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O senhor embaixador


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PARTE SEGUNDA

A FESTA
12
Na opinião de Bill Godkin, um homem só pode ser natural, espontâneo e livre depois que, chegando a casa ao anoitecer, ao desfazer-se da máscara que foi obrigado a usar nos seus contatos sociais, despe também a indumentária com que andou fantasiado o dia inteiro, e enfia umas calças velhas e uns sapatos que tenham verdadeira intimidade com os pés. Era por tudo isso que o chefe do Bureau Latino-Americano da Amalgamated Press não se sentia à vontade ao entrar, naquele anoitecer de sexta-feira, na Embaixada da República do Sacramento, envergando sua fatiota de sarja azul-marinho, a melhor peça de seu reduzido guarda-roupa de viúvo negligente em matéria de vestuário. Estava demasiado consciente não só de que vestia uma roupa um pouco amassada, como também da cor talvez excessivamente viva de sua gravata. (Ruth costumava dizer que as gravatas de tons avermelhados vão bem com roupa de qualquer cor.) Os sapatos, que ele mesmo lustrara, apertavam-lhe um pouco os pés. E, como se tivesse barbeado às pressas, fazia apenas meia hora, sua pele sensível rebentara em pontos de sangue que se haviam coagulado, e que agora ele sentia em ardidos relevos quando passava a mão pelas faces. Aborrecia as grandes reuniões sociais, tanto quanto gostava de conversar com dois ou três amigos em recantos quietos e discretamente iluminados. Comparecia às recepções diplomáticas apenas por dever de ofício.

Ficou por algum tempo parado no vestíbulo central da Embaixada, com o chapéu na mão e o cachimbo apagado no bolso, fazendo votos para que ninguém lhe exigisse a apresentação do convite, pois esquecera o seu em casa ou no escritório.

Michel acercou-se dele, fez uma pequena curvatura, e perguntou-lhe o nome, a fim de poder anunciá-lo ao senhor Embaixador que estava à porta do salão de festas, encabeçando a fila de recepção. O mordomo não lhe havia entendido ainda direito o nome (Bodkin? Godpin?) quando Gabriel Heliodoro avistou o jornalista e, aproximando-se dele de braços abertos, exclamou: "Hombre! Há quanto tempo!" Abraçou-o com tanta efusão que, meio encabulado, Godkin quase se sentiu uma pessoa importante. Descobriu que a presença de Gabriel Heliodoro ainda lhe era bastante agradável, apesar das histórias nada edificantes que sabia dele.

O embaixador tirou o chapéu das mãos do jornalista e atirou-o para o mordomo, como quem faz um passe numa partida de futebol americano. Michel aparou aquela "coisa" preta e informe sem perder seu aprumo continental.

— Entre, Godkin — disse Gabriel Heliodoro, puxando o outro pelo braço. — Esta casa é sua. Mas não vá embora sem antes falar comigo. Temos muito que conversar. . .

Apresentou-o à segunda pessoa da fila.

— Esta é a Sra. Vivanco, que hoje está fazendo as honras da casa.

Godkin apertou a mão da morena, que achou linda, e pensou, comovido: "Outro recado de Deus? Não. Este deve ser do diabo. O embaixador tem bom-gosto". Mas Rosalía já o apresentava ao homem que estava a seu lado:

— Conhece o Sr. ministro conselheiro?

— Claro — murmurou Bill. — Como está, Dr. Molina?

Pelo jeito cerimonioso e seco com que o outro o cumprimentou, Godkin concluiu que sua cotação com o diplomata sacramentenho estava baixa. Devia ser por causa dumas notícias que o correspondente da Amalpress em Cerro Hermoso mandava agora à sua agência, em geral desfavoráveis ao Governo de Juventino Carrera.

A próxima figura na fila era a do General Ugarte, enfarpelado num uniforme vistoso: túnica azul-turquesa com botões dourados, calças pretas com uma listra carmesim de cada lado. Ostentava no peito várias condecorações, inclusive a da Ordem do Puma de Ouro.

— Como está, general? — perguntou Godkin.

O outro apertou-lhe a mão, de cara vazia. De súbito, sua fisionomia se iluminou, arreganharam-se-lhe os lábios, dois dentes de ouro cintilaram, os olhinhos sorriram:

— Ah! O nosso Gringo Rubio! Então como le vai? — e abraçou o jornalista. Voltando-se para a dama que estava ao lado, perguntou: — Ninfa, não te lembras deste senhor que jantou lá em casa, em Cerro Hermoso? Em que ano foi mesmo, mister?

Entregando a Bill Godkin a mão gorda e tenra como uma pomba-rola, a esposa do general exclamou:

— Se não vou me lembrar! — E confidenciou: — Sei que o senhor é apreciador das nossas comidas. Pois vou lhe dar uma notícia sensacional. Don Gabriel Heliodoro mandou buscar de avião uma cozinheira de Soledad del Mar especialmente para fazer as famosas empanadas sacramentenas para esta recepção. Não deixe de provar! — Amontoou os dedos contra os lábios e depois abriu-os como quem solta um beijo. — São divinas! Mas entre, fique à vontade.

E praticamente empurrou Bill na direção da porta.

Aquela hora havia já mais de duas centenas de convidados no salão de festas, de dimensões majestosas e profusamente iluminado. Sempre que entrava naquela dependência da Embaixada, Bill Godkin se sentia um tanto aturdido pela riqueza extravagante de sua decoração. Do alto teto de madeira, com pinturas a óleo inspiradas em quadros de artistas do século XVIII, pendia imponente lustre, como uma rígida e iridescente flor de cristal. Em desenhos que embaralhavam a visão — predominavam no brocado de seda que revestia as paredes, bem como no estofo das cadeiras, sofás e canapés, as cores da bandeira sacramentenha: amarelo-ouro e vermelho. O lustre refletia-se nos dois grandes espelhos de Veneza, de molduras douradas, embutidos no centro das paredes principais, frente a frente, e acima de consolos de mármore róseo. Contava-se que era diante de um desses espelhos que Don Alfonso Bustamante costumava dialogar com sua própria imagem, tarde da noite, depois que os últimos convidados de suas festas deixavam a mansão.

