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Os jesuítas e o ensino de filosofia no brasil


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OS JESUÍTAS E O ENSINO DE FILOSOFIA NO BRASIL
Prof. Dr. José Carlos da Silva

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

jcsilv@yahoo.com.br

A questão da filosofia e seu ensino no Brasil remete, diretamente e em primeiro lugar, às questões que envolveram o contexto renascentista da Europa do século XV, _ a expansão européia, a Reforma e ao movimento da Contra Reforma católica, _ e a chegada dos Jesuítas juntamente com os portugueses na terra que denominaram de Brasil. Procuramos mergulhar na história do país para dela extrair os caminhos e descaminhos da filosofia no Brasil e os desdobramentos posteriores. Portanto, é necessário refletir, voltar os olhos para o seu passado e de seu ensino no Brasil atual.

Para isto, delimitou-se a questão da filosofia e de seu ensino no Brasil, principalmente, do papel e da influência dos jesuítas nessa temática e ação educativa, ao período em que o país foi colônia de Portugal. Neste trabalho, busca-se mostrar as raízes históricas da relação entre filosofia e educação, a concepção de filosofia que os jesuítas difundiram através da educação, os caminhos do ensino de filosofia no Brasil colonial e sua marca no modo de ensinar filosofia no país.

Seguindo este rumo, foi tomado o materialismo histórico como referencial teórico para a investigação, análise e interpretação da realidade histórico-educacional brasileira pesquisa aqui tomado. Este estudo realizou uma pesquisa bibliográfica, recorrendo a procedimentos como leitura e fichamento de algumas obras que tratam desde assunto. Com base na análise e interpretação dos dados encontrados nos textos selecionados, foi desenvolvido o estudo e estruturado o texto que é apresentado aqui.

A sociedade e a inteligência brasileiras formaram-se, num primeiro momento, por influência dos estrangeiros, num processo de dominação, de exploração, de aculturação dos povos ameríndios e de imposição do modo de ser, de viver e de pensar do europeu. Do chamado “descobrimento” à conquista, povoação, delimitação geográfica e formação histórica do Brasil, os interesses econômicos europeus, o pragmático imperialismo português, a consciência ocidental portuguesa marcada pela fé católica, pelo desejo de expandi-la e derrotar o protestantismo influenciaram e marcaram profundamente a inserção e o desenvolvimento da filosofia em nosso país. É importante e “necessário não perder de vista a correlação que existe entre os povos para que possamos melhor apreender as nossas próprias características” (COSTA, 1967, p.7). Porém, como o mundo é dialético, uma cultura não é imposta linearmente, tal como chega. Também é preciso considerar que o modo de vida europeu e suas idéias filosóficas, quando importadas, sofrem modificações. “A mudança de habitat _ um pensamento, meditado à sombra de carvalhos e castelos, deve ser remeditado à vista de canaviais e mocambos... _ serve, automaticamente, de campo de prova para as velhas idéias: algumas destas atingem nova significação, outras logo se perdem” (VITA, 1969, p.3).

Desse modo, a constituição do pensamento filosófico brasileiro, desde a sua emergência na terra dos palmares, carrega em seu processo histórico a influência e certa margem de originalidade em relação à tradição filosófica européia, tanto no conteúdo quanto nos seus métodos de ensino marcados pela escolástica jesuítica. Apesar de ter sido menos criativo e muito mais assimilativo, o meio influenciou na assimilação e elaboração deste tipo particular de visão de mundo no Brasil, não se limitando apenas à imitação do pensamento europeu, mas oferecendo um contexto particular para o desabrochar da reflexão filosófica. Assim, devemos considerar que na história da filosofia no Brasil o contexto histórico-social teve e tem presenças marcantes, colocando problemas e a necessidade de soluções adequadas à realidade nacional.

A origem da sociedade brasileira, tal como a conhecemos, é marcada em primeiro lugar pela colonização portuguesa e seu estilo peculiar de controle, exploração e dominação. A expansão comercial e ultramarina portuguesa, e a colonização do Brasil como parte dela tornaram-se possíveis graças às novas concepções de homem e de mundo que surgiram com o renascimento europeu e à burguesia comercial, que lutam para ampliarem as suas conquistas econômicas e o seu poder político. Numa nova cultura centrada não mais em Deus, mas no homem, avançam os conhecimentos científicos, (racional e experimental) sobre o homem e sobre a natureza. Esses novos conhecimentos, unidos ao espírito pragmático e aventureiro do povo português, permitem à burguesia comercial portuguesa, que quer ampliar seus mercados e riquezas, e à nobreza sedenta de terras, desenvolver novas tecnologias de navegação, construir suas caravelas, avançar oceano adentro e estruturar um império colonial.

