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O senhor embaixador


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Desde as dez da manhã Pancho Vivanco, de instante a instante, aproximava-se da janela de seu gabinete que dava para o parque. Não queria deixar de ver Gabriel Heliodoro no momento em que este saísse de sua residência para ir à Casa Branca. Quando viu o Mercedes-Benz parar à frente da mansão residencial, seu pulso se acelerou, um calafrio percorreu-lhe o corpo. Era como um assassino na tocaia, à espera da vítima. Um suor gelado umedecia-lhe as mãos e a testa. Sim, com uma carabina munida de mira telescópica, de sua janela ele poderia alvejar o embaixador com um tiro certeiro. Brincou com a idéia — que lhe era a um tempo agradável e impossível — como um menino faz de conta que é um cowboy à espera de que o índio pele-vermelha caia na emboscada que ele lhe armou. E quando Gabriel Heliodoro surgiu à porta, imponente no seu sobretudo preto, Pancho Vivanco, trêmulo duma emoção que ele queria fosse apenas ódio, encostou a testa no vidro da vidraça e ficou a contemplar o amante de sua mulher. Sabia que seus colegas de chancelaria estavam ao corrente de toda a história. E não ignoravam que ele, Vivanco, sabia também que era enganado pela esposa. Como podia esperar que os outros o respeitassem ou estimassem? O mais que poderiam sentir por ele era desprezo e dó.

Gabriel Heliodoro parou um instante no pórtico, antes de entrar no automóvel. Mentalmente, Pancho se viu com a carabina na mão, fazendo pontaria. Pêi! O homem tombaria nas lajes. . . E então ele iria imediatamente apresentar-se ao ministro conselheiro: "Dr. Molina, acabo de assassinar o embaixador". Seria julgado em Cerro Hermoso. Não poderia invocar perturbação de sentidos. O promotor insistiria na premeditação, no que estaria certo. Trinta anos.

O Mercedes-Benz fez a volta do jardim, entrou na avenida e passou lento pela frente da chancelaria.

Pancho Vivanco voltou para sua mesa de trabalho, sentou-se e olhou para os passaportes, cartas e faturas que tinha de despachar aquela manhã. . . Miss Clare Ogilvy dissera-lhe um dia: "Vivanco, você tem alma de burocrata". Na realidade, lidar com papéis, examiná-los, carimbá-los, rubricá-los, anotá-los; vasculhar arquivos, classificar documentos — tudo isso constituía para ele um jogo fascinante. Era com certa volúpia, com um prazer quase carnal que ele apalpava papéis. Em matéria de serviço, era um perfeccionista. Tinha horror a rasuras, borrões de tinta, manchas de qualquer natureza. Sua letra era miúda, mas clara e meticulosamente desenhada. Nada o desconcertava mais do que ser apanhado em erro, por menor que fosse.

Olhou para a fotografia da esposa que tinha debaixo da coberta de vidro da mesa. Rosalía! Rosalía! A mulher nunca se mostrara amorosa com ele, nem mesmo durante a lua-de-mel. No princípio era pelo menos submissa, paciente. Mas agora, desde que haviam chegado a Washington, Rosalía parecia sentir por ele uma repugnância crescente. Certas noites fechava-se no quarto, recusava deixá-lo entrar, pretextando enxaquecas e canseiras, e ele tinha de dormir no sofá do living; muitas vezes a arder de desejo por ela.

Vivanco tornou a olhar para os documentos empilhados na sua frente e, como sempre acontecia, foi tomado por aquela singular inibição que lhe vinha todas as manhãs e que ele não conseguia explicar a si mesmo. Para ganhar ânimo e disposição para começar o trabalho, tinha de entregar-se antes a uma espécie de ritual. Apanhou uma folha de papel em branco e, com seus dedos destros (era um hábil prestidigitador, costumava fazer mágicas de salão em festas de familiares), dobrou-o, dando-lhe a forma dum pássaro. Soltou-o no ar, usando os indicadores de ambas as mãos à guisa de catapulta, e ficou contemplando com delícia a curva graciosa que o "pássaro" traçou no espaço, antes de cair. . . Uma gaivota guinchou-lhe na memória.

Ah! Sua lua-de-mel naquele hotel de Puerto Esmeralda!