Num gesto automático, Godkin tirou do bolso o cachimbo vazio, prendeu-lhe a haste entre os dentes e saiu a andar devagarinho por entre a cálida e perfumada multidão. Tinha a impressão de que caminhava sem mapa nem bússola por entre as árvores duma floresta tropical, não necessariamente virgem.

A festa — calculou — chegava àquele ponto em que o gelo da superfície começa a trincar-se, os primeiros copos de bebidas alcoólicas esvaziam-se, enchendo estômagos e excitando cabeças, e as vozes, a princípio abafadas e cerimoniosas, se alteiam ganhando um timbre mais metálico, e os pálidos sorrisos convencionais dos primeiros minutos ousam transformar-se em risos que em breve serão risadas.

Passou um garçom carregando uma bandeja cheia de copos com um líquido amarelado. Para fazer alguma coisa, Godkin apanhou um deles. Bebeu um gole: era uísque da melhor qualidade. Começava a avistar conhecidos. O primeiro foi o embaixador do Peru, que lhe sorriu e fez um sinal amistoso. Cumprimentou com um aceno de cabeça um alto funcionário do Department of State. Viu o encarregado de Negócios da Embaixada do Brasil a conversar com uma das "vacas sagradas" de Washington.

Cruzou um grupo em que se falava francês e em seguida outro em que a língua usada lhe pareceu escandinava. (Uma amiga lhe dissera um dia: "Se a Morte fala alguma língua, aposto como é sueco".) Parou um instante para ouvir o que diziam quatro senhoras de aspecto latino-americano que, num espanhol frenético, discutiam os méritos duma liquidação de vestidos de inverno num dos grandes empórios locais. Na maioria daqueles grupos — verificou Godkin — predominava a língua castelhana. Considerava-se um especialista no espanhol falado na América Latina. Os uruguaios e os argentinos temperam o idioma de Cervantes com o alho e o orégano da Itália. (Um dos secretários da Embaixada Argentina ficara zangado com ele, Bill, quando o ouvira descrever humoristicamente o argentino como "um italiano que fala espanhol mas está convencido de que é inglês".) O castelhano falado no México tem uma entonação entre afetuosa e gaiata que nos leva a pensar que todos os mexicanos são primos de Cantinflas. (Mejorando los presentes!) Os cubanos falam um espanhol fofo com muito vento e bochechas flácidas. Quanto aos venezuelanos e à maioria das populações do Caribe, dão, ao falar, a impressão duma fita magnética tocada de trás para diante, a toda velocidade. Bill gostava especialmente do claro espanhol da Colômbia e do Chile.

— Bill, meu velho!

O jornalista viu surgir a figura de Clare Ogilvy, envolta nas gazes dum vestido azul-celeste.

— Clare! Como é bom a gente encontrar uma cara conhecida quando está perdido em terra estrangeira!

Apertaram-se as mãos. Depois ela puxou o amigo para um canto onde pudessem conversar um pouco, ouvindo-se mutuamente sem a necessidade de gritar. La Ogilvita fez com a cabeça um gesto que abrangia o salão:

— Que lhe parece?

— Uma festa e tanto.

À secretária fungou forte, repuxando o nariz e a boca para um lado.

— Eu queria organizar uma recepção menor, limitada apenas à faixa latino-americana, alguns funcionários do Department of State, cronistas sociais e gente de imprensa. Seria mais barato e até mais divertido. Mas qual! Don Gabriel Heliodoro insistiu em fazer uma festa em grande estilo. Você sabe que temos mais de oitenta representações diplomáticas em Washington. . . Convidamos todas! — Soltou uma risada, apertou o braço de Bill. — Queria que você visse o olhar de espanto, misturado com alegria e encanto, de Don Gabriel Heliodoro quando chegaram o embaixador de Gana e o do Iraque nos seus trajes nativos. Quase bateu palmas quando viu a embaixatriz da índia, num belo sari cor de maravilha. Nosso embaixador diverte-se como um menino num circo. . .

— Vocês convidaram também o embaixador soviético?

— Claro. Por determinação expressa de Don Gabriel Heliodoro. O russo já chegou. O encontro foi memorável. Ficaram os dois homenzarrões num apertar e sacudir de mãos que não acabava mais, sorrindo um para o outro. O russo, como você sabe, fala um inglês fluente, mas o nosso Don Gabriel Heliodoro não habla senão o espanhol. E, por falar nisso, tenho estado ao lado dele como intérprete desde que começaram a chegar os primeiros convidados. Deixei agora o Pablo no meu lugar para eu poder recobrar o fôlego. — Pôs-se na ponta dos pés para olhar por cima das cabeças na direção da porta. — Preciso voltar para meu posto. Até já, Bill. E divirta-se!

Clare Ogilvy se foi, como que levada por uma nuvem azul, na direção do vestíbulo. Bill Godkin seguiu-a com um olhar cheio de simpatia. Colocou o copo em cima duma mesinha e pôs-se a encher o cachimbo.


Pablo Ortega estava no centro do salão a olhar dum lado para outro, à procura de Glenda Doremus — mas sem muita esperança de encontrá-la —, quando sentiu nas costas a pressão dum dedo e ouviu uma voz amiga: "Mãos ao alto! — gritou Buffalo Bill".

— Gonzaga! — exclamou, voltando-se e estreitando contra o peito o amigo brasileiro, que murmurou:

— Refreia essa exuberância latina. Vejo olhares anglo-saxônicos e escandinavos postos em nós, com uma expressão de censura. . .