Com a expansão marítima e as colônias, a nova classe em ascensão busca caminhos alternativos para ampliar a acumulação de capital, desenvolver o novo modo de produção capitalista e enterrar de vez o feudalismo e os privilégios da nobreza. No dizer de Cunha ( 1986, p. 19), a colonização aparece para “intensificar a acumulação (primitiva) de capital que acabaria por acelerar o processo de formação dos Estados nacionais centralizados e de emergência da economia capitalista, tendo na industrialização seu veio maior”. Como um dos primeiros Estados nacionais centralizados, Portugal desponta neste processo.

Do ponto de vista econômico, prevalecem os interesses e objetivos europeus, com um caráter fortemente mercantil, monopolizado pelo Estado e pela burguesia portugueses, que garantem a exclusividade da exploração diante das demais potências, transformando a colonização em um empreendimento comercial que domina e explora a mão-de-obra indígena e negra para a extração e produção de riquezas naturais e agrícolas para o mercado europeu. Com uma ação avassaladora, os portugueses destroem a comunidade indígena e sua cultura num processo que “tem todos os traços de brutalidade” (SODRÉ, 1989, p.11); extraem, até meados do séc. XVI, o pau-brasil presente em toda a costa brasileira, considerada um monopólio real; destroem a mata atlântica e posteriormente, para garantir a posse da terra e auferir maiores lucros no mercado europeu, instituem o latifúndio baseado na exploração da mão de obra escrava estimulando o lucrativo e cruel tráfico negreiro. Nesse sentido,

Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde, ouro e diamante; depois algodão, e em seguida café, para o mercado europeu(...).Virá o branco europeu para especular, realizar um negócio; investirá seus cabedais e recrutará indígenas ou negros importados. Com tais elementos, articulados numa organização puramente produtora, mercantil, constituirá a colônia brasileira. (...) Este início, cujo caráter manter-se-á dominante através dos séculos da formação brasileira, gravar-se-á profunda e totalmente nas feições e na vida do país. (PRADO JR, 1988, p.23)

Sem dúvida alguma, podemos dizer que o modo como o País foi colonizado marcou e influenciou profundamente o modo de pensar, de ser e de agir do brasileiro. Tanto nas questões econômicas, quanto nas questões políticas, educacionais, culturais e organizacionais da sociedade brasileira.

A filosofia e o seu ensino atravessam o oceano rumo aos trópicos exatamente como parte dessa empresa mercantil portuguesa. Neste momento, a Europa estava passando por profundas ebulições tanto no aspecto socioeconômico quanto no político e cultural. O capitalismo emergente luta para se consolidar e enterrar de vez as velhas estruturas feudais. O movimento da Reforma protestante ganha corpo, cresce a ofensiva da Contra- Reforma, isto é, um movimento de restauração da fé católica que tem como guardião da mesma as monarquias portuguesa e espanhola entrincheiradas em seus respectivos estados nacionais, desejosas em ampliar seus impérios, difundir e expandir o catolicismo.

Neste contexto, Portugal abraça a visão religiosa de mundo defendida pelo Concílio de Trento e acolhe a Companhia de Jesus e os seus “soldados de cristo” que acabam por controlar a Universidade de Coimbra, principal centro de cultura do país, além das universidades de Lisboa e Évora. Nessas mesmas cidades, surgiram os primeiros colégios dos seguidores de Inácio de Loyola, que posteriormente se espalharam por várias outras cidades portuguesas, de outros países europeus e do Brasil. Os colégios e universidades, além da catequese e missões, foram os baluartes usados pelos inacianos na defesa e difusão da fé católica e da respectiva visão de mundo e de homem escolástico-tomista defendida pela Igreja. Desse modo, Portugal se afasta e se exclui do espírito e da dinâmica cultural renascentista que se espalhava e se desenvolvia na Europa, fechando-se num pensamento escolástico, livresco, abstrato, destacando-se aí o tomismo e, em menor grau, o platonismo e outras tendências filosóficas. Esse clima cultural dominante perdurou por dois séculos e meio, até 1773, quando são adotadas as Instituições de Lógica do Geunuense tanto em Portugal quanto no Brasil. É importante ressaltar que esse clima cultural escolástico que caracteriza as filosofias, portuguesa e colonial, marca profundamente, desde o início da colonização do país, os rumos da filosofia e da educação brasileira.

