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Sumário Introdução


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E.B.J – Escola Bíblica Jovem

É proibido

O que a Bíblia permite e a igreja proíbe

Ricardo Gondim

EDITORA MUNDO CRISTÃO

São Paulo

Ao pastor Manoel Gonzaga dos Santos Só agora entendo como ele foi corajoso quando optou andar comigo.



Sumário


Introdução

Primeira Parte

OS USOS E COSTUMES NAS DIVERSAS CULTURAS

1. A cultura, a Bíblia e os usos e costumes

2. Os usos e costumes na cultura judaica

3. O que a Bíblia diz sobre moda, jóias e adornos

4. O que é e o que não é vaidade?

5. Casos aparentemente difíceis

Segunda Parte

NÃO VER, NÃO OUVIR, NÃO FAZER — CAMINHO PARA A SANTIDADE?

6. Cinema: arte ou degeneração?

7. Você ouve música não-evangélica?

8. Uma teologia do esporte e lazer

Terceira Parte

QUEST'ES HUMANAS OU PRINCÍPIOS DIVINOS?

9. A maravilhosa graça de Deus

10. Buscando a santificação

Introdução



Abrindo o debate

Para Jeílson, pastor de uma igreja muito ativa e crescente, o dia começou como tantos outros. Ao acordar pela manhã, ajoelhou-se ao pé da cama e orou. Logo à mesa do café, começaram as muitas preocupações: notícias da congregação que rejeitava o novo obreiro; problemas com o pedreiro na construção do templo; finanças apertadas. No pequeno alpendre da casa pastoral, mais de uma dezena de irmãos já aguardava aconselhamento. As necessidades eram as mais diversas: ajuda para internar o filho doente; a nova convertida, proibida de participar dos cultos, queria saber como contornar a antipatia do marido; um ancião precisava resolver a situação da aposentadoria... Jeílson enfrentava com certa naturalidade aquele amontoado de dificuldades; seu dia-a-dia já era assim há anos. Ele só não se preparara para a notícia que receberia ainda naquelas primeiras horas do dia. "Miriam, sua filha mais velha", relatou-lhe sua esposa, "cortou o cabelo".

Tudo, menos aquilo. Aturdido, sem acreditar no que lhe acontecera, Jeílson abandonou seus compromissos, deixou todos os irmãos esperando no alpendre e correu enfurecido pelo corredor até chegar ao quarto que ficava nos fundos da estreita casa pastoral. Miriam - constatou ele - aparara de fato as pontas do cabelo. Desde a infância de sua filha, Jeílson jamais permitira que uma tesoura tocasse nas mechas castanhas que agora, aos 18 anos de Miriam, já alcançavam a cintura. Totalmente descontrolado, Jeílson perguntou rispidamente, mas sem esperar resposta: "O que você quer comigo? Está querendo envergonhar-me, acabar com o meu ministério?".

Movido por uma ira descomedida, desafivelou o cinto, dobrou em duas voltas e bateu em Miriam até que os vergões se desenhassem em suas costas e pernas. Envolvido pela mesma ira com que a surrava, desabafou: "Não vou tolerar uma desviada dentro da minha casa. Enquanto você morar aqui, não vou admitir que corte seu cabelo novamente, você está me ouvindo?". Ainda Ruborizado e com o coração acelerado, voltou ao alpendre para tratar dos seus assuntos ministeriais.

Duas horas depois, recebeu a notícia mais devastadora de sua vida: Miriam havia derramado álcool sobre todo o corpo e ateado fogo. Jeílson correu mais uma vez, agora desesperado, e encontrou no mesmo quarto sua filha agonizando com queimaduras profundas. Naquele mesmo dia, à tarde, Miriam morreu no ambulatório de um hospital.

Embora os nomes e alguns detalhes da história acima sejam fictícios, ela é verdadeira. Aconteceu em alguma cidade do Brasil. Pior, ela se repete, claro que sem os mesmos extremos, quase todos os dias em alguma família evangélica brasileira. Retrata exatamente a severidade com que algumas denominações brasileiras encaram o problema dos usos e costumes.

