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Torrent of Portyngale Here beginneth a good tale Of Torrent of Portyngale


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Torrent of Portyngale

Here beginneth a good tale Of Torrent of Portyngale

Apesar desta fórmula propiciatória, ninguém hoje consi­dera o romance das aventuras de Torrent mais do que medío­cre; se não fora pertencer a uma época recuada, de que se aproveitam e se podem criticar todos os documentos, correria mesmo o risco de só excepcionalmente ser citado. E quanto ao que nele se contenha de relacionado com o nosso país, bem pouco se nos afigura o que de positivo se determine; sabe-se, para mais, quanto são fantasiosas a geografia e a his­tória deste género de composições. Antes de mais nada, po­rém, digamos algumas palavras sobre a obra.

O Torrent of Portyngale cncontra-se em um manuscrito, único, do sec. XV. É desconhecido o autor; nem esse manuscrito é obra sua, mas de um copista que muito corrompeu e transtornou o romance. Deste próprio facto, todavia, se tira a conclusão de ter o poeta vivido sem dúvida bastante mais cedo, provindo as adulterações por aquele cometidas de não compreender muitas expressões antigas. Por outro lado a dic­ção artificial e empolada, ao mesmo tempo que cheia de tri­vialidades, e a extensão e o enfadonho dos episódios, parecem indicar ter sido escrito quando já era passado o melhor tempo destas composições.

Que esse autor deve ter sido um monge, provam-no em

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seguida as bênçãos com que começa e termina o romance, as longas orações que precedem e seguem cada episódio, a frequente intervenção directa do Céu, o falar-se na comunhão e em missas e o louvar-se Torrent por fundar igrejas e aba­dias. Faltam ao mesmo tempo as características dos menes­tréis, tais como o vaticínio dos destinos do herói, e a men­ção dos próprios talentos poéticos e das recompensas que lhes auferem. Diremos por fim que o poema, abundante em aliterações, se encontra composto na estância de rima caudata tail rhyme — tão frequente nestas composições (l), e no dia­lecto central.

Além do manuscrito há mais sete breves fragmentos de uma edição impressa, que, provindo de um texto um tanto mais puro, servem para a correção daquele. Cremos existirem do Torrent apenas duas edições modernas, a primeira devida a Halliwell, de 1842, e a segunda de Adam, publicada em 1887 pela Early English Texts Society. É do prefácio desta que aproveitamos o que fica dito.

Quanto ao seu conteúdo o romance admite a consideração de duas partes: constando a primeira do tema vulgar de aven­turas "por sua dama,,

37. For love of this lady Deyr In dede of arms far and nere Aventorres gan he take

y

as quais constam de terríveis combates com dragões e gigan­tes, libertação de prisioneiros, etc., até ser finalmente conce­dida ao herói a mão da princesa de Portugal; e constituindo a segunda vários sucessos guerreiros na Terra Santa, onde Torrent cerca e toma cidades e figura de grande capitão.



Diversos motivos romanescos e uma lenda agiográfica se encontram encorporados nesta segunda parte. Embora o casa­mento esteja combinado, o rei de Portugal, que só a custo cedeu, impõe ainda aos noivos que esperem half yere and a day (1353), condição cruel que os lança nos braços um do

(1) O nome de romance-six é testemunho deste facto; no Torrent as estrofes são de doze versos, o que também indica a sua origem central ou setentrional visto que estas não ocorrem nos romances do sul. Sobre a proveniência desta estância, pode ver-se Saintsbury, "Manual of English Prosody”, pág. 329.

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outro; em seguida Torrent parte de novo para longes terras, e por lá se encontra quando a princesa á luz dois gémeos. O cruel rei abandona-a, juntamente com os filhos, em uma barca sem governo (1); levanta-se a aragem da terra



1840. The wynd Rose ayen tlhe nyght

Fro lond it blew that lady bryght Vppon the see so grene.

e a barquinha vai dar à Palestina. Aqui intervém a lenda de S.to Eustaquio (2) ou Estacio: um dos filhos da princesa é le­vado por um grifo, o outro por um leopardo, mas são salvos maravilhosamente e criados nas cortes dos reis de Jerusalém

(1) Estas barcas maravilhosas aparecem por toda a parte nos mitos, lendas e ficção literária; pelo que respeita à Inglaterra ocorrem, entre outros, no romance de Emare, que se diz fundado em um lai bretão, no Rcihard Coer de Lyon, em Sir Triamour e na lenda de Constança, qual a encontramos em Gower e no Man of Law's Tale, de Chaucer, que a tiraram da crónica anglo-francesa de Trivet. A "mulher perseguida,,, como se sabe, apresenta-se sob variadas formas: Crescencia, Sibila, Oliva, Gri-selidis, etc.



(2) Segundo a lenda o santo era, antes do baptismo, um capitão de Trajano chamado Plácidas. Um dia, na caça, Cristo crucificado apareceu-lhe entre as hastes de um cervo. Plácidas converteu-se adoptando o nome de Eustaquio. Deus anunciou-lhe por intermédio de um anjo o seu futuro martírio. Perseguiram-no terríveis calamidades, perdeu todas as suas terras e viu-se obrigado a exilar-se com a mulher e os filhos. Quando ia a bordo de um navio velejando para o Egipto, o dono do barco apaixonou-se pela mulher de Eustaquio, e lançou éste com os filhos em uma praia; aí, ao passar um rio, urna das creanças foi-lhe arrebatada por um lião e logo depois, ao tentar salvar aquela, a outra foi-lhe levada por um lobo. Tendo vivido por longo tempo como trabalhador do campo, foi descoberto por mensa­geiros que Trajano enviara em sua procura e encarregado de uma expe­dição contra a Dácia.

Durante a guerra encontrou finalmente a mulher em uma choupana — o mestre de bordo tinha caido morto ao atrever-se a toca-la — bem como os filhos, a quem pastores tinham salvo das feras e educado. Porém vol­tando a Roma e recusando sacrificar aos deuses pagãos, acabaram por ser lançados dentro de um boi de bronze aquentado com grande fogo, onde morreram, embora os corpos, fossem tirados milagrosamente intactos.

