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O senhor embaixador


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Entre as muitas preocupações que disputavam a atenção de Clare Ogilvy naquela manhã de abril, a maior era a de fazer que o novo embaixador chegasse à Casa Branca na hora marcada. Michel telefonara-lhe havia pouco, comunicando que seu patrão desejava deixar a residência às dez e meia em ponto.

A secretária olhou para seu relógio de pulso e decidiu ir ver Pablo Ortega. Primeiro empoou o rosto, reforçou o vermelho dos lábios e depois mirou-se num espelho de bolso. Trajava seu costume de lã, sal e pimenta, e ostentava do lado esquerdo do casaco, à altura do seio, um broche de prata representando uma deidade inca, presente dum amigo peruano. Tirou de dentro da bolsa um comprimido de aspirina, encheu de água um copo de papel e, com o ar quase compungido como se fosse levar a comunhão a um moribundo — hóstia e vinho, pois era episcopal —, saiu a marchar ao longo do corredor da chancelaria, envolta numa atmosfera que recendia a L´heure bleue.

Como de costume entrou sem bater à porta no gabinete de Pablo Ortega e encontrou o amigo sentado à sua mesa de trabalho, olhando, pensativo, para os papéis que tinha à sua frente.

— Como se sente hoje o primeiro-secretário?

— Podre. Com uma dor de cabeça de partir o crânio.

— Era o que eu imaginava. Tome.

Meteu-lhe o comprimido na boca e entregou-lhe o copo, do qual Pablo bebeu um gole largo. Clare recuou dois passos.

— Você fica lindo nesse trajo azul-marinho. O cinza também lhe senta bem. Agora, nunca use nada verde ou pardo. São cores que não casam bem com o moreno de sua tez.

Ortega sentia na boca o amargor da aspirina, que mastigara antes de engolir.

— Estou preocupado com o Dr. Molina — disse.

— Por quê?

— Você sabe tão bem quanto eu que competia a ele e não a mim acompanhar o embaixador à Casa Branca. O ministro conselheiro deve estar magoado.

— Se Don Gabriel Heliodoro preferiu você para intérprete, filho, a culpa não é sua.

— Conheço bem o Dr. Molina. É um poço de vaidade. É intransigente como ninguém em questões de hierarquia.

Clare nada disse. Limitou-se a olhar para a correspondência do dia, que se encontrava em cima da mesa. Apanhou um dos envelopes vazios e cheirou-o: essência de jasmim.

— Outro haikai? — perguntou. Pablo sacudiu afirmativamente a cabeça.

— Qual vai ser o fim desse romance?

— Não há nenhum romance.

— Como não? Você um dia é apresentado numa recepção a essa Miss Kimiko Hirota, funcionária da Embaixada do Japão, sentam-se os dois a um canto, conversam durante mais de uma hora sobre poetas, samurais, borboletas, pintura em seda e a arte de arranjar flores. . . Enfim, descobrem que são almas gêmeas, ficam amigos, ela passa a lhe mandar todas as semanas um haikai a que você responde com outro. Que é isso senão um romance de amor?

— Ter pensamentos eróticos a respeito de Miss Hirota, Clare, seria tão absurdo como querer dormir com uma boneca de porcelana.

— Não se esqueça de que o rádio transistor japonês é pequeno e delicado mas funciona tão bem como qualquer rádio ocidental. . .

Pablo sorriu:

— Seja como for, nossas relações são puramente espirituais.

Clare fez uma careta de cepticismo.

— Você no fundo é uma racista incorrigível —- disse Pablo.

— Eu, racista? Se fosse, não toleraria um minuto vocês, índios do Sacramento. — Fez uma pausa e, por fim, em tom conciliador, perguntou: — Qual foi o haikai de hoje?

Pablo apanhou um papel de carta cor de folha seca e leu o que Miss Hirota escrevera nele com sua letra redonda e ingênua de colegial:
PRIMAVERA
Libélulas? Qual!

Flores de cerejeira

Ao vento de abril.
Clare entortou a cabeça, entrecerrou os olhos sem saber ao certo se gostava ou não do poeminha.

— Já respondeu?

— Não. Hoje me sinto mais inclinado para o harakiri do que para o haikai.

A secretária soltou uma risada. Ambos acenderam cigarros e ficaram por alguns segundos numa espécie de diálogo feito de baforadas de fumaça.