Sei de muitas jovens que hoje vivem longe de suas igrejas e totalmente indiferentes à mensagem do evangelho porque sofreram exclusões e disciplinas públicas quando foram vistas usando calças compridas, um colar ou até mesmo brincos. Muitas vezes um jogo de futebol entre crianças ou soltar pipas ocasionam 45 minutos de repreensão do pastor. Em determinadas igrejas, raramente o sermão expõe a Bíblia, pois quase sempre começa com um versículo e acaba tratando do que pode e do que não pode. Alguns ficariam estarrecidos com o número de pessoas que sai pela porta dos fundos de suas igrejas, rejeitando e odiando o cristianismo, devido a esse rigor legalista sobre usos e costumes.

Nossa igreja realiza, pelas ruas de São Paulo, um trabalho de assistência a mendigos, prostitutas e viciados. Chocam-nos encontrar inúmeros desviados que cresceram nas igrejas, mas, por não suportarem o fardo do legalismo, acabaram nas sarjetas das grandes cidades. Filhos e filhas de pastores estão entre alguns dos que perambulam pelas ruas do Brasil. Vítimas do legalismo religioso, cometem uma espécie de suicídio gradativo. Envolvidos em drogas, crime e prostituição, estão em pleno processo autodestrutivo.

Esse jugo pesado, quando não aliena, gera também uma outra excrescência: a hipocrisia. Existem muitos que se acomodam ao sistema religioso e mostram-se coerentes com as exigências do pastor somente quando estão na igreja. Longe da fiscalização religiosa, porém, vivem noutra realidade. Esse largo contingente de evangélicos conseguiu desenvolver uma duplicidade comportamental. Na esfera privada agem e convivem com mais liberdade, brincam e riem, vestem-se de acordo com as últimas novidades da moda. Mas, quando vão à igreja, passam por uma metamorfose impressionante. Assumem um ar mais grave. Agem dentro do ambiente religioso de acordo com os códigos impostos pela liderança, mas com revolta. A cada palavra dita no púlpito, haverá sempre um árduo exercício de decodificação. Como defesa, desprezam os sermões legalistas que ouvem. O jugo apregoado não lhes diz respeito. Vivem uma espécie de hipocrisia involuntária, que os agride.

Quase que invariavelmente a conversa durante qualquer refeição entre amigos pertencentes a essas igrejas gira ao redor de usos e costumes. As críticas ao sermão do pastor são sempre ácidas. O rigoroso discurso de alguns líderes hoje, mal sabem eles, faz parte do cardápio dos encontros entre os membros de suas igrejas. Esses líderes morreriam de vergonha se soubessem o que se comenta sobre eles, e em que situações eles são vistos nessas conversas: como ridículos.

Porém, devemos reconhecer com tristeza, que algumas igrejas chegam a alterar o rigor de suas exigências de acordo com o nível social dos seus membros. Quanto mais rico o rebanho, menos policiamento; quanto mais pobre, maior a disciplina. A condição social define claramente quão rigorosos são alguns pastores quando cobram "santidade" nos trajes de seus membros ou definem se é ou não permitido assistir à televisão.

Denominações já experimentaram até cismas por causa de usos e costumes. Aquelas que se auto-intitulam "Igrejas da Restauração" geralmente reagem contra o que consideram libertinagem em suas congregações. Com um conservadorismo sufocante, tentam restaurar os "costumes dos nossos pais"; brigam com aqueles a quem chamam de liberais, acusando-os de jogar a igreja no esgoto do mundanismo. Entre eles, as mulheres que fazem uso de qualquer tipo de maquilagem recebem a pecha de "Jezabel"; os que assistem à televisão são tachados de "aliados do diabo"; os jovens que escutam qualquer tipo de música que não seja "evangélica" são vistos como desviados.

Algumas igrejas históricas principiaram trabalhos de evangelização no país, atribuindo seu crescimento numérico à unção do Espírito Santo. Sempre creram ser ele o responsável pelo poder que as capacitaria para cumprir a missão de propagar o evangelho. A revista Obreiro, destinada aos obreiros em geral das Assembléias de Deus (abril/maio de 1996), registra dados sobre esta que talvez seja a maior denominação evangélica do Brasil. Durante a "Década da Colheita" (estratégia de evangelização denominacional para a década de noventa), levantaram-se dados sobre o vertiginoso crescimento desse segmento evangélico em seus oitenta e cinco anos de fundação:

12 milhões de membros;


9 mil igrejas-sede;
12 mil pastores;
100 mil templos;
milhares de crentes congregados.