São numerosas as versões medievais desta lenda, em latim e noutras linguas. Em espanhol encontra-se a Estoria dei Cavallero Plácidas que fué despues christiano e ovo nonbre F.ustacio. Menéndez y Pelayo (Origenes de Ia Novela, pág. CLIX, nota 1ª), diz que a lenda não foi das mais popu­lares em Hespanha: além do texto antigo só haveria uma mala comedia dos fins do século XVIII. Knust afirma que não deixou mais vestígio na litera­tura hespanhola do que estas duas obras.
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e da Grécia. Finalmente ao cabo de quinze anos Torrent é feito prisioneiro em batalha, e mais tarde libertado, por um dos filhos, sem se-conhecerem, e do mesmo modo vence ainda ambos em torneio, quando se dá o reconhecimento de todos, em que interveem anéis — temas estes, como é sa­bido, por igual forma correntes.

Devemos ainda acrescentar que segundo Holland, (1) seguido por outros, .e citado por Adam, os romances de aven­turas que versam a lenda de Santo Eustáquio são os seguintes:

1.° O poema atribuído a um Chrestien, que julgamos ainda se discute se é Chrestien de Troies — Del roi Guillaume d'Angleterre (2).

2.° Os dois poemas em médio alto alemão, Die gute Frau e Der Gra f von Savoyen.

3.° Os romances ingleses de Isumbras, Octavian, (3) Syr Eglamour of Artois c de Torrent.

Destes últimos, o que mais se aproxima do Torrent é o de Sir Eglamour. Halliwell, (4) que foi o primeiro a notar esta semelhança, considerava o Torrent como fundado em parte em Sir Eglamour; mas Adam, cotejando os romances, e acentuando que o primeiro concorda mais com a lenda agiológica do que o segundo — a princesa, por exemplo,

(1) Chretien von Troies, Tubingen, 1854. Não sabemos de lista mais recente e porventura mais completa.

Knust, no seu esplêndido trabalho Dos obras didácticas y dos leyendas, embora se reporte igualmente àquele, acrescenta-lhe a obra hes-panhola La Historia dei Cavallero Cifar, traduzida, segundo o seu pró­logo, "de Caldeo en Latim et de Latin en Romance,,, e que na sua primeira parte é também uma versão da lenda; e o poema de Ulrich von Eschen-bach, Wilhelm von Wenden. (Ob. cit. pág. 88 e 96). Também dá noticia de mais um fragmento e uma versão completa da lenda de Guilherme de Inglaterra, diferentes do poema de Chrestien. No Cifar a mulher do cava­leiro mata a tripulação do navio e este é a seguir governado pelo menino Jesus.

(2) Existem em castelhano duas versões: uma Estoria e uma Chronica del rey do Guillermo rey de Ynglaterra, sendo a primeira, a tradução daquele poema francês e a segunda provavelmente duma obra escrita em latim (Knust, ob. cit. pág. 159).

(3) Em hespanhol o Cuento muy fermoso del enperador Otas de Rroma e de la infanta Florencia, su hija, etc. (Menendez y Pelayo, ob. cit., vol. I, pag. CLVIII).

(4) The Thornton Romances. O romance de Syr Eglamour, igual-mente considerado medíocre, tem contudo de notável o apresentar o nome de Christabel, celebrizado por Coleridge, que no entanto não devia conhe­cer o romance.

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tem no Torrent dois filhos, em Sir Eglamour apenas um; Torrent tem de combater e sofrer em terras pagãs, como Eustáquio, e aquele aparece como um simples cavaleiro errante — refuta essa opinião e conclui pela conjectura, real­mente plausível, de que ambos os romances são tirados de uma versão mais antiga, hoje perdida. Mas sem excluir a hi­pótese de uma primitiva fonte francesa, antes acentuando a regra, e apontando mesmo algumas indicações nesse sentido, de um certo número de coincidências verbais nos dois poe­mas infere que o seu original mais próximo foi em inglês ; e para explicar as suas divergências, bastante consideráveis, supõe que os autores, redigindo de memória, alteraram, omi­tiram e acrescentaram o que lhes pareceu, substituindo à sua guiza o que lhes tinha esquecido.

Voltemos agora ao Portyngale.

Todo o romance é da maior secura no que diz respeito a determinações. Da comparação das obras desta categoria com os seus originais franceses, quando se conservaram, verifica-se que foram geralmente encurtados e resumidos na tradução; trata-se além disso dum romance tardio; ambos estes factos contribuirão para explicar aquela circunstância.

Assim a única qualificação que nele se encontra do nosso país está no verso

13. In Portyngale, that Ryche loud

quási exclusivamente acompanhada, quanto á corografia, pela indicação de se passarem vários episódios

412. At Perrown on thç see syd.

Que esta cidade é em Portugal dizem-no-lo directamente as linhas

1772. In Portyngale

In a riche town

That hath hight be her day, And euer shall, as I you say, The town of Peron.

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Traía-se pois também duma "rica,, cidade; o autor era bem parco em epítetos; riche e bryght quási esgotam o seu arsenal.

Por outro lado, que a geografia do poeta não era intei­ramente arbitrária mostram-no-lo os "reinos,, que mais rela­ciona com o nosso país: a Galiza, o Aragão e a Provença. Lembram-nos imediatamente as relações políticas, dinásticas e literárias que a eles nos ligaram e também um pouco as pe­regrinações a Santiago de Compostela (1).

Uma fortuita associação de ideias abriu-nos porém um caminho que nos levou para bem longe. Dada a existência do romance paralelo Sir Eglamour of Artois, esse Artois fez-nos pensar se Perrown não seria, afinal, a cidade de Péronne-— abstraindo por agora da circunstancia de aquela figurar no romance como à beira-mar; e daí fomos levados a pergun­tar-nos se Torrent of Portyngale não seria acaso Ferrand de Portugal.

Como se sabe o infante D. Fernando," filho de D. San-cho l, casou em 1221 com Joana, filha de Balduino, conde da Flandres e o primeiro imperador latino de Constantino­pla, que morrera deixando-a de tenra idade. Ora o nome de Ferrand, forma abreviada de Ferdinand - cp. Ferrão — tem igualmente a forma Ferrant (2); e, quanto ao nosso príncipe, anda ligado ao nome do seu país, o qual por seu turno admite, entre outras, a grafia Portingal (3), conforme o vemos

(1) Na primorosa edição crítica do Cancioneiro da Ajuda, que de­vemos à consagrada romanista D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, se encontram desenvolvidas investigações histórico-literárias acerca das rela­ções de Portugal com os países estrangeiros nos primeiros tempos da nossa nacionalidade.