— Estou esperando a minha convidada de honra.

— A japonesinha?

— Não. É uma americana. Só a vi uma vez, mas telefonei-lhe hoje de manhã e ela prometeu vir.

— Interessante?

— Ainda não estou certo disso. Mas acho que sim. Gonzaga olhava para o teto, murmurando:

— Quem tem razão é o Titito. Na decoração desta sala estão entreverados pelo menos três Luíses de França, o XIV, o XV e o XVI. Eu não me admiraria se encontrasse aqui neste ambiente Don Gabriel Heliodoro vestido à Luís XV e sentado num trono. . . — Baixou a voz para acrescentar: — Tive há pouco o gosto de apertar a suave mão de Mme de Pompadour...

Pablo não prestou atenção às últimas palavras do amigo porque havia avistado alguém e estava à beira do pânico:

— Olha quem vem lá — disse a Gonzaga, e já procurando um meio de fugir ao encontro. — A mulher magra e pálida, de preto.. .

— Quem é? A morte?

— Então não conheces? É Augusta Schneider, homem! Correm as mais estranhas histórias a respeito dessa vienense. Dizem que ficou presa num campo de concentração nazista por um ano e perdeu a razão. Tipo de loucura mansa, tu compreendes. . . Libertada pelas forças americanas, veio para este país. Tinha aqui um tio que morreu, deixando-lhe uma pequena fortuna. Vive nas festas das embaixadas. Ninguém lhe manda convites mas ela aparece sempre. Tem a mania de falar espanhol e um certo fraco por latino-americanos do nosso tipo, Gonzaga. É uma chata, todos fogem dela. Vamos disfarçar e sair direito para a outra sala.. .

Tarde demais. Augusta Schneider estava diante deles, sorrindo o seu pálido sorriso. Parecia um retrato pintado a aquarela — cabelos cor de palha, olhos dum cinza desbotado, pele alva, feições vagas —, uma figura que poderia apagar-se para sempre se não fosse oportunamente restaurada. Augusta sorria para Pablo, que por sua vez sorria para Augusta. Gonzaga, esse sorria para ambos. Ortega sabia que ia repetir-se o diálogo de sempre.

— Eu conheço você — murmurou a austríaca, apontando para ele com seu indicador longo e descarnado e entrecerrando os olhos numa expressão coquete.

— Está claro que conhece, senhorita.

— Você é chileno, não?

— Não, senhorita, eu. . .

— Não me diga, deixe-me adivinhar. Equatoriano!

— Não — respondeu Pablo, sério a despeito das caretas que Gonzaga lhe fazia, postado atrás da vienense.

— Mexicano? —- Não.

— Mas é diplomata...

— Sim

— Peruano?



— Não.

— Então deve ser. . .

— Sacramentenho.

— Isso! Eu sabia que o conhecia. Meu nome é Augusta. E o seu?

— Ortega. Pablo Ortega.

— Muito prazer — disse a moça, estendendo a frágil mão, que o diplomata reteve na sua por um par de segundos.

De repente, o rosto de Augusta Schneider iluminou-se. Tinha avistado a embaixatriz da China, uma das figuras femininas mais prestigiosas do mundo diplomático de Washington. Esqueceu Pablo e caminhou para a chinesa, exclamando: "Ah! Mrs. Koo!"

— Salvo pelo gongo! — suspirou Ortega.

— Agora chegou a minha vez — disse Gonzaga, resignado. — Lá vem a minha "namorada". Deus castiga!

Mrs. Patrícia K. Woodward — já na casa dos setenta — era uma dama muito conhecida nos círculos sociais da capital. Gabava-se de ser amiga e comensal da esposa do Presidente. Tinha ternuras maternais pelos latino-americanos em geral: estudava espanhol com um grupo de senhoras — em sua maioria esposas de deputados e senadores americanos — e, segundo Gonzaga costumava dizer, ao cabo de três anos de estudos, apenas conseguira aprender meia dúzia de frases como: "Buenos dias, amigos!" "Hasta la vista" "Que rico!" "Muchas gradas!"

Segurou e sacudiu por segundos o queixo de Pablo Ortega, dizendo:

— Gosto muito de você, Pablito, mas confesso que Gonzaga é o meu latino-americano favorito. Quero apresentá-lo a uma moça encantadora. Precisamos casar este solteirão incorrigível. Vamos, Orlando!

Saíram ambos na direção da grande sala de jantar, onde estava posta a mesa com os comestíveis. Pablo seguiu-os com o olhar. Alta, descarnada, a pelanca do rosto flácida e caída, apesar das muitas operações plásticas, o cabelo pintado dum louro de morango, Mrs. Woodward era famosa, entre outras coisas, por seus colares, pulseiras e penduricalhos, em geral de tipo exótico: relíquias, amuletos e fetiches da África, da Polinésia e da Malásia. Pintava-se e vestia-se com espalhafato. Pablo achava que ela parecia imitar na vida real essas atrizes características que imitam no palco as damas espalhafatosas da vida real.

Quando Ortega se voltou com a intenção de ir até o vestíbulo, viu-se diante de Miss Kimiko Hirota.

— Ah! — fez ele, apertando a mão que ela lhe estendia. — Quando chegou?

— Faz poucos minutos.

A cabeça da rapariga, de cabelos negros e lustrosos, mal chegava à altura do ombro do amigo. Sua face redonda, dum bonito de boneca de porcelana, despertava sempre em Pablo ternuras de irmão mais velho, apesar da inocente insistência com que aqueles olhos oblíquos provocavam nele o macho.

Ortega fez parar o garçom que passava com uma bandeja carregada de copos.

— Que é que bebe?

Ginger ale.

Conseguiu descobrir na bandeja a bebida que a amiga pedia.