Há, lamentavelmente, alguns que atrelam o crescimento de suas igrejas ao rigor nos usos e costumes. Eles saudosamente acreditam que sua denominação cresceu porque era rigorosa nesse item, e não como resultado de uma exuberante atuação do Espírito que capacitava e ungia os crentes para o mandato evangelístico. Esse grupo não só atrasa o processo de atualização cultural da denominação, como é responsável pela estagnação numérica da igreja. Para cada 10 convertidos, quantos saem sem suportar o pesado jugo do legalismo?

Essa falta de sintonia de algumas igrejas com as mudanças sociais e culturais entristecem. Pior, suas conseqüências vêm-se revelando desastrosas para as denominações. Segundo algumas pesquisas, o crescimento em muitas igrejas está sendo vegetativo, ou seja, na mesma faixa dos dois por cento de crescimento anual da população brasileira. Os dados demonstram que há uma sangria de membros alarmante; cerca de 10 a 20% dos membros vão para outras igrejas evangélicas.

Infelizmente essa parcela legalista, responsável pelo descompasso cultural da denominação, não pára de crescer. Espelhando-se no exemplo de outras igrejas que também se estagnaram, ela retarda o crescimento da denominação com um legalismo destruidor. Advoga um recrudescimento nas normas da denominação e quer que esta volte aos costumes dos anos cinqüenta, quando as mulheres, segundo eles, trajavamse com roupas mais modestas e meias grossas, e os homens usavam chapéus. Esquecem-se de que um dos pais da igreja, Cipriano de Cartago, exortava seus contemporâneos no primeiro século: "Uma antiga tradição pode ser simplesmente um antigo erro".

O sociólogo Ricardo Mariano, na sua dissertação de mestrado sobre as mudanças que ocorrem em denominações brasileiras, responsabiliza essa estreiteza quanto a usos e costumes por inúmeras anomalias comportamentais entre os jovens educados sob esse rigor legalista:

A aplicação prática dos tradicionais costumes e hábitos de santidade gera conflitos domésticos, sobretudo na relação pais e filhos. Acuados por imposições, privados de usufruir de prazeres ou entretenimentos mundanos elementares, como assistir à TV, a criança e o adolescente tendem a rebelarse contra a tirania paterna. Não raro, a reação ou insubordinação das crianças e sobretudo dos adolescentes desencadeia sérias contendas familiares. Depois de frustradas tentativas de persuasão quando finalmente se vêem impotentes diante da rebelião filial arremetida contra sua autoridade, que por ser bíblica não pode ser contestada, muitos pais lançam mão da violência. A relação vertical entre pais e filhos descamba para atos de privação, cárcere, agressão física, maus tratos, podendo, até mesmo, provocar o abandono do lar. 1

Em alguns casos, o zelo pela defesa de usos e costumes chega sim às raias do fanatismo. O Globo, em 2 de abril de 1992, e O Jornal da Bahia, em 3 de abril de 1992, relataram uma pesquisa feita pela ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência) do Rio de Janeiro. Constatouse que 33% dos casos registrados de agressão física contra menores ocorreram em razão do "fanatismo religioso". O sociólogo Ricardo Mariano escreveu para a ABRAPIA e recebeu de uma funcionária evangélica uma resposta preocupante:

O tema em questão — 'violência contra criança por motivos e com justificativas bíblico-religiosas' — é sumamente complexo... Na maioria das vezes, a violência começa com a privação da criança e sobretudo do adolescente à vida social. A privação de participar em festinhas, ir ao cinema, ver TV, sair com os amigos, acaba numa relação pais-filhos/filhas muito conflitiva. A justificativa dos pais, nestes casos, é proteger a criança das perversidades do mundo e preservá-las para Deus. Para isto, vale até surrá-las, trancá-las, tirá-las da escola, etc. Quando se trata de uma criança normal, todas estas regras rígidas são desobedecidas, o que provoca a ira santa dos pais ou responsáveis. A partir daí, para tirar o demônio do corpo da criança vale tudo. Muitas vezes, a criança foge e vai somar-se a muitos "meninos de rua". Outras vezes, o controle permanente dos pais mantém os filhos em regime de escravidão e tortura. As explicações religiosas são repetidas como argumento para tais atitudes. O mais grave ao nosso entender é que a religião tem reforçado o poder dos pais sobre os filhos, construindo uma relação desigual, de dominação do mais forte sobre o mais fraco. Nesta relação, a mãe, por ser mulher, está também em desobediência ao 'cabeça da família', o homem. 2

A própria expressão "vaidade no vestuário" já está carregada de valores espirituais e éticos em muitas igrejas. Em certas denominações, as questões sobre o aspecto da mulher e sua indumentária (desde o tamanho do cabelo à dúvida relativa ao uso das calças compridas) ou sobre o uso de barba por parte dos homens ainda são tão explosivas, que não há sequer espaço para um diálogo maduro e isento de preconceitos entre elas.

