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O senhor embaixador


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16
Gabriel Heliodoro conseguira levar Rosalía para uma das saletas que ficavam no fundo.da sala oriental da mansão e, uma vez lá dentro, acendeu a luz, fechou a porta a chave, estreitou a amante contra o peito e aplicou seus lábios contra os dela à maneira de ventosa, chupando-os com tamanha fúria que a rapariga soltou um gemido de desconforto.

— Ai! — queixou-se ela, depois que conseguiu libertar a cabeça e atirá-la para trás. — Tu me tiras o fôlego. . .

Encostou a face no peito dele e assim ficou, ofegante, ouvindo um bater de coração que não sabia ao certo se era o seu, o dele ou o de ambos. Gabriel Heliodoro não afrouxava o abraço. Beijava agora os cabelos dela, passava-lhe as mãos pelas costas, pelos seios, pelas nádegas, e ela sentia uma turgidez latejante contra seu ventre. Veio-lhe à mente a imagem dum velho médico de sua família, um homúnculo amarelo, calvo e descarnado, metido numa espécie de bata branca. E ele lhe dizia, com um estetoscópio na mão: "Você é uma vagotônica e está fadada a sentir todas as emoções da vida, tanto as boas como as más, de maneira mais intensa do que as outras pessoas. Mas não se preocupe. Essa coisa nem chega a ser uma doença. . ." Se um verso, uma melodia, uma cena de romance, de filme ou de peça de teatro a comoviam, ela sentia essa emoção na forma dum arrepio que lhe ia da cabeça aos pés. Em certos dias tinha a sensação de que partes de seu corpo estavam como que anestesiadas. Agora tinha a certeza de que, ao fim das fortes sensações daquela noite, ela se sentiria como se tivesse sido espancada — espancada não somente na carne como também no cérebro.

— Quero que passes esta noite comigo — murmurou Gabriel Heliodoro ao seu ouvido, mordiscando-lhe o lóbulo da orelha.

— Mas como? Que é que vou dizer ao Pancho?

— O que aquiseres.

— Impossível! Anteontem à noite ele se meteu no meu quarto e recusou sair. Me obrigou a ir para a cama com ele à força...

— E vocês dormiram juntos? Ela hesitou por um instante.

— Ele ameaçou me bater. . . Não tive outro remédio.

— Cachorro!

— Esqueces que ele é meu marido.

— Sim, mas eu, eu sou o teu homem.

Rosalía continuava com a cabeça aninhada no peito do amante.

— Não agüento mais esta situação — disse baixinho. — Minha vida é um inferno. Quando estamos em casa, sentados na sala, um diante do outro (o que raramente acontece), ele fica em silêncio, me olhando com aqueles olhos de cachorro, tristes, cheios de mágoa. . . Suspira, solta seus passarinhos de papel, torna a me olhar, parece que quer me dizer alguma coisa mas não tem coragem. Quando chega a hora de dormir, me suplica que não feche a chave a porta do quarto. — Ela fez uma pausa, ajeitou com dedos distraídos o lenço no bolso superior do casaco de Gabriel Heliodoro. — De vez em quando lhe vem um acesso de fúria, ameaça me matar, se matar, fazer um escândalo, atirar-se da janela do apartamento, afogar-se no rio. . . Hoje, quando estávamos nos preparando para vir para cá, de repente ele desatou o pranto. Nem tive coragem de lhe perguntar por que chorava. Depois ficou distraído a desenhar coisas com seus lápis de cor, como se eu não existisse. .. Toma drogas de noite para dormir e de manhã engole comprimidos de outro tipo para ficar desperto. Onde é que vamos todos parar? Onde?

Como única resposta, Gabriel Heliodoro tornou a beijar os lábios da amante, desta vez com mais ternura que sensualidade.

— Ficas ou não?

— Mas como?

— Mando o Ugarte inventar um trabalho especial e urgente na chancelaria, para prender o Vivanco até ao raiar do dia. Diremos que vais com Ninfa para a casa dela.

— Mas é uma loucura!

Ele a libertou do abraço. Ela endireitou o busto. Ficaram ambos frente a frente, silenciosos. Rosalía deixou então escapar as palavras que pareciam trancar-lhe a garganta:

— Pensas que não vi teus olhos para a americana?

— Deus me deu olhos para olhar.

— Estás encantado com ela, confessa.

— Nenhum homem normal pode ficar indiferente à beleza duma mulher.

Queres dormir com a gringa, não? Gabriel Heliodoro sorriu.

— E tu. . . queres ouvir uma resposta de verdade ou de mentira?

— De verdade.

— Pois fica então sabendo que quero e vou dormir com ela. Mas que nem por isso deixo de te desejar como um louco, Rosalía, porque tu é que és a minha mulher legítima!

A imagem de Francisquita relampagueou-lhe na mente: às nove da manhã, tomando seu chá com torradas na cama, uma touca de renda na cabeça, uma mananita sobre os ombros. . .

Rosalía voltou as costas para o amante, aproximou-se do espelho e ficou diante dele a arranjar o cabelo, a empoar o rosto e retocar os lábios com o batom. Gabriel Heliodoro mirava-a, com o desejo a pulsar-lhe em todo o corpo. Rosalía era a sua fêmea, mas ele desejava também a outra, a loura com ar de deusa. Não que a achasse mais apetecível que a morena, nunca! Havia, porém, em Francês Andersen, um ar de orgulho que ele desejava quebrar, uma certa limpeza que ele desejava sujar. Descobria naquela mulher alva e radiosa, a despeito de suas muitas prováveis aventuras sexuais, uma certa virgindade que ele queria romper.