Fundada em 1534 por Inácio de Loyola, um antigo militar espanhol, a Companhia de Jesus, organizada de acordo com os modelos militares, era um eficiente e forte instrumento da igreja católica para enfrentar as críticas reformistas, a expansão do protestantismo; reavivar a fé católica, que andava muito abalada por diversos problemas, escândalos e contradições denunciados principalmente por Lutero e seus seguidores; reconquistar gradualmente boa parte dos países e nações que tinham aderido às doutrinas protestantes e, também, conquistar os não-cristãos e ateus espalhados pelo mundo, aumentando e organizando, de forma sistemática a influência da igreja. A Reforma protestante constituiu-se em um duro golpe aos domínios da Igreja Católica, que necessitava reagir, sob pena de perder cada vez mais adeptos.

Os inacianos, ligados diretamente ao pontífice romano, tinham como principais objetivos,

procurar o proveito das almas, na vida e na doutrina cristã, propagar a fé, pela pública pregação e ministério da palavra de Deus, pelos exercícios espirituais e obras de caridade, e, nomeadamente, ensinar aos meninos e rudes as verdades do cristianismo, e consolar espiritualmente os fiéis no tribunal da confissão; e trate de ter sempre diante dos olhos primeiro a Deus, depois o modo deste seu instituto, que é um caminho para chegar a ele, e (...) não suceda que algum se deixe de levar de um zelo não regulado para a ciência. (LEITE, 1938, p.6).

Desse modo, tratava-se de missionários e educadores que, além de defenderem o cristianismo, buscarem novas almas, zelavam pela primazia da doutrina católica em detrimento do conhecimento científico, estudando, defendendo e divulgando o tomismo, precavendo-se contra qualquer teoria herética e infiel que pudesse pôr em cheque a doutrina oficial e a fé católica. Assim, os jesuítas conquistaram espaço e poder, constituindo um verdadeiro teocracismo “que procurou impor seu espírito ao mundo católico, desde o concílio de Trento” (HOLANDA, 1995, p.37) e teve enormes repercussões no campo político, educacional e científico que acabou refletindo negativamente no desenvolvimento da Metrópole e da Colônia ultramarina. Terminaram por afastar o ensino e a cultura da tradição pragmatista que levou aos descobrimentos marítimos e, também, do movimento científico europeu do século XVI que tinha, como destaque, pensadores como Descartes, Bacon e Galileu. O ensino e o conhecimento tornam-se livrescos, formalísticos, baseados na imitação acrítica das humanidades clássicas e desenraizados do mundo concreto.

Em Portugal, o monopólio do pensamento pela igreja foi tamanho que, a partir de 1564, “os professores de Filosofia são obrigados a jurar, periodicamente, com toda a solenidade, sua obediência à fé católica. A ação fiscalizadora do Santo Ofício, a catequese da Companhia de Jesus e a vigilância do Paço fixaram balizas ao ambiente do pensamento”(VITA, 1969, p.12), reduzindo a liberdade, instituindo a censura, aumentando a intolerância, controlando e mutilando o conteúdo dos livros, limitando o desenvolvimento filosófico e científico e impondo o obscurantismo. A Universidade de Coimbra, controlada pelos Jesuítas e principal centro cultural português, imprime a dinâmica e os limites culturais portugueses e brasileiros por quase duzentos anos. A partir daí, “a cultura filosófica passa a ser mero comentário teológico, fundado, principalmente na renovação da escolástica aristotélica” (CARTOLANO, 1985, p.20).

É nesse “quadro” econômico, político, religioso e cultural que ocorreram a “descoberta”, a colonização e a chegada dos primeiros jesuítas no Brasil. Com isto, além dos aventureiros que para esta terra vieram a partir de 1500, chegaram também, em 1549, com o governador Tomé de Souza os primeiros religiosos da Companhia de Jesus comandados por Manuel da Nóbrega, que “levou consigo mais cinco da Companhia”(LEITE, 1938, p.18).

