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Sistema de flexão verbal na libras: os classificadores enquanto marcadores de flexão de gênero 1


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SISTEMA DE FLEXÃO VERBAL NA LIBRAS: OS CLASSIFICADORES ENQUANTO MARCADORES DE FLEXÃO DE GÊNERO1


Tanya A. Felipe2




1. OS CLASSIFICADORES NAS LÍNGUAS ORAIS-AUDITIVAS
O ser humano, em seu processo de apreensão do mundo, percebe as entidades a partir de características essenciais ou contextuais e as coloca em classes ou paradigmas. As culturas e suas línguas concretizam esta significância através de sistemas semióticos. Assim, as línguas refletem esta cognição através da categorização: o universo é representado através de palavras que estão em classes que se combinam para expressar entidades, que são mostradas como coisas, eventos, qualidades em um contexto. Há línguas com sistemas mais complexos para mostrar, fono-morfo-sintático-semântico-pragmaticamente, estas entidades e, por isso, fazem outras sub-classificações separando as coisas em animadas (pessoas, animais) e inanimadas (não-pessoas, coisa, veículos); estas coisas podem ser ainda re-classificadas quanto ao gênero (masculino, feminino, neutro), quanto ao número (singular, dual, trial, plural; unidade, grupo); quanto à visibilidade ou proximidade em relação ao emissor (perto, mais ou menos distante, distante / visível, não-visível / aqui, aí, lá), quanto ao formato, à consistência, ao tamanho, quanto ao caso (nominativo, acusativo, genitivo, etc), quanto ao papel temático (agente, paciente, etc); os eventos são re-classificados em ações, processos e estados, podendo ser mostrados também em relação ao modo, tempo, aspecto, e seu sistema de flexão para a concordância com seu(s) argumento(s).

As línguas que fazem estas classificações e subclassificações, mencionadas acima, através das categorias gramaticais estão sendo denominadas de línguas de classes nominais ou não-classificadoras e as que, além destas classes gramaticais (nomes, verbos, adjetivos, advérbios, pronomes, etc), fazem uso de um sistema de morfemas obrigatórios, que especificam nestas classes gramaticais algumas ou várias das subclassificações também mencionadas acima, estão sendo denominadas de línguas classificadoras.

Como as gramáticas tradicionais, baseadas em uma tradição greco-latina que descreveram as línguas indo-européias a partir do modelo proposto para a língua latina, incluíram os processos morfológicos da declinação (desinências para gênero, número, pessoa, caso para os nomes, adjetivos e pronomes) e conjugação (desinências para número, pessoa, tempo, modo e aspecto para os verbos), as línguas que possuem estes tipos de flexões não vêm sendo nomeadas de línguas classificadoras. Mas se percebermos com mais profundidade, comparando com as línguas que estão sendo chamadas de classificadoras, estas línguas que têm sistemas de morfemas para representarem morfo-sintático-semanticamente estas características das coisas e eventos em contextos também deveriam estar no grupo daquelas línguas classificadoras.

O fato é que esta terminologia começou a ser utilizada por lingüistas, que pesquisando línguas de famílias indígenas, africanas, australianas e asiáticas, descobriram que muitas possuíam sistemas de morfemas obrigatórios para classificar outras propriedades não mencionadas pelas gramáticas tradicionais e passaram a ser chamadas de línguas classificadoras. E interessante observar que os pesquisadores destas línguas, que começaram a estabelecer esta distinção, são falantes de língua inglesa e nesta língua não há flexão de gênero para os nomes, adjetivos e artigos, e as flexões verbais são em pequeno número comparadas com as línguas neolatinas, a alemã, o polonês, entre outras.

Analisando estas pesquisas, pode-se perceber que todas têm mostrado também que os classificadores, enquanto categoria semântica, podem ser realizados, na estrutura de superfície, ou como item lexical ou como morfema, mas somente estão sendo denominadas línguas classificadoras as que têm um sistema de morfemas obrigatórios, ou seja, um sistema de gramemas formantes presos ou dependentes.

Hjelmslev (1956), em seu trabalho Animado e Inanimado, Pessoal e Não Pessoal, fez um estudo da categoria gramatical gênero e estabeleceu uma diferença entre as línguas que possuem um sistema de gênero - como as várias línguas indo-européias, americanas, do nordeste do Cáucaso, semítico, Bantu, Tâmul e Santali - e as que possuem um sistema numerativo, como o chinês, japonês, siamês e malaio. Embora não tenha estabelecido, explicitamente, os termos “classificador” e “língua classificadora”, estudando a evolução da categoria de gênero nas línguas eslavas, fez uma distinção entre línguas com classificador numérico e línguas com classificador para gênero animado / inanimado, pessoal / não-pessoal, masculino / feminino / neutro. Neste estudo comparativo-histórico, Hjelmslev foi buscar questões teóricas e dados nos estudos dos primeiros pesquisadores que abordaram esta questão3.

Atualmente, o termo “classificador” vem sendo utilizado, às vezes, destacado somente o seu aspecto morfológico, mas não especificando precisamente o que ele representa semântico-sintaticamente, ou seja, qual sua significação-função em um dado contexto e o que esta estrutura representa em relação ao sistema de uma determinada língua. Esta é a perspectiva de Dubois et all (1993:112) que o definem:

“Chama-se classificador um afixo utilizado, em particular nas línguas negro-africanas, para indicar a que classe nominal pertence uma palavra (Sin.: índice de classe).”