Rosalía, que via a imagem do embaixador refletida no espelho, disse-lhe:

— Passa o lenço nos teus lábios, que estão manchados de batom. Limpa também tuas lapelas onde encostei minha cara. . .

Gabriel Heliodoro sorriu:

— Todas estas manchas são condecorações. Os outros homens me invejarão quando as virem.

Rosalía fez meia volta, aproximou-se dele e, com seu lencinho, limpou-lhe os lábios, e depois passou de leve os dedos pelas lapelas, dizendo:

— Vamos voltar ao salão.

— Sim, meu amor.

Junto da porta, enquanto dava volta à chave, ele murmurou :

— Ficas ou não?

— Por que não convidas a americana?

— O teu ciúme me excita ainda mais! Fica. Prometo que será a melhor noite da tua vida.

— Não sei, não sei. Por amor de Deus, me deixa pensar! Ela abriu a bolsa, tirou de dentro dela um pequeno frasco de belergal, abriu-o, despejou na palma da mão dois daqueles comprimidos, meteu-os na boca e engoliu-os.

— Quem sai primeiro? — perguntou.

— Sairemos juntos, minha vida.

Gabriel Heliodoro abriu a porta, tomou do braço da amante e conduziu-a na direção do salão de festas. A meio caminho, Rosalía decidiu meter-se no ladies' room. Precisava de alguns minutos para recompor as idéias em sossego. O embaixador entrou sozinho no salão.
A primeira pessoa que encontrou foi Bill Godkin, que fumava placidamente seu cachimbo, encostado solitário na ombreira da porta, observando a animação crescente dos convidados.

— Ó Gringo Rubio! — exclamou o embaixador, passando o braço por cima dos ombros do jornalista. — Hombre, por que não veio ainda me visitar? Faz mais de uma semana que estou em Washington. . . Estava esperando convite? Mas você é de casa. . . Pensa que me esqueci daquele nosso memorável encontro na Sierra de Ia Calavera, em 1925? Ó Dr. Molina! — exclamou, avistando o ministro conselheiro, e convidando-o a aproximar-se.

— Este salafrário — sorriu o embaixador, olhando para Godkin — andou escrevendo coisas contra nosso Governo. Olhe, Bill, o Generalíssimo está sentido com a Amalpress. Afinal de contas, vocês têm sido muito injustos e ingratos com ele.

Bill Godkin, que já esperava aquele reproche, limitou-se a sorrir e a cachimbar.

— Você precisa visitar o Sacramento — prosseguiu o embaixador. — Vá ver as obras que El Libertador tem realizado. Considere-se convidado oficialmente. Dr. Molina, formalizaremos depois o convite. Mas vá, Bill. Quando quiser e como quiser. Todas as despesas são por nossa conta. Terá a oportunidade de ver as casas novas que o Governo está construindo para os operários, as estradas que foram inauguradas nestes últimos três anos. . . Encontrará o Congresso funcionando normalmente, a imprensa livre e o povo feliz. Como é que vocês podem chamar meu compadre de ditador, hem? Como é?

Avistando Titito Villalba, que saía da sala de jantar, de braço dado com Francês Andersen, Gabriel Heliodoro esqueceu imediatamente o jornalista e precipitou-se na direção do par, pensando, meio irritado: "Será possível que ela só gosta de frescos?"

O Dr. Molina trocou duas palavras com Godkin mas foi logo arrebatado por um cavalheiro alto, todo vestido de negro, com colete afogado e colarinho de clérigo. Depois que os dois homens se afastaram, Godkin identificou o sacerdote. Naturalmente! Aquele padre mundano era figura obrigatória nas festas das embaixadas latino-americanas. Autor duma biografia laudatória do Benefactor {Trujillo: um Retrato), era famoso por seu fraco por ditadores e comendas. Havia sido já condecorado por Pérez Jiménez, Rojas Pinilla, Anastasio Somoza e Rafael Leonidas Trujillo. Tudo indicava que seu último artigo sobre Juventino Carrera lhe poderia valer pelo menos a comenda da Ordem do Puma de Prata.

De novo a sós, Godkin reacendeu o cachimbo e perguntou ao seu fantasma predileto: "Qual é a explicação, Ruth? Qual é a resposta?" A imagem da mulher visitou-lhe a mente tal como ele a vira nos últimos dias de sua vida, magra e lívida, a acabar-se aos poucos em cima duma cama. Antes de expirar, Ruth lhe pedira que continuasse na "busca". Um dia talvez lhe fosse dado entender a linguagem de Deus. . . dispor numa mensagem reveladora aquelas lindas "palavras" que o Criador espalhara no Universo e que estavam na natureza, representadas pelas cores do céu, a grandeza dos astros, as corolas das flores, o riso das crianças, a pureza dos lagos, a plumagem dos pássaros, a força e o mistério do mar e, acima de tudo, a capacidade que o Criador dera ao homem de amar e produzir beleza.. . E no momento em que Ruth, com sua voz débil, lhe dizia essas coisas, passara-lhe maldosamente pela cabeça (ah! como lhe doía isso agora!) a idéia de lhe perguntar que papel teriam na sintaxe divina "palavras" como o câncer, a lepra, a guerra, a capacidade do homem de odiar e destruir seus semelhantes. . .

Agora, Bill Godkin tinha ali no salão daquela Embaixada centenas de palavras soltas, e em vão tentava dispô-las de maneira a que fizessem sentido numa mensagem ou pelo menos numa frase, por mais tola que fosse.