Se, por um lado, os aventureiros sugaram as riquezas encontradas no Brasil, instauraram um modelo socioeconômico classista, contraditório, patriarcal, dependente da metrópole, miscigenado e fundamentalmente escravocrata (FREYRE, 1961), por outro, a classe dominante tinha o aval dos religiosos. A igreja contribuía “com a sua disciplina modelar, para manter em equilíbrio as relações entre senhores e escravos, enrobustecendo a autoridade daqueles e desenvolvendo nestes o espírito de obediência, de conformidade e de submissão” (AZEVEDO, 1963, p.168). Dessa forma, os capelães e os senhores de engenho se ajudavam mutuamente no processo de colonização e na formação de uma rígida estrutura social fundada no engenho de açúcar e na escravidão negra.

Portanto, os seguidores de Inácio trouxeram ao País, junto com o catolicismo, a educação, marcando o início de sua história na colônia e o suporte ideológico necessário à estruturação e à manutenção da sociedade exploratória, das benesses e dos privilégios da classe dominante, os quais não poderiam se solidificar apenas na força do aparelho repressor do Estado. Era necessário e foi estruturado na colônia um aparelho ideológico fundamentado na Igreja Católica e vinculado diretamente ao Estado.

Este aparelho tinha por função difundir as ideologias legitimadoras da exploração colonial, voltada para o reforço dos integrantes do aparelho repressivo, para a aceitação da dominação metropolitana através do reconhecimento da figura do rei de Portugal e, finalmente, para a ressocialização dos índios, de modo a integrá-los à economia da colônia como força servil de trabalho servil. (CUNHA, 1986, p.23).

Como era estruturado este instrumento de dominação? Quais eram as suas atividades?

A burocracia desse aparelho ideológico era constituída pelo clero secular e pelos religiosos de diversas ordens, destacando-se dentre estas, pelo seu número, organização e relevância, a Companhia de Jesus. Sua atividade educacional principal era a catequese dos índios, enquanto que os padres seculares dedicavam-se quase que exclusivamente, aos serviços religiosos nos latifúndios, como capelães residentes, e nos centros urbanos como párocos. Na retaguarda da atividade missionária, os jesuítas mantinham, nos centros urbanos mais importantes da faixa litorânea, colégios para ensino das primeiras letras, para o ensino secundário e superior. Eles se destinavam a cumprir tripla função: de um lado, formar padres para a atividade missionária; de outro, formar quadros para o aparelho repressivo (oficiais de justiça, da fazenda e da administração); de outro, ainda, ilustrar as classes dominantes no local, fossem os filhos dos proprietários de terra e de minas, fossem os filhos dos mercadores metropolitanos aqui residentes (CUNHA, 1986, p.23).

Através da educação, os inacianos buscavam a conversão dos indígenas à fé católica e fundavam colégios que tiveram papéis relevantes e fundamentais na formação sacerdotal, na criação e na estruturação da educação formal e pública brasileira, no ensino das artes, da literatura, da ciência, da religião, na difusão da ideologia dominante e nos rumos da filosofia no Brasil. Se os seguidores de Inácio não eram os únicos a assumirem a função educadora na colônia, pois, a partir de 1580, também os beneditinos, os carmelitas e os franciscanos educaram aqui, sem dúvida os jesuítas a assumiram como algo primordial. Através da educação, dos colégios, do trabalho sério e disciplinado, como única presença intelectual na colônia, esses missionários tornaram-se, ao lado dos aventureiros, grandes empresários “nessa empresa de especulação comercial que foi a colônia” (COSTA, 1967. p. 40), alicerçada no trabalho do escravo negro.

Se, inicialmente, os padres da Companhia de Jesus vieram ao Brasil com a intenção maior de catequizar os gentios, logo perceberam a necessidade e a utilidade de criar as escolas para a educação das crianças, difusão das idéias dominantes para além do púlpito, e para a formação das futuras elites da nova terra. Perceberam que “era mais fácil e de resultados mais seguros conquistar e formar crianças. Com elas preparavam os homens do futuro e que, já no presente, evangelizariam os pais ou, pelo menos, captar-lhes-iam as simpatias” (LEITE, 1938, p.31).

A união de catequese e instrução das crianças como um meio de evangelizar e, conseqüentemente, dar suporte ideológico à dominação metropolitana, fica clara quando Nóbrega diz: “convidamos os meninos a ler e escrever e conjuntamente lhes ensinamos a doutrina cristã” (LEITE,1938, p.31). Além das escolas destinadas às crianças, criaram os colégios, visando à educação dos adolescentes. Isto é, divulgam, através da catequese destinada aos gentios, aos filhos de escravos e à população pobre em geral e, principalmente, utilizando-se das escolas e dos colégios destinados especialmente aos filhos dos senhores, a língua culta, as idéias e a visão de mundo dos grupos e classes dominantes, facilitando a exploração da mão de obra no processo de extração, produção e transporte de riquezas para a Europa.

