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O senhor embaixador


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Aquela tarde Pablo Ortega sentiu necessidade de ver o Dr. Leonardo Gris. Chamou-o dum telefone público.

— Que me diz da idéia de jantarmos juntos hoje num desses restaurantes de Georgetown?

— A idéia me encanta — respondeu o exilado. — Mas você está certo de que não vai se comprometer?

— Está falando sério, professor?

Foi com prazer que ouviu a risada quente e clara do amigo.

— Bem, há alguma seriedade na minha pergunta, mas não muita. Às sete, então, no Carriage House.

— Perfeito!

Cinco minutos antes dessa hora, Pablo Ortega estacionou o seu carro numa das ruas transversais da Wisconsin Avenue e encaminhou-se para o restaurante. Curioso, a fachada do Carriage House, com seu pórtico de madeira pintada de preto e ornado de lanternas de carruagens dos tempos coloniais, lembrava-lhe sempre uma casa mortuária.

Entrou no restaurante e não levou muito tempo para avistar o amigo. Leonardo Gris estava sentado a uma mesa, num dos cantos da sala principal, àquela hora já completamente lotada.

— Que alívio! — exclamou Pablo ao sentar-se. — Ter alguém com quem conversar, desabafar. . . Passei um dia péssimo, com uma dor de cabeça tremenda.

— Como foi a cerimônia?

— Melhor do que se podia esperar. Muito melhor. Parece mentira, mas nosso embaixador fez um figurão. Portou-se como um diplomata experimentado.

— Que tem le physique du rôle, ninguém pode negar.

— Mais que isso. Irradia um certo magnetismo. Não tenho a menor dúvida: o Presidente Eisenhower ficou gostando de nosso bugre. Não é de admirar. Até agora não encontrei na vida um patife que não fosse simpático.

Quando terminavam os coquetéis, Gris disse:

— Quando lhe perguntei hoje se não tinha medo de se comprometer, a pergunta não foi totalmente gratuita. Que dirá Gabriel Heliodoro quando souber que você ainda mantém relações de amizade com este renegado?

— Já deve saber disso.

Gris sacudiu lentamente a cabeça, num assentimento.

— É possível e é provável. Nestas duas últimas semanas, um desconhecido me segue como uma sombra. Já o vi no campus da Universidade. Quando venho para casa, ele me acompanha no seu carro azul. Às vezes espio pela janela do meu apartamento e vejo o sujeito parado a uma esquina próxima. . .

— Tem certeza de que é sempre o mesmo homem?

— Absoluta. Estou certo também de que, daqui a pouco, ele vai aparecer à porta desta sala, fazendo questão de que eu o veja. Essa insistência em se fazer notado me leva a crer que a intenção de quem o manda me seguir é apenas a de me intimidar.

— Oxalá que seja só isso. Mas tome cuidado. — Pablo começou a mastigar a azeitona do Martini. — Como é o tipo? Latino?

— Não. É um homem alto, corpulento e louro. Não sei por que, me parece de origem irlandesa. Mas falemos em coisas agradáveis. Que é que vamos comer? Sugiro uma lagosta à Newburg.

— Excelente.

— Vinho?

— Fica à sua escolha. Mas não esqueça que fui eu quem o convidou para jantar. . .

— Brigaremos na hora de pagar.

Enquanto o professor examinava a carta de vinhos, Pablo ficou a observá-lo. Aos cinqüenta e sete anos, Leonardo Gris conservava o vigor físico e intelectual dos tempos em que, havia mais de uma década, ensinava Literatura na Universidade Federal, em Cerro Hermoso. Tendo enviuvado aos quarenta e poucos anos, jamais tornara a casar-se. Como não tinha filhos, ele como que adotara seus estudantes, aos quais dedicava, além dum interesse de mestre, uma afeição de pai. Era surpreendente a capacidade de expressão de seus olhos, que podiam ser alternadamente (ou ao mesmo tempo?) ternos e enérgicos, sérios e brincalhões, cheios de fé e cépticos. A pele do rosto, dum trigueiro de marfim, era ainda lisa e firme, e suas sobrancelhas, completamente negras, contrastavam com a cabeleira grisalha com reflexos de prata. Sua voz, grave e rica de modulações, constituía como que um instrumento de precisão que Gris sabia usar à maravilha como professor e conferencista. "Este homem — pensou Pablo — é das pouquíssimas pessoas no mundo em cuja presença me sinto completamente à vontade, tão à vontade que tenho ímpetos de abrir minha torneira confessional e deixar que escorram meus problemas, dúvidas e perplexidades. . ."

— A noite passado — disse Gris quando, ao cabo de alguns minutos, vieram os pratos — tive um sonho estranho com o Dr. Júlio Moreno. Encontramo-nos numa rua deserta e sombria. Corri para ele, queria abraçá-lo, mas, ao ver-me, fugiu, apressou o passo e foi dando a entender com gestos de cabeça e de mãos que se negava a falar comigo. Acordei angustiado. Analisando o sonho, concluí que ele foi fabricado por um sentimento de culpa.

— Não vejo por que tenha de sentir-se culpado com relação ao seu velho companheiro. Por ele estar morto e o senhor vivo?

Gris fez um gesto de dúvida.

— Conscientemente rejeito a culpa. . . Eu quis ficar com Moreno até o fim. Foi ele quem insistiu para que eu escapasse. Não apenas insistiu, ordenou.

Pablo olhava para a carapaça escarlate da lagosta no prato do outro e de repente lhe passou pela cabeça a pintura abstrata que deixara incompleta num cavalete, havia meses.

— Aquela noite, na Embaixada do México — murmurou ele, sempre a olhar para a mancha viva —, não pudemos conversar direito, lembra-se? Depois que seu asilo foi formalizado, o embaixador confinou-o aos seus aposentos no andar superior, incomunicável. . . Confesso que nas muitas vezes em que nos encontramos aqui em Washington tive o desejo de tocar nesse assunto, mas senti escrúpulos...