O padre mundano, durante alguns minutos, dissertou na frente de Jorge Molina sobre a personalidade de Juventino Carrera, que ele tivera o privilégio de conhecer pessoalmente por ocasião da visita que fizera ao Sacramento, havia menos de um ano. Molina não lhe prestava muita atenção. Limitava-se a sacudir afirmativamente a cabeça, numa crescente impaciência. Sentiu um alívio quando o sacerdote o deixou para ir ao encontro do embaixador da Colômbia.

Voltou então à sua solitude, à sua esquisitamente agradável reclusão em meio daquelas centenas de pessoas. Sentia uma certa volúpia em vaguear por entre os convidados, sem amar ninguém, sem se interessar por ninguém, sem pertencer a ninguém, limitando-se a ouvir aqui e ali farrapos de diálogos em muitas línguas. Quanta futilidade! Quanta insinceridade! Achava hipócrita o sorriso de bom-moço do embaixador da União Soviética, que havia pouco anunciava ao embaixador da França, no seu inglês fluente e com seu sorriso de rotariano, que a Rússia pretendia colocar dois ou mais astronautas na Lua antes de 1970. Não tinha também a menor simpatia pela perigosa inocência daqueles funcionários do Departamento de Estado, encarregados do Bureau Latino-Americano, os famosos "especialistas" tão preocupados com estatísticas, aqueles homenzarrões de porte atlético e faces inexpressivas, que pensavam poder relegar às máquinas eletrônicas a tarefa de raciocinar.

Seus compatriotas também o desgostavam e às vezes embaraçavam. Fazia poucos minutos entreouvira numa daquelas salas menores um diálogo cômico entre duas jovens sacramentenhas. Estavam ambas diante dum desenho original de Van Gogh, que pendia numa das paredes.

— Quem pintou isso? — perguntou uma delas.

A outra aproximou-se do quadro, olhou a assinatura e disse: "Ban Gô". A primeira repetiu: "Bangô?" E a amiga: "Aquele pintor que se cortou a orelha. Não viste a história dele no cine?"

Molina sentia as costas doloridas. Veio-lhe o desejo de deitar-se nas tábuas duras do chão, para fazer passar a dor. Pensou então na sua cama. Consultou o relógio de pulso. Quase oito e meia. . . Olhou em torno e não viu nenhum sinal de esmorecimento no entusiasmo daquela gente que comia, bebia, ria, conversava. . .

Pensou em Gabriel Heliodoro, que havia pouco ele vira escapulir-se do salão, levando pelo braço a amante. Indignava-se de ver, como embaixador de seu país nos Estados Unidos, um homem daquele estofo moral e intelectual. Era um patife e um primário. Só tinha estampa e audácia. Onde estaria o Presidente Carrera com a cabeça quando decidira nomear seu compadre para aquele posto? Os manes de Don Àlfonso Bustamante deviam estar agora a revolver-se na sepultura.

Avistou o embaixador de Gana a dois passos de onde estava. O esplêndido negro lhe sorria. Molina limitou-se a inclinar a cabeça e continuou seu caminho. Não tinha preconceitos raciais como os americanos, mas não morria de amores pelos negros. Irritava-se de ver ali naquela festa os representantes das novas repúblicas africanas. Repúblicas? Não passavam de conglomerados de tribos semibárbaras ou completamente selvagens. Muita gente agora repetia com orgulho a expressão "fim do colonialismo". Ah! O mundo ainda haveria de sentir a nostalgia do tempo em que o sol nunca se punha sobre o Império Britânico! E os culpados indiretos daquela ridícula proliferação de Estados africanos eram os intelectuais da grei de Leonardo Gris, os famosos liberais que viviam a falar e escrever sobre liberdade e autodeterminação, como se pudesse haver liberdade onde não existia senso de responsabilidade e nem mesmo senso comum, e como se fosse possível autodeterminarem-se aquelas pseudonações formadas (ou deformadas) por tribos que se devoravam umas às outras não só no sentido figurado do verbo como também às vezes até no próprio.

Ao voltar-se bruscamente para um lado, para ver de onde partia uma risada estentórea, Molina sentiu uma dor lancinante, risco de fogo que lhe correu da nuca à ponta dos dedos da mão esquerda. Ficou por alguns segundos, de lábios apertados, a gemer baixinho. Depois, aliviado, concluiu que o remédio agora era sentar-se numa cadeira de respaldo reto e duro. Encaminhou-se para a biblioteca, esperando em Deus (Deus?) que ela estivesse deserta. Apanharia um livro qualquer e ficaria ali a ler até o fim daquela insuportável festa.


Por alguns instantes, o cônsul acompanhou o ministro conselheiro com o olhar. Não gostava do Dr. Molina mas respeitava-o. Dele, Vivanco, ninguém gostava — refletiu, suspirando. A ele ninguém respeitava. Nem ele próprio. Era um corno. Um corno manso. Um covarde. Todo o mundo sabia que sua mulher dormia com o embaixador. Sentia isso no jeito como o olhavam. Uns revelaram piedade no olhar. Outros ironia. Muitos, desprezo.

Voltou-se e viu a própria imagem no espelho veneziano e se disse mentalmente mais uma série de insultos. Sentiu dentro de si mesmo três pessoas diferentes: o insultador, cheio duma raiva frenética, o insultado, pobre homem triste e deprimido, e um terceiro eu que censurava o insultador e compadecia-se do humilhado. Mas não o amava.

Voltou bruscamente as costas para o espelho. O que lhe dava uma certa expressão de debilidade à fisionomia — concluiu — era a quase ausência de queixo. Limpou os óculos com o lenço, com meticulosa lentidão, e depois, repondo-os no nariz, ajeitando-lhes as hastes entre as orelhas e a cabeça, saiu a andar pelo salão, sem destino certo. Onde estaria Rosalía? Onde o embaixador? Tratava de não perdê-los de vista e ao mesmo tempo não queria que ninguém percebesse que ele os vigiava. Quando desconfiava de que alguém o descobrira naquela ânsia de localizar os amantes — disfarçava, metia a mão no bolso, acariciava o cilindro de papel, punha-se a assobiar baixinho.