Os jantares no terraço que dava para o mar! A orquestra de marimbas e maracas! Aquela felicidade que lhe enchia todo o ser, apesar de ele saber que Rosalía não o amava de verdade. Para chegarem à praia, bastava-lhes atravessar a avenida asfaltada. Depois saíam de mãos dadas a caminhar sobre a areia clara. Às vezes ele largava a mão da mulher, deixava-se ficar para trás para observar-lhe a plástica, as coxas longas e bem torneadas, as belas nádegas, a cintura fina, aquele andar de deusa. . . Tirara dela centenas de fotografias coloridas. Observava que os outros homens a devoravam com o olhar, quando a viam passar. . . Isso não lhe provocava indignação ou ciúme: ao contrário, dava-lhe uma espécie de feroz orgulho de ser o marido duma fêmea assim tão cobiçada. Às vezes ficava até irritado quando algum veranista do sexo masculino passava por eles sem examinar Rosalía de alto a baixo, com olhar lúbrico. E à noite, quando faziam amor com as janelas abertas para a brisa e os sons do mar, ele pensava em todos os machos que haviam desejado sua mulher durante o dia, imaginava-os reunidos ali no quarto a observá-lo no ato sexual e isso lhe aumentava esquisitamente o prazer do orgasmo.

Vivanco olhava agora melancolicamente para o passarito de papel que jazia caído sobre o tapete verde — gaivota morta na superfície do mar. Mas era preciso trabalhar! Tirou os óculos, bafejou ambas as lentes, limpou-as metodicamente com o lenço de seda, repô-los no nariz e lançou um olhar satisfeito sobre a mesa toda cheia duma série de objetos que ele, quando menino, desejara mas, pobre, nunca pudera comprar: canetas-tinteiro dos tipos mais variados, um pote de barro cheio de lápis de diversas cores, apontadores, grampeadores, réguas de plástico, uma lente de aumento, corta-papéis, cadernetas de notas... Os Estados Unidos eram o paraíso para quem gostava daquelas coisas! Vivanco não podia passar por um drugstore ou por uma papelaria sem entrar e comprar algum artigo de escritório, mesmo sabendo que jamais iria usá-lo.

O ritual, porém, não estava ainda terminado. O cônsul abriu uma das gavetas da escrivaninha, onde guardava dezenas de lápis coloridos de cera, apanhou alguns deles e por alguns minutos ficou a rabiscar no seu bloco de notas de papel amarelo pautado. Era engraçado como, depois de encher toda uma página com desenhos geométricos, ele se sentia aliviado de sua angústia e encorajado para começar o trabalho.

Tirou de novo o lenço do bolso e enxugou o rosto. Pensou nas mãos de Gabriel Heliodoro: fortes como garras, dum pardo terroso, com veias salientes. Ainda ontem, quando o embaixador assinava papéis na sua presença, ele ficara a examinar aquelas mãos que na noite anterior, com toda a certeza, haviam acariciado o corpo de Rosalía. Viera-lhe então um desejo de mordê-las, dilacerá-las. . . Depois ficara a contemplar com igual fascínio a cara do embaixador. Parecia uma escultura talhada em arenito. Vinha dele uma fragrância de lavanda mesclada com sarro de bom charuto havanês. Seus olhos fixaram-se então no pescoço de seu chefe. Pensou: "Se nos atracássemos em luta, ele me esmagaria com seus braços de gigante. Mas eu poderia moder-lhe a jugular. . ." Imaginou o outro a rolar no tapete, ambas as mãos no pescoço, de onde o sangue esguichava. . . Essa fantasia lhe ocupara a mente durante uma fração de segundo. Quanta coisa cabia num décimo, num centésimo, num milésimo de segundo! Toda uma vida. Toda uma morte.

Vivanco soltou um suspiro, repôs os lápis na gaveta, arrancou do bloco a folha cheia de desenhos, amassou-a e jogou-a no cesto, ao lado da mesa. Depois pegou o primeiro papel com uma certa reverência, assobiando baixinho, numa espécie de auto-satisfação, quase esquecido das coisas que havia pouco o perturbavam. Tratava-se duma carta que ele redigira a mão, em espanhol, que Miss Ogilvy traduzira para o inglês e que a Srta. Mercedes datilografara. De súbito, seu céu interior de novo se toldou. Descobrira no texto uma rasura malfeita. Apertou um botão de campainha. Pouco depois Mercedita apareceu à porta do gabinete. Pancho Vivanco ergueu-se e apresentou-lhe o papel.

— Esta carta foi datilografada como a sua cara! Passe-a de novo a limpo!

— Desculpe, Sr. Vivanco. . . — começou a moça, já a choramingar.

— Não aceito desculpas. Preste mais atenção ao seu trabalho. Pense menos em homem. Trabalhe com os dedos e a cabeça e não com o útero.

Mercedita apanhou o papel e saiu do gabinete com os olhos cheios de lágrimas. Pancho Vivanco sentou-se, esfregou as mãos, e passou ao próximo papel.

O gabinete do ministro conselheiro ficava contíguo ao do cônsul. Era, no entanto, mais amplo e mobiliado com um gosto menos burocrático. Clare Ogilvy costumava pôr flores frescas num vaso que havia sobre a mesinha redonda, à frente do sofá de couro. O Dr. Jorge Molina, porém, lhe pedira que não fizesse mais aquilo e retirasse o vaso do gabinete. Nas paredes, dum rosa desmaiado, não havia sequer um quadro. Comparada com a mesa de trabalho de Vivanco, a do Dr. Jorge Molina era duma sobriedade monacal.