(2) No Diocionnaire des Noms, de Larchey, encontramos Férand Férant como abreviaturas de Ferdinand muito usadas na Idade Media e mais adiante, ainda como abreviatura do mesmo nome, as formas Ferran, Ferrand e Ferrant, com a indicação de significarem cavalo cinzento na língua d'oc. Com os mesmos valores ocorrem, excepto Ferran, nas canções de gesta (cf. Langlois, Table dês nons propres contenus dans lês chansons de geste), jogando com a palavra se troçou de Ferrand, quando, depois de Bouvines, ele foi passeado ignominiosamente por Paris, carregado de fer­ros, a caminho da prisão: Si crioit Ie peuple queand Fenant passoit, par maniere de gober et moquer, que deus ferrans portoient Ferrant, mais Ferrant estoit enferrez. (Chron manuscrit, cit. na Art de verif. lês Dates, ed. de 1818, tomo XIII, pág. 320).

(3) Sobre as diferentes formas da palavra Portugal em textos estran­geiros medievais v. D. Carolina Michaelis, ob. citada, vol.II, pág. 695. Em

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ainda no livro de 1509, Lês nobles prouesses et vaillances de Baudoyn conte de Flandres et de Ferrant filz au Roy de Portingal qui après fust conte de Flandres (1).

Poderia pois Torrent of Portingale, ser uma deturpação de Ferrant de Portingal, tanto mais que o nome do herói aparece no romance uma vez escrito Terrant, outra Jerrent e onze vezes Torrant, como que encontrando-se nele regis­tada por estes vestígios a própria transição.

Procurando materiais para firmar a nossa hipótese, depa­rámos no livro de Francisco Michel, Lês Portugais en France et lês Français en Portugal, justamente com a afirmação de que Torrent é Ferrant; porém, dedicando apenas algumas linhas ao assunto, e devendo embora ter percorrido o romance — de que cita a edição de Halliwell — ou a sua súmula, o certo é que das escassas palavras "Nous citerons encore, un ro-man qui ne se rapporte an Portugal que par le nom de son heros...,,, (2) que diz ser o nosso Fernando, não se entende como chegou a tal conclusão.

A idea de Michel parece contudo ter ficado adormecida no seu livro, não possuindo nós indicação alguma de que o assunto tenha sido tratado ulteriormente; nem Adam na sua edição do Torrent a tal se refere, nem por exemplo Schofield, na History of English Literature from the Norman

inglês era também nome de naturalidade, como se vê, por exemplo, em indicações de scena da Spanish Tragedy: Enter two Portingals (ato III, sc. 9) ; Enter. . . Portingal Ambassador (ato II, sc. 3), ao lado da forma Portuguese.

And now to meet these Portuguese

(ato III, sc. 14) No Torrent veem-se as grafias Portynggall, Portynggule, Portiiiffale, Portyngale; a primeira forma aparece exclusivamente até à linha 877, e depois na 1255; a segunda isoladamente na linha 883; a partir da linha 1069 ocorrem indistintamente as duas últimas, com a excepção acima apontada. Dá a ideia de que, em certa altura o copista viu em qual­quer parte uma grafia diferente da do seu original, que passou a empregar

É escusado dizer que a letra a da sílaba final se não lia (ei), valor que nem ainda contava, como se 'sabe, e só adquiriu bastante tarde me­diante uma longa evolução — mas (a).

(1) Não lemos ainda esta obra, cit. por Luciano Cordeiro (A Con­dessa Mahaut, pag. 11) nem a sua variante, de que igualmente nos fala, e que se encontra na Symmicla Lusitanica da Biblioteca da Ajuda.

(2) Ob. cit., Appendice 111, Principaux romans de chevalerie ecrits en portugais, pág. 262.

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Con quest to Chaucer, em que apenas o menciona, junta a essa referência a simples linha que seria bastante para registar a aproximação.

Dada a inferioridade do romance não é o facto para ex-tranhar, pois que o ponto de vista português só razoavelmente a um português pode atrair, ou a quem ás nossas coisas se dedique.

Já seria para nós decerto interessante que Fernando, pela fama que deixou do seu valor militar, emprestasse apenas o nome para uma narrativa heróica; cumpre-nos agora porém averiguar de tudo o que nela possa verdadeiramente existir acerca do nosso infante, ou relacionado com o nosso país. Ora o próprio Michel, não tivesse ele lançado a sua hipótese apenas de passagem, e superficialmente, com facilidade se teria lembrado de que na mesma Flandres, pouco antes de aquele, encontramos realmente casado com uma princesa de Portugal, e tendo combatido na Terra Santa, o conde Filipe de Alsácia, marido de Matilde, filha de D. Afonso Henri-ques (l).

Sem podermos afirmá-lo definitivamente, o facto é que no romance se pode ver como uma poetização dos amores de Filipe, qual a história ou a lenda - para o nosso ponto de vista a lenda tem mesmo, como se compreende, maior importância — no-los apresentam.

Em volta desse casamento, que se realizou em Bruges, no ano de 1184, com extraordinária pompa, bordou-se na Flandres uma lenda romanesca, segundo a qual Filipe de Alsácia, tendo visto Matilde em Portugal aquando da sua peregrinação a Compostela, ou de passagem em Lisboa na volta da Palestina, enviaria, rendido, à sua extraordinária be­leza, sucessivas embaixadas a D. Afonso l para lhe conceder

(') Em Portugal teve o nome de Teresa, que trocou em França por Mafalda ou Matilde; Raul de Diceto dá-lhe ainda o de Beatriz e diz que não era formosa. Foi ela que mais tarde, vinte anos depois da morte de Filipe e em seguida a acidentadas disputas com os seus sucessores, tratou do casamento de Ferrand com Joana de Constantinopla, confiada à sua tutela. Da sua história se ocupa Luciano Cordeiro no livro citado.

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a mão da filha, ao que este só a custo assentira e por inter­venção de Henrique II de Inglaterra (l). Não teremos aqui um paralelo às repetidas provas a que o rei de Portugal, no romance, submete Torrent, só vindo a ceder por interferên­cia do imperador de Roma?



A barquinha maravilhosa em que, no romance, a princesa de Portugal é levada para Palestina, onde se reúne ao herói, não corresponderá, de certo modo, a romântica armada que conduziu D. Matilde, atacada por piratas normandos, em cujo encalço teria ido uma frota enviada ou comandada pelo próprio Filipe? (2).