— Está vendo? — riu Gris. — É porque, no fundo, você acha que eu não devo me sentir muito orgulhoso por ter sobrevivido à Noite Trágica.

— Vamos, professor! Eu apenas não queria reavivar lembranças tristes. E quer saber o que penso do problema, com toda a franqueza? Bom, este seu exílio lhe é agradável, sua posição moral e material neste país é excelente, seus colegas e alunos da Universidade o admiram e estimam, o senhor vive com razoável conforto, freqüenta a Biblioteca do Congresso, visita galerias de arte, tem a oportunidade de ir a bons concertos, de ver bom teatro. . . Ora, tudo isso pode fazer que aquele fantasma execrável (ou admirável) que habita o fundo de nossas cavernas interiores aproveite o seu sono para lhe sussurrar ao ouvido a acusação que tanto o senhor como eu tanto tememos. . . Sim, porque, segundo a "sintaxe mitológica", o adjetivo que qualifica a palavra exílio tem de ser necessariamente amargo.

— Talvez você tenha razão.

Houve um curto silêncio em que Pablo Ortega ficou entretido a descarnar sua lagosta com o garfo. Quando ergueu os olhos para o amigo, este lhe disse:

— Estou certo de que o Dr. Júlio Moreno não se suicidou.

— Quê? — espantou-se Ortega, franzindo a testa.

— Conheci Moreno melhor que ninguém. Tinha uma enorme reverência pela vida, não só pela dos outros como também pela própria. Jamais usou uma arma. Não tinha sequer um canivete em seu poder naquela noite. . . Você se lembra da situação. . . Estávamos perdidos. Gabriel Heliodoro marchava com seus mercenários contra o Palácio. Éramos uns duzentos homens prontos a resistir até a morte. Moreno chamou-nos e disse: "Não quero o sacrifício de ninguém. Detesto a idéia da morte inútil. Deponham armas e façam depois o que entenderem: entreguem-se ou fujam. Eu os liberto de qualquer compromisso para com o meu Governo. Obrigado. E que Deus os abençoe!" Quando objetei que ele seria fuzilado caso fosse preso, Moreno replicou: "De qualquer maneira, morto ou vivo, serei um problema para eles".

Gris bebeu um gole de vinho, lançou um olhar para a porta do restaurante e depois tornou a encarar o amigo.

— Quinze minutos antes do Palácio ser invadido, eu discutia ainda com Moreno. Estávamos os dois sozinhos no casarão. Ele estava lívido, suava frio e respirava com dificuldade. Eu insistia em ficar a seu lado, mas o homem me mandava embora. Conseguiu me convencer com um argumento: o de que eu poderia continuar no exterior a revolução, pois ele considerava seu Governo uma "revolução branca". "Estou muito velho e muito doente para te acompanhar" — disse. E praticamente me empurrou para fora do Palácio deserto. Abandonar meu amigo naquela situação foi a resolução mais dura que tive de tomar em toda a minha vida. Minutos depois, Pablo, eu batia à sua porta. E o resto você sabe.

— Mas por que Carrera e seus bandidos criaram essa ficção do suicídio?

— É que se poupassem a vida de Moreno, homem respeitado, não só no país como no estrangeiro, ficariam com uma batata quente nas mãos. Se o fuzilassem às claras, a opinião mundial se ergueria contra eles, prejudicando-os tremendamente. Inventando a história do suicídio, os facínoras não só se livraram do problema como tiveram elementos para uma infâmia ainda maior: a mentira de que Moreno se suicidara porque temia que se fizesse uma devassa na sua administração e se descobrissem todos os "negócios ilícitos" que ele fizera em proveito próprio. Compreende agora?

Ortega estava atônito.

— Então o Dr. Júlio Moreno talvez tenha sido assassinado. . . pelo próprio Gabriel Heliodoro?

Gris deu de ombros.

— Quanto a isso nada posso afirmar. Imagino que o levaram ainda vivo do Palácio do Governo para alguma prisão fora da cidade e só depois é que resolveram matá-lo em segredo. A verdade é que nenhum jornalista, nenhum correspondente estrangeiro teve permissão para ver o cadáver. Os jornais sacramentenhos limitaram-se a dar uma notícia sucinta do "suicídio". Nenhuma fotografia do corpo foi publicada. Ninguém sabe até hoje onde o enterraram.

Gris fez uma pausa e depois repetiu:

— Tenho a certeza de que o Dr. Júlio Moreno não se suicidou. — Percebendo que a revelação deixara Pablo perturbado, mudou de assunto: — Que notícia tem de Don Dionisio?

— Há dois dias recebi uma carta de casa. . . mas não a abri. A inibição continua.

— E dizer-se que fui eu quem meteu você nessa enrascada! — Gris tocou cordialmente no braço de Pablo. — De vez em quando penso na nossa corrida dramática naquela noite. . . Não sei como agradecer a você pelo que fez por mim.

— Nem fale nisso, professor. Essa ajuda que lhe dei talvez tenha sido a coisa mais útil e decente que fiz em toda a minha vida.

— Acredite que não foi em vão, meu amigo — murmurou Gris, olhando furtivamente para os lados. — Sabemos que Carrera não vai permitir que se façam eleições este ano, como manda a Constituição. Nem mesmo com um candidato títere de sua escolha. A vitória de Fidel Castro em Cuba veio ajudar enormemente a nossa causa. Posso lhe assegurar que a revolução está em marcha. . .

— Por favor! — interrompeu-o Pablo. — Não me conte nada.

Gris sorriu.

— Tenho a mais absoluta confiança em você.

— Mas não quero saber de nada, nem de fatos nem de nomes. O conhecimento dessas coisas todas só poderá aumentar minha confusão...

— Não imagine que eu mesmo saiba de todos os pormenores do movimento. Mas compreendo sua posição, Pablo. Falemos então de outros assuntos. Tem escrito? Tem pintado?