— Precisamos qualquer dia tomar chá juntos — disse ele distraído, olhando para a porta do salão.

Sentia-se bem. A cabeça não lhe doía, e a possibilidade dum encontro com a americana, cuja imagem não lhe saíra da cabeça durante o dia inteiro, produzia-lhe uma exaltação a que ele chamava "embriaguez branca", pois ainda não havia bebido nada.

— Você me deve um haikai — murmurou Miss Hirota.

— É verdade. Tenho-o aqui comigo. Entregou um cartão à amiga.
Inverno

Na alva neve,

A rígida mancha azul

Da ave morta.
Kimiko ficou longo tempo a ler e reler o haikai. Depois, ainda de cabeça baixa, balbuciou:

— É tão triste!

— De acordo. Mas isso aconteceu. Vi o quadro duma das janelas da chancelaria, o inverno passado.

— Mas estamos na primavera! — exclamou a japonesa.

Pablo mal ouvia o que a amiga dizia, pois estava com os olhos e a atenção voltados para a porta do salão.

— Está esperando alguém? — perguntou Kimiko.

— Um amigo, quero dizer, uma amiga. Como não conhece ninguém aqui, preciso estar a seu lado quando ela entrar.

Inclinou-se, segurou ambos os braços de Miss Hirota com o cuidado de quem pega numa estatueta frágil e rara, e disse:

— Quer me dar licença por um instantinho? Fique à vontade, que eu já volto.

Kimiko sacudiu a cabeça repetidamente, como uma criança obediente. E quando Pablo Ortega se afastou, ela ficou onde estava. O cartão parecia pesar-lhe inerte na mão, como uma ave morta.




13
Desde que os primeiros convidados começaram a chegar, Gabriel Heliodoro Alvarado, como Clare Ogilvy lhe pedira e o protocolo exigia, se tinha mantido na fila de recepção. Mas com a indocilidade dum cavalo fogoso no partídor, ansioso por precipitar-se pista em fora. De instante a instante ia espiar o salão. . . No princípio a coisa tinha sido divertida: havia a expectativa da surpresa, uma espécie de jogo de adivinhar (quem virá agora?), e era sempre bom conhecer caras novas, elementos daquele grande mostruário de raças e países que era o mundo diplomático de Washington.

À medida, porém, que o salão se enchia e o ruído de vozes e risadas aumentava, Gabriel Heliodoro já não mais prestava atenção às apresentações. Estava inquieto como quem, tendo comprado entrada para um espetáculo, quer vê-lo e gozá-lo desde o princípio. Seria o cúmulo se ele não pudesse tomar parte na sua própria festa. Houve um momento em que, não resistindo mais, pediu a Molina que tomasse seu lugar e soltou-se. . .

A sala, agora completamente cheia, oferecia um animado jogo calidoscópico para cuja riqueza e variedade muito contribuíam os vestidos coloridos das mulheres, as pinturas do teto, o brocado das paredes, os espelhos que multiplicavam as luzes do grande lustre, dos candelabros. . . Tudo isso produziam no embaixador do Sacramento um gozo que não era apenas do espírito como também e principalmente do corpo. Aspirava com prazer aquele cheiro bom de gente perfumada, temperado pelo bafio alcoólico das bebidas, pela fumaça de cigarros e charutos e — sim! sim! sim! — como era bom aquele odor indescritível mas excitante dos ambientes em que há muitas mulheres limpas e de classe juntas. . . Um estremecimento percorreu-lhe o corpo inteiro, desde o couro cabeludo até a sola dos pés. Cojones! Era um festaço!

Várias pessoas aproximaram-se dele, e as que sabiam espanhol elogiavam a casa e a festa. Gabriel Heliodoro agradecia. Se o interlocutor era uma mulher, e bonita, ele lhe tomava da mão e beijava-a. Se era homem, dava-lhe uma batida amistosa no ombro, e continuava a andar por entre os convidados. "Não está bebendo nada?" — perguntou a um cavalheiro alto, louro e de ar entediado. O outro, num polido encolher de ombros, murmurou: "Sorry, sir, I don´t speak Spanish".

— Oquêi! Oquêi! — exclamou o embaixador. Gritou para um garçom que passava. "Eh, moço! Traga alguma coisa para o nosso amigo aqui!" O empregado também não entendia espanhol, mas isso não o impediu de interpretar corretamente o gesto do anfitrião.

Um alto funcionário da Embaixada da República Dominicana, que já havia chupado o seu terceiro coquetel e estava de olhos brilhantes e língua solta, pegou Gabriel Heliodoro pelo braço, levou-o para perto dum dos espelhos e, com a voz um pouco arrastada, disse:

— Meu caro embaixador, por que não juntamos as forças do seu país com as do meu para invadir Cuba, hem? Que lhe parece a sugestão?

Hombre — sorriu o sacramentenho, levando a coisa na brincadeira —, é uma idéia. Mas quem financia a operação? Os gringos?

— E por que não? E por que não? Têm todo o interesse. Mas não compreendem! — E o dominicano sacudiu a cabeça, ao mesmo tempo que deixava cair os braços num desalento. — São obtusos. O Benefactor encomendou a empresas deste país aviões, tanques, metralhadoras, munições. . . e que é que faz o Pentágono? Simplesmente aconselha Eisenhower a decretar o embargo da remessa de material de guerra para a zona do Caribe! — Apertou com vigor o braço do embaixador do Sacramento. — Mas vou lhe contar uma coisa, amigo. No que diz respeito à força aérea, estamos mais preparados que Cuba. Temos uns oitenta aviões de combate, dos quais cinqüenta e poucos a jato. Os cubanos não possuem mais de sessenta. É como lhe digo. Temos que invadir a ilha de Fidel Castro antes que seja tarde demais. Esse barbudo é comunista, acredite, é comunista. Ele pode negar a coisa em público, mas já está dominado por Chê Guevara et caterva. Esta é a hora! — perorou o dominicano com ar profético. E deixou subitamente o interlocutor para sair no encalço dum garçom que passava com uma bandeja cheia de copos.