Nesta introdução, peço a compreensão dos segmentos evangélicos que consideram de menor importância essa discussão. Quem julga ser desnecessário o debate sobre a problemática abordada por este livro desconhece quão sufocante é a vida cristã em determinados redutos evangélico-brasileiros. O número de pessoas desviadas ou vivendo um cristianismo mascarado demonstra, todavia, que o assunto precisa urgentemente de uma resposta bíblica.

Reconheço que, diante dos temas levantados ainda nos primeiros séculos, tanto pelos apóstolos como pelos pais da igreja, discutir roupas e televisão é meio ridículo. Concordo em que a questão da deidade e nascimento virginal de Cristo, assim como a do cânone das Escrituras foram vitais para a própria sobrevivência da igreja. Não defendê-las significaria tergiversar e cair na pode não alterar a dimensão mais substancial da fé, certamente pode libertar muita gente da culpa e do fardo pesadíssimo que dele advêm.

Há minúcias consideradas de menor importância teológica, isto é, não essenciais ao pleno desenvolvimento do cristianismo; são as formas de culto (quais hinos devem ser cantados na liturgia), a arquitetura de templos, as formas de governo, o número de vezes em que se celebra a Santa Ceia, etc. Estas e tantas outras doutrinas periféricas podem, entretanto, sinalizar o grau de compreensão que se tem das doutrinas fundamentais, tais como a da regeneração, a da expiação e a da graça. Nosso interesse em tratar de usos e costumes na igreja não significa que desejemos assumir uma postura eticamente liberal e antinomista (sem qualquer referencial ético); pretendemos, tãosomente, reavivar a Teologia da Graça.

Quando Lutero pregou suas noventa e cinco teses na Catedral de Wittemburgo, ele não almejava simplesmente acabar com um sistema iníquo de levantamento de fundos da Igreja da época. Queria, mais do que isso, restabelecer a pregação de que o justo não mais vive por obras da lei, mas pela graça.

Preocupa-me imaginar a possibilidade de que muitos crentes hodiernos não tenham alicerçado sua fé na graça de Deus; infelizmente, ainda dependem de suas boas obras como garantia de salvação. Têm sido acrescentadas fórmulas e exigências comportamentais à mensagem da salvação, tornando o sacrifício de Cristo ineficaz. Indago-me freqüentemente se muitos crentes não se estribam nas doutrinas e proibições de suas igrejas como um meio de alcançarem a salvação.

No Brasil, devido ao largo preconceito sobre o tema e por falta de literatura que discorra biblicamente sobre usos e costumes, alguns evangélicos continuam com dúvidas sobre seu Comportamento. Em muitas das minhas viagens por este país, ouço homens e mulheres questionando: "Como distinguir a doutrina bíblica dos costumes provenientes das tradições humanas?" Inquietos, querem saber se podem jogar futebol, usar uma jóia ou até mesmo ouvir uma música no rádio sem entristecer o Espírito Santo.

Ao dizer a algumas pessoas que intentava escrever sobre este assunto, ouvi comentários positivos e negativos. Estou certo de que para as mulheres, especialmente, a leitura deste livro mostrar-se-á libertadora. Como as lideranças evangélicas são masculinas, a maioria das proibições visa às mulheres. Revoltadas, mas sem poder para contestar, elas sofrem humilhações públicas. Nos púlpitos, os pregadores vociferam acusando-as de vaidosas. Em muitas ocasiões esses pastores, trajando um terno caríssimo e ostentando uma bela gravata de seda importada (às vezes presa por um grampo de ouro), exigem simplicidade no trajar das mulheres. As pobres irmãs, enojadas com tanta hipocrisia, anseiam por liberdade espiritual.