Esta conceituação, além de não especificar que tipo de afixo pode ser um classificador, menciona somente uma família de língua como exemplo.

Lyons (1977), agrupando os classificadores com as categorias determinantes e quantificadores, analisa-os enquanto modificadores. Mostra que em línguas como Tzeltal, Mandarin chinês e Vietnamita, os classificadores são obrigatórios em frases contendo numeral, em relação à primeira língua, e com demonstrativos, no caso das duas últimas. Divide os classificadores em: de espécie (sortal classifier), que individualizam o que eles referem em termos de tipo de entidade; e os classificadores de medida (mensural classifier), que individualizam em termos de quantidade.

Os classificadores de espécie, segundo Lyons (1977:464), na sua maioria, utilizadas pelas línguas classificadoras, são nomes, embora de um subtipo particular e, como ressalva, é este o fato, mais do que outro, que motiva a distinção entre línguas classificadoras e línguas de classe de nome (noun-class language). Outra característica dos classificadores de espécie é que, na maioria das línguas classificadoras, eles podem ser usados também com função pronominal ou quase-pronominal em referência dêitica e anafórica. Assim, esse tipo de classificador pode ser núcleo ou modificador, o que faz considerá-lo como uma espécie de determinante já que este também, a despeito do tratamento convencional como modificadores de nomes com os quais ocorrem, podem ser considerados, sob um ponto de vista sintático, como núcleos mais do que modificadores. Devido ao modo como são utilizados, pode-se perceber uma conexão sintática e semântica tanto entre os classificadores de espécie e os determinantes de um lado quanto entre os classificadores de medida e os quantificadores por outro lado, por isso para se ter um ponto de vista que pretenda diferenciar estas três categorias deve-se partir não apenas da estrutura de superfície, mas encontrar na estrutura profunda a diferença.

Allan (1977) definiu os classificadores a partir de dois critérios:



  1. eles se realizam como morfemas na estrutura de superfície sob condições específicas;

  2. eles têm significado, já que os classificadores denotam alguma característica saliente ou imputada a uma entidade que é referida por um nome.

Tendo pesquisado mais de cinqüenta línguas classificadoras, Allan concluiu que os sistemas de classificadores encontrados constituem um conjunto completo e universal em línguas que foram agrupadas em quatro tipos:

  1. línguas de classificador numeral: são línguas em que um classificador é obrigatório em muitas expressões de quantidade e em expressões anafóricas e déiticas como, por exemplo, a língua Thai;

  2. línguas de classificador concordante: são línguas em que os classificadores são afixados (geralmente prefixos) aos nomes e seus modificadores, predicados e pró-formas como, por exemplo, em muitas línguas africanas (Bantu e Semi-Bantu) e australianas;

  3. línguas de classificador predicativo: são línguas que possuem verbos classificadores, que variam seu radical de acordo com as características das entidades que participam enquanto argumentos do verbo como, por exemplo, os verbos de movimento/localização em Navajo, Hoijer (1945), e verbos classificadores em outras línguas Athapaskan;

  4. línguas de classificador intra-locativo: são línguas nas quais classificadores nominais são embutidos em expressões locativas que obrigatoriamente acompanham nomes em muitos contextos. Existem apenas três línguas: Toba, uma língua sul-americana, Eskimo e Dyirbal, uma língua do noroeste da Austrália.

O número de classificadores nas línguas pode variar, mas sete categorias de classificação podem ser encontradas: (i) material; (ii) formato; (iii) consistência; (iv) tamanho; (v) localização; (vi) arranjo e (vii) quanta. Os classificadores podem combinar duas ou mais destas categorias e elas podem ser também subdivididas.

A categoria material pode ser sub-classificada em animado: línguas Thapaskan, Nootka, Ojibway e Yucatec) e inanimado. Segundo Allan, provavelmente todas as línguas que possuem a categoria material fazem esta distinção. Há línguas que sub-classificam ainda mais a categoria material animado, dividindo-a em animais (línguas orientais, africanas e algumas ameríndias, como Tzeltal e Yurok) e pessoas (línguas orientais, da Oceania). Estas ainda podem ser re-classificadas em mulher, homem e criança. A categoria inanimado quase sempre é representada por vários morfemas diferentes, mas o mais comum é o usado para árvores, objetos de madeira, geralmente barco. Estes morfemas podem ser sincretizados, ou seja, conectados com outros tipos como, por exemplo, com formato.

A categoria formato é geralmente subdividida em objetos longos, planos e arredondados, mas tem-se preferido a denominação em objetos de uma, duas ou três dimensões que geralmente podem ser associados com outras categorias, como consistência, textura, etc. As línguas ameríndias têm sido classificadas como as que mais possuem este tipo de classificador e a Taracan só possui este tipo.

Associado a estas três dimensão dos objetos, há três subcategorização:



  1. em relação à proeminência de curva exterior, ou seja, objetos de determinada dimensão que são amontoados, ou são montes, estão empilhados, etc. Por exemplo:Yucatec, Navajo, Proto-Banto, etc;

  1. em relação a um classificador quanta, ou seja, mais do que a forma, o objeto está também associado a quantidade. Ex Taih;

  1. em relação a ser oco ou vazio, ou seja, classificadores que representam conteiners, objetos com o interior vazio. Como exemplo, pode-se pensar em classificadores para objetos como barco, potes, bambu, etc.