Na colônia, o primeiro colégio da companhia de Jesus foi fundado na Bahia em 1550, pelo Pe Manoel da Nóbrega. Se no início era uma escola onde apenas se ensinava a ler e escrever, em 1553 passou a ensinar as humanidades e acabou chegando, em 1572, aos estudos filosóficos (artes) e teológicos podendo, assim, ser considerada “a primeira Faculdade de Filosofia” (LEITE, 1965, p.46) do Brasil. Além desse, foram criados outros colégios que também se destacaram na formação das elites no período colonial. Dentre eles podemos citar o de São Paulo de Piratininga, denominado de Santo Inácio (1554); o do Rio de Janeiro (1567), que se tornou o Real Colégio das Artes e nele, no dizer de Serafim Leite, “o curso de Artes ou Filosofia deu-se pela primeira vez” (LEITE, 1945, p.4) e passou, a partir de 1638, a ensinar filosofia em nível superior; o de São Luís do Maranhão, fundado (1652); o de Belém do Pará (1652), denominado colégio de Santo Alexandre; o de Vitória do Espírito Santo, chamado de Santiago (1654); o de Santos, SP, conhecido como colégio de São Miguel e o de Recife, Pernambuco, em 1678. Os colégios e as escolas da Companhia eram públicos e gratuitos, tanto em Portugal, como no Brasil. Isso ocorria porque eram subsidiadas pelo Estado português, com o objetivo de auxiliar na expansão da fé católica através do ensino e das atividades missionárias entre os gentios, mas acabaram por servirem principalmente às classes dominantes destes países.

Apesar de os cursos de filosofia (artes) desenvolvidos nos colégios localizados na colônia seguirem o mesmo plano pedagógico dos colégios jesuítas e universidades européias, eles não eram reconhecidos e nem tinham o mesmo valor, como os de Évora, para o reino português. Somente após muitas reivindicações e pressões feitas pelas elites coloniais é que “o Estado, finalmente, em 1689, através de uma carta régia, deu estatuto civil aos colégios jesuítas no Brasil”(CUNHA, 1986, p.34) livrando os estudantes de fazerem novos exames para ingressarem nos cursos superiores da Universidade de Coimbra.

Desse modo, foi nas mãos dos “soldados de Cristo”, “os únicos elementos dotados de dimensão intelectual, na colônia” (SODRÉ, 1963, p.121), sob sua orientação pedagógica e filosófica, presente também nos cursos superiores portugueses, particularmente no curso coimbriense, sob a visão de mundo presente nos Comentários à Metafísica de Pedro da Fonseca (1577), que foi criado o primeiro curso de filosofia no Brasil, caracterizado pelos estudos de forma escolástica e de conteúdo aristotélico-tomista. Este ensino e a filosofia nele cursada foram importados de Portugal, transplantados para o Brasil, visando à formação das elites coloniais e dos quadros da Companhia de Jesus, componentes da classe dirigente da colônia. Assim, o escolasticismo está presente na elite intelectual brasileira colonial e na base da cultura filosófica brasileira, desde o seu surgimento no País, enraizou-se e marcou profundamente os rumos da filosofia e de seu ensino nesta terra dos palmares, para além do período colonial, constituindo uma de suas características mais marcantes.

No Brasil colônia, os cursos de Filosofia (Artes) seguiam diretriz humanista clássica basicamente latina, literária, erudita, “desinteressada, sem preocupações utilitárias” (AZEVEDO, 1963, p. 251), portanto, artificial, descolada da realidade social, _ portanto, cursos “alienados” (SODRÉ, 1989, p.16). Para a elite, que tinha na posse das grandes propriedades rurais a sua supremacia, estes cursos serviam como um sinal de distinção de classe, a dos doutores. Uma educação elitista auxiliava na perpetuação da profunda divisão de classes na sociedade colonial.