Gabriel Heliodoro ficou a mirar-se no espelho, compondo o nó da gravata. Se Trujillo pensava que seu compadre Carrera ia entrar numa aventura como aquela, estava doido.

Tornou a voltar-se, deu alguns passos e postou-se no centro do salão, debaixo do grande lustre. De que país seria aquele preto elegante, vestido à ocidental mas com um chapeuzinho de mico de realejista na cabeça? Da Guiné? Ou de Gana? Não. O de Gana era o de camisolão branco.

Examinou com olho crítico a chinesa miúda que conversava com a embaixatriz do Paquistão. Achou excitante sua saia cortada dum lado, mostrando a perna. Ah, mas eram umas gâmbias finas e malfeitas. Não gostava também da cara, duma palidez amarelada, com olhos de bicho.

Neste ponto, um senhor de barbas negras ("Este é hindu, aposto!") com longos cabelos femininos cobertos por um turbante, mas vestido à maneira ocidental, acercou-se dele, apertou-lhe a mão e disse-lhe algo em. . . inglês ou francês? Gabriel Heliodoro sorriu e exclamou, automaticamente: "Merci, beaucoup, mister, merci!" Deu uma palmadinha no ombro do sikh, que se afastou na direção da porta do vestíbulo.

O embaixador lembrou-se dum sargento do 5.° de Infantaria, grande, moreno e barbudo, que ele conhecera e odiara quando menino. Soou-lhe, apagada na mente, uma voz que lhe pareceu vir dos confins do tempo, através de mares e montanhas:

Gabiliodoro! Gabiliodoro! Vem pra casa!

Gabriel Heliodoro mirava sua própria imagem num dos espelhos. "Eu queria que ela me visse agora" — pensou. Mas, se visse, não ia compreender. Nem mesmo acreditar. . . Era uma mulher ignorante. Nunca aprendera a ler. Seu corpo era seu único talento, seu capital e seu instrumento de trabalho. . . Por sua cama havia passado todo o Regimento de Infantaria de Soledad del Mar. Aos sábados (era verdade ou ele tinha imaginado?) ela fazia descontos especiais para os praças. Gabiliodoro! Gabiliodoro!


Foi através do espelho que o embaixador viu Ernesto Villalba entrar no salão, de braço dado com uma mulher loura de porte majestoso, bastante mais alta que ele. Voltou-se, rápido, e foi ao encontro dos recém-chegados. Por um momento perdeu-os na multidão, mas seu instinto de caçador acabou por levá-lo direito à bela fêmea desconhecida.

— Don Gabriel Heliodoro — disse Titito, mesureiro —, quero ter o prazer e a honra de lhe apresentar minha amiga Francês Andersen Warren. Mrs. Warren, este é o senhor Embaixador do Sacramento, nosso anfitrião.

Gabriel Heliodoro tomou na sua a mão que a mulher lhe ofereceu, e depositou nela um beijo sonoro, que Titito achou barbárico na sua avidez. A dama voltou-se para o secretário e repreendeu-o em espanhol.

— Você se esquece de que não sou mais Warren. Meu divórcio foi legalmente efetivado a semana passada.

Titito inclinou o busto e pediu-lhe que o desculpasse. Gabriel Heliodoro olhava deslumbrado para a convidada e admirava-se: "Por que será que esses maricões andam sempre com mulheres bonitas?" A que estava agora em sua frente descreveu-a ele em pensamentos — tinha um trigal maduro na cabeça, um mar nos olhos, neve na pele, sim, mas neve tocada pelo rosicler do primeiro sol da manhã. E aqueles seios, Virgem da Soledade, minha madrinha! E as feições! Uma verdadeira estampa. A boca era rasgada (ele tinha um fraco por mulheres de boca grande), o nariz reto e fino, e a linha do pescoço e dos maxilares só poderia ter sido traçada por um artista como Deus Nosso Senhor. E enquanto Villalba lhe dava uma biografia sucinta de Miss Andersen (nascera no Middie West, tinha avós dinamarqueses, seu ex-marido fora adido naval dos Estados Unidos em várias capitais sul-americanas), Gabriel Heliodoro entregava-se à excitante tarefa de despir a biografada. Seus quadris, diferentes dos de Rosaria, eram escorridos e prometiam coxas longas e roliças. E, só de pensar na palavra divorciada, o embaixador sentia um incêndio na imaginação e nas entranhas. Tomou de novo a mão de Miss Andersen, dessa vez entre ambas as suas, murmurando: "Minha querida senhora, esta é a sua casa e eu sou o seu criado". Largou a longa e morna mão quando viu, com o rabo dos olhos, aproximar-se dele a mancha rubra do vestido de Rosalía.

— Ah! Miss Andersen, quero lhe apresentar a Sra. Vi-vanco, representante em Washington da beleza sacramentenha. Rosalía, minha filha, esta é Miss Francês Andersen. Vou conseguir a promoção de Titito a primeiro-secretário por ele ter trazido à nossa festa tamanha preciosidade.

Numa fração de segundo, as duas mulheres trocaram-se olhares avaliadores. A americana sorriu e inclinou a cabeça, ficando, porém, com ambos os braços caídos ao longo do corpo. Rosalía, que já tinha começado a erguer o braço direito, com a intenção de apertar a mão da outra, conteve-se. Ainda não havia compreendido os hábitos sociais americanos. Ao ser apresentada a uma pessoa, fosse de que sexo fosse, nunca sabia se devia oferecer-lhe a mão ou limitar-se a um simples inclinar de cabeça.

— Lindo vestido, o seu — sorriu Francês.