A categoria consistência possui três subdivisões: flexível, rígido e não-definido. esta categoria geralmente está associada às de material e forma.

A categoria tamanho está subdividida em grande e pequena/o e também está quase sempre associada a de forma.

A categoria localização especifica um lugar que pode estar associado com o tipo de objeto. Como nas línguas Yucatec, Kiriwina, Burmese, Núngetc, que têm classificador para pontos na terra e, também, muitas línguas orientais que têm classificadores específicos para país, jardim, campos, cidades, etc.

A categoria arranjo especifica objetos colocados de uma maneira específica. Esta classificação pode estar incorporada semanticamente ao verbo, como na LIBRAS e em português: enrolar, empilhar, enfileirar, amontoar, etc

A categoria quanta especifica uma quantidade e pode ser subdividida em classificadores para coleção, volume, peso e tempo.

As categorias arranjo e quanta, por não classificarem propriedades inerentes de objetos, não estão limitadas somente às línguas classificadoras e podem estar associadas uma com a outra; assim, nas línguas de classificadores de predicado e coordenantes podem aparecer as subclassificações para número e gênero como, por exemplo, na LIBRAS que pode acrescentar à raiz principal um classificador com um quanta simultaneamente: pessoaPASSAR; 2 pessoasPASSAR;



3 pessoasPASSAR.

Destas divisões e subdivisões de classificadores pode-se perceber que elas se baseiam, também, na perspectiva do falante em relação ao contexto, portanto o nível pragmático da língua deve ser, também, avaliado porque não se trata somente de morfemas específicos para objetos específicos mas, em alguns casos, de morfemas associados a objetos a partir de um determinado contexto, o que implica, a utilização da língua, enquanto sistema: relações sintagmáticas e correlações paradigmática em todos os níveis: fono-morfo-sitático-semântico-pragmático, que possui um conjunto de morfemas obrigatórios.

Kiyomi (1992), a partir das definições de classificadores e das classificações de línguas classificadoras propostas por Adams e Conklin (1973), Denny (1980), Allan (1977) e Shachter (1985), mostra que os classificadores da língua Jacaltec, que são morfemas livres, não poderiam ser assim considerados devido ao fato da definição de Allan contemplar somente morfemas que são formas presas, e propõe, por isso, uma divisão dos classificadores em:


  1. morfemas livres, que incluiriam os classificadores de número e os classificadores não-numerais;

  2. morfemas presos, que incluiriam os classificadores coordenantes, os de predicado (nos verbos classificadores) e os intra-locativos.

Analisando, mais profundamente, os classificadores de predicado, Kiyomi, a partir das pesquisas de Hoijer (1945), Carter (1966), e Haas (1967), afirma que eles estão limitados às línguas Athapaskan (Navaho, Chipewyan e Hupa) e que as categorias animado e forma estão entre as categorias semânticas encontradas nos classificadores destas línguas e conclui que os classificadores para as categorias animado e forma são categorias semânticas fundamentais e independentes e que, embora não haja universal implicacional em relação ao seus usos, elas estão sempre presentes em todos os sistema de classificador e, realmente, isso pode ser comprovado em relação as línguas de sinais, tomando como exemplo a LIBRAS e a ASL.

Hoijer (1945:15) descobriu que os verbos classificadores em Navaho estão distribuídos em doze raízes: objetos redondos longos, seres vivos, conjunto de objetos, conteiner rígido com conteúdos, objeto de fabricação, objeto volumoso, conjunto de objetos em paralelo, massa, massa de madeira, objeto como corda, objeto como lama. Por esta classificação pode-se perceber que a categoria inanimado está associada à subcategoria de forma: longo, arredondado e como corda. Estes classificadores são prefixos de raízes de verbos classificadores, pois estes variam de acordo com a classe do(s) seu(s) argumento(s), ou seja, se o verbo for intransitivo, o prefixo varia com relação à classe do sujeito, se for transitivo, varia com relação ao objeto. Na LIBRAS, os predicados classificadores também concordam desta maneira.

Carter (1966), pesquisando a língua Chipewayan, também como Hoijer, diferenciou raízes verbais em função do tipo de classificador mas, embora algumas raízes coincidam com as de Hoijer, os dez padrão encontrados são, na maioria diferentes: seres acordados (rã, aranha, urso sentado, pessoa sentada, etc), seres dormindo (pessoa, bebê, urso, garota, etc), seres mortos (pessoa, carcaça de urso, cachorro, peixe, etc), objetos sólidos inanimados (lagoa, faca, pedra, laranja, etc), líquidos (lama, sangue, leite, água fervendo, café, etc), massas granulares (monte de areia, de açúcar, ovos, peixe, etc), objetos como corda, objetos em conjuntos ou plural de objetos ( corda, livro, jogando cartas, óculos, etc), objetos como varas ou containers vazios (avião, caixa vazia, canoa, cadeira, etc), conteiners com conteúdo (caixa com algo dentro, lata de cerveja, pacote de cigarros, etc) e objetos de fabricação (calendário, luvas, folha de papel, etc).