Sob este enfoque, os cursos de filosofia organizados e ministrados pelos padres da Companhia e os filósofos escolásticos do período colonial, fossem eles jesuítas ou formados por eles, tiveram grande influência e forte marca na formação cultural e social brasileira. No início, os cursos das faculdades de filosofia apareceram mais “como elemento necessário e pressuposto para o futuro professorado da Companhia, que já, no Brasil, se formava e algum ou outro clérigo ou religioso, que acorria às suas aulas” (LEITE, 1949, p.216) quando não possuíam esses cursos em seus seminários de formação interna para a carreira eclesiástica. Mas, com o passar do tempo, acabaram servindo à formação cultural das futuras elites da colônia. Neste sentido, ampliou-se, aos poucos, o número de cursos e de alunos de filosofia no País.

Devido à proliferação de instituições, aos problemas nelas surgidos e à necessidade de uma organização forte e disciplinada, os membros da Companhia de Jesus buscaram estabelecer princípios e critérios que deveriam nortear toda a sua atividade educacional. Desse modo criaram várias Constituições que orientavam suas vidas. “Pode-se dizer que, além de outras fontes, a fonte primária do Ratio Studiorum foram as suas Constituições”(SCHMITZ, 1994, p.20). A organização e o plano de estudos dos jesuítas eram direcionados pelo Ratio Studiorum, que, enquanto código e método pedagógico, passou a direcionar a organização e o plano de estudos dos jesuítas. Após a primeira versão escrita por Jerônimo Nadal em seu De Studiis Societatis Iesu entre 1548 e 1552, e em vários outros ensaios, foi promulgado e publicado em definitivo em 1599, pelo Superior Geral da Companhia, o P. Aquaviva. Trata-se, aqui, menos de uma filosofia da educação e muito mais de uma “regulamentação dos procedimentos e competências a serem adotados nas escolas existentes e por serem criadas na Companhia de Jesus” (SCHIMITZ, 1994, p.83). Entretanto, todo método surge dentro de um contexto histórico e traz consigo, mesmo que implicitamente, uma concepção de filosofia. Para examinar a filosofia presente neste Ratio Studiorum, é tomada aqui, como base, a profunda reflexão desenvolvida por Leonel Franca em sua obra O método pedagógico dos jesuítas. Os estudos, no Brasil, como os demais da Companhia, também foram organizados com base neste plano de estudos.

Tomando como finalidade básica a conquista de almas para o catolicismo, vinculados filosoficamente às concepções aristotélico-tomistas, recrutando os seus professores em diferentes nações “com o critério único da competência e eficiência” (FRANCA, 1952, p.11) e com um plano de estudos sistemático, uniforme e imperativo, os jesuítas organizaram os seus colégios na Europa e no Brasil. Com isto, colaboraram para a difusão cultural, para o desenvolvimento de uma pedagogia baseada nos estudos e na experiência dos próprios inacianos e difundiram e defenderam a ideologia dominante. Deste modo, tiveram um papel destacado na formação da intelectualidade européia e brasileira, principalmente nos séculos XVI e XVII.



Em seus cursos de humanidades, predominou a literatura da antiguidade clássica, rompendo os rumos dos cursos da Idade Média, mas nos seus cursos de artes, a filosofia e a teologia procuraram, vigorosamente, resgatar a decadente escolástica desta época, num movimento de restauração do tomismo. No dizer de Leonel Franca, a Companhia orientou-se “desde o seu nascer para a mais sólida e profunda sistematização escolástica da filosofia (...) que escolheu a S. Tomás para seu Doutor Próprio”(FRANCA, 1952, p.34), introduzindo, definitivamente, a Summa Theológica como livro fundamental do curso.

Seguindo essa perspectiva, o ideal de homem presente nessa educação era o de um ser completo, universal, não vinculado diretamente às particularidades nacionais. Portanto, “a formação do homem perfeito, do bom cristão” (FRANCA, 1952, p.44), salvando-o e colocando-o a serviço da glória de Deus. É com o objetivo de preparar o homem, para viver os desafios de seu tempo, principalmente os religiosos, que os inacianos organizam a atividade educacional.

O Ratio organizou os currículos de seus cursos superiores e secundários de modo claro e detalhado. Assim, o currículo de teologia era completado em quatro anos e nele se estudava Teologia Escolástica (4 anos), Teologia Moral (2 anos), Sagrada Escritura (2 anos) e hebreu. Em 1832 foi incluído, nele, o Direito Canônico e a História Eclesiástica. Já o curso de Filosofia, de influência aristotélica, compreendia três anos e possuía no currículo as disciplinas de Lógica e introdução às ciências, Cosmologia, Psicologia, Física (Geral e Particular), Matemática, Metafísica, Filosofia Moral.