Ortega sacudiu a cabeça numa lenta negativa desalentada.

— Não tenho feito nada. Sinto-me vazio. Ando inquieto, desconfiado das palavras. Tomo aspirina e tranqüilizantes como se essas drogas pudessem resolver meus problemas. Quanto ao mais, continuo obedecendo a um controle remoto manejado por uma operadora habilíssima, Dona Isabel Ortega y Murat, que usa um aparelho velho como a vida, mas muito eficiente: o coração humano, que no caso acontece ser o de meu próprio pai.

— E assim você se comporta como um satélite em órbita — disse Gris.

— E o pior, professor, é que gravito agora em torno de um sol canalha. Não é vergonhoso?

Leonardo Gris bateu com o indicador no próprio peito, à altura do coração.

— Usando um velho eufemismo, como vai a sua nobre víscera?

— Amor? Mulheres? Nada de sério. Pego uma semiprostituta hoje, outra daqui a três ou quatro dias. .. Tudo comigo permanece no morno domínio do semi. Sou um semipoeta, um semipintor. Durmo com semiprostitutas. Fico semi-satisfeito sexualmente. E o pior de tudo é que me sinto apenas semi-envergonhado de toda a situação. . .

— Lá está a minha sombra! O sujeito com a capa de chuva clara...

Pablo voltou a cabeça e procurou o homem indicado.

— O louro, de chapéu na mão?

— Esse! Veja, está olhando fixamente na nossa direção. . .

Pablo ergueu-se, decidido a aproximar-se do desconhecido para o interpelar, mas Gris puxou-o resoluto pela aba do casaco, obrigando-o a sentar-se, enquanto o homem da capa clara fazia uma brusca meia-volta e saía para a rua.

— Calma, Pablo. Estou certo de que querem apenas me atemorizar. Não pretendo me dar por achado. Esta manhã recebi um chamado telefônico a propósito da minha carta ao diretor do Post, publicada hoje. Você a leu? Bom. A voz dizia, em inglês, sem sombra de sotaque: "Escute, irmão, se tem amor à pele não escreva mais cartas aos jornais". Mas vamos falar noutro assunto. Você tem ao menos ouvido música ultimamente?

— Sim. Ouço sempre. É o que me salva do embrutecimento completo. Os quartetos de Bela Bartók me lembram de tal modo a fragmentação do nosso mundo, dando-me uma tão fiel imagem sonora do labirinto em que estamos perdidos, que não tenho mais coragem de ouvi-los. Me fazem mal. Prefiro os primitivos italianos. Eles me falam dum mundo angélico, talvez fictício mas belo. Sim, e há sempre o velho João Sebastião, o homem que fala e entende a linguagem de Deus. Toda essa gente me faz crer que a vida e o mundo podem ser simples e o amor possível. E por falar em música, professor, como vai o violoncelo?

— Mal. Criando bolor a um canto. Faz semanas que nem me aproximo dele.

— Não esqueço a noite em que o senhor tocou para mim e para o Gonzaga aquela partita de Bach. Lembra-se? A sala estava em penumbra, a janela aberta, havia uma lua cheia e era outubro. Tudo perfeito.

Gris sorriu com certa tristeza. E Pablo pensou: "Eu quisera que esse homem fosse meu pai". A idéia lhe pareceu intelectualmente tão piegas, que ele sentiu o rosto e as orelhas em fogo. Tomou um largo trago de vinho, num gesto automático.

Quando veio o café, Gris perguntou:

— Você acha possível um homem estar tocando Bach no seu violoncelo, digamos. . . uma passacaglia, e ao mesmo tempo estar maquinando uma revolução, pensando onde comprar armas e munições, como contrabandeá-las para dentro do Sacramento. .. que contatos militares estabelecer, que pontes estratégicas fazer saltar pelos ares etc. . . etc. . .? Mais ainda: acha possível que esse mesmo homem possa ser visceralmente um pacifista que repele a violência e cujo ideal é ficar no seu canto, lendo Platão ou escrevendo um ensaio sobre Góngora?

Pablo hesitou um instante.

— Acho possível. E é isso que me assusta. — Pegou uma migalha de pão, rolou-a entre os dedos, pensou em seu amigo Bill Godkin, que sempre trazia no bolso provisões para os pássaros e os esquilos. Depois perguntou:

— Na sua opinião, Dr. Gris, que é que faz um bom revolucionário?

— Como dizia aquela personagem de Malraux, o bom revolucionário é um maniqueísta com gosto pela ação.

— E como é que o senhor se avalia como revolucionário?

— Grau três, no máximo, Pablo. A verdade é que nós, os chamados intelectuais, seremos sempre péssimos homens de ação. Por alguma razão Stálin detestava esse tipo de gente. Repelimos os absolutos políticos e filosóficos. Não aceitamos a idéia de que as coisas só possam ser pretas ou brancas, acreditamos nos matizes, na complexidade dos homens e de seus problemas. Tudo isso são pedras de tropeço no caminho da revolução, coisas que enfurecem os homens de pura ação revolucionária. É ainda, creio, uma personagem de Malraux quem diz que muitas pessoas procuram encontrar no Apocalipse a solução para seus problemas individuais. . .

Pablo brincava pensativo com a bolota de miolo de pão. Gris confidenciou:

— Veja a minha situação. Não sou maniqueísta nem amo a ação. Considero-me mais um contemplativo. Se fico indiferente à sorte da minha terra, minha consciência me condena. Se me envolvo na conspiração revolucionária, o homem do violoncelo, o leitor de Platão e Góngora me olha desconfiado e me condena também à sua maneira. E é bem possível que, se a revolução triunfar, um dia eu seja condenado pelos meus próprios companheiros. Em suma, o intelectual é um condenado por definição.

— Deve haver uma saída!