Haas (1967:360) fez um estudo comparativo dos classificadores de número em Yurok com os classificadores de predicado em Hupa e concluiu que, embora eles estejam agrupados em classes sintáticas diferentes, eles têm categorias semânticas similares e mostrou o que eles possuíam em comum:




Classificadores Numerais em Yurok

Classificadores de predicado em Hupa

Seres humanos, Animais

Seres Vivos (humanos e animais)

Objetos finos ou como vara

Objetos longos ou como vara

Objetos como corda

Objetos como corda (ou muitos objetos)

Objetos arredondados

Objetos arredondados

Friedrich (1970), em seu estudo sobre a língua Tarascan, uma língua ameríndia, fala sobre verbos classificadores também e, através de vários exemplos, mostra o que ele chamou de verbos classificadores encobertos (covertly classificatory verbs). Este tipo de verbo traz semanticamente, e não sintaticamente, uma classificação e por isso podem conter na sua significação o caso instrumento, paciente ou tema. Pode-se comparar estes verbos com verbos em Português como perfurar, parafusar, cavar, pentear, escovar, etc, que está implícito em seu significado o tipo de instrumento usado na ação. Mas este tipo de verbo não poderia ser considerado verbo classificador no sentido que está sendo utilizado pelos pesquisadores acima porque aqui a classificação do referente está somente em um nível semântico, no plano de conteúdo, não havendo um sistema de morfemas a nível morfológico, enquanto paradigma desta língua para uma subclasse de verbos que concordam com seu sujeito ou objeto em relação às categorias material, forma, etc. O mesmo acontece em relação a verbos que trazem semanticamente incorporada a categoria arranjo, como nos verbos mencionados acima: empoleirar, amontoar, enfileirar, etc. Como será visto no capítulo 3, estes verbos incorporam o caso modal. Na LIBRAS esta incorporação, no nível semântico, se dá com verbos que possuem um processo mimético na sua formação enquanto item lexical Felipe (1998).

Pode-se concluir, a partir de todas estas pesquisas apresentadas, que existe uma certa regularidade em relação à utilização dos classificadores associados aos tipos de língua classificadora e, embora as pesquisas tenham apontado diferentes tipos de classificadores, eles estão associados a uma função morfo-sintática, já que o processo de classificar, através deles, se dá ou como acréscimo a um radical nominal ou verbal, ou como uma derivação interna de raiz, ou mesmos em todos os elementos da frase, como nas línguas classificadoras coordenantes. Nesta perspectiva morfo-sintática, estes morfemas classificadores podem ser vistos como marca de concordância de gênero, ou de número ou de caso, ou de lugar.

Levando-se em conta as tipologias para classificadores das línguas orais-auditivas, alguns lingüistas que estão pesquisando línguas de sinais, perceberam que existiam também classificadores nas línguas de sinais.


2. OS CLASSIFICADORES NAS LÍNGUAS GESTUAIS-VISUAIS
Vários lingüistas, que têm pesquisado línguas de sinais, têm demonstrado que estas línguas possuem vários tipos de classificadores e, como os lingüistas que têm pesquisando sobre classificadores nas línguas orais-auditivas, aqueles também estão tendo posicionamentos diferenciados ao fazerem tipologias dos classificadores ou especificar as funções que eles exercem. O ponto em comum está na definição de classificador como sendo certas configurações de mãos que funcionam como morfemas que marcam certas características de um objeto nas línguas de sinais. Frishberg (1975), Kegl e Wilbur (1976) e Supalla (1978/79).

As divergências estão nos enfoques em relação a estes morfemas classificadores:



  1. Klima & Bellugi et all (1979) apresentaram um sistema de configurações de mãos que seriam classificadores na ASL, ou seja, as configurações de mãos especificariam uma característica do objeto ou do modo como se seguraria um objeto;

  1. Kegl (1985) apresentou estas configurações como sendo clíticos formantes das raízes verbais, existindo o clítico de proeminência e o de fundo;

  1. Padden (1990) apresentou verbos classificadores, que possuem configurações de mãos que concordam com o sujeito ou objeto na frase, mas não especificou qual seria este tipo de concordância;

  1. Pedersen & Pedersen (1983) preferem o termo pró-forma ao em vez de classificador como Edmondson (1990), que analisando o fenômeno na língua de sinais dinamarquesa, concluiu que as configurações nos verbos de movimento e localização seriam morfemas que caracterizariam os referentes, de modo icônico, em situações estáticas ou dinâmicas, já que a iconicidade4 estaria mais em relação às categorias animado/inanimado, dimensionalidade, orientação, entre outras, do que em relação à forma.

Todas estas pesquisas apresentaram ou aspectos fonológicos ou morfológicos ou sintáticos dos classificadores enquanto afixos ou itens lexicais.

Na tipologia e morfologia dos Classificadores da ASL de Supalla (1986), pesquisa que sistematiza seus trabalhos anteriores e que tem sido ponto de referência para vários pesquisadores, os classificadores foram divididos em:



  1. Especificadores de tamanho e forma: são configurações de mãos que representam vários aspectos do referente. Estes classificadores foram subdivididos em especificadores de tamanho e forma estáticos (SASSes): objetos longo, redondos, etc; e especificadores de tamanho e forma em traço: a mão, movendo-se no espaço, traça as linhas do referente em duas ou três dimensões;

  2. Classificador semântico: são configurações de mãos que representam os referentes enquanto categorias semânticas: classificadores de objetos com pernas (pessoa, cachorro, aranha, etc); classificadores de objetos horizontais, verticais, etc;

  3. Classificador corpo: todo o corpo do emissor pode ser usado para representar seres animados, sendo esta classe uma marca de concordância nominal;