O interesse que Gabriel Heliodoro revelara aquela noite pela linda desconhecida que Titito lhe apresentara, causara a Pancho Vivanco uma certa irritação que ele próprio não sabia explicar com clareza. Não seria uma solução se o embaixador se apaixonasse pela americana e esquecesse Rosalía? Haveria então uma esperança de que ele, Vivanco, pudesse recuperar a mulher. Pediria sua transferência para qualquer outra embaixada ou consulado e poderia então começar com a esposa uma nova vida. O estranho, porém, era que ele se sentira quase insultado pessoalmente ao perceber que Gabriel Heliodoro devorava a loura com os olhos, cercando-a de atenções especiais.

Viu mais tarde Rosalía voltar ao salão. Notou algo de estranho nos olhos dela. Sim, sua mulher chorara. . . Ele conhecia aquela expressão. . . Que teria acontecido nos longos minutos em que ela e o amante haviam permanecido ausentes do salão? Teriam subido para o quarto de dormir? E ali estava ela agora, a olhar dum lado para outro, certamente a procurar seu macho. Rameira! Mulher de beco! As palavras lhe explodiam na mente, mas sem força, sem ecos.

Lembrou-se do que acontecera havia duas noites. Quase tivera de bater em Rosalía para obrigá-la a ir para a cama com ele. Ela se entregara com lágrimas nos olhos, mas isso, longe de o deixar inibido, aguçara-lhe o desejo. "Por favor, Pancho, apaga a luz." — "Não, querida, quero ver o teu rosto." — "Por amor de Deus, anda depressa, que estou morta de cansada." Ele tivera então seu momento de coragem: "Dormiste hoje com o embaixador, não?" — "Pancho, me deixa em paz!" — "Dormiste ou não dormiste?" — Ela cerrara os olhos, num desalento. "Se sabes, por que perguntas?" E então ele começou a despi-la com uma lentidão voluptuosa. Rosalía continuava imóvel, de olhos fechados. E ele lhe lambeu o corpo todo, ávido, açodado, ofegante. Exasperava-o a indiferença dela. Estava com um louco. "Gostas dele porque ele é um gigante, não?" — Ela continuava em silêncio. E ele lhe dava mordidas rápidas no pescoço, nos seios, nas coxas, no púbis, nos joelhos, nas pernas. E cheirava-a, procurando naquele corpo o cheiro de Gabriel Heliodoro. "Ele te faz gozar muito, não faz?" Lágrimas continuavam a rolar pelas faces dela, que mordia os lábios para não rebentar em pranto. Por fim, trêmulo, ele a cobriu com sua nudez branca e flácida, penetrou-a com fúria, e no momento do orgasmo, sentindo na cama a presença do outro homem, teve um gozo tão agudo que se pôs a gemer, como que ferido. Rosalía empurrou-o, saltou da cama, correu para o quarto de banho e fechou a porta a chave. Ele ficou deitado de bruços, abraçado ao travesseiro, e de súbito rompeu a chorar como uma criança.




17
Glenda agora estava de pé, recostada no vargueno e Pablo caminhava dum lado para outro na frente do sofá, a uns cinco metros de distância da interlocutora. Discutiam ainda a personalidade de Juventino Carrera. Não tinha sido ele um bom Presidente? — perguntava ela. Não convocara imediatamente eleições para a Constituinte? Não se aprovara em menos de seis meses uma nova Constituição para o país?

Enquanto ela falava, Pablo, sem cessar seu vaivém, as mãos nos bolsos, sacudia afirmativamente a cabeça.

— Sim, e a Constituinte elegeu o "Generalíssimo" Presidente da República por um período de cinco anos.

— Essa não foi uma época de relativa tranqüilidade para o país, com a imprensa livre, o Congresso funcionando sem pressões?

Pablo encolheu os ombros.

— Imprensa livre? Em que país do mundo a imprensa é realmente livre? Nos regimes totalitários ela é diretamente controlada pelo Governo. Nos chamados democráticos, ela é indiretamente dirigida pelos grupos econômicos que, em maior ou menor grau, pressionam também o Congresso.

— Você é irritante com essa sua mania marxista de influências secretas.

Veio-lhe um ímpeto de perguntar a Pablo por que, então, servia ele um Governo em cuja sinceridade e pureza não acreditava. Mas refreou-se.

Achou que o secretário da Embaixada do Sacramento estava já meio embriagado. Falava quase sem cessar, compulsiva-mente, como que procurando transformar sua própria narrativa numa cortina atrás da qual pudesse esconder-se. .. Mas de que? De quem? E por quê?

— Pablo, pare de caminhar!

— Está bem. Então venha sentar-se perto de mim. Não tenha medo.

— Por que havia de ter medo?

Ortega sentou-se no sofá e Glenda fez o mesmo. Ficaram, porém, sem estabelecer o menor contato físico. Quanto à distância psicológica que os separava — refletiu ele —, a situação não lhe parecia nada melhor. Se ele tentasse beijá-la. . . como reagiria ela? Claro, tomaria aquilo como uma tentativa de estupro. . . Mantinha as mãos enlaçadas no regaço, naturalmente para impedir que ele as tomasse nas suas.

Ela olhou o relógio.

— Faz quase uma hora que estamos aqui a conversar. Você não devia voltar para sua festa?

— Devia mas não quero. Agora é que chegamos à parte mais interessante (pelo menos para mim) da História do Sacramento.