Aquela hora, o ministro conselheiro estava sentado junto dela, as mãos postas numa atitude de prece, os polegares debaixo do queixo, as extremidades dos indicadores a tocarem-lhe a ponta do nariz. Fazia já minutos que se encontrava naquela postura, a olhar como que hipnotizado para o jornal aberto sobre a mesa.

Duas coisas o perturbavam, aquela manhã. A primeira era o despeito que sentia, mau grado seu, por não ter sido convidado por Don Gabriel Helíodoro para acompanhá-lo à Casa Branca. A outra era a carta do Dr. Leonardo Gris que o Post publicara. O Dr. Molina fazia o possível para convencer-se de que nenhuma daquelas coisas era de importância capital. Não iam alterar sua vida interior. Nem chegavam a feri-lo fundo; eram arranhões de superfície. Mas o simples fato de sentir essas agressões desagradava-lhe, como um sinal de que ele não estava tão imune a elas como esperava e desejava.

Gabriel Heliodoro era um primário. Ignorava ou desprezava o protocolo. Era preciso que ele, Molina, se fosse habituando desde já àquelas irregularidades. Outras viriam, e piores. Devia forrar-se de paciência. E,- fosse como fosse, Gabriel Heliodoro teria de apoiar-se nele se no exercício de seu cargo não quisesse cometer erros palmares, expondo-se ao ridículo.

Consultou o relógio. Aquela hora possivelmente o embaixador devia estar subindo os degraus da porte cochère da Casa Branca, onde Dwight Eisenhower o esperava. O chefe da mais poderosa nação do mundo ia apertar a mão daquela "paródia de embaixador" duma "paródia de país" — sim, era preciso reconhecer a triste, ridícula verdade, pois o Sacramento era uma ilha do mar das Caraíbas, governada por um ditador vulgar, ignorante e desonesto, ". . .que tu serves" — disse alguém na mente do ministro conselheiro. Era a voz de Leonardo Gris.

Jorge Molina levantou-se e, com as mãos às costas, começou a andar dum lado para outro. A imagem de Gris costumava persegui-lo como a implacável personificação duma consciência de culpa. A verdade era que o Ministro do Exterior de seu país o mandara para Washington com o fim de, entre outras coisas, vigiar Leonardo Gris e responder aos ataques que ele fazia ao Governo do Sacramento — neutralizar, em suma, a ação daquele exilado apátrida.

Leitor de Platão, Molina amava o diálogo, que achava a forma mais clara e sucinta para a troca ou a discussão de idéias. Solteiro e solitário, costumava debater seus problemas consigo mesmo, verbalizando-os vocal ou mentalmente. Entre os interlocutores imaginários, seu favorito era Don Pánfilo Arango y Aragón, o Arcebispo Primaz do Sacramento, seu amigo particular, pessoa que ele admirava e estimava profundamente, e cuja biografia estava a escrever com amoroso cuidado. E, por mais incrível que parecesse, outro de seus interlocutores-fantasmas mais assíduos era o próprio Leonardo Gris, seu antigo colega de universidade e atual inimigo político.

Molina agora imaginava Gris sentado ali no sofá, as pernas cruzadas, a bela cabeça prateada erguida, os olhos postos nele com aquela sua agudeza que em certas ocasiões chegava a ser desconcertante.

Gris acendeu um cigarro, Molina jamais fumara em toda a sua vida. Detestava qualquer hábito que tendesse a escravizar-lhe a vontade.

Li sua carta no Post de hoje — disse o ministro conselheiro em pensamentos.

Imaginou a resposta do outro:

— Seja honesto e confesse que meu artigo não contém uma falsidade sequer.

— Admito que ele não contenha "mentiras". O que discuto é a sua oportunidade. Condeno sua conduta sob o aspecto ético. Roupa suja lava-se em casa. . .

— Eu também tenho sérias objeções à sua ética, Jorge. Se você aceita em princípio minhas críticas ao seu Governo, ao seu Presidente e ao seu embaixador, como se explica que você esteja aqui a serviço dos três?

— Um momento! — E ao pensar estas palavras, Molina fez alto no meio do gabinete e olhou para o sofá. — O que eu sirvo é o meu país, que continuará a existir muitos séculos depois que eu desaparecer; e a minha Igreja, que é eterna.

A risada grave e sonora de Gris, que sabia ser maliciosa sem maldade e até satírica sem perder o tom cordial — aquela famosa risada tão querida dos universitários de Sacramento, soou na memória do ministro conselheiro.

— A sua Igreja? Como pode você dizer isso, Jorge, se não é segredo que você abandonou o seminário por ter perdido a fé na existência de Deus? Nega isso?