No casamento contractado, na ausência de Torrent, entre a filha do rei de Portugal e o príncipe de Aragão, e que se está celebrando quando ele regressa, acabando o herói por alcançar que se pronuncie o divórcio - não haverá confusão com a outra Mafalda, também filha do nosso primeiro rei, que aos oito anos casaram com aquele que veiu a ser AfonsoII.

(1) Herc., Hist. de Port., tom. III, pág; 117 ss. (ed. de 1916); D. Ca-rolina Micaelis, ob. cit, vol. II, pág. 701 ss.; Sueyro, Chronica de Flandres, liv. VII; Luc.. Cordeiro, ob. cit.

A peregrinação a Santiago realisou-se em 1172, a expedição à Terra Santa em 1177-78 - isto é, respectivamente doze e seis anos antes do casamento. A primeira mulher de Filipe, Isabel, condessa de Amiens e Vermandois, morreu em 1182; e o trágico episódio, revelador da época, em que ela figurou, deu-se em 1174. Mas Dozy (Recherches sur l'Histoire et Ia Literature de l’Espagne pendat le moyen age, vol II, pág. CIX ss.) prova que a crónica flamenga que regista a segunda hipótese — confrontando-a com a Chron. Lusit., Raul de Diceto, Roberto do Monte Saint Michel e ainda outra crónica de Flandres. — “n’est qu’un tissu d’erreurs”. Parece mesmo que Filipe de Alsácia voltou do Oriente por terra.

Mas em qualquer caso vê-se que a lenda existiu, o que para nós é o importante.

Filipe de Alsácia é filho de Thierry ou Teodórico de Alsácia, conde de Flandres, que provavelmente comandava a frota "que em 1158 ajudou D. Afonso I contra Alcácer. Eram aparentados com a dinastia portuguesa; uma irmã de Filipe esteve casada com Humberto II de Saboia, irmão da mulher de D. Afonso Henriques. (D. Carol. Michaelis, loc. cit.

(2) Mesmo nas versões segundo as quais Filipe da Alsácia vem a Portugal na armada flamenga que leva Matilde, faz viagem para a França separado dela: ou partindo adiante com uma parte dos navios para lhe preparar a receção, ou indo por terra. Dois autores italianos do séc. XVI dão o casamento como realisado no Porto, mas não são dignos de fé; a a este respeito v. a nota seguinte. Parece no entanto que do Porto saiu realmente a frota conduzindo a infanta. (D. Carol. Michaelis, ob. cit., pag. 702, nota 2).

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de Aragão, igualmente ainda criança, e se diz ter morrido anos depois? (l)

Quanto às façanhas do Oriente, a História, é certo, está

(l) Ocorre-nos o que a este respeito escreve Luciano Cordeiro, e não nos consta que fosse apreciado:

"Confessamos de passagem que a tradição de uma outra filha do rei Afonso, e a existência indiscutível da infanta Mafalda, nascida antes de D. Sancho, nos tem suscitado a suspeita duma possível identifi­cação dessa infanta com a própria D. Thereza, que pela primeira vez apa­rece nos documentos no ano seguinte àquele em que inteiramente desapa­rece deles essa D. Mafalda, negociada em casamento, que não se realizou, em 1160, com o futuro Afonso II de Aragão. Explicar-se-ia assim, natural­mente, a regressão mais tarde ao primeiro nome de Mahaut, Mahalda, Mathilde - nome originário da mãe—mais fácil e conforme à eufonia e à tradição francesa e flamenga do que o de Tarasia, Tareija, Theresa. Mas é uma simples hipótese, menos até; uma suspeita passageira, insignifi­cante, realmente. "(Ob. cit, pág. 62).

Nada de positivo julgamos contudo ter-se averiguado sobre a morte desta infanta, devendo talvez Herculano, como se dá com Figanière, ter-se fundado na falta de notícias sobre ela depois de 1164. Figaniére julga todavia que seja desta D. Mafalda, pois que não pôde ser a de sua mãe, uma sepultura do Mosteiro de Vila Boa do Bispo, de que fala Rui Fernan­des na Descrição do Terreno em roda da Cidade de Lamego (Inéditos da Historia de Portugal, T. 5, pág 5o5) "o que se torna tanto mais provável quanto não há notícia alguma acerca da sua morte e enterro,, (Mem. das Rainhas de Port. pág. 234). Mas por outro lado escreve Rui Fernandes: "e asi a sepultura de dona mofalda que digo estar em vila boa do bispo, outros dizem que a ossada está no mosteiro de arouca; dela nom som bem certificado... a não fui ver como estas outras sepulturas.,. A sepultura de Arouca é de uma filha de D. Sancho I, ainda do mesmo nome; e Figanière acres­centa que, por informações que lhe vieram do próprio local, consta que no Mosteiro de Vila Boa do Bispo, hoje propriedade particular, não exis­tem já vestígios do túmulo da referida D. Mafalda. que aliás poderia ter desaparecido como muitos outros monumentos antigos, etc. De tudo isto resulta, afinal, que nada se conclui lambem daqui sobre a morte da infanta. Figanière diz ainda que Bofarull nada encontrou a seu respeito nos arquivos de Aragão.

Também na crónica flamenga impugnada por Dozy, que ainda nào lemos, se vê, segundo este, que Filipe desposou “la fille du Feu roi Alfonse, qui avait perdu son mari et qui avait deux fils; à l’un elle avait donné le royaume, a l’autre le duché d’Algarve”!). Mas quem fora esse marido? Paolo Emilio e Guicciardini, confundindo mãe e filha, casam Filipe com a primeira, que estaria viuva de D. Afonso (o contrário é que se dava, como se sabe: a mulher deste tinha morrido em 1158); segundo Sueyro o engano proviria de usar Matilde também o título de rainha. Nào será, porèm, aquela crónica a sua fonte? É curioso entretanto o paralelismo relativo da versão flamenga com o romance, onde, como vimos, a princesa de Portugal, não viuva, mas divorciada de um rei, na ausência do herói dá à luz dois gémeos, que depois vêem a ser reis de Jerusalém e da Grécia. No romance, contudo, são filhos do próprio Torrent, e para o romance

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longe de exaltar" os de Filipe de Alsácia, (1) mas o notável prestígio do conde de Flandres, cognominado o Grande, em­prestava brilhantes cores para uma lenda. Filipe cerca Harene ou Aretha, Torrent sitia e toma Quarelle e Raynes, (2) a res­peito de ambos se fala em Antioquia; e não devemos esquecer que o poeta teve de ocupar o seu herói durante o tempo necessário para crescerem os filhos.



afinal, podem ter vindo unicamente da lenda de Eustáquio. E Filipe de Alsácia deixou apenas uma filhinha, que morreu cedo (D. Car. Michaelis, loc. cit.).