Clare apontou para uma pasta de cartolina dentro da qual havia um maço de folhas datilografadas.

— Essa coisa presta?

Eram os originais duma dissertação — A República do Sacramento — da autoria de Glenda Doremus, estudante americana da Georgetown University, que havia duas semanas procurara Pablo na chancelaria para lhe pedir que lesse e criticasse seu trabalho.

— A autora é mais interessante que a obra.

— Isso eu notei. E notei também nos seus olhos, Pablo, que você gostou da moça. Garanto-lhe que ela não ficou indiferente ao seu encanto latino.

Ele franziu a testa.

— Você acha?

— Meu instinto nunca me engana. As coisas que há pouco lhe disse sobre a japonesinha foram pura brincadeira. Mas a americana, meu filho, essa fez soar minha campainha de alarma. Ladrão à vista!

— Isso é ciúme, Clare?

Ela cruzou os braços e encarou o amigo.

— Se eu fosse vinte e cinco anos mais moça, entrava também nessa competição.

—- Não há competição nenhuma.

Clare desconversou:

— Vamos, prepare-se para o sacrifício. O chefe está esperando...

— O chefe que se dane!

— Don Gabriel Heliodoro gosta de você, Pablo, ele próprio me disse isso ontem. Fez-lhe os maiores elogios. E sabe duma coisa? Você representa para ele o filho que Deus lhe negou. O homem tem uma ninhada de fêmeas (cinco, creio) mas nenhum macho. Sinto muito, mas, queira ou não queira, você ganhou um segundo pai.

— Pai, basta um. E às vezes é demais.

Clare apontou com um dedo acusador para o envelope debruado de listas oblíquas vermelhas e amarelas que jazia na caixa de correspondência a despachar.

— Que é que há com você, menino? Eu lhe trouxe essa carta de sua mãe há dois dias e você nem sequer a abriu. . .

Pablo hesitou um instante.

— Olhei o envelope contra a luz e vi dentro dele o que me pareceu a sombra dum cheque.

— Ora!

Ele se ergueu, aproximou-se da janela, as mãos metidas nos bolsos das calças, e ficou a olhar para fora.



Estou cansado desta farsa, Clare, desta dança com máscaras. Cansado de sorrir para um salafrário como o Ugarte e fingir que não sei que ele é um devasso, um assassino e um ladrão vulgar. Estou farto de tolerar a empáfia de alguns desses oficiais que pensam que farda é adjetivo qualificativo e não substantivo comum. Cansado de andar escolhendo palavras e gestos para não arranhar a suscetibilidade do sr. ministro conselheiro nem machucar as feridas desse pobre coitado do Vivanco. E o pior (você sabe disso) são essas minhas conferências em clubes e universidades em que sou obrigado a contar meias-verdades ou mentiras inteiras sobre o meu país, para manter a ficção de que somos uma democracia. Isso tudo me rebaixa a meus próprios olhos.

La Ogilvita sentou-se, cruzou as pernas grossas e mal torneadas, desproporcionais ao resto do corpo. Ortega voltou-se para ela.

— Qual é a solução? Me diga. Qual é?

— Como é que vou saber se você nunca me forneceu todos os dados do problema?

Pois bem, agora mesmo vou lhe dar os que faltam. Apanhou o exemplar do Washington Post que estava em cima do arquivo de aço, e brandiu-o diante de Clare.

— Você já leu a carta do Dr. Gris que este jornal publica hoje?

Ela fez um sinal afirmativo. O Dr. Leonardo Gris, ex-Ministro da Educação do Governo do Dr. Júlio Moreno, exilado em Washington havia dois anos, desde que chegara não só fazia, em clubes e colégios, conferências contra o Governo de Sacramento, como também escrevia aos diretores dos diários mais importantes cartas em que denunciava Juventino Carrera como um tirano cruel e corrupto. A daquele dia continha um ataque direto a Gabriel Heliodoro Alvarado, que ele acusava de "cumplicidade nos crimes do ditador, seu compadre".

— Pois bem, agora vou lhe contar uma história e você terá elementos para compreender por que estou perdido neste labirinto sem encontrar uma saída. . .

Os olhos claros da secretária estavam postos nele, e, como sempre acontecia quando ela ficava comovida, de espaço a espaço aspirava o ar com força, ao mesmo tempo que repuxava para um lado a boca e o nariz.