Entendo que os argumentos aqui apresentados não encontrarão a concordância de algumas lideranças evangélicas. Eu as respeito. Peço apenas que ninguém discorde sem antes ler a argumentação. Por favor, tente discernir o propósito com que escrevo cada capítulo. Antes de me condenar à fogueira como um libertino herege, peço que refute os meus argumentos com outros argumentos. Não desçamos ao nível de ataques pessoais.

Não viso a ofender, contender ou zombar de qualquer postura denominacional. Não pretendo criar um novo motivo de divisão no corpo de Cristo, já lamentavelmente muito fragmentado. Meu intento é ajudar aquelas pessoas que carregam m enorme ponto de interrogação sobre qual procedimento bíblico deve ser adotado quando se vestem, se maquilam, cortam o cabelo, usam calças compridas, se divertem e lêem. Busco ajudar você, querido leitor, a manter-se santo diante de Deus sem legalismos e sem um conceito libertino de vida cristã. Conheço muitas pessoas que também não desejam quebrar a lei de Deus, todavia, estas entendem que o legalismo religioso produz muito mais prisão que a liberdade dos Evangelhos.

Na primeira parte do livro, tentarei responder às indagações mais freqüentes, tais como: As mulheres podem ou não aderir à moda? Jóias, colares, brincos e pulseiras podem fazer parte da indumentária cristã? Por que Paulo discorre sobre cabelo em sua carta aos Coríntios? O que é indumentária masculina e feminina? Até que ponto Deus se preocupa com esse assunto?

Dividi a primeira parte deste livro em tópicos distintos, procurando demonstrar que:

1. Moda, adornos, usos e costumes não constituem valores espirituais em si mesmos; não fazem parte da lei moral de Deus; devem ser concebidos como valores culturais.

2. Não é negativa a abordagem bíblica sobre a moda e sobre a utilização de adornos no corpo; a Bíblia está repleta de passagens em que homens santos e o próprio Deus participam em atividades de adorno.

3. O conceito evangélico-brasileiro sobre "vaidade" não se coaduna com o significado desse termo, usado largamente tanto no Antigo como no Novo Testamento.

4. As roupas masculinas e femininas podem perder, com o passar do tempo, suas repercussões culturais iniciais e, conseqüentemente, deixar de ser um veículo de identificação da masculinidade ou da feminilidade de alguém.

5. Os trechos bíblicos usados para combater a moda e o uso de adornos são comumente lidos de uma maneira errônea. Muitos são tirados de seus respectivos contextos e adaptados para sustentar a doutrina de uma determinada igreja e de seus líderes.

Na segunda parte deste livro trataremos de questões mais ligadas à cultura, aos esportes e ao lazer. Os evangélicos brasileiros demonstram grande fragilidade em compreender o real Significado da palavra "cultura". Não sabem discernir eticamente sobre o que podem ou não experimentar. Por exemplo, numa reunião de diretoria, numa determinada igreja, decidiu-se que:

Ir à praia ou piscina pública, ficar seminu e tomar banho; ir à praia ou piscina pública e só assistir aos banhistas e ficar no seu traje normal vendo o pecado, é proibido segundo a Bíblia em: SI 1:1; Rm 6:12-13; 1 Co 5:8; Ap3:18; Ap 16:15.

Punição: Banhistas Punição: Assistentes

Membros: Membros

1a vez — 6 meses; 1a vez—3 meses;

2ª vez — 1 ano; 2avez—6 meses;

3a vez — exclusão 3ª vez --1 ano;

4a vez — exclusão

Obreiros

1avez—1 ano; Obreiros

2ª vez—exclusão 1ªvez — 6 meses;

2a vez—1 ano; 3a vez —exclusão

Será que o lazer de uma piscina ou um banho de praia estão proibidos aos cristãos que quiserem viver santamente? Ou será que as igrejas que adotam essa política comportamental não entendem corretamente as exigências morais de Deus?

Procurarei mostrar que estando no mundo não devemos ausentar-nos dele, mas sim influenciá-lo como filhos da luz. Por incrível que pareça, continua vigoroso o debate sobre os crentes poderem ou não assistir à televisão. Em outras três reuniões de diretoria da igreja supracitada, ficou aprovado:

Todos os obreiros deste ministério não poderão ter aparelho de televisão em sua casa e não mais será separado o obreiro que a possua, devendo tirar o referido aparelho de sua casa. É proibido segundo a Bíblia em Sl 25:15; Sl 101:3, etc. Exceção: Quando o aparelho for da esposa ou filhos não crentes.