O curso de humanidades, que corresponde hoje à nossa educação básica, seguindo uma rígida disciplina, quase militar, compreendia em seu currículo as classes de Retórica, Humanidades, Gramática Superior, Gramática Média, Gramática Inferior. Como cada classe durava no mínimo um ano e as gramáticas inferior e média ainda podiam ser desmembradas, esse curso durava em torno de sete anos. Nele estudavam-se, ainda, latim e grego como disciplinas dominantes, erudição (história, geografia, mitologia, arqueologia, instituições greco-romanas, etnologia) e noções de retórica em Cícero e em Aristóteles. Estudavam-se, também, clássicos como Demóstenes, Platão, Tulcídites, Homero, Hesíodo, Píndaro e outros autores. Desse modo, o curso tinha como objetivo “a arte acabada da composição oral e escrita. O aluno deve desenvolver todas as suas faculdades, (...) uma expressão perfeita, (...) clara e exata, (...) rica e elegante, (...) poderosa e convincente”(FRANCA, 1952, p.49).

Se a formação religiosa era a alma da educação nos colégios da Companhia, o Ratio Studiorum planejou e estruturou de modo claro e detalhado para “convergir toda a vida escolar do colégio _ administração, currículo, metodologia, distrações _ para um fim único: a educação integral do aluno” (FRANCA, 1952, p.75).

Para definir, com detalhes, a finalidade da educação, Franca comenta que

Ladesma vê na existência das escolas o meio necessário a) de subministrar ao homem a abundância de recursos para as exigências da vida; b) de contribuir para a sábia elaboração das leis e boa administração da cousa pública; c) de dar à própria natureza racional do homem todo o seu esplendor e perfeição; d) de assegurar a defesa, o ensino e a difusão da religião; e) e assim, com maior facilidade e segurança, encaminhar os homens ao seu último destino” (FRANCA,1952, p.78).

Sob esse enfoque, baseada na fé e nos valores cristãos, a educação passa a ter finalidades amplas em diversos aspectos da vida pessoal e social, garantindo, assim, os ideais da ortodoxia católica. Para atingir os seus objetivos, o Ratio busca, na vida escolar, o desenvolvimento em duas fases: “enquanto os cursos universitários visam mais diretamente a formação profissional, o secundário tem uma finalidade acentuadamente humanista” (FRANCA, 1952, p. 79).

Se, por um lado, nos cursos universitários, o ensino é de “modo científico”, “analítico”, “impessoal” e “teórico”, visando “conhecer, arquivar fatos, inferir leis” e “na sua fase superior de investigação e pesquisa, aguça as faculdades de análise e raciocínio” (FRANCA, 1952, p. 82-83). Por outro lado, nos cursos de humanidades já visavam mais a imaginação, a inteligência, a criatividade, “o raciocínio seguro, o critério na apreciação dos homens, a capacidade de expressão exata, bela e enérgica de uma alma harmoniosamente desenvolvida representam aquisições humanas de valor perene” (FRANCA, 1952, p.83-84). Esses dois níveis de ensino demonstram um curso mais objetivo, científico, profissional, enquanto o outro tem um caráter mais artístico e essencialmente prático nas relações religiosas, sociais e políticas.

Do ponto de vista metodológico, os seguidores de Inácio defendiam uma educação ativa que, mais que o currículo, é a marca característica do Ratio Studiorum. Numa pedagogia inaciana, na “aula, assim transformada em ambiente organizado, vivo e agradável, o mestre tem como missão (...) o apelar sempre para a atividade do jovem” (FRANCA, 1952, p.84-85), não bastando, a ele, entender e memorizar, mas ser criativo na expressão das próprias idéias e experiências.

Para que essa pedagogia ativa se viabilizasse, os jesuítas primaram pela sólida formação cristã, moral, intelectual e pedagógica dos seus professores. Nesse sentido, buscou-se desde o recolhimento na vida interior até o estudo das letras clássicas (latim, grego, hebreu) e da filosofia. Para ministrar aulas no curso superior, precisavam, ainda, de terem cursado quatro anos de teologia e mais dois anos de especialização na disciplina que fossem lecionar. Assim, pondera Leonel Franca:

Uma sólida preparação filosófica de, pelo menos, três anos, pareceu-lhes preparação indispensável ao exercício fecundo do ensino. A filosofia dava aos futuros mestres uma visão orgânica da vida, amadurecia-lhes o espírito, e, com mais três anos de estudo, também a experiência da vida. (...) em princípio, jovens religiosos não se aplicarão ao magistério senão terminado o curso de filosofia (FRANCA, 1952, p. 89-90).