  4. Classificador parte do corpo: a mão ou alguma outra parte do corpo do emissor é usada para representar uma parte do corpo de referente. A parte do corpo é uma localização. Este tipo de classificador foi dividido em: especificadores de tamanho e forma de parte do corpo (dentes na boca, listras de um tigre) e classificadores dos membros (mãos e antebraço; pernas e pé);

  5. Classificador instrumento: uma representação mimética ou visual-geométrica do instrumento mostra o objeto sendo manipulado, mas este não é diretamente referido. Este tipo foi subdividido em: classificador mão como instrumento - usados para contrastar os vários meios que a mão interage com objetos sólidos de tamanho e formato diferentes; classificadores ferramenta - usados para operar ferramentas manualmente;

  6. Morfemas para outras propriedades de classes de nomes: usados para mostrar consistência e textura (líquido, gasoso, macio, etc); integridade física (quebrado, espedaçado, etc); quantidade (coleção, muitas pessoas, etc); posição relativa (uma pessoa acima de outra, status, etc)

Relacionando estes classificadores com verbos de movimento e de localização, Supalla apresenta a raiz destes verbos como sendo formada por: um pequeno número de movimento possíveis (existência, localização ou movimento); um pequeno número de paths (linear, arco e círculo); um morfema classificador (mão ou outra parte do corpo, configurando uma forma particular e localizada em um lugar particular e orientada ao longo de um path) e relações locativas entre o nome central (objeto que move - tema) e o secundário (o objeto fundo). A forma da mão nestes verbos referem-se à classe do objeto que está envolvido no evento. Os morfemas internos destes verbos seriam o morfema classificador, o movimento e os pontos básicos e os externos seriam a flexão de número e aspecto.

2.1. Revendo a tipologia de SUPALLA
Embora o estudo de Supalla (1988) tenha sido muito detalhado, resumido acima, tenha contribuído para as pesquisas sobre classificadores e tenha servido de base para outros trabalhos, já mencionados acima, alguns pontos precisam ser revistos:
2.1.1. Classificadores semânticos
Primeiramente, como também observou Edmondson (1990), a divisão dos classificadores em semânticos é redundante, já que classificador é uma categoria semântica que se concretiza em itens lexicais ou em tipos de morfemas específicos para cada língua, portanto todo classificador é semântico e, conseqüentemente, o que deve ser pesquisado é em que nível da língua (morfológico ou sintático) se realiza esta representação semântica e como ela se dá.

Relacionando as sete categorias de classificação, encontradas nas cinqüenta línguas pesquisadas por Allan (1977), com a proposta de gêneros de Hjelmslev - animado/inanimado: pessoal/não-pessoal, seria mais universal especificar, como nas línguas orais-auditivas, o que Supalla denominou de classificador semântico, como sendo o que Allan denominou de categoria material (animado/inanimado).

A categoria material, portanto, nas línguas de sinais, tomando como exemplo a LIBRAS e a ASL, está subdividida em animado: pessoal e não-pessoal (animal), e o inanimado: veículo e coisa (formato: objetos planos, longos, arredondados, etc; tamanho: grande, médio, pequeno). Esta última subcategoria da categoria material (coisa), em verbos de raiz mimética5, sempre vem sincretizada com uma ou mais das outras quatro categorias de classificação encontradas por Allan (1977), ou seja: consistência: flexível, rígido, não-definido,etc; localização; arranjo: enrolado, em círculo, empilhado, enfileirado, etc; e quanta: coleção, volume, peso, etc. O classificador quanta também pode ser sincretizado na categoria material animado, por isso um verbo classificador pode flexionar para concordar com o número: dual, trial, quatrial, plural.

A partir desse estudo comparativo sobre classificadores tanto em línguas orais-auditivas tanto em línguas de sinais, podemos verificar que o sistema de classificador nas línguas gestuais-visuais está relacionado ao gênero que, em uma sub-classe de verbos, é marcado através de morfemas obrigatórios que devem ser utilizados morfo-sintaticamente, presos às raízes verbais, para concordar com o argumento do verbo.

Na LIBRAS pode ser, assim, esquematizar em relação `as configurações de mão:
pessoal (configurações: G; 1; V ) 6

pessoal + quanta (configurações: V; W; 4)

animado

não-pessoal: animais (configurações 5; 5; B1)


coisas (configurações: G; 1; B; B; B; B; C; O; L,

A, S


inanimado

veículos (configurações 3; B; B;

Como em línguas orais-auditivas, nas línguas de sinais também ocorre o sincretismo das categorias de classificação, concorrem, assim, com estes morfemas do sistema de gênero acima (configurações de mãos), outras que estão que podem estar iconicamente representadas na raiz Movimento ou na orientação ou no ponto de localização (onde um caminho (path) começa e finda ou onde a coisa é localizada). Como se verá mais à frente, todos estes componentes fazem parte do sistema de flexão verbal da LIBRAS. Estes morfemas sempre estão presos a uma raiz verbal, que é o movimento (+ /-) e anaforicamente concordam com o referente que precede o verbo enquanto argumento: sujeito e/ou objeto. A nível sintático, os morfemas classificadores ocupam o lugar específico para a concordância (I), onde também ficam os clíticos:
IP

/ \


/ \

NP I’