— Não nego. Mas temos aí uma sutileza. Você é ateu e seu ateísmo o alegra. Eu perdi Deus e sofro por isso, e não cesso de procurá-lo, e tenho a esperança de encontrá-lo um dia. Mais ainda! Eu amo a idéia da existência de Deus, ao passo que você a despreza e ridiculariza como algo de infantil, inferior. Você quer destruir essa Igreja a cuja defesa me entrego com paixão.

— De quem a defende? Acho que você está investindo contra moinhos de vento. . .

— Defendo-a do comunismo, Leonardo, do materialismo, da desesperança, da desagregação geral, do caos... E de homens como você!

— Não cometa a injustiça de me considerar comunista.

— Não. Você é pior que isso. Por mais que eu deteste a idéia do marxismo-leninismo, não posso deixar de admirar os comunistas pela sua fidelidade a uma ideologia e pela coerência de seu raciocínio e de seu comportamento dentro dela. O que desprezo e detesto são os chamados "liberais" como você, homens sem programa político definido, sem o amparo dum corpo de doutrina. Vocês limitam-se a criticar os governos de direita e de esquerda, sem lhes oferecer um plano de ação construtiva. São contra o que chamam levianamente de "obscurantismo" da Igreja, vivem chamando pela liberdade de pensamento, são em suma uns "bons moços" (como esse Pablo Ortega, seu discípulo) que se refugiam num humanismo epidérmico e palavroso. No fundo o que vocês buscam é furtar-se a compromissos definidos que tanto os católicos como os comunistas e os fascistas — sim, até os fascistas! — assumiram.

— Não me faça rir, Jorge. Não há nada mais vago e absurdo que sua própria atitude. Se você não tem a certeza de que Deus existe, de que vale manter sua Igreja?

— Eu lhe poderia responder dizendo que é porque eu amo essa Igreja, compreende? Amo sua tradição, sua pompa, seu ritual, a história de seus santos e mártires. . . em suma, seu corpo místico. Que outra força no mundo pode opor-se à onda materialista do marxismo e do niilismo? Precisamos, Jorge, de algo mais que uma filosofia intestinal, duma interpretação digestiva da História!

Molina ouviu passos no corredor. Esperou que alguém lhe batesse à porta. Passaram-se segundos e os passos se afastaram. Agora Gris estava junto da janela. O ministro conselheiro sentia um certo prazer em imaginar o ex-colega de pé, pois Gris era um homem baixo, ao passo que ele, Molina, tinha quase um metro e oitenta de altura.

— Eu acuso você, Leonardo Gris, de, por idéias e atos, por comissão ou omissão, ter ajudado a causa do comunismo no Sacramento, nos tempos em que foi Ministro de Educação e Cultura.

O rosto do outro continuava sereno. Seu olhar limpo amedrontava um pouco Molina.

— Faça acusações específicas e não apenas vagas.

— Você mandou retirar os crucifixos de todas as escolas públicas, aboliu delas o hábito da oração matinal, e eliminou o ensino de religião de seu currículo. Transformou também uma universidade secular num ninho de livres-pensadores, de comunistas e pragmatistas. Não só permitiu como também encorajou e quase tornou obrigatório o ensino da teoria evolucionista nas escolas secundárias e até nas primárias. E você me fará a justiça de reconhecer que critiquei e combati todas essas medidas pela imprensa, claramente, durante o Governo de Moreno.

— E sabe por que isso lhe foi possível? Porque na gestão de Moreno sempre houve no país inteiro a mais absoluta liberdade de pensamento e expressão. Nenhum jornal foi jamais censurado.

Molina aproximou-se da mesa e lançou um rápido olhar para a página do Post onde fora reproduzida a carta do exilado.

— Vou revidar imediatamente ao seu ataque!

— Nega que Gabriel Heliodoro é um agiota e um ladrão? Que é sócio das negociatas de seu compadre, Carrera? Vai tentar convencer o povo americano de que a República do Sacramento é realmente uma democracia?

-— Não. Vou provar que, quando estava no Governo de seu país, você fazia consciente ou inconscientemente (isso não importa!) o jogo das esquerdas. Você desejou para sua pátria um tipo de Governo semelhante ao do Coronel Arbenz, na Guatemala. O projeto de reforma agrária do Governo de vocês era nitidamente comunista. Vocês eram, em suma, inocentes úteis. Talvez mais úteis que inocentes!

Molina premiu o botão duma campainha. Instantes depois bateram-lhe à porta. "Entre!" Mercedita entrou.

— Chamou, senhor Ministro?

Molina teve ímpetos de gritar: "Se a campainha da sua mesa soou, iluminando o disco número dois, está claro que fui eu quem chamou". Mas conteve-se limitando-se a fazer com a cabeça um sinal afirmativo.

— Sente-se. Vou ditar-lhe uma carta que depois a senhorita levará a Miss Ogilvy para que ela a traduza para o inglês.