— Seja como for, tenho de cumprir a palavra que empenhei a um amigo que morreu. Fechei os olhos e entrei na conspiração. Irei até o fim.

Quando o garçom ia entregar a nota da despesa a Gris, Ortega interceptou-a, sob protestos do amigo.


Quando saíram do restaurante e deram alguns passos na direção da Rua Q., Gris avistou o homem da capa clara parado a uma esquina. Ortega também o viu e resmungou uma ameaça.

— Não faça caso — disse o professor.

Pablo, porém, deixou-o para trás, estugou o passo, aproximou-se do desconhecido e perguntou-lhe à queima-roupa:

— Que é que você deseja com o meu amigo?

O outro deu um passo à retaguarda, como para se defender duma agressão física.

— Não sei no que é que você está falando — retrucou. De punhos cerrados, músculos faciais contraídos, Ortega continha-se para não esmurrar o outro, mesmo sabendo que levaria desvantagem numa luta corporal com o brutamontes.

— Você sabe muito bem! Mas está perdendo seu tempo. O Dr. Gris não se atemoriza. Diga isso a quem lhe está pagando para fazer esse serviço sujo.

— Está louco — murmurou o outro, com um sorriso amarelo. Fez meia-volta e afastou-se. Gris aproximou-se do amigo.

— Pablo, você arriscou-se a levar uma sova mestra. O homem tem todo o jeito de boxeador.

Ortega vibrava de indignação. O cigarro apagado colava-se-lhe aos lábios. Caminharam os dois por alguns instantes em silêncio. Pablo pensava na cara do homem da capa clara: rubicunda, maxilares quadrados, a boca dura e cruel. Quem o estaria pagando para fazer aquele serviço? Ugarte? Sim, só podia ser o velho cão policial. Cuspiu fora o cigarro.

Gris tomou do braço de seu antigo discípulo e procurou afastar-lhe o espírito do incidente.

— Estou convidado para fazer uma conferência na American University, em maio. Vou dizer algumas verdades sobre o nosso Governo. . .

— Estarei lá, pode ficar certo.

— Não, Pablo, peço-lhe que não vá. Você se arrisca inutilmente.

Subiram em silêncio até à Rua Q., onde seguiram na direção de leste. O edifício em que o Dr. Gris tinha o seu pequeno apartamento erguia-se na quadra onde antigamente estava situada a Embaixada russa dos tempos do Czar.

— Quer subir, Pablo?

— Naturalmente. Não descansarei senão depois que o vir fechado em casa, seguro.

O apartamento do professor ficava no terceiro andar. Só depois de verificar que não havia ninguém escondido lá dentro é que Pablo decidiu sair. O outro sorriu:

— Você está enxergando fantasmas. Seja como for, muito obrigado. . . mais uma vez. Quer ficar para um conhaque? Ou para uma dose de Bach ou Vivaldi?

— Não. Preciso dormir cedo hoje. Foi um dia duro. Apertaram-se as mãos. De volta à calçada, Pablo olhou em torno mas não viu nos arredores nenhum vulto suspeito. Pôs-se a andar na direção do lugar onde deixara o carro.



Q. Street. . . Q. Street? De repente lembrou-se. Era naquela rua que morava Glenda Doremus! A moça havia deixado seu endereço escrito a lápis azul na capa de cartolina da sua tese. 3050, Q. Street. Bastou-lhe dar mais alguns passos para encontrar o edifício que tinha esse número. Em que andar teria Glenda seu apartamento? Desse pormenor não se lembrava. . .

Parou um instante e quedou-se a olhar para as várias janelas iluminadas do prédio.



10
Estendida no sofá, completamente vestida, mas descalça, Glenda Doremus olhava para o quadro do televisor onde se moviam figuras em cujas palavras e ações em vão ela se esforçava por concentrar a atenção. Durante todo aquele dia, nas horas de trabalho, conseguira até esquecer que possuía um estômago. Mal, porém, voltara para casa, a sensação desagradável, aquela espécie de "dor de fome" misturada com uma sensação de náusea, recomeçara. Suspeitava de que tinha uma úlcera gástrica ou coisa pior. A última radiografia, batida havia menos de uma semana, nada revelara de anormal em seu aparelho digestivo. O médico insistia em afirmar que tudo quanto ela sentia era de origem psicossomática. Aconselhara-a a procurar um analista. Ah! Isso não. Nunca!

Aquela noite Glenda recusara o convite dum colega da União Pan-Americana para jantarem juntos no Aldo's. Agora, só de pensar em comida sentia engulhos. No entanto sabia que só com algum alimento poderia aliviar aquela sensação de "vácuo dolorido" no estômago. No quadro do televisor, cowboys trocavam tiros. Glenda levantou-se, desligou o aparelho, foi até a cozinha, tirou do refrigerador uma garrafa de leite, despejou um pouco de seu conteúdo num copo e bebeu um gole, a medo. Não havia nada que lhe evocasse mais sua casa do que o cheiro e o gosto de leite. Voltou para o living, pensando no pai e na mãe. Ficou por um instante a contemplar o retrato de ambos, em cima da papeleira, ao lado dum vaso de flores. Tirou duma das gavetas do móvel a carta que recebera do pai aquela manhã, sentou-se , numa poltrona e releu-a:


Querida filha: Por que não voltas para casa? Sei que Washington deve estar linda agora com as cerejeiras floridas, mas aqui em Atlanta os pessegueiros estão também em plena floração. Tua mãe e eu não podemos compreender por que ainda não tomaste uma resolução firme quanto ao que queres estudar. O ano passado foi Inglês e Literatura. Este ano é essa tolice de História da América Latina. Que utilidade prática isso pode ter?