/ \

/ \


I VP

 / \


 / \

 V NP


marca de gênero
Portanto estes morfemas classificadores de gênero não têm uma função sintática, eles se realizam como desinências que vêm sempre afixadas a raízes verbais e, anaforicamente, estabelecem concordância de gênero com o referente que é argumento do verbo. Em verbos intransitivos, eles concordam com o sujeito - caso nominativo, em verbos transitivos, eles concordam com o objeto - caso acusativo. Por isso a mesma configuração de mão como, por exemplo, “G”/”D” ou “1” (quantidade), pode arbitrariamente representar entidade animado pessoal e inanimado não-pessoal porque o tipo de verbo e o contexto impedem a ambigüidade. Quando uma destas configurações está representando entidade animado pessoal, ela anaforicamente concorda com o referente animado (pessoa) que, nos verbos intransitivos, será o sujeito: caso ergativo e, nos verbos transitivos, o referente animado pode ter o sujeito: caso nominativo ou o objeto: caso acusativo, com as regras temáticas agente ou objetivo; mas quando esta configuração está representando um referente inanimado (coisa), ela só pode estar no caso acusativo, associado às regras temáticas objetivo ou Locativo7.

2.1.2. Especificadores de tamanho e forma traçados
Em relação ao sistema proposto por Supalla (1986), outra questão que precisa ser revista são os especificadores de tamanho e forma traçados porque estes, também, não podem ser considerados classificadores, no sentido que se vem trabalhando este termo para línguas orais-auditivas, porque eles não formam um sistema fechado e obrigatório que deve ser sempre especificado, através de gramemas, para serem afixados a lexemas. Estes traços feitos no espaço neutro são os próprios lexemas nas línguas de sinais, são itens lexicais que podem ter a função de adjetivos ou expressões adjetivas como, em português: em listras, listrado, forma de estrela, quadrado, triangular, etc. Eles funcionam, enquanto morfemas livres, como modificadores que qualificam o nome sendo, portanto, um sintagma adjetival deste nome, enquanto sintagma nominal. Ao se traçar um formato com um tamanho no espaço neutro, este traço tem autonomia morfologia não podendo ser classificado como afixo e muito menos obrigatório. Seria como se dissesse, em português: camisa listrada, planície ondulada, cerca, etc. Esses adjetivos ou nomes, como certos verbos, já mencionados, acima, também possuem uma raiz mimética, ou sejam, sua configuração se dá através da imitação do próprio objeto ou um atributo a um determinado objeto.
2.1.3. Classificadores “corpo e parte do corpo”
Outra questão ainda que precisa também ser revista é o que Supalla chamou de classificadores “corpo e parte do corpo” que também não são classificadores, mas itens lexicais que são as próprias partes corpo. Quando se fala de mão, mostra-se a mão, quando se fala de cabeça, olho, orelha, etc, mostra-se estes órgãos, as partes internas podem ter sinais ou usada a datilologia. Por exemplo, quando se quer dizer que se deu um soco no olho / barriga / face de alguém, basta mimeticamente fazer um gesto com a mão com o ponho fechado indo em direção ao olho, barriga ou cabeça. Estas partes do corpo, contextualizadas em frases, são itens lexicais que funcionam como argumentos para o verbo que possui concordância de lugar, não há, portanto, um classificador na configuração de mão deste verbo e a configuração “ponho cerrado” é uma raiz verbal de derivação zero: suco -> esbofetear.

As línguas de sinais mostram o próprio corpo ao em vez de criar um sinal arbitrário, esta parte do corpo funciona como um ponto de referência da Raiz Movimento. Por exemplo, se se quer dizer, em LIBRAS, que alguém deu um soco no olho esquerdo de outra pessoa, a frase terá a estrutura : SOV, trazendo a raiz verbal toda a informação mimeticamente representada por um movimento da mão com ponho fechado simulando um soco no olho esquerdo do emissor da frase. Como já foi mostrado, Felipe(1998), este processo mimético de formação de palavras é muito produtivo e não pode ser confundido com um sistema de classificadores.


2.1.4. Classificadores para instrumento
A mesma confusão, no sistema de Supalla, ocorreu ainda em relação ao que ele chamou de classificadores para instrumento porque não se trata, também, de classificadores, enquanto morfemas presos que anaforicamente concordam com um referente que é um argumento do verbo classificador. Ocorrem, na verdade, dois processos diferentes na formação de verbos que possuem configurações de mãos que representam mimética ou iconicamente o objeto, enquanto instrumento, ou a forma de se pegar um objeto:

  1. neste primeiro caso, as configurações de mãos que representam instrumentos são, juntamente com os outros parâmetros, itens lexicais nominais mas, em determinado contexto, através do processo de derivação zero, esses item lexicais nominais exercem a função de verbo, trazendo implícito semanticamente o caso instrumental; a incorporação é, portanto, semântica e não morfo-sintática. Quando se diz ‘tomar café’, em LIBRAS, a frase apresentada é CAFÉ BEBER-COM-XÍCARA. O item lexical XÍCARA, neste contexto, tornasse verbo; quando se diz cortar em LIBRAS, há sempre, semanticamente, a incorporação do instrumento porque é a coisa cortante que se torna o próprio verbo: LÂMINA > CORTAR-COM-LÂMINA; FACA > CORTAR-COM-FACA; TESOURA > CORTAR-COM-TESOURA. Pode-se comparar este caso instrumento implícito que aparece em certos tipos de verbos, na LIBRAS, com verbos, em português, que trazem, também, semanticamente, o instrumento incorporado, como por exemplo: pentear, que quer dizer “passar pente”; escovar “passar a escova”; marretar “bater com marreta”;. Este processo de derivação zero na LIBRAS pode ser enquadrado no que Friedrish (1970) chamou de verbos classificadores encobertos, comentado anteriormente;