Percebeu que os olhos da secretária estavam injetados.

— Por que chorou? — perguntou, arrependendo-se imediatamente da pergunta, pois não gostava de meter-se na vida privada dos outros, para que ninguém se sentisse com o direito de imiscuir-se na sua.

— Oh, senhor Ministro! Não foi nada. . .

— Vivanco outra vez?

Ela baixou a cabeça e murmurou um sim quase inaudível. Molina teve gana de chamar o cônsul à sua presença e esbofeteá-lo. Aquele homúnculo desprezível, não tendo coragem suficiente para agredir o embaixador, vingava-se na mais humilde das funcionárias da chancelaria!

Houve um silêncio. A secretária esperava, de lápis e caderno estenográfico em punho. Jorge Molina lançou um rápido olhar enviesado para a rapariga. Mercedes Batista era feia. Seu torso e sua cabeça prometiam uma mulher alta, mas as pernas curtas desmentiam grotescamente a promessa. O ministro conselheiro achava providencial poder contar na chancelaria com uma secretária desse tipo. As outras — bonitas, jovens, perfumadas, de seios exuberantes e caras excessivamente pintadas — eram as preferidas de Ugarte e de seus assistentes. Se, por acaso, alguma delas entrava no seu gabinete, Molina sentia um mal-estar que aos poucos se ia transformando em algo que se avizinhava do pânico. Não tinha muita prática em lidar com mulheres. Nunca tivera. Depois que deixara o seminário, conservara o hábito da castidade. Por quê? — perguntava-se às vezes a si mesmo. Ainda a idéia monacal de que desejo sexual é pecaminoso? Repugnância? Medo de falhar como homem? Considerava-se uma pessoa normal, o desejo visitava-lhe o corpo com freqüência e ele o combatia com banhos frios e exercícios espirituais. As orações o ajudavam muito nessas horas do diabo.

(Diabo? — perguntou Gris. — Você não acredita em Deus e aceita a idéia do diabo?) Tinha às vezes poluções noturnas que nunca podia — nem procurava — ligar a nenhum sonho definido. Tratava com mulheres apenas socialmente em jantares, recepções, conferências. (A verdade — intrometeu-se Gris — é que, quando uma mulher o encara, você desvia dela o olhar.) Tolice! As mulheres nunca o assediavam. Talvez ele mantivesse a castidade por puro comodismo. Ou por orgulho. Sentia-se forte por não se entregar à luxúria. Sua solidão era uma cidadela. Seu celibato, uma couraça.

— Pronto, senhorita?

— Sim, senhor Ministro.

— Enderece a carta ao redator-chefe do Washington Post. Miss Ogilvy conhece a fórmula.

Molina uniu as mãos como se fosse rezar, apoiou os polegares no queixo descarnado, prendeu a ponta do nariz com os indicadores e começou a ditar.

8
Naquele momento, Ernesto Villalba passava no corredor pela frente da porta do gabinete do ministro conselheiro. Andava com passo leve de dançarino, calçava moccasins, e cantarolava em falsete um trecho de Pelléas et Mélisande. Fez alto diante duma das muitas portas do longo corredor e deu-lhe duas batidas secas. Ouviu uma voz meio abafada: "Adelante!", e entrou no gabinete do General Hugo Ugarte como quem entra num palco. Postou-se à frente do adido militar, bateu os calcanhares inaudivelmente, fez uma leve curvatura, uma continência e disse:

À vos ordres, mon général!

Ugarte estava sentado à sua mesa, nua como de costume, a olhar para um livro volumoso como um guia telefônico e no qual Villalba reconheceu o último catálogo da Sears & Roebuck.

— Titito, eu te chamei para me dares uma ajuda. Quero que me botes em língua de cristão este negócio. Olha aqui. m

O secretário aproximou-se do velho pelas costas e olhou para a página que seu indicador grosso e nodoso mostrava.

— Não me diga que vai comprar um chino, general!

— Não sejas besta. Traduz este negócio. Não resolvi ainda.

Titito recuou dois passos e ficou a contemplar a calva de Ugarte. Vista pela retaguarda, dava a impressão dum enorme ovo lustroso a sobressair dum ninho de penas negras. (O general pintava os cabelos.)

— Bom — disse o secretário, depois de ler mentalmente o texto indicado. — O anúncio dirige-se aos quinze milhões de carecas dos Estados Unidos.

— Quinze milhões? Caramba!

— Está vendo este molde de papel solto? É para medir o formato da cabeça do cliente. O meu general manda a sua medida junto com uma mecha de seus cabelos para eles verem a cor exata para a peruca. Tudo pode ser feito pelo correio. Se meu general não quiser usar o seu próprio nome, use o meu. Ah! Diz o anúncio que a casa tem cabeleiras postiças em quinze tons diferentes. Ai, que beleza!