Mas, nesta confusão do Mafaldas, em tudo isto, não haverá qualquer coisa em favor da "suspeita,, de Luciano Cordeiro?

(1) Chegado Filipe de Alsácia à Terra Santa, recebeu do rei de Je-­
rusalém Balduino IV, cujas enfermidades aumentavam dia a dia, a proposta
de lhe confiar a administração do reino. Recusou a regência, bem como o
comando do exército que estava pronto a marchar para o Egipto, e só con­
sentiu em passar ao principado de Antioquia, onde, com o príncipe Boe-
mundo e o conde Tripoli, sitiou Harene. Mas os príncipes e outros chefes
do exército passavam o tempo a divertir-se, de modo que ao fim de seis
meses o cerco foi levantado vergonhosamente e Filipe de Alsácia voltou para a Flandres, “in nulla re relinquenspost se in benedictione memoriam
segundo Guilherme de Tyro. (Art. de verif. Les Dates, T. XII, pág. 311-12).
Luciano Cordeiro diz no entanto (ob. cit., pág. 17) que "a História con­
signa e a lenda exalça as façanhas e aventuras de Filipe no Oriente,,, etc.
Não sabemos quais fossem as suas fontes. '

Em compensação encontramos na lenda das suas façanhas na Terra Santa um combate singular com um agigantado príncipe turco — excedia el Bárbaro Ia comum estatura — da qual vitória, "segundo alguns, lhe teriam vindo as armas que passou a usar depois da sua volta da Terra Santa; a maioria, porém, atribui-lhes outra origem. (Sueyro, ob. cit, pág. 195).

(2) Raynes é talvez a antiga Ramah (Arimatea), que se diz corres­ponder à actual Ramleh e figura em poemas do ciclo das cruzadas com as formas de Rames e Raimes; Quarell, que é dada como junto de Raynes, aproximamo-la de uma Carel, que aparece no episódio dos Chétifs, ligado ao poema de Godefroid de Buoillon, como sendo uma cidade conquistada pelos cruzados (Langlois, ob. cit.) Porém a cidade perto de Ramah é a an­tiga Lydda, hoje Ludd; ambas se encontram no caminho de Joppé ôu Jaffa para Jerusalém, e ambas foram tomadas, primeiro Lydda e depois Ramah, pelos cruzados que conquistaram a cidade santa : mas dos longos cercos do romance não resa a história. Langlois não faz a identificação de Carel.

Por outro lado Harene, como se sabe, é perlo de Antióquia, e do seu cerco e papel de Filipe no mesmo já vimos, o que nos diz a Historia.

Pela sua descrição, aliás muito breve, os cercos do romance lembram os dois grandes cercos da Terra Santa: quanto ao primeiro Torrent ordena, tomada a cidade ao cabo de dois anos, que sejam passados à espada os seus habitantes - como Ricardo Coração de Leão em Ptolomaida (ante cujos muros morreu da peste Filipe de Alsácia); e no segundo os sitiados sofrem uma grande fome, como no de Damieta em 1218. Mas crueldade para com os vencidos e carência absoluta de víveres são circunstâncias fáceis de ligar a cercos puramente fantasiados.

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Em qualquer caso a lenda em volta do casamento existiu, e isso nos interessa. A própria magnificência dos presentes enviados por D. Afonso Henriques — segundo Sueyro lem­brando-se do auxílio que lhe tinham dado os flamengos (1) na tomada do Lisboa – o faz realçar nos cronistas coetanios.

Sabe-se, por outro lado, como norte e o nordeste da França foram nesta época um foco de composição de roman­ces; sobre a Flandres fala-nos especialmente o consagrado professor Dr. Teófilo Braga nos seguintes termos: "Toda esta actividade de elaboração poética, que se expande no meado do século XII, está ligada à vida das cortes e à extraordinária época da segunda cruzada; os poetas foram sugestionados por narrativas em prosa que metrificaram entremeando-as com as fábulas orientais trazidas para a Europa — Dá-se este sincre-tismo... e em Flandres, na corte de Filipe de AIsácia, o apai­xonado da Puella de Portugal, D. Thereza-Mafalda, filha do rei D. Afonso Henriques (2)„. Sabe-se aliás quão corrente-mente encontramos citado o nome de Filipe de AIsácia como patrocinante de troveiros, ligado ao do próprio Chrestien de Troies. Nada mais natural portanto do que a composição de um romance, ou a remodelação de algum anterior, aludindo ao enlace tão faustosamente celebrado, e glorificando ao mes­mo tempo as façanhas de Filipe na Terra Santa (3).

Pelo contrário na vida de Fernando é que, parece-nos, só forçadamente se poderão encontrar episódios comparáveis aos do romance - principiando em não ser filho de um erell (earl), mas do próprio rei. Mesmo o seu cativeiro, na Torre do Louvre e prolongando-se por doze anos, está longe do cativeiro de Torrent, que é em Jerusalém e dura pouco mais de um ano. Ferrant teria pois entrado no romance mais tardiamente, por influência de nele aparecer o nome de Por­tugal—a não ser que, figurando nós todas as possibili­dades, fosse pelo contrário a atribuição das aventuras a Fernando que para ela tivesse levado o nosso país, e do

(1) Da armada de cruzados faziam efectivamente parte flamengos, sob o comando de Cristiano de Gistell, e não de Teodorico de AIsácia, como foi tambem de errada tradição (Herc., Hist. de Port., vol. III, pág. 67). (2)Tristão o Enamorado, pág. 29-30.

(3) Também o autor do Wilhem von Wenden, um dos poemas para­lelos ao Torrent, o adaptou provavelmente, segundo-Knust, "a los sucessos tan vários de la juventud de Wendel II de Bohemia, tal vez en recuerdo de que este rey no solamente favoreció à los poetas,,, etc. (ob. cit., pág. 97).