Tua mãe não anda se sentindo bem, está com flebite, presa à cama, e andamos todos muito preocupados com sua saúde. Como eu, tua mãe ficou triste porque não nos visitaste nas tuas últimas férias de verão e porque nos comunicas agora que talvez não possas estar conosco nas de Natal. Por que odeias tanto o Sul? No fim de contas, em Washington há mais negros que brancos. Tu te queixas em tuas cartas de que não tens amigos aí, e de que não te sentes feliz. Por que é então que te obstinas em viver nessa cidade que tu mesma achas monótona e desinteressante? Vem para casa, baby. Acho que não deves permitir que tua vida seja estragada por coisas que aconteceram há tantos anos e das quais não tiveste a menor culpa. E se algum culpado há em tudo isso, sou eu, e Deus é testemunha de que não estou arrependido do que fiz.
Glenda rasgou a carta num gesto brusco, atirando seus pedaços num cesto de papéis. Seu pai não tinha direito de tocar naquele assunto!

Sentiu um inopinado desejo de tomar um banho. Isso lhe acontecia várias vezes durante o dia, mesmo nas horas de trabalho. Era a repentina (absurda, ela reconhecia, mas invencível) sensação de que estava suja, cheirava mal, e de que os outros se afastavam dela com repugnância. Essa idéia lhe dificultava os contatos sociais, tornando-a uma pessoa retraída, desconfiada, intratável.

Entrou no quarto de banho, despiu-se. Antes, porém, de banhar-se, ficou a mirar-se no espelho do penteador, a apalpar os seios, o abdômen, o púbis — não com volúpia ou vaidade, mas com uma espécie de curiosidade clínica. Procurava no corpo algum ponto duro que pudesse ser sinal de tumor maligno. Vivia obcecada pela idéia de que ia morrer de câncer, possivelmente do útero. Procurava, mas em vão, chamar-se à razão. Havia momentos em que até ria dessa obsessão. Mas era inútil: o mau pressentimento continuava, escurecendo-lhe o pensamento, atormentando-lhe a vida.

De súbito lhe veio a desconfiança de que olhos invisíveis de homem a estavam espiando naquele momento. Num acesso de assustado pudor enrolou-se numa toalha. Só a deixou cair quando foi para baixo do chuveiro e abriu a torneira. Esfregou-se com sabão, produzindo muita espuma. Era bom limpar-se. Não amava o próprio corpo. Ao contrário, tinha-lhe um certo asco. Era difícil ser mulher. Quando lhe vinha o fluxo menstrual, tinha a impressão de que seu cheiro empestava toda a cidade. Ficava então irritadiça, arisca. Tinha ímpetos de esconder-se, desaparecer da face da Terra. E pensando agora nessas coisas, Glenda esfregava-se com tanta fúria que chegava a arranhar com as próprias unhas os braços, os seios, as pernas. . .

"Tenho de fazer alguma coisa — pensou — senão acabo louca."

Enxugou-se, acalmada pela água morna. Voltou para o quarto de dormir, meio a sorrir de seus exageros. Claro, menina. Tudo isso são fantasias. É uma questão de dominar os nervos. Calma!

Vestiu um pijama, voltou para o living, sentou-se junto da escrivaninha onde estavam os originais da dissertação que ia apresentar na Universidade, no fim daquele ano letivo. Achara que a República do Sacramento, por ser um país pequeno e pouco conhecido, não lhe ofereceria muitas dificuldades para um estudo interpretativo. Às vezes chegava até a acreditar em que havia feito um bom trabalho. Mas as horas de dúvida predominavam sobre as de otimismo. Achava a tese superficial, pueril. Talvez o melhor tivesse sido concentrar-se em Biologia. Ou Sociologia. Ou em nada!

Pegou o envelope que estava junto dos originais. Continha um convite para a recepção que o novo embaixador do Sacramento oferecia ao mundo diplomático na próxima sexta-feira. Na parte de baixo havia um recado de Pablo Ortega, escrito a mão: Não deixe de vir. Já li sua tese. Conversaremos sobre ela. Prometo-lhe que não se aborrecerá na festa.

Glenda tornou a estender-se no sofá e ficou pensando em Pablo. Não sabia ainda o que pensar dele, mas já desconfiava do que sentia — e isso a deixava um tanto apreensiva. Achara o rapaz atraente, dum modo que não saberia definir com clareza. Talvez o sacramentenho fosse o primeiro homem que a tivesse interessado. . . um pouco. Gostara daquela cara séria e varonil, daquela voz seca e quase monocórdia, destituída dessa teatralidade hipócrita, tão comum nos círculos diplomáticos. Também lhe agradava a idéia de que Pablo Ortega, diferente da maioria dos latinos que ela conhecia, não tinha ar de gigolô, nem a tratara como se a considerasse presa fácil. Era uma pena que sua tez fosse tão morena. Mas que lhe importava que ele fosse escuro ou claro? — reagiu ela, revolvendo-se no sofá e ficando deitada de bruços com uma almofada apertada contra o estômago.

Pensou no convite, viu mentalmente a letra de Pablo, analisou-a. Era graúda, resoluta, clara: parecia indicar generosidade, franqueza e hombridade. Sim, era uma pena que o rapaz tivesse aquele tom mouro...

Que teria ele achado de sua tese? Se não gostou, por que não disse logo? Pensará que pode me atrair à festa só com a garantia de que não vou me aborrecer? Terá tanta certeza de que sua companhia me vai ser agradável?

Passou mentalmente em revista os vestidos que poderia usar na recepção. Não eram muitos. Talvez o mais apropriado fosse o preto de tafetá. . . Mas não estava ainda certa de que ia à festa. Conhecia aquele tipo de reunião. Ficavam as pessoas amontoadas numa sala, a se acotovelarem, a beberem e a gritarem, sem saberem o que bebiam nem o que se diziam umas às outras. Atordoavam-se apenas. Na realidade ninguém se divertia. Não ia! Por que haveria de ir? Só por causa do pós-escrito de Ortega? Poderiam discutir a tese em outra ocasião. Tentou apagar da memória a imagem de Pablo. Não conseguiu.