Ugarte começou a produzir no fundo da garganta um ruído que parecia o crocitar dum corvo. Recostou-se na cadeira giratória e ergueu os olhos para o outro.

— Que será que vão dizer de mim se eu aparecer em Cerro Hermoso com uma cabeleira postiça?

— Vai ser um sucesso!

— E se algum canalha rir na minha cara?

— Dê-lhe um tiro na boca!

Hugo Ugarte ergueu-se, puxou os fundilhos das calças que se lhe haviam metido por entre as nádegas gordas, abriu a garrafa de metal que estava em cima duma mesinha auxiliar, despejou um pouco de água num copo e bebeu um largo sorvo. Olhou enviesado para o catálogo:

— Não. Não quero me arriscar. A Ninfa seria a primeira a me ridicularizar.

O general estava à paisana, numa roupa cor de chumbo mal cortada e demasiadamente justa ao corpo. Examinou Titito criticamente da cabeça aos pés.

— Onde andaste metido nestes últimos dois dias? — perguntou, acrescentando com um sarcasmo provocador: — Arranjaste um amante novo?

— Ora, general, que é isso? O senhor sabe que sou um modelo de fidelidade conjugal.

Ugarte suportava aquelas intimidades do maricão porque este lhe prestava serviços de toda a sorte, inclusive o de lhe arranjar mulheres. De resto o humor cínico do secretário divertia-o.

— Explico a minha ausência, mon general. Fui a Nova York especialmente para comprar um bilhete para a estréia do corpo de baile do Teatro Bolchoi de Moscou. E sabe quanto paguei por ele? Cento e cinqüenta dólares!

— Estás doido varrido! Eu não pagava nem cinqüenta centavos para ver esses comunistas de borra dançarem. Nossos índios de Páramo dançam melhor e custam mais barato. Basta a gente pagar a eles uma rodada de aguardente.

Tornou a sentar-se à mesa.

— Outra coisa, Titíto, me escreve uma carta à General Electric e pergunta qual é o máximo de desconto que eles me dão para aqueles refrigeradores grandes, os maiores. .. sabes? Diz aos homens que se o desconto for bom eu compro dez duma vez, e a vista.

Ernesto Villalba tomou uma nota num pedaço de papel. Depois olhou para o seu relógio-pulseira de platina e disse:

— A esta hora o nosso embaixador deve estar com o Presidente Eisenhower.

O telefone do adido militar tilintou. Titito ergueu o fone, solícito, e depois de escutar o que lhe informava a operadora da chancelaria, passou-o ao general, murmurando:

— É a sua senhora.

— Olá, Ninfita! Que é que há?

— Tudo bem, Hugo. Olha, tínhamos combinado almoçar juntos, mas não vai ser possível. Me atrasei nas compras.

— Onde estás?

— No Hecht's, com a Rosalía.

— Bueno, nos encontramos em casa às cinco e meia. Mas não precisas comprar todo o estoque do Hecht. . .

Do outro lado do fio veio um palavrão. O general desatou a rir.


Ninfa Ugarte repôs o fone no lugar e deixou a cabina com a sensação de que ia desmaiar. Sempre lhe acontecia isso quando permanecia muito tempo num ambiente fechado e superaquecido. Fazia já quase duas horas que se encontrava naquele grande empório, percorrendo suas inúmeras seções, a olhar as coisas e a perguntar How much? Começara pelo último andar e viera depois descendo pela escada rolante, coisa que fazia sempre com um alvoroço de provinciana. Jau môche? Estava com a cabeça cansada de fazer cálculos, transformando mentalmente dólares em lunas. E agora lhe vinha aquela espécie de tontura, parecida com esse enjôo de mar que sentimos mais na cabeça que no estômago. A tontura era agravada pelo embaralhamento, ante seus olhos, das cores variegadas das mercadorias expostas e das caras e roupas dos numerosos fregueses em movimento e ainda pelo esplendor das rútilas decorações especiais com que a casa celebrava a entrada da primavera. Havia ainda a luz fluorescente, o vozeiro incessante, cortado por aqueles sons de sineta — den! den! — que de instante a instante ela ouvia, com uma regularidade de relógio, e que não conseguira ainda descobrir de onde vinham ou para que serviam. E o pior é que tinha em cima do corpo roupas de lã que lhe davam um calorão formigante, pondo-lhe riscos de fogo na pele. Dios mio!

Parou um instante, fechou os olhos, espalmou a mão gorda e curta sobre o peito, à altura do coração. Estaria com palpitações? Não. Não era nada. Ia melhorar. Mas onde se teria metido Rosalía? Avistou-a perto da escada rolante e dirigiu-se para ela. Não resistiu, porém, à tentação de examinar os artigos de cozinha que a cercavam por todos os lados e pareciam gritar: "Por favor, senhora, leve-nos para sua casa!"