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mesmo passo confundido a sua vida com a de Filipe da Alsácia. A sua entrada com João Sem Terra na coalisão con­tra Filipe Augusto fornece, para não deixarmos de o consi­derar, uma via possível para o nome se ter deparado ao autor intermediário, se já na Inglaterra se substituiu ao herói primitivo; e em qualquer caso não deixa o facto, como já acentuamos, de ser significativo quanto à sua fama guerreira e cavalheiresca, e portanto interessante para nós portugueses. E Perrown à beira-mar ? Confessamos agora que já nos tinha sido dado resolver a dificuldade. Perrown-Péronne foi uma ponte que nos levou ao Artois e à Flandres, mas de que já não precisamos: poderemos portanto derrubá-la, substituindo-lhe outra noção também concordante com a nossa hipótese. Na excelente Table dês noms propres con-tenus dans lês chansons de geste, que se deve a Langlois, se pode ver com efeito o nome de Perron designando El Padron, (l) a cerca de trinta quilómetros de Santiago de Compostela, lugar aonde, conforme a lenda, veiu dar o navio que conduziu da Terra Santa o corpo do apóstolo, e pôrto de relativa importância na Idade-Média — um daqueles em que desembarcavam os peregrinos que vinham por mar ao célebre santuário, a Mécca do Ocidente. Portanto o poeta, querendo colocar em Portugal a acção principal do romance, e sabendo apenas acerca da nossa terra que era perto da Ga­liza, atribui-lhe o Perrown on the see syd de que tinha conhe­ci mento.

(1) Segundo a lenda, degolado o apostolo por ordem do rei Herodes Agrippa, para ser agradável aos judeus, e lançados os seus restos às feras, foram estes contudo recolhidos por alguns discípulos e levados a furto para Jafa, onde os esperava um navio maravilhoso que, manu Domini gubernante (Hist. Compost), em sete dias chegou a Iria Flavia, na Galiza — pois que Santiago teria evangelizado em Espanha. Aí, onde era o porto interior, e no sítio em que desembarcaram o corpo, encontra-se erguida a igreja de Santiago del Padron—assim chamada, também segundo a lenda, de uma pedra ou "padrão,, com uma inscrição meio apagada, encontrada no lugar, e a que teria estado amarrada a barca onde vinha o santo corpo. De onde também o nome que a vila já tinha ao tempo das pe­regrinações medievais a Compostela.

Quanto a ser posto de desembarque de peregrinos diz-nos D. António López Ferreiro, na sua vasta Historia de la Santa A. M. Iglezia de Santiago de Compostela (vol. V, pág. 93): "Los que habían preferido hacer el viaje por mar, como sucedia en la Alemania del Norte, en Dinamarca, en los Países Bajos, en Flandes y en Inglaterra, venían a desembarcar principalmente en la Coruña, en Noya y en Padron, si no lo habían hecho antes en Sonlac, à la desembocadura del Garona, en Francia”.

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Resta-nos verificar se o romance, na sua generalidade, se conforma com a hipótese que apresentamos. Deixando para outro artigo uma sua análise mais minuciosa, diremos por agora apenas algumas palavras acerca dos "reinos,, nele men­cionados.

1.° Gales. É sem dúvida aqui a Galiza, bem conhecida na Europa de então por virtude das peregrinações a Compos-lela. Quando Torrent liberta a um tempo a princesa de Gales e o príncipe de Provyns, ao rei da Provença são enviados de Portugal mensageiros anunciando a boa nova, e para Portu­gal embarca ao recebê-la, ao passo que nada disto se diz quanto à princesa libertada.

Não há no romance nenhuma outra determinação acerca do reino de Gales. Nas chansons de geste a forma mais se­melhante que aparece, é Galis. (l) É curioso notar que a grafia primitiva do manuscrito, das três vezes que a palavra ocorre, na segunda era Calles e na terceira cales, em ambos os casos emendada a tinta mais pálida para Gales (notas de Adam).

2.° Aragão e Pervens. De regresso de uma das suas fa­çanhas, Torrent sabe que a princesa de Portugal vai casar

1103. With an uncouth Ray (2) .

o qual é o príncipe de Aragão. Já vimos o que diz respeito a este contrariado e desfeito casamento da princesa; nenhuma outra determinação há também no romance relativamente a este reino. É total a omissão de outros reinos peninsulares; Torrent vai de Portugal à Provença by a Redy wey, sem se falar em lugares intermediários.

(') As formas colhidas por Langlois são: Galice, Galyce, Galis Galise , Galisce, Galisse:

(2) É decerto curiosa esta forma. Pelo que diz respeito ao costume peninsular primitivo de usarem os infantes o título de rei, lê-se contudo na Hist. Genea. (Provas, T. I. pág. 75): "Alguns historiadores flamengos, que não sabiam o motivo de se chamar rainha esta sua condessa, o atribuirão a vaidade ambiciosa de elevação desta princesa”.

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Quanto à Provença, vemos registada no romance a fama das suas festas dos seus trovadores:



9- . Menstrelles was them a-monge

Trompettes, harpys, and my songe.

É também curioso encontrarmos ligados no poema, pela nossa hipótese, Portugal, a Galiza, o Aragão e a Provença com o foco do lirismo trovadoresco da Franca do norte na "segunda metade do séc. XII e no séc. XIII, segundo Gaston Paris consti­tuído pela Champagne, a Picardia, a Flandres e o Artois (1).

O "reino,, da Provença, de que aliás ainda vemos co­roar-se rei o imperador Frederico Barbarruiva em 1178, ao passo que confirmava os direitos de AfonsoII de Aragão ao condado, ocupa no romance, ao lado de Portugal, o maior papel, uma vez estabelecidas as relações amicais com- Torrent pela libertação por este do seu príncipe (2).

3.° Calabur e Hungry. A este respeito as determina­ções do poema são as seguintes: o herói, que já vimos chegar de Portugal à Provença como que de um salto, diri­ge-se à Calábria por um caminho à beira-mar

948, And toke a Redy weyye Be a see syd as yt laye

e chegando lá, a cavalo


  1. With in to days ore III

encontra tôda a população a fugir do gigante, sendo-lhe

(1) Gaston Paris, La litérature française au moyen age, pág. 182,1833.

(2) Encontramos na História o filho de um conde da Provença, simultaneamente rei da Sicília, feito prisioneiro: o filho de Carlos l, caído às mãos do célebre almirante aragonês Roger de Laria numa batalha naval ao largo de Nápoles. Em favor de Carlos I, seu tio, e de Carlos II (que esteve preso durante cinco anos e foi solto por composição com o rei de Aragão) vemos curiosamente combatendo na Calábria — que também figura no Torrent—.um personagem do Artois, o conde Roberto II.