Portanto, a filosofia era considerada, pelos jesuítas, um conhecimento básico na formação do homem, mas esta estava subordinada e a serviço da teologia. Era, portanto, a filosofia da Escola, particularmente, da escola única, totalmente desvinculada da realidade circundante. Cabia ao professor de filosofia apenas os estudos e os comentários seletos das obras de Aristóteles, enquanto preparação para o estudo e a compreensão da Suma Teológica de São Tomás de Aquino, a única obra, além da Bíblia e das resoluções do Concílio de Trento, que era trabalhada no curso de Teologia. Além disso, não havia nenhuma abertura na livre interpretação do pensamento aristotélico, cultivando, por conseqüência, um estudo rígido, fechado, sectário, formalístico e escolástico na perspectiva do tomismo puro, a serviço da fé católica. No dizer de Antonio José Saraiva, no segundo volume da História da Cultura em Portugal, citado por Antonio PAIM:

Nas coisas de alguma importância _ diz a 2a regra _ não se afaste (o professor) de Aristóteles, a não ser quando encontrar alguma coisa alheia à doutrina que todas as academias aprovam, principalmente se for contrária à fé ortodoxa; e se houver em contrário desta algumas afirmações de Aristóteles ou de outro filósofo, esforce-se por as refutar atendendo-se ao Concílio de Latrão (PAIM, 1967, p. 29).

Desse modo, influenciados pelo espírito do Renascimento e pelas necessidades da Igreja católica, na sua luta contra o protestantismo, numa educação de marca escolástica, os jesuítas buscaram a formação integral do homem, priorizando a salvação da alma através do catolicismo. Assim, conjugaram “Filosofia militante e Teologia” (VITA, 1969, p.27) com objetivos claramente catequéticos.

Se, por um lado, pelo vínculo com a classe política dirigente, com as suas escolas, com seus colégios e pela catequese, até 1759, os inacianos contribuíram, significativamente, para a construção da cultura brasileira, particularmente pela difusão da língua portuguesa e da solidificação do catolicismo no País. Por outro lado, eles foram os principais responsáveis pela elaboração e difusão da ideologia dominante que sustentava a sociedade de classes, baseada na exploração do trabalho escravo negro, pela formação da elite e dos intelectuais brasileiros entre os séculos XVI, XVII até meados do século XVIII . Essa formação, no que se refere à filosofia, trouxe consigo as marcas da escolástica aristotélica-tomista, cravando uma visão escolástica no estudo e na compreensão da realidade social brasileira, no sentido de que priorizam a instituição escolar, isto é, a escola teórica à qual serve ou pertence, em detrimento a análise da realidade histórica concreta. entranhou no espírito intelectual dos filósofos e educadores brasileiros, influenciando, até o momento, os rumos do ensino de filosofia no país, que, em muitos casos, permanecem desvinculados da realidade histórica concreta da sociedade, sendo coerente apenas com a Escola de pensamento na qual está vinculada.



REFERÊNCIAS
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CARTOLANO, Maria Teresa Penteado. Filosofia no ensino de 2o.grau. São Paulo: Autores Associados, 1985. (Coleção educação contemporânea.).
CUNHA, L. A. A. Universidade Temporã. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1986.
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FREIRE, Gilberto. Casa grande e senzala. 10ed., Rio de Janeiro: José Olímpio,1961.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26.ed., São Paulo: Companhia das Letras,1995.
LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938 (tomos I e II).
LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto nocional do livro 1945 (tomos V e VI).
LEITE, Serafim. Suma histórica da companhia de Jesus no Brasil. Lisboa: 1965: resumo da “História”.
PAIM, Antonio. História das idéias filosóficas no Brasil. São Paulo: Grijaldo/USP, 1967.
PRADO JR., Caio. História econômica do Brasil. 36ed., São Paulo: Brasiliense, 1988.
SCHMITZ, Egídio. Os Jesuítas e a Educação: a filosofia educacional da Companhia de Jesus. São Leopoldo, RS.: Ed. UNISINOS, 1994.
SODRÉ, Nelson Verneck. Síntese de história da cultura brasileira. São Paulo. Difel, 1989.
VITA, L. Washington. Panorama da filosofia no Brasil. Porto Alegre: Globo,1969




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