— Em fins de 1951 — contou Pablo Ortega —, no dia em que os soldados mercenários de Juventino Carrera entraram em Cerro Hermoso e invadiram o Palácio do Governo, o Dr. Leonardo Gris foi o único ministro que permaneceu até o fim ao lado do Dr. Moreno, com um punhado de soldados fiéis e alguns estudantes. Você não ignora que foi Don Gabriel Heliodoro quem comandou pessoalmente as forças que atacaram o Palácio. . . O resto do drama é sabido. O Dr. Moreno preferiu suicidar-se a cair em poder de seus inimigos. O Dr. Gris conseguiu escapar para o estrangeiro. . .

— Conheço muito bem a história de seu país, Pablo.

— Mas há um pormenor que você ignora. Onde é que você pensa que Gris buscou refúgio na famosa Noite Trágica? Pois saiba que foi na minha casa. Eu estava sozinho, meus velhos se encontravam em Soledad del Mar. Não esqueça que eu admirava e estimava (como ainda admiro e estimo) o Dr. Leonardo Gris, que foi meu mestre na Universidade Federal. Pois bem. O homem entregou-se em minhas mãos. Eu sabia que se ele fosse aprisionado pelos revolucionários seria sumariamente fuzilado.



Clare Ogilvy escutava, aflita, sentada agora na beira da poltrona.

— Não hesitei um minuto. Tinha de salvar meu amigo, fazê-lo asilar-se numa embaixada. Decidimos que seria a do México. Eram onze da noite.. . Ouviam-se tiroteios e explosões vindos de várias partes da cidade. Os invasores e mais os soldados do Exército que haviam aderido à revolução começavam a matança, a pilhagem e as depredações. Meti o amigo dentro da mala do meu automóvel e toquei para a Embaixada do México. Pipocavam tiroteios em algumas ruas. Os revolucionários perseguiam os partidários de Moreno, caçando-os como se eles fossem animais. . . Muitas das residências de membros do Governo deposto ardiam em chamas. Tive de dar as voltas mais doidas para evitar os cruzamentos guardados por patrulhas. A uma esquina, inesperadamente, me surgiram pela frente três homens armados de carabinas que me fizeram sinal para parar. "Se paro, estamos perdidos", pensei. Cerrei os dentes, baixei a cabeça e meti o pé no acelerador. Os bandoleiros abriram caminho gritando e gesticulando, e depois fizeram fogo contra nós. . . Uma bala me passou zunindo perto da orelha e rebentou o pára-brisa. Outras entraram na parte traseira da capota. Para encurtar o caso, fiz o carro cruzar uma praça em diagonal, contornando canteiros, bancos, árvores. Finalmente, vários minutos e sustos mais tarde, avistamos a Embaixada do México, que fica num subúrbio residencial. Havia nos arredores um silêncio de cemitério. As ruas estavam desertas. Saltei do auto e tentei abrir o portão. Fechado a chave! Abri a mala do carro, ajudei o Dr. Gris a sair e disse: "Temos que escalar as grades, professor! Não há outro remédio. Depressa!" A coisa foi menos difícil do que eu imaginava. Gris me surpreendeu com seu vigor e agilidade. Quando os dois atravessávamos o jardim da Embaixada, fomos focados em cheio pelo clarão do holofote dum automóvel. . . Ouvimos gritos. Um carro estacou junto do nosso. Jogamo-nos ao chão e ora rolando ora de rastros, protegidos pelas sombras de árvores e arbustos, conseguimos contornar o edifício da"Embaixada e bater a uma janela dos fundos. O mordomo, depois dum diálogo aflito, nos abriu a porta. Não respondemos às suas perguntas e fomos entrando. Gris queria falar imediatamente com o embaixador, que era seu amigo particular. Eu me atirei ofegante numa cadeira, suando em bicas, sujo de poeira, o coração batendo descompassado, a boca seca... O pedido de asilo foi formalizado. O embaixador mexicano, achando que eu correria sérios riscos se deixasse a Embaixada, ofereceu-me pouso. Aceitei, mas passei a noite em claro, ouvindo, longe, tiroteios intermitentes, uivos de sirenas, vozes excitadas... Ao anoitecer do dia seguinte, meus pais apareceram na Embaixada. O velho me recriminou pelo que eu havia feito. Repeli a recriminação, replicando irritado que não estava arrependido. . . Minha mãe me chamou à parte: "Queres matar teu pobre pai? Não sabes que ele tem um coração enfermo?" Calei-me. Era uma velha chantagem que usavam contra mim, desde meu tempo de menino: as doenças de meu pai. Como você sabe, gozo do "privilégio" de ser filho único. . .