O rapaz devia ter algum problema. Isso se lhe via na cara. Problema ou problemas. E a idéia de que ele pudesse não ser feliz dava-lhe uma certa vontade de ajudá-lo, atraí-lo, obrigá-lo a confessar-se. Talvez Ortega fosse o amigo de que ela precisava. Mas precisaria mesmo dum amigo? E deveria esse amigo ser necessariamente do sexo oposto? Temia complicações. Arrependera-se todas as vezes em que consentira em sair à noite com algum conhecido. Oito em dez tentaram beijá-la. Cinco em dez procuraram levá-la para a cama à força.

Tirou do bolso do pijama um comprimido antiácido e meteu-o na boca, deixando-o dissolver-se sobre a língua. Pablo Ortega y. . . quê? Havia outro nome de que ela não se lembrava. Que sangue teria nas veias? índio e espanhol? Suas feições não eram de índio nem de negro... Os mouros haviam ocupado a Península Ibérica durante muitos séculos. Pablo devia ter nas veias sangue mouro. Os mouros eram africanos. . . Mas que lhe importava o sangue daquele secretário duma embaixada centro-americana? Todo o sangue era sujo. Todos os seres humanos estavam condenados à sujeira, tanto do corpo como do espírito. Todos. Ó Deus! Precisava encher mais uma noite. Os programas de televisão estavam intoleráveis. Ler um livro? Os livros que agora se publicavam só tratavam de temas sórdidos: homossexualismo, violência racial, ressentimento, desespero. Quando não eram escritos por negros, eram da autoria de judeus: duas raças que odiavam o americano branco.

Glenda pensou em telefonar para uma colega. Mas para dizer-lhe o quê? Podia entrar no carro e sair a rolar pelas estradas à beira do rio Potomac, sem rumo certo. Depois voltaria, tomaria um barbitúrico e procuraria dormir. . . Por que não tomar duma vez cinqüenta comprimidos de seconal?

Talvez o suicídio fosse a solução. Mas estava mesmo sendo sincera quando pensava em matar-se? Não. Só se mataria se tivesse a certeza de que em suas entranhas um câncer crescia como uma flor mortífera.

Apertou com mais força a almofada contra o estômago.
Cerca das dez horas daquela mesma noite, o telefone do apartamento de Clare Ogilvy tilintou.

— Alô? Quem é? — perguntou ela, contrariada, pois estava entretida diante do televisor, vendo seu programa favorito.

— Aqui fala M. Michel.

— Que é que há?

— Miss Ogilvy — disse o mordomo em surdina —, é um assunto confidencial. ..

— Fale mais alto, homem! De que se trata?

— Estou numa situação difícil, Miss. É a respeito da recepção de sexta-feira. . . Desculpe, mas achei perigoso falar-lhe neste assunto na chancelaria. — Clare ouviu o pigarro social do mordomo, vindo da outra extremidade do fio. — Bien, como sabe, há dez anos os Beauchamps Frères são nossos fornecedores. Firma respeitável, comida de primeira ordem, empregados atenciosos, em suma, um serviço impecável. . .

—- Eu sei, Michel, eu sei. Mas qual é o problema?

— Aconteceu algo de lamentável. O General Ugarte desta vez invadiu minha seara, tomou a seu cargo o serviço de fornecimento e deu o contrato à firma Parker & Baker, Caterers.

— Talvez tenha conseguido condições mais favoráveis — alvitou Clare, sem nenhuma convicção, olhando para o quadro do televisor, cujo som tivera de diminuir para atender o telefone.

— Qual, Miss Ogilvy! Vinte por cento mais caro. E não preciso dizer-lhe quem vai embolsar essa bela porcentagem. . .

— Paciência, Michel. Quem perde com isso é o Tesouro da República do Sacramento. Sinto muito, mas não posso fazer nada...

— Mas, Mademoiselle, veja a minha situação. Eu já me havia comprometido com os Beauchamps Frères, como todos os anos. Cest calamiteux!

Clare ansiava por voltar a seu programa. Pensava na cara do mordomo: o orifício rosado da boca, que o longo nariz quase escondia, os olhinhos piscos, a expressão entre obsequiosa e azeda.

— Pois é, Michel. Que desgraça! Desta vez você vai perder seus dez por cento habituais, hem?

— Mademoiselle!

Clare Ogilvy cortou a ligação.
Cerca das oito horas daquela noite, o carro da Embaixada do Sacramento havia parado diante do pórtico da residência do embaixador. Aldo Borelli saltara para fora, abrira a porta do veículo, de dentro do qual saíra Rosalía Vivanco, com a gola do casacão erguida, cobrindo-lhe metade do rosto, a cabeça envolta num lenço amarrado debaixo do queixo. Premiu o botão da campainha da porta, que Michel lhe abriu, e entrou na mansão. O chofer voltou para seu lugar, e a dama que permanecera dentro do automóvel ordenou: "Toque agora devagarinho para o Rock Creek Park". Aldo Borelli obedeceu. Estava começando a alarmar-se. . . Pelas coisas que vira e ouvira naquelas últimas semanas, poucas dúvidas podia ter quanto às intenções da gorda vaca que se repimpava no banco traseiro do carro. . . Seu perfume ativo e enjoativo chegava-lhe às narinas como uma espécie de convite libidinoso. Mamma mia! O que ele queria mesmo era viver em paz com sua mulher, juntar um dinheirinho extra para mandar buscar da Itália o irmão caçula. . . Se a generala fosse moça e bonita, não haveria nenhum problema a não ser, talvez, o risco de ser apanhado em flagrante pelo general.

— Linda noite, Aldo!

— Muito linda, senhora.

O italiano mirou a passageira pelo retrovisor. Ela lhe lembrava fisicamente certas mulheres sicilianas e calabresas, corpulentas e bigodudas. Mas as sicilianas e as calabresas em geral tinham um alto senso de honra e decência. Eram fiéis a seus maridos. Na Sicília e na Calábria, honra se lavava com sangue.