  1. no segundo caso, a forma de segurar/pegar um objeto, que é o instrumento, a configuração das mãos é um dos semas do significado do verbo, está portanto a nível semântico, também, e não morfo-sintático, não se tratando aqui também de um sistema de classificadores. É como se dissesse, em português: ensacar “colocar no saco”; parafusar “colocar parafuso” unhar “arranhar com as unhas”; ciscar, bicar, beijar, abraçar, pinçar, agarrar, segurar, maquiar, tricotar, etc. Como as línguas de sinais possuem uma iconicidade visual, seus sinais para representar estas ações e outras que trazem a idéia de ‘manipulação de uma determinada maneira’, são mais transparentes, motivados, e as configurações de mão mostram icônica ou mimeticamente esta manipulação. Este caso também deve ser analisado como sendo verbos classificadores encobertos, ou seja, é no nível semântico e não no morfo-sintático que se realiza a classificação.

Após estas reflexões, retirando o que impropriamente foi considerado classificador, ficam somente algumas configurações de mãos que, sendo morfemas, serão consideradas nesta pesquisa como sendo desinências de gênero. Assim, nas línguas de sinais, tomando como exemplo a LIBRAS, há um sistema complexo de desinências que estabelece as flexões verbais.
3. A FLEXÃO VERBAL NA LIBRAS
Cada língua, a partir de uma Gramática Universal, possui a sua gramática particular. As estruturas fono-morfo-sintáticas são portanto idiossincrasias lingüísticas específicas a cada língua, assim cada língua tem seu sistema de flexão formado por morfemas presos ou livres que são relevantes para a sua sintaxe e suas regras transformacionais.8

A partir do exposto anteriormente, pode-se sistematizar um sistema de flexão específico para a LIBRAS.

Em trabalhos anteriores, Felipe (1988, 91a, 93a) apresentou alguns verbos da LIBRAS que possuem concordância, e eles foram denominados direcionais, seguindo uma nomenclatura americana: Friedman, Fischer, Padden, Suppala entre outros. Aqui, nesta pesquisa, eles serão agrupados de maneira diferente.


    1. Flexão número-pessoal

No sistema de flexão verbal da LIBRAS há o parâmetro direcionalidade que é um marcador de flexão de pessoa do discurso. Por exemplo, quando de diz “eu pergunto para você” a direção do movimento é do emissor para o receptor, primeira e segunda pessoas respectivamente; se a frase é “você pergunta a mim” a direção é a oposta, e se a frase for “eu pergunta a ele”, a direção será para um ponto convencionado para a terceira pessoa do discurso (Felipe, 1988). Este sistema é o mesmo para todos os verbos que possuem este tipo de flexão.

Nesta flexão para pessoa do discurso, pode-se dizer que a desinência que concorda com o sujeito e o objeto é simultânea à raiz-M verbal porque este tipo de flexão é expresso pela direcionalidade (caminho “path”) da Raiz- Movimento, mas há também uma sequencialidade já que sempre o ponto inicial concorda com o sujeito-agente e o final com o objeto-objetivo.Exemplos:

(1) 1sPERGUNTAR2s “eu pergunto a você”,

(2) 2sPERGUNTAR1s “você me pergunta”,

(3) 3sPERGUNTAR1s “ela me pergunta”,




    1. Flexão para locativo




  1. Além do parâmetro direcionalidade, o ponto de articulação também é um tipo de flexão verbal porque pode concordar com a localização nos verbos que possuem uma valência com locativo intrínseco. Para se compreender esta flexão verbal precisa-se fazer uma distinção em relação a este parâmetro porque há dois tipos de ponto de articulação a ser considerado: o ponto que faz parte da configuração sígnica do verbo, que é somente traço distintivo, estando somente em um plano fonológico da língua, e um morfema que tem uma função e um significado morfo-sintático-semântico. Neste segundo caso, o ponto de realização sígnica é um local real ou convencionalizado onde o movimento termina e este Locativo é marca de concordância com um argumento do verbo, ou seja, é um sintagma de preposição obrigatório. . São verbos que começam ou terminam em um determinado lugar que se refere ao lugar de uma pessoa, coisa, animal ou veículo, que está sendo colocado, carregado, etc. Portanto o ponto de articulação marca a localização. Alguns desses verbos podem ter também classificadores. Exemplos:

(4) MESAk COPO coisa-arredondadaCOLOCARk “colocar copo na mesa”.

(5) CABEÇAk ATIRARk. ëu atiro na minha cabeça”

(6) MESAi COPO objeto-arredondadoCOLOCARi “eu coloco o copo na mesa”(9)




    1. Flexão para gênero

Assim, na LIBRAS, os classificadores são formas que, substituindo o nome que as precedem, pode vir junto ao verbo para classificar o sujeito ou o objeto que está ligado à ação do verbo. Portanto os classificadores na LIBRAS são marcadores de concordância de gênero: PESSOA, ANIMAL, COISA.

Os classificadores para PESSOA e ANIMAL podem ter plural, que é marcado ao se representar duas pessoas ou animais simultaneamente com as duas mãos ou fazendo um movimento repetido em relação ao número.