Por alguns segundos ele olhou com o rabo dos olhos para as pernas bem torneadas de Glenda, para a linha arfante e tenra de seus seios.

— Nas primeiras semanas de seu Governo — disse —, Juventino Carrera recebeu em audiência os diretores da Sugar Emporium e os da Uniplanco e estabeleceu com eles um modus vivendi que, na minha opinião, explica pelo menos o princípio da fabulosa fortuna que El Libertador hoje possui.

Glenda olhava para Pablo obliquamente, com uma expressão de incredulidade. '

— Dentro de uma semana seu Governo foi reconhecido pelo dos Estados Unidos, que mandou para Cerro Hermoso um novo embaixador, pois o anterior era comensal de Don Antônio Maria Chamorro, embora nunca tivesse notado, parece, que muitas vezes ao sentar-se à mesa do Chacal ele tivera a seu lado figuras ilustres como Erasmo de Roterdão, Leonardo da Vinci, Napoleão Bonaparte. ..

Glenda voltou vivamente a cabeça para o diplomata.

— Você nunca é capaz de falar sério?

— Nunca, porque no fundo sou um homem triste.

O álcool soltara-lhe a língua — sentia ele — mas conservava-o lúcido.

— Escute, Glenda — continuou, cruzando as pernas e acendendo outro cigarro. — No fim do primeiro qüinqüênio, como era de esperar, o Generalíssimo candidatou-se à reeleição. Surgiu um vago candidato oposicionista, que conseguiu uma votação irrisória. É que a máquina eleitoral governista estava já montada e funcionando. O Coronel Hugo Ugarte, aquele sujeito indiático fantasiado de general que você deve ter visto no salão de festas, organizou uma das polícias mais eficientes, cruéis e implacáveis de toda a zona do Caribe. Começou então o período de maior roubalheira da nossa História, tudo isso à sombra da Constituição, do Congresso e duma fachada democrática. Nosso Gabriel Heliodoro Alvarado, companheiro de guerrilha de Carrera, exerceu, apesar de muito jovem, papel importantíssimo no Governo. Era um misto de capanga, moço-de-recados, public relations man e ministro sem pasta. Uma espécie de ponte entre Carrera e os interessados em fazer negócios ou, melhor, negociatas com o poder público. Em suma, um traficante de influências. Vivo, insinuante, audacioso, aparecia sempre como testa-de-ferro da maioria dessas transações secretas: compras, vendas, concessões, isenções de impostos, soluções de dificuldades. . . Gordas comissões entravam nos bolsos do Libertador e seus cumpinchas... Don Gabriel Heliodoro prosperava economicamente, ao mesmo tempo que subia na escala social.

Foi a princípio repelido pela "aristocracia", mas finalmente, com a proteção não só do Presidente como também do Arcebispo Primaz, começou a freqüentar as altas rodas e acabou casando com uma herdeira rica, moça feia e alguns anos mais velha do que ele. Esse casamento lhe valeu uma alta posição no Banco das Antilhas, do qual ele é hoje o diretor principal, e uma certa respeitabilidade, pelo menos de superfície.

Que era que causava agora a náusea que ela sentia? — perguntava Glenda a si mesma. — Os temperos do pastel sacramentenho ou as sórdidas histórias que Pablo lhe contava com tanta naturalidade? Por que posava ele de cínico se não era cínico? Por que perdia tanto tempo com ela? Por que insistia em degradar o Governo que servia?

— Foi durante a segunda gestão de Carrera que apareceram os cassinos e cabarés que tornaram Puerto Esmeralda um dos centros turísticos mais famosos das Américas, a única zona do país onde o jogo era livremente permitido. Bordéis proliferavam na bela cidade. Sabia-se que Ugarte era co-proprietário das máquinas de caça-níqueis instaladas em restaurantes e cabarés de Puerto Esmeralda, e que recebia também porcentagem dos donos ou donas dos prostíbulos. Estou certo de que boa parte dessas comissões acabavam e ainda acabam nas mãos do Libertador.

— Não é possível!

— Ora, Glenda, esses ditadores latino-americanos são todos feitos do mesmo estofo. Mas ouça esta história edificante. Aproximava-se o fim do segundo mandato do Generalíssimo. Existia na nossa Constituição uma cláusula que proibia sua segunda reeleição. Mas Carrera tomara gosto pelo poder. Não só isso: sua "fábrica" de dinheiro seria destruída se um adversário fosse eleito. Um movimento de oposição esboçava-se no Congresso. O povo estava descontente. Havia inquietação nos meios intelectuais, principalmente na Universidade. Alguns jornais começaram a atacar o Governo. É evidente que Carrera devia ter pensado em impor ao eleitorado um candidato seu que, uma vez eleito, ele poderia manejar como um fantoche. Mas concluiu, parece, que seria perigoso correr o risco duma eleição normal. E que se faz numa situação dessas, minha prezada senhorita? Está claro que se inventa um perigo, se fabrica uma conspiração que torne necessárias medidas de exceção. E qual é a desculpa óbvia? A iminência dum golpe comunista.

— Mas esse perigo existiu realmente em várias repúblicas latino-americanas, em 1935. No Brasil houve até um levante, se não me engano...

Pablo ergueu a mão e deixou-a cair num gesto de quem corta um fio invisível.