Essa resistência aos meios de comunicação será mero obscurantismo ou advém de um legalismo hipócrita? Por que essa comunidade evangélica não soube aproveitar a televisão como meio de comunicação do evangelho perdendo, dessa forma, um precioso momento de realmente influenciar o povo brasileiro?

Não concordo com a tese de que muitos desses posicionamentos nasceram de uma conspiração das elites religiosas ávidas por se manterem em posição de autoridade. Creio que, na verdade, o legalismo origina-se de uma fraca compreensão do que significa o vocábulo "mundo" na Bíblia. Buscarei mostrar que muitas vezes agimos ambiguamente ao nos relacionarmos com a produção cultural dos não cristãos. Rejeitamos suas músicas, mas aceitamos suas descobertas médicas; julgamos ser o teatro algo estritamente mundano, mas aceitamos as propostas de um partido político e chegamos a franquear o púlpito de nossas igrejas aos seus discursos.

Na terceira parte deste livro me concentrarei em estudar sobre a graça. Sem entender que todas as pessoas, mesmo caídas, ainda mantêm a imagem de Deus, não há como conviver no mundo. Os reformadores protestantes do século XVI concordavam em que há uma graça comum distribuída a todas as pessoas, mesmo às pagas. Essa graça é o favor de Deus que capacita as pessoas a fazer o bem, a agir dignamente e a executar a justiça. Caso contrário, esse mundo se transformaria em completo caos. Devido a essa graça comum, um juiz pode, mesmo não sendo cristão, julgar com justiça. Do mesmo modo, é possível um artista fazer arte com beleza ainda que não seja convertido.

A cultura, como parte da nossa humanidade, traz reflexos da imagem de Deus. No entanto, também participa de nossa natureza caída. Não se pode a priori condenar toda cultura, mas os cristãos necessitam saber julgá-la. Proibi-los de participarem dela não significa promover a santidade; pelo contrário, força-os a uma vida dupla ou diminui sua capacidade de discernir corretamente sobre o que pode ou não ser consumido por um cristão.

Sem a compreensão da graça, os crentes irão manter-se Vulneráveis ao fermento do legalismo c do farisaísmo. A carta de Paulo aos Gálatas atesta que mesmo aqueles que começaram na fé podem rapidamente ser degenerados em um cristianismo de obras. O mesmo processo que ocorreu naquela igreja pode repetir-se em qualquer comunidade. Importa saber como se dá essa decadência espiritual.

Estudaremos a graça de Deus não apenas como um favor imerecido de Deus; veremos que ela é a capacitação divina para sabermos como obedecer e nos comportar conforme a sua vontade.

Espero que este livro contribua para tornar o cristianismo brasileiro menos antipático. Precisamos urgentemente de uma mensagem mais positiva e menos proibitiva. Muitas pessoas não se interessam por conhecer os conteúdos do evangelho em virtude de as igrejas passarem a imagem de que são sempre do contra. Somos conhecidos como os que proíbem tudo. Urge mostrar uma face mais real e simpática do cristianismo.

Muitos aguardam o dia em que não terão mais de representar diante dos seus pastores e líderes. Querem viver coerente-mente tanto na igreja como em suas atividades seculares. Espero ajudar a aliviar a culpa daqueles que anseiam participar intensamente da vida. Tudo o que fizermos poderá ser feito ara a glória de Deus. A igreja não deve ser um lugar onde nos sentimos reprimidos, mas sim amados. Não devemos ensinar nossos jovens sobre um Deus estraga-prazeres, disposto a impedir a felicidade de seus filhos. Temos de apregoar que o Senhor proporciona vida em abundância. Os pastores não se devem enxergar como fiscais dos atos de seus membros. Devem, de maneira oposta, facilitar para que os talentos e dons sejam usados para a expansão do reino de Deus. A igreja é lugar de celebração; Deus, a fonte de toda felicidade; os líderes, pastores do rebanho de Cristo.

Notas

1 MARIANO, Ricardo. Neopentecostalismo, os Pentecostais Estão Mudando. (Dissertação de Mestrado em Sociologia / USP.) São Paulo, 1995, p. 204.


2 MARIANO, Ricardo.Neopentecostalismo, os Pentecostais Estão Mudando. Idem,
Ibidem.p.205.

Primeira Parte

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