— Não tanto como o seu, senhora — replicou Rosalía. — É cor de gelo, não?

— Exatamente.

A sacramentenha ficou a examinar a gringa da cabeça aos pés, crítica e já meio hostil, enquanto a Titito e Gabriel Heliodoro, ambos de isqueiros acesos, disputavam o privilégio de acender o cigarro que Miss Andersen havia levado aos lábios.

A pequena distância, Pablo Ortega e Bill Godkin observavam a cena. Viram quando Gabriel Heliodoro, empurrando Titito para um lado, acendeu o cigarro da dama loura e depois disse qualquer coisa ao secretário, que se afastou imediatamente na direção da sala de jantar, em sinuosa marcha bamboleante por entre os convidados.

Ortega, que conhecia Francês Andersen de outras festas e lugares, deu ao jornalista algumas informações sobre a beldade. E Orlando Gonzaga, que conseguira livrar-se de Mrs. Woodward, juntou-se aos dois amigos e, vendo para onde olhavam, disse:

— Ou muito me engano ou a Sra. Vivanco tem rival pela frente. Ela que tome cuidado. . .

— Não te impressiones — murmurou Pablo. — Rosalía já deve ter pressentido o perigo. Vejam como está estudando a outra. . .

— E no meio dessas duas potrancas de raça, lá está o nosso Gabriel Heliodoro, como um garanhão em véspera de aposentadoria. Francamente, se tivesse de escolher entre essas duas mulheres, ficaria com a morena. Tem mais calor, um passado de sangre y arena, guitarras, amendoeiras floridas, algo de Arábia, misturado com o sol e o vento das Caraíbas... ao passo que a outra me lembra uma deusa saída das névoas dos fiordes escandinavos. As suecas e as norueguesas, eu sei de experiência própria, são hígidas e ardentes, mas quem é que pode passar a vida numa dieta de peixe?

Goodkin limitava-se a sorrir, contemplando o trio através da fumaça de seu cachimbo. Pablo pegou no braço de cada um dos amigos e disse:

— Miss Andersen me dá a impressão dum diamante: algo de precioso, cintilante, raro, caro, mas duro e um tanto frio.

— Vejam que seios magníficos essas duas fêmeas possuem! — observou Gonzaga. — Parecem couraçados armados de canhões, um diante do outro, prontos para a batalha. E observem como chamam a atenção dos homens. . . Repare, Bill, na cara basbaque daquele seu colega da Associated Press e na do sujeito que está ao lado dele. . . Estão ambos em êxtase! Bill, meu velho, seus compatriotas encontram-se ainda na fase oral. Babam-se por seios de mulher. São psicologicamente bebês lactantes. Veja o sucesso que conseguem neste país as atrizes de TV e cinema que têm peitos grandes. . . Nós na América Latina liquidamos esse assunto no devido tempo. Quanto a mim, mamei até dois anos de idade. . . e nas tetas duma preta. Bill lançou-lhe um olhar enviesado:

— Vocês latino-americanos devem estar agora na fase anal. . .

Naquele momento Don Gabriel Heliodoro, segurando com uma das mãos o braço da loura e com a outra o da morena, encaminhou-se com ambas rumo duma das portas do salão. Clare Ogilvy surgiu no encalço de seu chefe e tocou-lhe o ombro com a ponta dos dedos. O embaixador voltou-se e a secretária disse-lhe algo ao ouvido. Ele fez uma careta de contrariedade e voltou sobre seus passos, mas sem largar as belas presas.

Houve uma súbita comoção num dos setores do salão. Era como se um inesperado vento tivesse encrespado a superfície das águas. Miss Potomac fazia sua entrada triunfal! Vinha cercada de admiradores, em lenta marcha majestosa, interrompida aqui e ali. Parecia uma grande caravela embandeirada, as velas enfunadas, navegando num mar de sargaços. Apertada num vestido de seda preta bordado de vidrilhos, trazia, entre os dedos faiscantes de anéis, uma longa piteira com um cigarro fumegante metido nela. Vinha já fazendo com sua voz rouca e meio masculina os seus habituais epigramas, que provocavam risos subservientes nos que a cercavam. Era famosa pelas suas perfídias. No exato instante em que o anfitrião se aproximou dela para saudá-la, Miss Potomac falava mal duma colunista, sua competidora, que costumava dar grandes festas, além de suas posses, para gente de sangue azul e milionários e por isso vivia num estado crônico de insolvência financeira.

Os três amigos deram à "vaca sagrada" apenas alguns segundos de atenção. Godkin virou-lhe as costas e perguntou a Gonzaga:

— Então, como conseguiu escapar das garras de Mrs. Woodward?

— Ora, quem me salvou foi o embaixador da Coréia do Sul, que puxou com ela uma conversa sobre o "espaço exterior". Aproveitei a oportunidade para sair de órbita. . .

— Mrs. Woodward — sorriu Pablo — é um dos monumentos de Washington.

— E sabem vocês o que descobri? — perguntou Gonzaga. — Essa dama é altamente representativa de alguns milhões de mulheres deste país que pautam seu comportamento de acordo com uma série de idéias feitas que na realidade não passam de mitos...

Bill Godkin pediu a Gonzaga que explicasse melhor sua idéia, mas já prevendo que seu amigo brasileiro, como sempre, ia carregar na caricatura.

— Ora, alguns desses mitos podem ser sintetizados nas seguintes frases: O modo americano de vida é o melhor do mundo... O que ê bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos. . . Os negros são uma raça irremediavelmente inferior. . . Quase todos os democratas são criptocomunistas. . . Os chineses (principalmente os vermelhos) são bandidos e Mao Tse-tung é uma nova encarnação do Dr. Fu Manchu. . .

Godkin sorriu.