Pablo esmagou a ponta do cigarro contra o fundo do cinzeiro.

— O velho Dionisio Ortega y Murat confabulou em sala fechada com o embaixador do México e mais tarde, tomando-me pelo braço, levou-me para um canto e cochichou: "Teu automóvel foi identificado, mas conseguimos que os jornais não noticiem nada a respeito desse teu ato, cuja gravidade te obstinas em não compreender. O senhor Arcebispo e eu nos avistamos esta tarde com o Generalíssimo e ele nos declarou que está disposto a te perdoar, mas acha conveniente que deixes o país por algum tempo, até que o novo Governo se consolide e que o incidente seja esquecido".

Pablo meteu a mão no bolso, pescou de dentro dele outro comprimido de aspirina, levou-o à boca e mastigou-o numa espécie de miúda fúria.

— Dias depois mandaram-me para Paris. Ao cabo de negociações, que duraram quase um mês, o Dr. Leonardo Gris finalmente conseguiu um salvo-conduto e embarcou para a Cidade do México, de onde muito mais tarde se transferiu para cá. — Ortega bebeu o resto de água que ficara no copo de papel. — Você pode imaginar um rapaz de vinte e três anos, com veleidades artísticas e literárias, solto em Paris com uma gorda mesada? Aceitei sem maiores escrúpulos os cheques paternos. A cidade me deslumbrava. Freqüentei os cafés da Rive Gauche, onde me acotovelei com celebridades, pintei quadros na pracinha de Montmartre e assisti a conferências na Sorbonne, tomei indigestões de Louvre, escrevi versos e tive, naturalmente, minhas aventuras amorosas. Um dia (isso foi em 1955) recebi uma carta de minha mãe. Contava que não só o "incidente" havia sido esquecido como também o Generalíssimo, por interferência do Arcebispo, tivera a "generosidade" de nomear-me secretário de "sua" Embaixada em Paris. Imagine! Era o cúmulo. Recusei o cargo. Mas lá veio nova carta: "Teu pai não anda bem, desde o enfarte que teve o ano passado. Ele deseja que aceites o posto na Embaixada, pois esse é o caminho mais seguro e certo para tua volta a Cerro Hermoso. Faze o que ele te pede. É para o teu bem, meu filho. Pensa só numa coisa: a saúde do autor de teus dias está em tuas mãos".

Pablo sentou-se na beira da mesa, e ficou em silêncio por alguns instantes.

— Veja bem, Clare. Eu tinha nas mãos, segundo minha mãe, um poder de vida e morte sobre "o autor de meus dias". A chantagem continuava. Aceitei o cargo. Não vou negar que acabei me acomodando à nova situação. Meus pais me fizeram duas visitas durante os dois anos e pouco que passei em Paris como secretário de embaixada. Sempre que eles apareciam, ficávamos os três numa espécie de lua-de-mel. Visitávamos museus, íamos a concertos e teatros, comíamos nos melhores restaurantes, caminhávamos ao longo do Sena, comprando livros e gravuras dos buquinistas, mas muito devagarinho, e com paradas freqüentes, por causa do coração de Don Dionisio. Não se tocava no "incidente". De vez em quando meu pai se referia discretamente ao Libertador. Estava fazendo um governo moderado (dizia), o país tinha um Congresso legalmente eleito e uma Constituição liberal. Pobre homem! Era comovente e ao mesmo tempo constrangedor o esforço que fazia para acreditar em suas próprias palavras!

Clare Ogilvy escutava o amigo, mas sem perder de vista o movimento dos ponteiros de seu relógio.