Dentro da época que, grosso modo, podemos atribuir à versão primi­tiva do romance, também um conde da Provença, Afonso II, é feito prisio­neiro à traição, em 1205, pelo conde de Forcalquier e encerrado em um cas­telo, de onde o foi libertar seu irmão D. Pedro II de Aragão. (Zurita, Chro-nica de Aragão, liv. II, cap. 51 ; Hénault, Abregé de l’Histoire d’Espagne et de Portugal, pág. 298).

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todavia dito que este se encontra... na Hungria (1). Parece pois que o poeta apenas "de nome,, conhecia estas duas regiões, ou pelo menos a última, que nem é dada como reino, senão como cidade




  1. We wot will wher lie doth ly :

Be-fore the cyte of Hungry

qual a vimos já no romanceiro castelhano e cremos também ocorre no português. Ademais tanto a Hungria como a Ca­lábria já nas canções de gesta figuravam, e em romances ingleses, como no Squire of Low Degree e no Ypomydon.

Com respeito a ser dado como à beira-mar o caminho que Torrent tomou da Provença para a Calábria, lemos em Bédier (Les légendes épiques, vol. II, pág. 149): Lês voya-geurs (dirigindo-se à Itália) qui venaient dês parties méridio-nales, s'lis suivaient Ia rive de mer (Menton et Ventimille), etc. Da Provença portanto partia-se para a Itália, como para a Hungria, por este caminho — o que pode porventura ter mais significação para o romance.

Norway. Será certamente difícil estabelecer se algu­ma coisa de particular chamou a atenção do autor do Torrent para este país, onde o herói tem igualmente aventuras com dragões e um gigante. Uma irmã de Fernando, Berengária, (2)

(1) Não podendo cxtractar largamente do romance, devemos dizer que não ha menor indicação de que tenham influído na efabulação deste episódio as guerras de Luís I da Hungria no reino de Nápoles no meado do sec. XIV; o mesmo se tem de dizer quanto às diversas relações dinásti­cas entre a Hungria e os soberanos angevinos de Nápoles, como entre aquela, o Aragào e a Sicília — qual o casamento de Constança, viuva de Emerico ou Henrique da Hungria, com Frederico, rei da Sicília, depois imperador, celebrado em 1209 em Palermo, aonde a acompanhou desde Barcelona seu irmão Afonso II da Provença "com grandes companias de ricos hombres y Cavalleros Aragoneses, Catalanes e del condado de Proensa,,, diz Zurita. Na época de Filipe de Alsácia encontramos o rei da Hungria Bela III desposando em 1185 Margarida, irmã de Filipe Augusto, o que poderia talvez ter sugerido a Hungria.

(2) Por igual forma a mulher de D. Sancho l, D. Dulce, era filha de Raimundo Beranguer IV, conde de Barcelona, tutor do seu homónimo, II de nome, da Provença e portanto regente desta, e rei do Aragão pelo seu casamento com D. Petronilha, filha de Ramiro II; e no Aragão vamos en­contrar D. Pedro, irmão de Ferrand, no tempo do rei D. Jaime I. Nada porém nos indica que qualquer destes factos podesse influir na escolha dos reinos ou regiões que figuram no romance, e ainda menos temos que falar com outras alianças dinásticas entre Portugal e Aragão.

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casou, como se sabe, em 1214 com o rei de um país se­tentrional, mas não da Noruega: com Valdemar II da Dinamarca; e mais tarde urna sobrinha, Leonor, com o filho dele, outro Valdemar, em 1229. A duração da via­gem por mar desde Portugal é fixada within the ffyfty dayes (1411).



5.° Jerusalém, Nazareth, Grece. Se houvéssemos que procurar equivalência para o segundo, seria talvez o princi­pado de Galiléa; quanto ao terceiro, poderia representar um conhecimento vago e confuso dos estados feudais latinos estabelecidos na Grécia, ou talvez o império, grego do Oriente — ou serão fantasia pura. É completa a ausência de referências a Constantinopla, e Jerusalém é dada como ainda cm poder dos cristãos. A guerra entre Torrent, que está em Àntioquia, e o rei de Jerusalém, é um eco das lutas entre os senhores cristãos da Palestina; e todas estas circunstân­cias de um modo geral delimitam uma época que decerto condia com a nossa hipótese.

Vê-se portanto desta breve análise que, quanto aos "rei­nos, meridionais mencionados no romance, para ele parecem ter sido chamados pela colocação no nosso país do seu tea­tro principal, sob a noção de serem regiões de certo modo todas para o mesmo lado, talvez porque para todas se par­tia pelo mesmo caminho: por exemplo o que, descendo o vale do Ródano, passava por St. Gilles e Montpellier, em Narbonne entroncava com a via Domiciana, que levava à Catalunha, depois seguia a Tolosa, atravessava os Pirineus na portela de Aspe e, descendo junto ao rio Aragào, ia constituir na península o caminho francês para Santiago (l). Devemos no entanto acrescentar que, de um certo número de impressões embora bastante vagas — nem o romance nos oferece outras —mas somando-se, parece esboçar-se, ao menos como arrimo da efabulação, qualquer coisa de re-lativo à Provença quando nela começou a exercer-se o domínio aragonês, isto é, ao tempo de Filipe e de Fer­nando; já no texto e em notas alguma, coisa deixamos regis-

(1) Bédier, ob. cit., vol. I, 368 e 430; D. António Ferreiro, .ib. cit., vol. V, pag. 91.

Também da Catalunha se ia para a Galiza por uma via romana, pas­sando por Lerida.

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tado. Mas tudo se harmoniza, afinal, com a nossa hipótese, que também não é contrariada pelo que diz respeito ao Oriente.



Para fechar apontaremos algumas possíveis aproxima­ções quanto a nomes próprios:

Brasill. Floresta na costa da Noruega: a desaparecida ilha de Braçir, Braxil, Brazille ou Brasile, cuja existência os geógrafos da Idade-Médía supunham no Atlântico, figu­rando em várias cartas, por ex. no portulano Mediceu; va-riadamente colocada: ao largo da Inglaterra, na latitude do Land's End, nos Açores, e também na baía de Galway, na costa ocidental da Irlanda. Dizia-se que no seu interior se encontrava um bosque misterioso.

Calamond. Nome do rei de Portugal: no romance pa­ralelo alemão — que apenas conhecemos pela súmula do Knust — Die guie Frau, o nome do herói é Karleman.

Cardon. Castelo de um gigante (na Calábria): Cardona, na Catalunha, onde há um célebre castelo de origem romana, e sucessivamente remodelado.