— Acho que você está fazendo uma grande injustiça às mulheres americanas, tomando Mrs. Woodward como representante delas. . .

Gonzaga segurou cordialmente as lapelas do jornalista.

— Pode haver excesso de sátira no que acabo de dizer, mas há também muita verdade. Este país se alimenta de mitos dourados, açucarados e finalmente impingidos ao público pelo vosso mass media. As revistas, os jornais, o cinema, a televisão, o teatro de vocês, que constituem a mais prodigiosa, rica, atraente e eficiente rede de propaganda jamais inventada pelo homem, dedicam-se à divulgação de lendas e mitos. Alimentam o público com contos de fadas ou aventuras de horror. Oscilam entre Poe e Pollyana, com escalas por Dick Tracy e pelo Superman.

— Quem ouve você falar, Gonzaga — disse Godkin —, não pode compreender como é que, com tantos defeitos, ilusões e inocências, os americanos puderam construir um dos países mais ricos e confortáveis do planeta. . .

Gonzaga soltou uma risada.

— Não te zangues, Bill, nem me leves muito a sério. Tomei já três uísques e ainda não comi nada. — Voltou-se para Ortega e perguntou: — Dá a Bill a receita que descobriste para "fabricar" um americano.

Pablo, que na ponta dos pés olhava na direção da porta principal do salão, na esperança de descobrir Glenda Doremus, murmurou:

— Não vale a pena.

— Vamos, homem! O Bill sabe que tu e eu criticamos os gringos apenas com malícia, nunca com maldade.

Ortega voltou-se para o jornalista:

— Para fazer um americano, deite-se numa panela uma porção de homo faber e outra, um pouco menor, de homo ludens e depois acrescente-se uma pitada de farisaísmo e ponha-se a mistura a ferver em fogo lento.

Godkin ia formular o seu protesto (pois, para principiar, achava que ele próprio tinha um pouco de homo ludens mas quase nada de homo faber) quando viu Clare Ogilvy aproximar-se.

A secretária puxou Pablo pelo braço e segredou-lhe:

— Tenho uma confissão a fazer.

— Faça.

— Hoje eu traí você.



— Com quem?

— Com Don Gabriel Heliodoro. Logo que cheguei, ele me abraçou e beijou, imagine! É um feiticeiro. Você pode dizer o que quiser dele, que hoje não acredito. Adoro esse homem, perdoe-me, Pablo — acrescentou, no tom de quem escreve o final duma carta de suicida. — Sua para sempre, Ogilvita.

— Quando é que vamos comer? — indagou o brasileiro.

— Don Gabriel vai neste momento comboiando uma loura e uma morena na direção da sala de jantar — informou a secretária. — Teremos primeiro a solenidade da apresentação à sociedade de Washington das famosas empanadas sacramentenas. Vamos, antes que os bárbaros assaltem a mesa e a limpem.

No caminho contou a Pablo de como Don Gabriel se havia portado no seu encontro com Miss Potomac. Agradecera-lhe pelo que ela dissera dele em sua coluna. Beijara-lhe a mão, elogiara-lhe o vestido, achara-a jovem. . . Um verdadeiro sedutor. "E claro que na tradução de seus galanteios tive o cuidado de eliminar alguns exageros e inconveniências. Mas duma coisa estou certa: nosso embaixador é um sucesso."

Contrastando com o esplendor do salão de festas, a sala de jantar que lhe ficava contígua, em estilo do baixo Renascimento, era duma sobriedade repousante. O pavimento era todo de ladrilhos — agora sem tapetes — e viam-se, nas paredes, umas tapeçarias belgas inspiradas em desenhos de Rafael. A mobília falava dum tempo em que a nostalgia da Roma imperial e da Grécia clássica não se fizera ainda aguda entre os artistas da Itália e seus mecenas. Don Alfonso Bustamente, porém, achara de bom aviso quebrar a severidade do ambiente, mandando estofar as cadeiras de alto respaldo com uma imitação de veludo veneziano do século XV: alcachofras estilizadas em meio de guirlandas bordadas a fio de ouro contra um fundo cor de vinho. A mesa era de desenho simples, quase monástico, e em torno dela o velho diplomata, em jantares que haviam marcado época em Washington, costumava fazer sentarem-se mais de vinte convivas.

Era essa longa mesa de nogueira lavrada que Parker & Baker, Caterers haviam transformado num buffet froid. ("Dégoütant!" — murmurara Michel Michel, franzindo o nariz ao ver as comidas.) Por entre arranjos florais que o mordomo achava detestáveis ("Le gout américain, vous savez...") alinhavam-se travessas com perus aparentemente inteiros mas na realidade já cortados para serem servidos; fatias de pernil de porco e carneiro; presuntos cozidos e caramelados, crivados de cravos e cercados de rodelas de abacaxi; uma rica variedade de saladas que mais pareciam produtos de litografia que de cozinha; fatias de língua de vaca em molho picante; pratarraços de arroz quente (que Miss Ogilvy encomendara à última hora, pensando nos convivas latino-americanos e orientais). Havia também peixes — enormes peixes inteiros, cobertos duma branca camada de gelatina (ou fosse lá o que fosse!) sobre a qual se desenhava ("Quelle vulgarité!") a bandeira do Sacramento.