— Meus pais são católicos militantes. Não tenho a menor dúvida quanto à sinceridade deles. . . Uma noite fomos os três a um concerto na Sainte-Chapelle. O Coral de Pamplona executou um programa de música antiga de inspiração mística. Don Dionisio passou boa parte do espetáculo de braços cruzados e cabeça baixa, como se estivesse rezando. Como se não bastassem as canções e a esquisita beleza da histórica capela, com seus vitrais iluminados, num dos intervalos entraram no recinto o Núncio Apostólico seguido do Príncipe de Bourbon, do Grand Prieur de la Lieutenance de France, e de dignitários, cavaleiros e damas da Ordem do Santo Sepulcro, todos ostentando suas roupagens tradicionais. O príncipe levava em suas mãos pálidas nada mais nada menos que a Coroa de Espinhos do Salvador, trazida da Terra Santa por São Luís IX, rei de França. . . Clare, o rosto de meu pai se transfigurou quando ele viu a relíquia, e lágrimas vieram-lhe aos olhos. Quando saímos da capela, ele me tomou afetuosamente do braço e murmurou ao meu ouvido, num desabafo: "Será preciso que eu te diga que quando sou obrigado a me aproximar do Generalíssimo fico vermelho de vergonha e sinto ganas de tapar o nariz? Espero que não me julgues tão ingênuo ou desonesto a ponto de apoiar politicamente esse homem porque o considero um Presidente ideal. Fica sabendo duma coisa, meu filho: se eu o tolero é porque no momento ele é o menor de dois males. Desgraçadamente, a alternativa para a situação que temos agora no Sacramento seria o comunismo, e isso significaria o fim de todos os valores espirituais que prezamos, enfim, um regime ateu que expulsaria do país nossos sacerdotes, queimaria nossos templos, tirando-nos o direito de adorar Deus à nossa maneira e de criar nossos filhos e netos como bons cristãos e não como robôs sem alma a serviço dum Estado totalitário". Don Dionisio fez uma pausa significativa e depois acrescentou: "Seríamos também despojados das terras que nossos antepassados, desde o século XVII, regaram com seu suor, suas lágrimas e seu sangue".

Clare Ogilvy ergueu-se, lançou um olhar rápido para o mostrador de seu relógio.

— Menos de um ano depois dessa última visita — continuou Pablo — recebia a notícia de que havia sido transferido para esta Embaixada. E aqui estou a representar ainda a comédia diplomática, a soldo dum tirano cercado de ladrões e bandidos. Como se os mil dólares que ganho por mês não bastassem, meu pai, de vez em quando, os suplementa com generosos cheques. E cada vez que faço uma tentativa para meter a pata nisto tudo e ir embora (não sei bem para onde nem como) lá me chega uma carta de Dona Isabel, com a eterna pergunta: "Queres matar teu pobre pai?"

— Até onde essa doença do velho é real e até onde uma simulação para te prender?

— Tenho a opinião dum médico em quem confio. A saúde de meu pai é realmente precária. Teve já dois enfartes sérios. É um vaso trincado que exige cuidados especiais.

Ortega apontou para a carta que ainda não abrira:

— Imagino o que está escrito nessa carta. . . Meus pais não ignoram que costumo ver com freqüência o Dr. Leonardo Gris. Na sua última carta, Dona Isabel escreveu: "Suplico-te que não continues a cultivar essa amizade perigosa. Mais tarde ou mais cedo serás descoberto e denunciado, o velho incidente será desenterrado, perderás teu posto e, o que é pior, talvez não possa mais voltar à pátria".

Clare aproximou-se do amigo e ajeitou-lhe o nó da gravata.

— Agora compreendo que você está mesmo numa situação dos diabos. Mas podia ser pior. E, seja como for, o que tem de fazer agora é pajear Sua Excelência o Embaixador do Sacramento em sua visita à Casa Branca. Vamos. Está na hora.

Ele beijou a face da amiga e encaminhou-se para a porta.

Deus te acompanhe, filho! — exclamou ela.

E quando Pablo estava já no corredor, La Ogilvita enxugou os olhos e assoou o nariz com um lenço de papel. Depois, fungando ainda, acendeu outro cigarro.



6
Michel, que abriu a Pablo a porta da residência do embaixador, murmurou que Sua Excelência o esperava na biblioteca.

Gabriel Heliodoro recebeu o primeiro-secretário de braços abertos.

— Pablo, homem!

Enlaçou-o com seus braços musculosos, estreitando-o contra o peito. Um cheiro ativo de lavanda entrou pelas narinas de Ortega.

— Que tal me achas? — perguntou o embaixador rodopiando sobre si mesmo.

— Está bem. Mas carregou demais no perfume. Gabriel Heliodoro cheirou as próprias mãos, as lapelas, o lenço.

— Achas mesmo?