Parou junto duma prateleira onde se alinhavam os pratos pirex, pelos quais tinha uma predileção particular. Havia-os agora coloridos e estampados: azul-turquesa, rosa-coral, vermelho . . . Tinha já comprado, desde que chegara a Washington, mais de uma dúzia daquelas ricas coisas. Imaginava o sucesso que iam fazer quando as exibisse a suas amigas sacramentenhas. . .

Uma empregada da casa aproximou-se e perguntou-lhe sorridente, em inglês, em que podia servi-la. Dona Ninfa sorriu também e respondeu com a frase habitual: Ai ême jôs lúquingue. A moça afastou-se. Foi nesse momento que a esposa do general teve a luminosa idéia. Por que não comprar muitas dúzias de pratos pirex nos mais variados tamanhos e cores, mandá-los para Cerro Hermoso e vendê-los a pessoas de suas relações? Podia ganhar bem uns dois dólares em cada um. . . Enviaria os pratos junto com as mercadorias que o Hugo estava sempre a despachar para o Sacramento. Dois dólares de lucro. Quem sabe, três. . . Estava nesse devaneio quando Rosalía lhe tomou do braço.

— Ah! — exclamou Ninfa. — Vamos comer alguma coisa, preciosa. São onze e quarenta, mas meu estômago já bateu meio-dia. É bom a gente ir para o restaurante cedo, para poder arranjar lugar.

Lançou um último olhar guloso para os artigos de cozinha: panelas e chaleiras de alumínio, objetos de cobre e níquel, panos de prato (ai que ricos!) e todo um arsenal de facas — coisas de deixarem uma criatura louca da vida! —, e saiu a andar com a amiga na direção da escada.

— A senhora não acha que para hoje basta de compras? — perguntou a mulher de Pancho Vivanco. — Estou com os pés em petição de miséria.

— Primeiro vamos forrar o estômago, filhota, e depois podemos dar uma olhadinha no basimento — respondeu Mme Ugarte, enriquecendo sua língua com um neologismo.

Conseguiram uma mesa no restaurante e puseram-se logo a estudar o cardápio. Quando a garçonete se aproximou — loura, limpa, colorida — cada qual escolheu um prato, pelo número.

A mulher do general tirou os sapatos e soltou um suspiro de alívio. Enfim sentada! Apanhou o copo que tinha à sua frente, e no qual havia mais gelo moído que água, e bebeu dele avidamente. Rosalía sorriu.

Dentes naturais — pensou Ninfa com certo orgulho nacionalista — e não dentes com capas artificiais como os dessas beldades americanas do teatro, do cinema e da televisão.

Quando vieram os pratos, Mme Ugarte olhou para o de Rosalía com uma inveja em que havia uma pontinha de rancor: folhas de alface, rodelas de ovo cozido, de cenoura e beterraba; a metade dum abricó em conserva e um punhadinho de requeijão. Só! Nada engordante. Não era de admirar que a cadelinha conservasse a linha — e que linha, Nossa Senhora! Olhou para o próprio prato em que as costeletas de porco reluziam de gordura, nadando num molho espesso, cercadas duma cordilheira em miniatura feita de purê de batatas.

Começaram a comer. Manequins vivos, esquios e elegantes, passeavam por entre as mesas, exibindo modelos de primavera, ao som da suave música saída de alto-falantes que Ninfa não conseguia localizar. Andava no ar um perfume de colônia de flores de macieira.

A esposa do general, de quando em quando, erguia os olhos para examinar a companheira. Rosalía comia como um passarinho, em pequenas bicadas. Era também linda. . . como um passarinho? Não. Como um animal de raça. Falava com um ceceio quase imperceptível que ia muito bem com o nariz levemente arrebitado. Seus olhos, com uns curiosos pontinhos dourados nas íris, eram castanhos e ternos na superfície: a sensualidade escondia-se no fundo deles (calculava a quarentena) e só viria à superfície quando seu macho a manipulasse convenientemente.

Ninfa sentia pela amante do embaixador essa ternura temperada de hostilidade que a mãe que ainda tem veleidades juvenis sente pela filha que se tornou mulher e que, além da ameaça de fazê-la avó, passa a ser também uma séria concorrente na disputa da atenção dos homens.

