que o desenvolvimento da imprensa no Brasil foi condicionado ao desenvolvimento do país.

Com a substituição do “jornalismo literário” pelo “jornalismo empresarial”, ou seja, deixando de lado a opinião e se fazendo mais importante os fatos, técnicas foram sendo incorporadas ao modo de se construir as matérias. Fazia-se necessário uma produção maior de matérias cada vez mais enxutas, cada vez mais objetivas. Com isso o nariz-de-cera (longa e rebuscada introdução das matérias que servia para ambientar o leitor, onde a informação propriamente dita vinha ao final do texto) vai perdendo espaço para o lead (cujos princípios se fundaram na regra dos cinco Ws e um H - toda notícia deveria conter, obrigatoriamente, os seguintes elementos: Who, quem; What, que; When, quando; Where, onde; Why, por que e How, como) que vem acompanhado da técnica também norte-americana, da pirâmide invertida (fornece-se primeiro os dados mais importantes dos acontecimentos e depois os dados de menor relevância) – a grosso modo, diz-se do inverso do nariz-de-cera.

A reforma da imprensa na década de 50 não deve ser encarada como algo que nasceu da noite para o dia. Aos poucos foram ocorrendo mudanças que o próprio mercado exigia – muitas delas dentro do nosso objeto de estudo, o Diário Carioca. O ano de 1950 deve ser encarado como marco de um processo que vinha se desenvolvendo anos antes. Já havia vestígios de modernidade, por exemplo, na diagramação vertical e na contagem de títulos que o uruguaio Dr. Bernard – segundo conta Carlos Castello Branco – implantou na primeira página de alguns dos Diários Associados no início de década de 40.

Com a imposição de uma moderna sociedade industrial o lead provavelmente chegaria ao Brasil mais cedo ou mais tarde. Ter aparecido primeiro no Diário Carioca foi resultado de uma situação histórica, ou seja, conseqüência do tom irreverente que o jornal trazia de berço e da abertura às novidades. Importante também era o fato de Horácio de Carvalho Júnior - a quem José Eduardo Macedo Soares, (fundador do Diário Carioca em 18 de julho de 1928) - passou a propriedade do jornal em 1932, continuando apenas como articulista – ser mais boêmio que empresário não se opunha as mudanças editoriais que implicavam, afinal, grandes riscos.

O Diário Carioca conseguia ser um jornal pequeno, mau pagador e ao mesmo tempo um viveiro de jornalistas, onde surgiram nomes como Armando Nogueira, Evandro Carlos de Andrade, Hélio Fernandes, Jânio de Freitas, José Ramos Tinhorão, Maurício Azevedo, Nilson Lage, Paulo Francis e Zuenir Ventura. Lista da qual não poderiam faltar de fora Antonio Maria, Fernando Sabino, José Carlos de Oliveira, Nílson Viana, Paulo Mendes Campos, Sábato Magaldi, Sergio Cabral, Stanislaw Ponta Preta e Thiago de Mello. Além de nomes que já tinham uma experiência anterior, como Carlos Castello Branco, Ferreira Gullar e Otto Lara Rezende.

É interessante destacar que a iniciativa de levar adiante a introdução de novas técnicas no Diário Carioca teve início no carnaval de 1950 com o empenho do então, chefe de redação, Pompeu de Souza. Já na nova sede , situada num prédio do Centro da cidade, na Avenida Rio Branco esquina com sete de Setembro, ele abriu mão de se entregar ao carnaval e começou a elaborar o primeiro manual da Imprensa Brasileira, o chamado style book, baseado nos modelos norte-americanos e em idéias misturadas das leituras dos jornais ingleses e franceses. “Meu objetivo era de criar ou adaptar para nós a técnica redacional baseada no copy-desk. Estabelecer as linhas mestras de uma redação objetiva, com informações objetivas, sem nenhum comprometimento com a opinião. Foi então que surgiu o lead, logo em seguida o sublead, e com eles o copy-desk. Batizei o nosso style book de Regras de Redação do Diário Carioca”. Antes da implantação dessas novas técnicas a apresentação das matérias jornalísticas era feita à base de nariz-de-cera, ou seja, criava-se primeiro todo um contexto, e a notícia mesmo só aparecia no pé da matéria.