Cargon. Cidade de Aragão: Carrion (Carryon) de los Condes. A forma como entrou no romance — se por se en­contrar no caminho francês (l) ,ou acaso por via do mosteiro de S. Zoylo e S. Felix de Carrion (2); o motivo porque Cargon, se é realmente Carrion de los Condes, é colocado, no Aragão; e ainda toda a passagem em que este nome ocorre, são pontos que nos parecem merecedores de estudo, a que tentaremos proceder.

Gendres. Princesa da Noruega: será corrupção de Ger-sende —nome que tinha, por exemplo, a mulher de AfonsoII da Provença?

(1) Entre as estações de Fromista e Sahagun. D. António Ferreiro, ob. cit., vol. V, pág. 91.



(2) No. século XII foi trazida por D. Maurício, arcebispo de Coimbra, a cabeça do apóstolo Santiago Menor, de Jerusalém para S. Zoylo de Car­rion, então de posse do rei de Aragão; depois D. Urraca mandou que se conduzisse esta relíquia para uma igreja de Lião, de onde o bispo Gelm ires a trouxe para Compostela. É possível a confusão entre os dois santos ho­mónimos (qual o vemos em Migne, Diccionaire dês Pélerinages, em con­tradição com o seu Diccionaire Hagiographiqiie); se esta fosse a via por que Carrion entrou no romance explicar-se-ia talvez por este modo falta de menção de reinos e outros pontos intermediários entre o Aragão e Portugal.

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Torrayne: a Turena. No romance o rei de Portugal 26. To-warde hym he takythe Torrayne

Na época que podemos atribuir à gestação do romance ocorreu a conquista da Turena por Filipe Augusto.



Weraunt. Nome de um gigante: na canção de gesta de Aliscans encontra-se Urgant, nome de um gigante negro sarraceno.

Finalmente não deixaremos de notar quão curioso é registar-se exclusivamente nos Açores, em S. Jorge, de colo-, nização flamenga (1), um romance popular onde um rei aban­dona a filha ao mar em uma nau sem governo, por ela amar "um capitão,,. O sr. Dr. Teofilo Braga não lhe aponta para­lelo algum nos romanceiros peninsulares. Não resistimos a transcrevê-lo na parte coincidente com o Torrent:

Eu era filha de um rei

Chamada Dona Maria

Amava a um capitão

Pelo bem que ele me queria.

O meu pai tanto que o soube Dava-me muito má vida:

Só me dava o pão por onça

E a agua por medida.

Mandou botar um pregão

Por toda a cidade acima:

Calafates, carpinteiros

Se ajuntassem nesse dia
Para fazer uma nau
Para ir Dona Maria.
Calafates eram muitos
Deram-na feita num dia.
Meteram-lhe mantimentos
Para sete anos e um dia.
Meteram-na nesses mares

Sem velas nem remaria;

Dona Maria foi nela,

Só, sem a mais companhia.

(1) Especialmente a respeito de S. Jorge lê-se, por ex., nas Saudades da Terra, de Gaspar Fructuoso (apud Ant. Cordeiro, Hist. Insulana, pág. 426. "O mais antigo povoador que se sabe da ilha de S. Jorge foy um fidalgo flamengo, muito rico, natural da cidade de Bruges... trou-xerão da Flandres dous navios carregados de gente e de muitos oficiais de ofícios diversos... desembarcarão em a ilha de S. Jorge,,.

A esta colonização liga-se o nome de outra nossa princesa, Isabel, filha de D. João I, mulher de Filipe o Bom, duque de Borgonha e também conde da Flandres.

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No Torrent a princesa de Portugal invoca o auxílio


divino: '

1832. On Jesu Cryste dyd she cal!;

Down Knelid that lady clene : "Rightfull god, ye me sende

Some good lond, on to lende,

That my chyldren may crystonyd bene !„

No nosso romance, Dona Maria voltando na mesma nau, conta ao pai como passou o mar:

"Os mares me cataram honra E os ventos cortezia, E os anjos iam de noite Para minha companhia, Iam com uma hora de sol, E vinham com outra de dia, E a virgem me chamava Sua donzela Maria.,,

Será um abreviamento, deformado, do romance de Emare ?

Prosseguiremos.no estudo do Torrent, em especial sob o ponto de vista português; mas podemos desde já resumir o que, ao menos como probabilidades, conseguimos inferir da sua análise, do seguinte modo:

l.º A alusão fundamental do romance é a Filipe de Alsácia e ao seu casamento com Matilde de Portugal.

2.° Ferrand de Portingal. parece ter ao poema dado
apenas o seu nome.

3.° Quem colocou a acção em Portugal não conhecia o nosso país; tinha talvez' vindo a Santiago, provavelmente por mar (1), ou à lenda do santo, foi buscar Perron (2), e sabia que Portugal é contíguo à Galiza.

. (1) É verdade que ainda se diz:

Quem vay a Santiago e non vay a Padron Ou fay romaria ou non

Mas a nossa hipótese conjuga outros elementos.

(2) A ligarmos alguma importância a um caminho à beira-mar,,

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4.° Conhecia talvez directamente a Provença, o caminho por onde se partia para o Aragão e a Galiza, e também o da Provença para a Itália — mas provavelmente só lhes conhecia o princípio.



Mais particularmente tentaremos um estudo comparativo com os romances paralelos (1) e outros que com o Torrent podem relacionar-se, e bem assim com as suas possíveis fontes, sendo para lamentar que as nossas bibliotecas sejam tão falhas dos elementos indispensáveis para estes trabalhos, c que não chegasse ainda o tempo em que os nossos ma­gnates da riqueza se resolvam, como no estrangeiro, a do­tá-las generosamente, bem como as escolas.

Luís cardim.



que no romance figura em Portugal, poderia este talvez ser o correspon­dente à estrada romana per loca marítima do itenerário de Antonino, que passava em Iria (D. António Ferreiro, ob. cit., vol. l, pág 222); c a movn-teyn of Perrown, que também ocorre no poema, não poderá ser o próprio monte Ilicínio, onde os discípulos do santo o sepultaram? Também um passeio de Torrent com o rei de Portugal pela margem de um rio (469, 476) condiria com a hipótese.

(1) Em especial falta-nos ler o de Sir Eglamour, há meses encomen­dado mas, pela considerável demora a que estão actualmente sujeitos os livros pedidos do estrangeiro, ainda não recebido.


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