Rosalía por sua vez olhava furtivamente para a matrona. Seus sentimentos para com ela eram ambivalentes. Ninfa às vezes causava-lhe um mal-estar difícil de explicar. Era autoritária, desabrida e — pior que tudo! — adonara-se dela, Rosalía, desde o dia em que se haviam conhecido. Queria governar sua vida, nas menores coisas: "Não compra isto, compra aquilo". — "O azul não te senta bem, escolhe o cinza." — "Hoje tens de sair comigo para fazer compras." Havia, entretanto, momentos em que a criatura lhe parecia simpática com seu ar bonachão e despachado. Tinha tiradas engraçadíssimas tão freqüentes quanto suas grosserias e vulgaridades. Andava sempre com os dedos cheios de anéis; broches de gosto duvidoso enfeitavam-lhe o farto peito. Dias havia em que Ninfa Ugarte usava tantos berloques, medalhas e pregadores, que chegava a lembrar o Marechal Goering nos seus tempos de festa e glória. Agora por exemplo — refletia Rosalía, mastigando um pedaço de cenoura — o vermelho do batom saía dos limites daqueles polpudos lábios que a gordura das costeletas de porco lambuzava, e riscava-lhe o queixo. E por que ela não depilava o buço? Ai, Jesus! De repente Rosalía compreendeu que aquele buço tornava Ninfa parecida com tia Micaela, da qual ela, Rosalía, tinha as piores recordações. Era ríspida, incapaz de carinho e vivia a lembrar-lhe sua condição de órfã pobre. ("Pensas que és alguma princesa? Queres te casar com o filho do Presidente da República? Agarra logo esse tal Vivanco. Não é nenhum artista de cinema, mas é um rapaz direito, diplomata, e dizem até que agora vai ser mandado para Paris.")

— Preciosa — murmurou Ninfa —, estou meio preocupada.

— Ora, por quê?

— As coisas no Sacramento não andam boas. Estamos em ano de eleição e a Constituição proíbe o Generalíssimo de ser candidato outra vez.

— Eu não entendo de política, Dona Ninfa.

— Não se trata de política, filha, mas da nossa vida. Se a oposição vence a eleição, estamos jodidos.

Rosalía corou. Ninfa percebeu e pensou: envergonha-se de palavras mas não se envergonha de enfeitar a cabeça do marido.

Quando a garçonete trouxe a sobremesa apple pie à la mode para a matrona e gelatina de groselhas para a moça) a conversa tomou o rumo que a mulher de Pancho Vivanco mais temia.

— Vamos abrir o jogo, preciosa — disse Ninfa, fitando na outra os olhinhos safados. — Franqueza nunca fez mal a ninguém, Eu sei do teu caso com Don Gabriel Heliodoro.

— Que caso? — defendeu-se a outra, automaticamente.

— Não adianta negar. É um segredo de polichinelo. Já em Cerro Hermoso toda a gente sabia, menos a mulher de Don Gabriel Heliodoro, é claro. Dona Francisquita vive no astral.

Os lábios de Rosalía tremeram como tremeu o rosado pedaço de gelatina que ela equilibrava na colher, a caminho da boca.

— Não te impressiones — tranqüilizou-a a outra. — Não te censuro. No teu lugar eu teria feito o mesmo. Don Gabriel Heliodoro é um homem e tanto. Teu marido é uma porcaria.

De olhos baixos, Rosalía brincava com a sobremesa, cortando-a com a colher em muitos pedaços que acabava esmagando, sem comê-los.

— Vamos! — animou-a a outra. — Somos ou não somos amigas? Ontem à noite o Pancho telefonou para minha casa, perguntando se estavas ainda conosco. O Hugo, macaco velho, compreendeu tudo e mentiu dizendo que tu e eu tínhamos ido juntas a um cinema. Rosalía, bobinha, podes contar conosco. Somos todos do lado de Don Gabriel Heliodoro. Todos do teu lado. A outra continuava a olhar embaraçada para o mingau rosicler que tinha no prato.

— Olha, preciosa, vais precisar muitas vezes dum. . . dum. . . como é essa coisa que a gente vê sempre em filme policial, quando um sujeito quer provar que está em outro lugar na hora em que alguém foi assassinado? Alibili?

— Álibi — murmurou Rosalía.

— Pois é. Vais precisar de muitos. Daqui por diante poderás jantar tranqüilamente com o embaixador e etc. . . etc. . . Eu chamo o Pancho pelo telefone e digo que eu e tu temos um programa especial. Tu combinas tudo com Don Gabriel Heliodoro e pede a ele que mande o carro da embaixada me buscar na minha casa. Com o Aldo, naturalmente. Podemos começar hoje. . . Tu ficas com teu homem e eu vou dar um passeio por aí. .. Arlington, Mount Vernon, Bethesda ... ? piscou um olho. — Haverá álibi mais perfeito?

Rosalía criou coragem e disse:

— Para nós duas, não?

Ninfa soltou uma risadinha.

— Claro, para nós duas. És uma menina inteligente. Temos de ser aliadas. A vida é curta e os homens são todos uns cachorros. Todos. E agora, meu bem, mudando de assunto. Olha só que costume bonito aquele. Ai, meu Deus! Se eu tivesse o teu corpo, Rosalía, eu comprava um costume assim. . . E faria outras coisas mais, muitas coisas mais.. .

Fez um sinal para a empregada, pedindo a nota.

— Hoje quem paga sou eu — declarou, piscando novamente o olho.

Naquele momento Rosalía odiou-a. E teve desejo de sumir-se.

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