Isso já era uma remanescência das origens do jornalismo, pois o jornal inicial foi um panfleto em torno de dois ou três acontecimentos que havia a ser comentado, mas não a ser noticiado. Quando a complexidade dos acontecimentos foi obrigando o jornal a se transformar num veículo de notícias, foi necessário estudar melhores formas de levar os acontecimentos à população de maneira mais rápida e concisa. Com a ocupação e o dinamismo que foram tomando conta da vida das pessoas, ninguém tinha mais tempo de ler um noticiário longo e rebuscado.

Estava chegando o fim do nariz-de-cera. A imprensa brasileira começava a moldar-se ao tipo de texto capaz de ser produzido em escala industrial e lido em ritmo urbano. O lead compatibilizava criação e linha de montagem – a mesma movia a recente, mas rápida, industrialização brasileira. E chegava ao leitor como informação condensada, que ele podia consumir no caminho para o trabalho ou num curto intervalo de descanso.

Apesar de ser um jornal de grande importância e influência política, o Diário Carioca era um jornal pobre, pequeno e que vivia nas maiores dificuldades financeiras. Com isso, os grandes jornais acharam graça e até ridicularizaram as inovações que ele começava a implantar. Inicialmente houve um momento de rejeição. A classe jornalística reagiu com desprezo e superioridade àquele “transplante”. Entre os jornalistas que não aceitavam as inovações que o Diário Carioca estava fazendo na imprensa, estavam Osório Borba e Nélson Rodrigues. Este último passou a chamar Pompeu de Souza de “o pai dos idiotas da objetividade”.

Para implantar as novas técnicas, buscou-se então principiantes, em vez de jornalistas viciados no velho estilo. Pompeu de Souza deu a Luís Paulistano a tarefa de selecionar estagiários e assim montar uma equipe sem nenhuma experiência profissional e sem vício do nariz-de-cera, que era vigente na época. Armando Nogueira entrou como “foca” no Diário em 1950 e, dois anos depois, tronou-se o primeiro redator formado dentro do novo espírito, com a função única de reescrever matérias para adaptá-las ao estilo do veículo. Evandro Carlos de Andrade, foca que entrou direto como redator em 53, três anos depois foi feito chefe de redação. Nilson Lage, que começou em 56, logo foi destacado como redator.

As técnicas importadas sofreram no Diário Carioca um processo de “decantação”. O texto foi sendo moldado ao longo do tempo por seus redatores e foi sendo criado um estilo onde o humor e a concisão eram características marcantes.

Em relação a parte gráfica, o que não fosse respondido no lead deveria vir no segundo parágrafo da notícia. Uma matéria composta em duas colunas, por exemplo, tinha o lead ocupando as duas colunas em negrito e, embaixo, o segundo parágrafo de sub-lead - denominação, que só existe no jornalismo brasileiro, criada por Luís Paulistano.

Essa condensação permitiu ao jornal inaugurar a primeira página composta só de chamadas, que também se tornaria institucional ao longo do tempo. Na época, as matérias principais eram lançadas na primeira página e interrompidas quando o espaço acabava – no meio da frase, geralmente – para continuarem nas páginas internas; as chamadas eram feitas em títulos. No Diário Carioca, o lead e o sub-lead substituíram as matérias quebradas na primeira página – o que tinha a vantagem de permitir apresentação de maior números de assuntos, além de tornar menos confusa a programação visual.

O fato é que o início dos textos e títulos contados permitiu ao Diário Carioca uma composição de páginas próxima da concepção visual moderna: equilíbrio entre as massas de negro (título e texto, texto e texto, etc.), abolição dos inúmeros subtítulos e dos fios delimitando as matérias. Esta inovação se completaria na reforma do Jornal do Brasil, a partir de 56.

O título em especial era algo que obedecia uma certa rigidez. Deveria ser tudo no mesmo corpo, só que às vezes não cabiam as palavras necessárias. A solução era colocar um parêntesis e dentro dele uma expressão em duas linhas, que completava o sentido do título.

A titulação contada exigia uma nova linguagem: era preciso dizer o máximo no mínimo de espaço (aliás, o slogan do Diário Carioca dizia exatamente isso: “ O máximo de jornal no mínimo de espaço”). Assim, Pompeu inaugurou em 1945 o uso expressivo de dois pontos, parênteses e ponto e vírgula; introduziu também abreviaturas e acabou com a obrigatoriedade do artigo nos títulos. Foi o Diário Carioca o inventor de uma abreviatura famosíssima: JK.