Sem largar do braço de suas damas, Gabriel Heliodoro fê-las aproximarem-se do buffet e assim deu o sinal esperado pelos convivas que se amontoavam ao redor da mesa. Sob o olhar crítico do mordomo, garçons azafamados andavam dum lado para outro, e alguns deles começavam já a servir os primeiros convivas que lhes apresentavam seus pratos. De repente aconteceu algo que produziu grande sensação na sala renascentista. Entraram três waiters trazendo longas travessas cheias de pastéis quentinhos e dourados, polvilhados de açúcar de confeiteiro:

Las empanadas! — exclamou Ninfa Ugarte, num êxtase. Um bando de compatriotas suas precipitou-se ao encontro dos garçons, soltando gritinhos de gula cívica. Dona Ninfa, que já havia metido na boca um pastel e estava com o buço e o queixo salpicados de açúcar, ergueu os braços e, com voz lubrificada, exclamou: "Esperem, chicas! Sejam civilizadas! Onde está a hospitalidade sacramentenha? Deixem primeiro os visitantes provarem os pastéis". Suas palavras perderam-se, inócuas, em meio do frenético vozerio, e sua própria pessoa física foi envolvida no entrevero que se formou em torno dos empregados. Ao pé da porta, o embaixador de Gana, um preto alto, de aspecto imponente, metido numa túnica branca, sorria para a cena com seus belos dentes alvos e regulares. E Orlando Gonzaga, que também se aproximara faminto das comidas, de braço com Godkin, cochichou ao ouvido deste: "Será que providenciaram um assado de carne humana para esses representantes das novas repúblicas africanas?" E Godkin, chupando o cachimbo apagado, resmungou: "Aposto como esses pretos são mais civilizados e cultos que você, que eu e que a maioria das pessoas que aqui estão esta noite. Muitos deles cursaram as universidades de Oxford ou Cambridge".

Junto duma das extremidades da mesa, Michel olhava para a "bacanal" com uma expressão de repugnância que lhe acentuava os sulcos que habitualmente lhe fechavam a boca num parêntese de nojo. Gabriel Heliodoro fez-lhe um sinal:

— Michel, mande trazer uma bandeja de pastéis para nós!

O mordomo fez cumprir a ordem recebida. O embaixador do Sacramento convidou Francês Andersen e Rosalía Vivanco a se servirem. A sacramentenha pegou uma empanada e levou-a à boca quase com o ar de quem cumpre um ritual sagrado. A americana imitou-lhe o gesto, mas com uma cerimoniosa indiferença de ponta de dedos, mordiscou apenas o pastel. A morena trincou-o com gosto, mal conseguindo evitar que o fino recheio lhe escapasse pelos cantos da boca. Gabriel Heliodoro, que não desviava o olhar do rosto de Miss Andersen, viu quando suas dentadinhas ganharam mais animação e por fim ela meteu metade duma empanada na boca — gesto que inflamou a imaginação erótica do embaixador do Sacramento.

— Que tal? — perguntou ele, alvoroçado.

— Que tal?

— Delicioso! — respondeu a americana, servindo-se de outro pastel.

O embaixador exultava.

— Já comeu em toda a sua vida massa mais delicada? Mas o segredo, minha senhora, está no recheio.

— Galinha? — perguntou Francês.

— Galinha misturada com carne de gado e camarão, tudo isso temperado com ervas que só existem em nosso país. A receita desses pastéis vem dos tempos coloniais. Ó Michel, traga-nos champanha!

Pouco depois, de taças em punho, os três trocavam brindes.

A sala de jantar estava agora completamente atopetada de gente, e ao redor da mesa a algazarra era infernal. Dois dos peixes já tinham sido cortados. Um sacramentenho saudoso tivera o cuidado de tirar o seu pedaço sem desmanchar a bandeira da pátria, que comeu, reverente e lambuzado.

Ninfa Ugarte e o marido estavam junto da mesa a servirem-se com entusiasmo.

— O pernil de porco está precioso — avisou ela.

— Mas. . . e o meu colesterol? — hesitou ele.

Mierda para o teu colesterol!

No meio da inquieta aglomeração, Gabriel Heliodoro acabou por perder de vista tanto Francês como Rosalía. Ia servir-se duma coxa de galinha, bem tostada, como gostava, quando viu, do outro lado da mesa, a sorrir para ele, um general americano fardado.

Com a velocidade da luz, o pensamento do embaixador transportou-o a Soledad del Mar. Um anoitecer de verão, em 1915. Ele tinha doze anos e estava espiando o bivaque dos marines dos Estados Unidos. Um sargento brandiu no ar uma perna de galinha. Os meninos descalços, esfarrapados e famintos da vila ergueram os braços magros e gritaram: "Atira! Atira!" O americano jogou na direção deles o pedaço de galinha. Gabriel Heliodoro, o mais alto de todos, apanhou-o antes que ele caísse ao solo, apertou-o contra o peito e tratou de safar-se. Um dos companheiros agarrou-o pelos joelhos e ele tombou, esborrachando o nariz contra o chão, mas não largou a perna de galinha. Os outros atiraram-se em cima dele, aos gritos, rasgaram-lhe a camisa, arranharam-lhe as costas, morderam-lhe os braços, golpearam-lhe a cabeça, e só o deixaram em paz quando outros fuzileiros surgiram e puseram-se a atirar para o meio deles umas moedas de níquel que tinham a imagem dum búfalo em relevo numa das faces. Gabriel Heliodoro precipitou-se para a igreja, onde entrou, ofegante da luta e da corrida. Pôs-se a comer vorazmente a coxa de galinha, que sabia a tempero de gringo, suor de seu corpo, poeira e sangue — o sangue que lhe escorria morno do nariz. Enquanto comia, olhava para a imagem da Virgem, sua madrinha. Estava meio envergonhado por ter aceito restos de comida daquela tropa estrangeira que havia desembarcado em Soledad del Mar especialmente para matar Juan Balsa e seus guerrilheiros.

Por um instante mágico, Gabriel Heliodoro conseguiu recapturar as imagens e sensações daquele episódio remoto de sua vida.

Sorria agora, olhando para o prato. Num impulso, espetou um garfo na perna de galinha que havia escolhido para si mesmo e praticamente atirou-a no prato do general, que a princípio pareceu um pouco chocado mas em seguida, descobrindo cordialidade no gesto do anfitrião, sorriu, agradecido.

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