Os classificadores para COISA representam, através da concordância, uma característica desta coisa que está sendo o objeto da ação verbal, exemplos:
(7 ) pessoaCAIR, veículo CAIR, coisa-redondaCAIR, coisa-planaCAIR,

(8 ) coisa-fina-e-longaCAIR; (10);

(9 ) pessoaANDAR, veículoANDAR/MOVER, animalANDAR ;

(10) COPO MESAk objeto arredondadoCOLOCARk;



(11) 2 CARRO veículoANDAR-UM-ATRÁS-DO-OUTRO (md)

veículoANDAR (me)

(12) M-A-R-I-A A-L-E-X pessoaPASSAR-UM-PELO-OUTRO (md)



pessoaPASSAR (me)
A configuração de mão, como foi visto acima, também em relação a outras línguas de sinais, quando associada a verbos classificadores, é uma flexão de gênero, que pode ser sincretizada a um quanta.




B

B

B

C

G

L

L

L

O

V

X

1

3

3

4

5

5

5

B



Figura: - Morfemas classificadores da LIBRAS


Concluindo, pode-se esquematizar o sistema de concordância verbal, na LIBRAS, da seguinte maneira:


  1. concordância número-pessoal => parâmetro orientação

  2. concordância de gênero e número => parâmetro configuração de mão

  3. concordância de lugar => parâmetro ponto de articulação

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1Sistema de Flexão Verbal na LIBRAS: Os classificadores enquanto Marcadores de Flexão de Gênero. Anais do Congresso Surdez e Pós-Modernidade: Novos rumos para a educação brasileira - 1º. Congresso Internacional do INES. 7º. Seminário Nacional do INES. Rio de Janeiro: INES, Divisão de estudos e Pesquisas. 2002: 37-58

2 Prof. Titular da UPE. Coordenadora do GPLIBRAS-FENEIS-Rio. Assessora do CELL- FENEIS.

3 A dintinção entre “animado” e “inanimado” já foi assinalada em certas línguas americanas (desde 1810, ver H.E. Bindseil, Abhandlungen zur allgemeinen verglichenden Sprachlehre, 1838, pp. 497-498, 503-533, com remissões). Mas independentemente de tais desenvolvimentos, a mesma distinção foi constatada em eslavo e descrita no Lehrgebäude der böhmischen Sprache, de Josef Dobrovsky (1814), traduzida, como se sabe, em alemão (Kleine serbische Grammatik, 1824), por Jacob Grimm, que no prefácio, pp. XXXIX se vale dessa distinção tão característica do eslavo, comparado-a a certos fatos do velho e do médio alto-alemão, que na realidade indicam uma distinção entre “pessoal” e o “não-pessoal (diferença no masculino pessoal entre o nominativo e o acusativo, sincretismo entre dois casos, aliás) (ver Bindseil, pp. 503-511). A distinção entre “pessoal” e o “não-pessoal havia também sido assinalada, ao que parece, para o polonês e o sorábio (Bindseil, pp. 511,512-513, que se fundamenta nas gramáticas de Bandtke e de Seiler). Coisa curiosa: uma distinção análoga fora analisada para o árabe por Silvestre de Sacy (Grammaire arabe, I, 1810, pp 261 e ss): o fato é que no árabe clássico o plural (pluralis fractus e plural do feminino) de um nome substantivo que designa um objeto “não-pessoal” (ou inanimado) é na maioria das vezes seguido de um adjetivo epíteto (ou atributo) no feminino singular, ao passo que existe uma concordância entre o nome e seu epíteto (ou atributo) no plural, desde que o nome designe uma pessoa (ou um ser animado). Hjelmslev (1991: 246)

4 Há vários estudos sobre iconicidade em línguas de sinais: Frishberg (1975); Klima, E. & Bellugi, U. (1979); Morford (1993); Wilbur, R. (1987).

5 Verbos de raiz mimética são aquele que, em sua realização fono-morfo-sintática, imitam iconicamente uma ação verbal, portando a classificação está, no nível semântico, implícita na raiz verbal e, portanto, não vem representada por um morfema obrigatório, que é a condição para se caracterizar um morfema classificador. Para elucidar, retomando aos exemplos já mencionados, como enrolar, rodopiar, empilharar, cambalear, entre outros, esses verbos trazem implícito uma classificação quanto ao modo de realização, mas não possuem um classificador, enquanto morfema obrigatório. Não se pode confundir a classificação implícita com a explícita, apenas nesta última há realmente uma classificação através de um morfema obrigatório.

6 As setas ; ; ; ; representam a direcionalidade da configuração da mão, quando os dedos estão para cima, para baixo ou perpendicular para frente ou para um dos lados do emissor respectivamente.

7 Estas regras foram trabalhadas em Felipe(1998).

8. Este posicionamente da flexão neste nível da língua está baseado em Emonds (1985: 195)), que afirma: Since transformations are exactly that part of syntax which involves the non-equivalence of deep structure and surface forms, my claim is that inflection includes any bound morfemes inserted by trnsformation (e.g., agrement) or s-structure-dependent principles (case), and any whose presence permits ptherwise expected syntactic categories in their environment to be phonologically unrealized.

9 O ‘i” representa a concordância, ou seja, o movimento do verbo termina no mesmo local do adjunto nominal - mesa – locativo. Ver Sistema de Transcrição. Felipe (1998 e 2001)

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