— Deixemos o Brasil em paz. Nosso chefe de Polícia e seus especialistas prepararam todos os documentos necessários para provar a existência duma conspiração, inspirada e financiada por Moscou, para subverter a "ordem democrática sacramentenha". Bombas foram jogadas em lugares públicos pelos próprios agentes da polícia secreta de Ugarte. Encenou-se até um atentado (naturalmente frustrado) contra a vida do Libertador. A burguesia estava assustada. Os diretores e gerentes da Uniplanco e da Sugar Emporium começaram a receber cartas anônimas contendo ameaças. E assim, uma bela manhã, o país amanheceu sob um golpe de Estado. Carrera fechara o Congresso, decretara estado de sítio e instituíra a ditadura, dando ao seu gesto o título de Movimento de Salvação Nacional.

— Quer dizer então que não houve mesmo nenhuma conspiração?

— Nenhuma. Os comunistas que existiam no Sacramento eram uns gatos-pingados, em geral intelectuais e estudantes, em sua maioria marxistas teóricos.

Glenda relutava ainda em aceitar aquelas histórias.

— Como é que você ficou sabendo desse "plano" de golpe de Estado?

— Parte dele foi tramada na minha própria casa.

— Na sua casa? — exclamou ela. — É incrível!

— Eu também achei incrível. Tinha dezesseis anos. Vi entrar uma noite na mansão dos Ortega y Murat uns homens solenes, com ares misteriosos: o senhor Arcebispo, alguns amigos de meu pai, latifundiários como ele, diretores de jornais conservadores, oficiais do Exército. . . o próprio Ugarte. Depois que o golpe triunfou, o assunto foi comentado claramente à nossa mesa, e minha mãe, exultante, me contou os pormenores da elaboração do plano do Movimento.

— Quer dizer então que seu pai. . .

— Meu pai, Glenda, é todo um capítulo especial no qual não estou disposto a entrar agora. Talvez um dia. . . É um homem profundamente religioso e de boa fé. Devo, em sã justiça, dar-lhe o benefício da dúvida, imaginar que ele acreditou honestamente nos documentos terríveis da "conspiração" que os agentes de Carrera lhe apresentaram. . . Para ele, não há na face da Terra nada mais abominável do que o comunismo.

— Quer dizer então que minha tese... Pablo interrompeu-a:

— Voltaremos oportunamente ao seu trabalho. Ouça o fim da minha história. Juventino Carrera tornou-se ditador absoluto do Sacramento. O embaixador dos Estados Unidos foi chamado a Washington para consultas e voltou uma semana depois, sorridente: seu país reconhecia a "situação de fato" que se criara na "República irmã". Por esse tempo a ameaça nazista começava a crescer na Europa e isso de certo modo ajudou indiretamente Carrera. Além do fantasma de Stálin, aparecia agora o de Hitler. E quando em 1939 rebentou a Segunda Guerra Mundial, o poder do Generalíssimo se consolidou, pois seu país entrou no esquema de defesa do hemisfério ocidental. Depois do ataque a Pearl Harbor, o Sacramento, acompanhando os Estados Unidos, declarou guerra ao Japão, e mais tarde à Alemanha e à Itália.

— Li, num dos textos de História do Sacramento que o Dr. Molina me deu, que, poucos anos depois de terminada a Grande Guerra, Carrera espontaneamente decidiu entregar o poder a um substituto legalmente eleito pelo povo e retirar-se à vida privada. . .

— Espontaneamente? Ridículo! O que aconteceu é que, depois da vitória dos Aliados, surgiu na Universidade Federal um movimento libertário animado por homens como o Dr. Leonardo Gris e o Dr. Júlio Moreno e apoiado por estudantes, escritores, artistas e elementos da classe média. . . Improvisavam-se nas ruas comícios contra a ditadura de Carrera. A polícia tentava dissolvê-los mas era repelida a pedradas e cacetadas. Os jornais começavam a pedir a volta do país ao regime democrático. O embaixador dos Estados Unidos (e isto eu sei porque meu pai um dia confirmou o fato à mesa do jantar) visitou Juventino Carrera, lá por fins de 1948, e fez-lhe sentir que seu país veria com bons olhos o restabelecimento da democracia no Sacramento. Pois bem. Poucos meses depois dessa visita, convocou-se uma Constituinte, que formulou uma nova Constituição, que foi em seguida adotada e três meses mais tarde realizavam-se eleições livres que fizeram o Dr. Júlio Moreno em 1949 o primeiro Presidente de nossa Terceira República.

— Você vai negar que Moreno tinha tendências vermelhas?

— Com esse seu daltonismo, Glenda, com essa sua incapacidade de distinguir as cores umas das outras, você daria uma excelente funcionária para o Departamento de Estado. Segundo o meu dicionário, Júlio Moreno era um liberal, um humanista. Como se esperava, fez um governo exemplar.

— Do ponto de vista da esquerda, talvez. Uma das primeiras medidas que tomou foi a de reconhecer a legalidade do Partido Comunista.

— Moreno deu liberdade a todos os partidos. Libertou todos os prisioneiros políticos. Aboliu por completo a censura aos jornais. Determinou uma série de devassas em vários setores da administração anterior e exigiu que Carrera e seus sócios, ministros e afilhados explicassem perante a Justiça e o povo a origem de suas fabulosas fortunas. Mal começaram as investigações, o Generalíssimo (que, sentindo-se seguro até então, permanecera no país) tomou seu avião particular e fugiu com toda a família, buscando asilo na República Dominicana, junto de seu compadre Rafael Leonidas Trujillo. Ugarte fez o mesmo. Mas Gabriel Heliodoro ficou em Cerro Hermoso, escudado pelo prestígio do sogro e principalmente pela sua habilidade política. . . Portou-se como esses bichos que se fingem de mortos quando se sentem em perigo. E sobreviveu.

— Livre por fim de seus inimigos — disse Glenda, sarcástica —, Moreno entregou-se à tarefa de socializar o país, não é verdade?