Havia pouco movimento de carros no parque. Numa encruzilhada, Aldo hesitou.

— Para onde vamos, senhora?

— Vamos ver as cerejeiras. Siga pela beira do rio e passe depois pelo monumento de Jefferson. Até o obelisco.

O obelisco! Ninfa Ugarte ficou a acariciar em pensamento a imagem de carne que a de pedra lhe evocara. O que estava fazendo era arriscado e por ser arriscado, excitante. Uma amiga lhe dissera certa vez que a emoção de perseguir a caça era mais forte até mesmo que a de matar a caça. ..

— Você é casado, Aldo?

— Sou, minha senhora.

— Quantos anos tem sua mulher?

— Vinte e oito.

— É bonita?

— Eu acho, madame.

— Tem filhos?

— Dois, senhora. Um menino e uma menina.

Ninfa olhava fascinada para a nuca forte e moça do italiano.

Minutos depois, quando o Mercedes-Benz passava pelo monumento a Jefferson, Ninfa elogiou a beleza de Washington. Aldo conhecia o Sacramento? Não? Era pena. Devia conhecer. Cerro Hermoso ficava num vale verde. O clima era ameno. A cidade, uma jóia, com suas mansões antigas, dos tempos coloniais. A Catedral — Dios mio! — era preciosa. Puro estilo plateresco. (Se ele me pergunta o que é plateresco, estou frita.)

Quando de novo se aproximavam das margens do Potomac, o chofer perguntou:

— E agora, senhora?

— Temos que fazer tempo, Aldo. Prometi ir buscar minha amiga lá pelas onze e meia. Vamos para Virgínia!

Madonna! — vociferou Aldo Borelli mentalmente. Se o General Ugarte fica sabendo disto, posso perder o meu emprego e até levar uma surra. . .

O carro atravessou a Memorial Bridge e depois tomou o caminho de Alexandria. Quando já se avistavam as luzes azuis do Aeroporto, Ninfa ordenou:

— Pare o carro ali pertinho do rio.

Velha maldita! Aldo desviou o carro da estrada asfaltada e aproximou-o da beira da água. Do centro do Aeroporto subia para o céu um raio vertical de luz violácea.

Ninfa Ugarte remexeu-se no seu banco, e, gemendo baixinho do esforço, abriu a porta e saiu. Aldo Borelli estava já um pouco excitado, a contragosto, pela expectativa. . . Tudo aquilo, além de perigoso, era ridículo. Imaginou-se a contar a história à sua mulher, quando chegasse a casa aquela noite: "Imagina tu, Antonieta, que a esposa do general me fez parar o carro num lugar deserto, perto do rio, e..." Seus pensamentos foram interrompidos pelo ruído do trinco da porta, à sua direita. . . A quente, volumosa e perfumada presença de Ninfa Ugarte se fez sentir a seu lado. "Aqui do banco da frente — desculpou-se ela — posso ver melhor os aeroplanos." De fato, a curtos intervalos aviões aterravam no Aeroporto ou decolavam dele, voando a pouca altura da água. Aldo Borelli segurava forte o volante, os músculos faciais retesados.

— Um homem como você, Aldo — ciciou Ninfa, cuja mão gorda pousou no joelho do chofer —, não devia contentar-se com esta profissão. Podia até ser artista de cinema ou televisão.

Um avião passou roncando na direção do Aeroporto.

Aldo Borelli cerrou os dentes e permaneceu em silêncio, olhando fixamente para a água onde se refletiam tremulamente as luzes das margens. Ninfa Ugarte arfava, sentindo o coração bater-lhe com mais rapidez e força. E de súbito, com um açodamento e uma gula de menina gorda, puxou o fecho-relâmpago das calças de Aldo Borelli.


Bill Godkin chegou ao seu apartamento da Rua R. cerca das onze e meia. Antes de ir para a cama, decidiu fumar mais um cachimbo. Ficou sentado no living, olhando para suas coisas. Um caçador de feras — refletiu — tem em suas paredes as cabeças empalhadas de tigres, leões, panteras, javalis. .. Um caçador de homens como ele guarda os retratos de suas "vítimas". Suas paredes estavam cheias de quadros com fotografias de personalidades famosas que entrevistara durante suas três décadas de vida jornalística. Tinha retratos autografados de Gómez da Venezuela, Sandino, Cárdenas, Pérez Jiménez, Vargas, Ubico, Somoza, Santos-Dumont, Gabriela Mistral. . . Ergueu-se para examinar de perto, com uma curiosidade particular, a ampliação que mandara fazer da fotografia que em 1925 ele próprio tirara de Juventino Carrera cercado de seu Estado-Maior, no alto da Serra da Caveira. Lá estavam os barbudos bandoleiros, com seus chapéus de abas largas, cartucheiras a tiracolo, facões e revólveres nos cintos. Concentrou a atenção no mais alto dos homens. Mesmo naquele instantâneo já amarelado pelo tempo, o observador podia sentir que, de todo o grupo, Gabriel Heliodoro era o que tinha a cara mais expressiva.

Bill tornou a sentar-se. Em cada canto do apartamento guardava recuerdos dos países da América Latina que visitara. Havia colocado em cima do consolo da lareira a árvore-da-vida que comprara dum artista mexicano índio: ali estava ela, na sua inocente policromia, com seus passarinhos, flores, meninos e anjos. O torito de Pucará que se encontrava ao lado da árvore lhe fora dado por Haya de Ia Torre no dia em que ele entrevistara pela primeira vez o líder aprista. As boleadeiras retovadas ele as ganhara dum político uruguaio. Espécimes de cerâmica negra do Chile, maracás da Colômbia, tapetes peruanos, mexicanos e equatorianos adornavam o living e seu quarto de dormir — e cada objeto tinha uma história. Junto da poltrona, onde ele estava agora sentado, e ao pé da jarra de fumo, em cima duma mesinha redonda, luzia a faca de prata, de cabo e bainha lavrados, que Getúlio Vargas lhe presenteara, e que ele usava como corta-papel.