— Acho. Neste país os homens não costumam usar perfume.

— Mas eu não sou deste país! Sou um índio de Soledad del Mar — exclamou o compadre do ditador, num misto de gaiatice e orgulho.

"Os índios de Soledad del Mar cheiram a picumã e urina seca" — pensou o secretário. "O que tu és, eu bem sei: um patife e um traidor. Como eu. . ."

— Saímos em seguida, Pablo.

— Mas a distância daqui à Casa Branca se percorre em dez minutos. Temos ainda meia hora pela frente.

— Ah! Mas antes de ver Eisenhower tenho uma entrevista marcada com outro Presidente. — Fez uma pausa em que seu rosto irradiou luz como um sol maia. — Vou visitar o monumento a Lincoln para pagar uma promessa que fiz a mim mesmo quando menino.

"Farsante!" — exclamou Pablo, mentalmente.

— Não sei se sabes que Lincoln é uma das minhas maiores devoções... A maior de todas, depois de Virgen de la Soledad.

Farsante! Farsante! Pablo esforçava-se, mas em vão, por querer realmente mal ao embaixador.

Gabriel Heliodoro perfilou-se, deu três passos à frente na direção de Ortega, fez uma pequena curvatura, estendeu a mão, que o secretário, constrangido, teve de apertar, prestando-se à comédia.

How do you do, Mr. President? Ha-ha! Que tal?

— Está bem. Mas pronuncie prêzident e não prêcidente. E, antes que eu esqueça, o nome desta cidade é Uâ-chinton e não Guã-cinton.

— Como vai ser a cerimônia?

— Muito curta. Durará pouco mais de cinco minutos. A entrega das credenciais é uma mera formalidade. Não há necessidade de dizer algo especial. Basta manifestar sua alegria por ocupar este posto e seu desejo de que nossos países continuem mantendo as melhores relações... Mas não tenha cuidado, eu me encarrego de traduzir tudo.

Gabriel Heliodoro olhou para o relógio.

— Vamos embora!

No vestíbulo, Michel deu-lhe um lenço novo sem perfume e ajudou-o a vestir o sobretudo. O embaixador ficou um instante diante dum espelho, ajeitando na cabeça o chapéu Gelot.

Bonne chance, Monsieur l'Ambassadeur! — desejou-lhe o mordomo.

Saíram. Alto e esguio no seu uniforme azul-marinho, Aldo Borelli estava perfilado ao lado do Mercedes-Benz negro, segurando a porta aberta. Era um romano de vinte e poucos anos e cara maliciosa.

— Bom dia, senhor Embaixador.

— Bom dia, Aldo. Vamos primeiro passar pelo Lincoln Memorial.

Depois que os dois diplomatas se acomodaram no banco traseiro e Aldo fez o carro arrancar, Gabriel Heliodoro de repente rompeu numa gargalhada que o sacudiu todo. Pablo pensou: "Se ele pensa que vou perguntar por que está rindo, perde seu tempo". Mas o outro logo explicou:

— Sabes o que estou achando engraçadíssimo? Quando os fuzileiros navais americanos desembarcaram no Sacramento em 1915, a pedido do ditador Chamorro, para capturar Juan Balsa e seus guerrilheiros, eu, que teria então uns doze anos de idade, um dia escarrei na bandeira dos Estados Unidos. Escondido atrás de árvores, muitas pedras atirei em patrulhas de soldados gringos. Com estas mãos que estás vendo, escrevi a carvão em muito muro: Americanos perros sucios. E agora, Pablo, aqui vou como embaixador de meu país a caminho da Casa Branca. Não é fantástico?

Ortega limitou-se a fazer que sim com a cabeça.

Gabriel Heliodoro lançou-lhe um olhar oblíquo. Que é que este menino terá contra mim? Será que não simpatiza comigo? Ele que espere. Em menos de duas semanas eu o conquisto. Ou então não sou filho de meu pai.

Mas quem era o seu pai? — pensou, amargo. E de repente a imagem da mãe lhe voltou, nítida, à mente. E uma sombra lhe escureceu o rosto por alguns instantes.

O automóvel rolava pela Massachusetts Avenue. Ao passarem pela frente da Embaixada do Brasil, Pablo pensou em seu amigo Orlando Gonzaga e nas muitas coisas que teria a contar-lhe àquela tarde no bar da Connecticut. Bill Godkin com toda a certeza lá estaria, curioso também por saber como se passara a cerimônia.