— Na minha opinião o que ele fez foi governar com os olhos voltados para a classe média e para as massas, abolindo o privilégio da alta burguesia urbana e rural e tratando de promover a justiça social.

— A expressão "justiça social" é um dos muitos disfarces usados pelo comunismo.

— Está enganada, Miss McCarthy. Os olhos da moça fuzilaram.

— Meu nome é Doremus.

— E o meu é V. I. Ulyanov, mais conhecido como Lenine.

— Você devia parar de beber.

Pablo gozava a fúria da americana. Teve um súbito desejo de tomá-la nos braços e beijar-lhe a boca. Limitou-se, porém, a sorrir, continuando:

— Durante o exílio, Carrera fez várias excursões pela Europa, hospedando-se nos melhores hotéis. Deu entrevistas atacando Moreno e chamando-lhe "lacaio de Moscou". Mas passou a maior parte do tempo a conspirar em Santo Domingo, preparando sua volta ao poder. Gabriel Heliodoro por sua vez trabalhava para o seu compadre, o que lhe era possível graças à atmosfera de liberdade que existia no país durante a gestão do Dr. Moreno.

— Você não vai negar, espero, que esse Governo dito liberal era nitidamente antiamericano.

— Nego! O Dr. Júlio Moreno estudou na Universidade de Harvard e tinha grande afeição e admiração por este país. O que ele fez foi retirar alguns dos muitos privilégios de que gozavam a Sugar Emporium e a Uniplanco.

Pablo tornou a erguer-se e despejou na sua taça o champanha que restava na garrafa.

— Ouça mais esta — disse depois de beber um largo gole. — Quando a Grande Guerra terminou, o Sacramento tinha nos Estados Unidos um crédito de mais de quinhentos milhões de dólares em ouro. Cedendo a ofertas tentadoras de firmas de Manhattan, nosso Exército, nossa Força Aérea e nossa Marinha "descobriram" que precisavam de um cruzador, três destróieres, alguns aviões, tanques e canhões anti-aéreos, você compreende. . . Por sua vez, os espertalhões de Nova York queriam impingir-nos sobras de guerra numa transação vultosíssima. Moreno vetou-a e com esse veto ficou malvisto pelas nossas Forças Armadas. Por outro lado chamou sobre sua cabeça a ira dum poderoso grupo nacional de intermediários que ia ganhar uma gorda comissão em dólares na indecente negociata. . . As companhias americanas, que praticamente sustentavam os principais jornais sacramentenhos com anúncios, começaram a exercer pressão sobre eles no sentido de que iniciassem uma campanha contra o Governo, o que foi feito imediatamente. Don Pánfilo Arango y Aragón fazia também seu sutil trabalho de sapa. Nas igrejas, dos púlpitos, os padres se puseram a pregar contra Moreno, chegando ao ponto de chamar-lhe "O Anticristo". E assim, em fins de 1951, forças mercenárias desembarcaram em vários pontos da costa da ilha: Puerto Esmeralda, Los Plátanos, Oro Verde e Soledad del Mar. . . Em todos esses lugares, as guarnições federais, trabalhadas de longa data pelos conspiradores, aderiram aos invasores, e as tropas revolucionárias convergiram todas para Cerro Hermoso, onde apenas alguns soldados, homens do povo e um punhado de estudantes se mantinham fiéis a Moreno. Gabriel Heliodoro, que comandava a quinta-coluna dentro da capital, foi o primeiro a entrar no Palácio do Governo. Você conhece o resto do drama.

— Moreno suicidou-se. Pablo fez um gesto de dúvida.

— Ponto controvertido. Moreno apareceu morto. Pela sua própria mão ou pela mão de seus inimigos? O Dr. Gris, com quem conversei esta semana, inclina-se pela segunda hipótese. . .

Glenda sentia-se perdida, estonteada, num desagradável sentimento de frustração. Estaria Pablo zombando dela? Se estava. . . qual era o seu propósito? Se não estava, podia-se dar crédito a tudo quanto ele contara?

Pablo esvaziou a sua taça. Por um instante fitou a moça, excitado, com um súbito desejo de deitá-la naquele sofá e possuí-la. Para fugir a essa tentação, continuou a refugiar-se na sua narrativa.

— Pois bem, Glenda Doremus! Um dia o Generalíssimo Juventino Carrera entrou triunfante na cidade de Cerro Hermoso, à frente de suas tropas. Badalaram os sinos de todas as igrejas. . . Don Pánfilo esperou o triunfador às portas da capital e entregou-lhe, como de hábito, a chave simbólica. As ruas, porém, estavam vazias, as portas e as janelas das casas, fechadas. Essa era a maneira do povo exprimir sua tristeza e seu protesto. Apenas às sacadas de algumas das mansões dos membros da alta burguesia apareceram homens e mulheres, que acenaram com bandeiras para Carrera e atiraram-lhe flores. E para não encompridar demais esta história, de 1952 a 1954, o Sacramento foi governado por um triunvirato do qual fazia parte, como figura central, o Generalíssimo. As terras expropriadas por Moreno voltaram às companhias americanas. Zabala, o novo chefe de Polícia, começou uma lenta, meticulosa e implacável "operação de limpeza": prisões, torturas, arbitrariedades. As classes conservadoras respiravam, aliviadas. Em fins de 1954, Carrera foi eleito novamente Presidente sob a égide duma nova Constituição, da qual, por insistência dos representantes das velhas oligarquias, consta uma cláusula que proíbe a reeleição do Presidente. Entramos assim na nossa Quarta República. Os Estados Unidos reconheceram imediatamente o novo Governo sacramentenho. E desse modo termina a nossa edificante história.