Terminado o cachimbo, Godkin encaminhou-se para o quarto de dormir, tirou a roupa, vestiu o pijama, entrou no quarto de banho e começou a escovar os dentes (oitenta por cento das pessoas — refletiu — põem a mão esquerda na cintura enquanto escovam os dentes... Fazia o possível para não ver a cara que o espelho insistia em lhe mostrar. Houve, porém, um momento em que lhe pareceu que o homem do espelho queria falar-lhe: não teve outro remédio senão encará-lo.

E então? — pareceu perguntar o outro. — Nada — respondeu ele em pensamento —, absolutamente nada. A vida continua a mesma e é melhor não discutir o assunto.

Com a espuma do dentifrício a escorrer-lhe por um dos cantos da boca larga e de desenho mal definido, Godkin ficou a analisar-se. Se Deus lhe houvesse dado uma dessas caras de que as mulheres gostam, por exemplo, como a de Pablo Ortega. . . ou mesmo como a de Orlando Gonzaga — sua vida teria sido muito diferente do que fora? E se ele tivesse um metro e noventa de altura e uma face de ídolo maia, como Gabriel Heliodoro? Melhor: se o animassem todas as paixões, os impulsos e as ousadias do novo embaixador do Sacramento — ele, Godkin, seria hoje apenas um viúvo solitário, chefe do Bureau Latino-Americano da Amalpress?

Pensou na esposa morta. Pobre Ruth! Que teria visto nele para aceitar a tímida e intempestiva proposta de casamento que ele lhe fizera no terraço daquele hotel do Caribe? Pobre menina! Tinha a alma duma missionária. Ficaria muito bem num uniforme do Exército da Salvação. Bill sorriu. Muitas vezes imaginara Ruth assim vestida a cantar e tocar pandeiro numa esquina do West Side de Nova York. . . E essa idéia o enternecia.

Tornou a examinar sua própria imagem, com olho crítico. Cabelos cor de ruibarbo, já ralos. Pele dum branco rosado, pintalgada de sardas. Olhos claros, quase vazios de expressão, como os das estátuas. E por pensar em estátua, alguém já lhe dissera que, com aquele nariz quebrado, ele se parecia um pouco com Miguel Ângelo. Lembrou-se de sua viagem à Europa em companhia de Ruth — a viagem com que ela se despedira do mundo. Na Igreja de Santa Maria del Fiore, em Florença, tivera a maior emoção artística de sua vida diante da Pietà de Miguel Ângelo. Ao vê-la, ele, que até então pouco entusiasmo tinha pela escultura, sentira como que um soco no peito, num impacto que lhe cortara a respiração. Lágrimas lhe vieram aos olhos. Ruth apertara-lhe ternamente o braço, sussurando-lhe ao ouvido: "Meu bem, como se parece contigo a figura que está segurando o Cristo morto!" Grande consolo ter um nariz partido como o de Miguel Ângelo Buonarroti!

Godkin deitou-se e pôs-se a ler o jornal da tarde. Fidel Castro continuava a fazer notícias, O ditador dominicano rosnava ameaças ao governo revolucionário cubano. Dulles estava perdido, um novo Secretário de Estado ia ser nomeado. Dwight Eisenhower havia declarado ao conselho da N. A. T. O., reunido em Washington, que seus membros deviam estar preparados para viver num estado de tensão e de contenda diárias com a União Soviética. A China vermelha invadira o Tibé. Belo mundo! Bravo mundo!

Godkin passou às notícias não políticas. Uma nota informava que existia agora um "esporte" muito popular entre os estudantes, e que era cultivado desde a África do Sul até a Califórnia. Procurava-se a resposta para uma dúvida de importância transcendente. "Quantas pessoas podem caber dentro duma cabina de telefone?" O St. Mary's College da Califórnia alegava ter ganho o campeonato mundial, metendo vinte e dois estudantes dentro duma dessas casinholas. Bill sacudiu a cabeça lentamente, resmungando. "Não terão mais nada que fazer?"

Numa outra página do jornal leu que Mrs. Eleanor Roosevelt havia comprado em Israel, por setenta e sete dólares, um camelo para dá-lo de presente a sua neta, mas que o Departamento da Agricultura não permitira a entrada do animal nos Estados Unidos por causa do perigo de ser ele portador de germes da febre aftosa. Well. . . Mas nem tudo estava perdido — pensou o jornalista. Na noite anterior, sessenta milhões de americanos haviam assistido pela televisão à cerimônia da entrega dos Oscars de 1958, irradiada dum cinema em Hollywood. Sessenta milhões! — pensou Bill, atirando o jornal no chão e apagando a luz. Sessenta milhões de pares de olhos postos num quadro luminoso em que se desenrolava uma fantasia em torno de outra fantasia, uma mentira inspirada por outra mentira. Era a glorificação máxima, o triunfo supremo do mundo do faz-de-conta. E por trás daquele tolo espetáculo havia como sempre uma fábrica que queria vender um produto.

Fechou os olhos. Pensou em Ruth. Depois (curioso!) numa adolescente que ele vira aquela tarde deitada na relva, sob as cerejeiras floridas: o busto bem modelado metido num suéter justo dum amarelo vivo, e que lhe punha em relevo os seios. Parecia uma fruta recém-caída de sua árvore. Não! Era uma flor amarela, ou, melhor, a Deusa das Forsítias. Ele a mirara com olhos que eram ao mesmo tempo de homem e de pai. Não sabia ao certo se desejava a jovem criatura para filha ou para amante. De qualquer modo, a Deusa das Forsítias lhe aguçara a sensação de tempo perdido e irrecuperável.

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