— Que torre é aquela? — perguntou Gabriel Heliodoro quando o carro atravessava a ponte sobre o Potomac Parkway.

— É o minarete duma mesquita muçulmana, Excelência — apressou-se a informar Aldo Borelli, com seu espanhol ita-lianado.

— Muçulmana? — estranhou o embaixador, olhando para Pablo. Este confirmou com um sinal de cabeça.

O Mercedes entrou no Rock Creek Park. À beira do arroio que dava nome ao parque, as olaias e os cornisos estavam cobertos de flores. Gabriel Heliodoro viu um cemitério que começava na outra margem do arroio, com suas lápides simples, cinzentas ou pardas, subindo uma ravina de terra escura e estendendo-se em vários socalcos até o alto da colina.

— É o cemitério de Oak Hill — informou Pablo.

— Como é diferente dos nossos! As lápides dos túmulos mais parecem essas pedras que marcam a quilometragem nas estradas. Sepulturas rasas. Sem estátuas. Sem anjos. Prefiro os nossos, Pablo, mil vezes. Até a morte neste país parece menos trágica do que no nosso.

Branquejaram na mente de Gabriel Heliodoro os muros do cemitério de sua vila natal, no alto duma verde colina com vistas para o mar. Voltou a cabeça para o primeiro-secretário, deu-lhe uma rápida batida cordial no joelho e disse:

Chico, o que vou te contar agora, aposto como não leste nos teus livros de escola. Foi o ano de 1913 que passou para a História como o Ano Trágico. O tirano Antônio Maria Chamorro governava o Sacramento com mão de ferro. Juan Balsa estava na Sierra com seus guerrilheiros, lutando para libertar o povo da tirania. Uma madrugada de verão, os revolucionários desceram de surpresa sobre Soledad del Mar e liquidaram uma patrulha do Exército que andava pelas ruas. Enquanto a metade dos assaltantes mantinha os soldados do 5.° de Infantaria fechados dentro do quartel, na defensiva, a outra metade saía pelas ruas da vila, arrecadando víveres, remédios, armas, munições e novos voluntários. . .

Mau grado seu, Pablo Ortega interessava-se pela história. O embaixador falava com fluência, tinha uma voz de agradável timbre metálico.

— Quando raiou o dia — continuou Gabriel Heliodoro —, os revolucionários tinham voltado para a Serra e todas as casas de Soledad del Mar estavam de portas e janelas fechadas: na rua só se viam os que tinham caído no combate. Bueno. . . O comandante da guarnição federal saiu do quartel e contou suas baixas. Os guerrilheiros tinham matado dez federales e ferido uns trinta. Sabes o que fez o porco do comandante? Na mesma hora escolheu cinqüenta homens válidos entre os habitantes da vila e anunciou que ia mandar passá-los pelas armas. Pior que isso. Obrigou quase toda a população, homens, mulheres e até crianças, a subir até a colina do cemitério para assistir aos fuzilamentos.

Gabriel Heliodoro olhou para Pablo para ver o efeito que sua história estava causando. E prosseguiu:

— Me lembro desse dia como se tivesse sido ontem. Eu devia ter uns dez anos, andava descalço, vestia uma camisa e umas calças de algodão branco encardido, um chapéu de palha na cabeça. Juan Balsa era o meu ídolo e eu odiava os federales.

Pablo percebeu que Aldo Borelli estava atento também à narrativa de seu patrão.