É verdade que nem sempre as experiências funcionavam. Por falta de espaço no título, a palavra “assembléia” chegou certa vez chegou a virar “assem.”, que de tão inusitada dificultava a leitura. A busca de concisão terminou atingindo no Diário Carioca momentos de brilho intenso.

Apesar de tantas inovações iniciais, o Diário Carioca não foi muito longa e um clima de decadência tomou conta do jornal com o passar dos anos. A redação funcionou pela última vez no dia 31 de dezembro de 1964. Os últimos tempos do Diário Carioca marcaram, com um traço de melancolia, a incapacidade do jornal de acompanhar o ritmo de sua época. A impressora era uma velha Marinoni que não foi trocada durante o boom de JK.

Contudo, nada desmentia o fato de que o Diário Carioca tinha uma vocação de pioneiro. Tanto é, que no final da década de 60 ele foi o primeiro jornal brasileiro a ter como chefe de reportagem uma mulher, Ana Arruda – isso tudo justamente no momento que eclodia o movimento feminista.

Neste momento, o Diário já tinha perdido a liderança na renovação na imprensa. É difícil situar com precisão o início de sua decadência. Talvez ela estivesse embutida, desde os anos 40, em sua condição de empresa amadorística. Outros preferem localizar o surgimento da crise em meados de 50, quando acelerou-se o processo de concentração empresarial no Brasil e, particularmente, na imprensa. O Diário Carioca sucumbiu na esteira do mesmo processo de desenvolvimento capitalista que lhe permitira, anos antes, revolucionar os padrões do jornalismo brasileiro.

Dentre tantas possibilidades do fechamento do jornal, uma coisa deve ser lembrada sempre: se seu sucesso como empresa não foi eterno, pelo menos sua contribuição ao jornalismo foi bastante válida. Basta que se leve em conta os manuais de redação hoje existentes na grande maiorias do jornais e até mesmo no estilo que são escritas as matérias. Pirâmide invertida, lead, sub-lead e copy desk talvez, independente do Diário Carioca, viessem a serem introduzidos no jornalismo brasileiro mais cedo ou mais tarde, porém, ele conseguiu deixar sua marca na atividade jornalística.

Deixamos aqui nossa proposta de discussões a ser realizada no próximo INTERCOM. Em nenhum momento tentamos fechar, de uma forma conclusiva, o tema: “ A Reforma do Diário Carioca na década de 50”. O que fizemos aqui foi um breve relato e levantamento de dados acerca do referido assunto.

A inserção de técnicas redacionais e modelos de diagramação que foram inseridos na imprensa tinham um valor importante extraído do modelo norte-americano: a busca pela a objetividade.

A chamada “objetividade jornalística” tornou-se o critério definidor da qualidade do texto jornalístico. A objetividade é aqui compreendida como uma espécie de norma que implica na busca de um texto mais isento e sintético, em que transmita a “informação” , o “fato”, ou o “evento” de modo mais direto, que, enfim, estabeleça uma espécie de ponte imediata entre a fonte e o receptor da notícia.

Na ideologia do jornalismo americano, o repórter deve reportar e não interpretar. Deve dar ao leitor a sensação de realmente ter acontecido todos os dados da matéria, sem a emissão de opinião. Para ficar mais claro, basta ter em mente as bases fundamentais do estilo americano, que são: notícias escritas no modo indicativo, em ordem direta, na fórmula da pirâmide invertida (o mais importante no começo, os detalhes em seguida), a resposta às seis perguntas fundamentais (o lead) nos dois primeiro parágrafos, frases curtas, vocabulário simples.

Tal predomínio da objetividade poderia ser percebido, entre outros fatores, pela presença de algumas características, tais como a organização do texto baseada no pressuposto de que todas as informações essenciais a respeito do acontecimento noticiado devem constar do primeiro parágrafo do texto, o lead, que seguiria o modelo norte-americano - a fórmula dos cinco Ws e um H.

O mito da objetividade - que ainda hoje condiciona o trabalho dos profissionais da imprensa - teve seu início com as reformas da imprensa carioca nos anos 50, sobretudo com a do Diário Carioca, que trouxe para os textos jornalísticos as técnicas norte-americanas. A busca de dados históricos sobre as origens da referida reforma nos parece, assim, importante para o entendimento de um aspecto essencial do jornalismo contemporâneo.
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