Glenda sentia agravar-lhe a náusea. Um suor frio como que lhe anestesiava o rosto, as mãos, o corpo inteiro. "Devo estar pálida como um cadáver" — pensou.

— E agora vamos à sua tese propriamente dita — sorriu Pablo. — Se bem entendi seu trabalho, o que você pretende provar é que, governado por um ditador despótico e branco como Chamorro ou por um mestiço como Carrera, que você imagina um democrata, um país como o Sacramento dificilmente ou nunca poderá atingir sua maturidade política e uma ordem social e econômica próspera e estável pela simples razão de que seu povo é formado em sua maioria de elementos mestiços... Certo?

— Certo.

— Pois está errado. Glenda levantou-se:

— Só não compreendo uma coisa — desconversou ela, não reconhecendo a própria voz. — Como é que um "liberal" como você, que sabe todas as podridões de seu Governo, está aqui em Washington a servir esse Governo?

Pablo Ortega encolheu os ombros.

— Decerto porque estou podre também.

Sentiu que ele próprio não acreditava nessa explicação simplista, mas a natureza melodramática e autopunitiva do que dissera lhe dava um momentâneo alívio e um mórbido prazer.

— Que pretende fazer com sua dissertação? — perguntou.

— Ainda não sei. Acho que não vou alterar nada do que escrevi. Quando à conclusão final, fique você com sua opinião que eu ficarei com a minha. E agora quero ir-me embora.

Pablo encaminhou-se para a porta e abriu-a. Tinha a impressão de que estava no ar, numa levitação em que seu corpo se mantinha em posição vertical. A cabeça começava agora a doer-lhe surdamente.

No corredor, tomou do braço de Glenda e conduziu-a na direção da grande sala, à porta da qual a americana estacou, como uma menina que hesita à beira da floresta emaranhada e escura que tem de atravessar. Orlando Gonzaga veio ao encontro de ambos. Pablo, que conhecia bem o amigo, percebeu que ele estava "alegre".

— Querem ouvir uma boa piada? Estive discutindo há pouco problemas raciais com um americano do Texas e contei-lhe a minha versão do Juízo Final. Escutem! Soam as trombetas celestiais, uma voz apocalíptica reboa no Universo, anunciando que vai começar o julgamento. A humanidade estremece. Os texanos levam automaticamente a mão ao revólver mas logo compreendem que o gesto é inútil, porque Deus deve ser mais rápido no gatilho. A população do mundo inteiro concentra a atenção no céu, onde aparece, imenso luminoso, o trono do Todo-Poderoso. Ouvem-se sons de trombetas, harpas, liras, cantos celestiais de anjos etcetera etcetera. O Arcanjo Gabriel, o mestre-de-cerimônias, anuncia que o Criador acaba de sentar-se no trono. . . Os texanos erguem o olhar para o céu e verificam apavorados que Deus Nosso Senhor é um negro! Que tal, hem? É boa, não? Pois o meu texano não gostou. Que é que tu achas, Pablo?

— Depois conversaremos, Gonzaga. Miss Doremus está um pouco indisposta.

Ortega não precisava olhar para o rosto de Glenda para sentir que a história do brasileiro a chocara.

— Vamos, Pablo.

Deixaram Gonzaga para trás e começaram a "furar" a multidão, rumo do vestíbulo. Glenda sentiu que a sensação de náusea aumentava. Decerto era por causa daquele calor de corpos em combustão, do cheiro dos pastéis sacramentenhos que andava no ar, misturado com o fétido suor dos negros que ali se encontravam. . . Colidiu com uma senhora gorda que trazia no peito uma orquídea já murcha. A senhora lhe sorriu — Sorry, dear! — e Glenda se imaginou a comer a orquídea, o que lhe aumentou o enjôo. Deu de repente com a cara negra e lustrosa dum embaixador africano. Em seguida vislumbrou uma senhora morena com os lábios reluzentes de banha, o buço pintalgado de açúcar. Muitos hálitos recendiam àquele horrível tempero. Glenda caminhava, estonteada, conduzida por Pablo, apertando a bolsa contra o estômago, suando frio, sentindo uma fraqueza nas pernas. Os pastéis. . . As axilas dos negros... A orquídea a fermentar-lhe no estômago... O zun-zum das vozes. . . O calor abafado...

— Depressa, que eu estou me sentindo mal. . . Conseguiram chegar ao vestíbulo, sair finalmente para o

pórtico. A frescura da noite aliviou-a um pouco. Ela se recostou numa das colunas.

— Glenda, posso ir buscar-lhe remédio?

— Não, por favor, peça que tragam o meu carro imediatamente.

Disse-lhe o número, a marca e a cor de seu automóvel — informações que Pablo transmitiu ao porteiro da Embaixada.

— Eu vou com você — disse o diplomata, quando o carro de Glenda parou à frente do pórtico.

— Não, Pablo, por amor de Deus, me deixe em paz!

Precipitou-se para o auto, entrou e sentou-se.

— Glenda, você está doente, não pode ir para casa sozinha.

Ela estava lívida. Seus lábios fremiam. Ficou um instante com as mãos sobre os olhos, o estômago convulso.

— Tenha paciência, Pablo, compreenda. . .

— Está bem, eu compreendo. Quando nos vemos de novo?

Ela sacudiu negativamente a cabeça, ao mesmo tempo que punha o motor do auto em movimento.

— Não sei. Não sei.

O auto arrancou de maneira abrupta. Pablo seguiu-o com o olhar, até vê-lo desaparecer. Depois acendeu um cigarro e, desgostoso consigo mesmo, a cabeça a latejar de dor, voltou para a festa.




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