— O comandante ordenou que os condenados à morte enterrassem primeiro os cadáveres dos soldados do Governo. Depois fez os pobres coitados abrirem uma longa vala, fora dos muros do cemitério, e atirarem dentro dela os corpos dos guerrilheiros de Balsa, mortos na véspera. Os fuzilamentos começaram pouco depois das onze da manhã. Era um desses dias de mormaço, e o céu era uma brasa coberta de cinza. Chorando de pena, rilhando os dentes de raiva, eu vi e ouvi tudo, trepado numa árvore. . . Os condenados eram postos em grupos de quatro contra o muro do cemitério, com as mãos amarradas às costas. O pelotão de fuzilamento fazia fogo. . . Trrrrã! e eles tombavam. O muro ia ficando respingado de sangue, de pedacinhos de miolos e ossos. Trrrrá! O sapateiro da vila antes de morrer gritou: "Viva Juan Balsa! Morra o tirano!" Houve um índio que caiu rindo. Outro, não me lembro quem era, teve uma crise de choro, atirou-se no chão e ficou encolhido, tremendo, as pernas dobradas, os joelhos contra o peito, bem como um feto na barriga da mãe. O tenente que comandava o pelotão não teve outro remédio senão meter-lhe uma bala no ouvido. O homem estrebuchou e depois ficou como estaqueado. A terra chupou seu sangue. E o pior de tudo eram os gritos e o choro da pobre gente que assistia à carnificina. Santa Virgem! Mesmo que eu viva mil anos não vou esquecer mais o quadro: as mulheres de preto, chorando e rezando um terço em coro. Umas desmaiavam. Outras tinham ataques histéricos. Outras rolavam pelo chão, gemendo. O sol era de derreter os miolos dum cristão. Na minha cara, suor e lágrimas se misturavam, me entravam na boca como uma salmoura. Eu não queria olhar para o muro, mas olhava. Na vala comum, os cadáveres começaram a feder. Os abutres desciam, atraídos pela carniça, os soldados espantavam os bichos, primeiro com pedradas e depois com tiros. E sabes, chico, o que mais me impressionava? Eram os homens que morriam resignados, em silêncio, os olhos parados como se estivessem enxergando uma visão. O Padre Catalino estava lá com eles, chorando aos soluços. Antes de morrer, os condenados beijavam o crucifixo que o vigário tinha na mão.

E assim, Pablo, eu vi amigos meus, gente que eu conhecia, gente que eu estimava, ir caindo, em grupo de quatro. . . Uma sangueira medonha sujava o muro e o chão. Passei dias sem poder me livrar daquele cheiro de carne humana podre, de sangue quente, de pólvora e de poeira. . . Coisas como essa marcam um homem para o resto da vida.

Gabriel Heliodoro calou-se. O fim da história daquele dia inesquecível ele não quis contar. Ao chegar a casa, de noite, encontrara a mãe metida no quarto com um sargento do Regimento de Infantaria. Na outra peça, vários soldados jogavam cartas e fumavam, esperando sua vez de dormir com a dona da casa. Quem quer que tivesse duas lunas podia servir-se do corpo dela.

Ele saíra desarvorado pelas ruas da vila, entrara na igreja para pedir consolo a sua madrinha, a Virgem da Soledade, depois ficara a andar como um sonâmbulo pelas ruas e pelos campos vizinhos, até ver um novo dia raiar. Ao voltar para casa, já com o sol quase a pino, viu que alguém havia escrito com piche três palavras, numa das paredes: Latrina do Regimento.

Gabriel Heliodoro afundou num silêncio soturno. O automóvel saía do parque. Ortega avistou as águas do Potomac e os telhados cinzentos da Georgetown University. Pensou em Glenda Doremus. A Memorial Bridge, com seus claros arcos, lembrou-lhe uma das muitas pontes que atravessam o Sena em Paris.

Olhou para o embaixador, que estava de olhos cerrados e ombros caídos como que abrumado pela história que acabara de contar.

— Está sentindo alguma coisa? — perguntou, desprezando-se um pouco por se mostrar assim solícito.

O outro abriu os olhos, sorriu e entesou o busto.

— Não. Estava só pensando numas coisas tristes. . . Alguns minutos mais tarde, o Mercedes estacou diante do monumento.

— Eu o espero aqui, senhor Embaixador — murmurou Pablo.

— Está bem. Não me demoro.

Aldo Borelli abriu a porta do carro e o embaixador saltou para a calçada, aspirou forte o ar da manhã, enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo, ergueu os olhos e seu rosto alargou-se num sorriso quando viu, entre duas colunas do templo, a estátua de Abraão Lincoln. O Patriarca estava sentado e, com suas grandes e nobres mãos de lenhador segurando os braços da cadeira, dava a impressão de que ia erguer-se para receber de pé o visitante.

Gabriel Heliodoro começou a subir os degraus devagarinho para melhor gozar o momento. Aqui estou, Mr. Lincoln! Sou aquele indiozinho sujo de Soledad del Mar, lembra-se? Na Casa Branca, o Presidente dos Estados Unidos me espera. Mostrei a todos esses filhos da puta que tenho cojones.

Continuou a subir na direção da imagem iluminada.

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