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O senhor embaixador


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Segundo o cronista político de Revolución, a execução de Gabriel Heliodoro Alvarado naquela manhã de domingo, 15 de novembro de 1959, constituiria "um espetáculo inesquecível pelo seu sentido simbólico e histórico". O serviço meteorológico federal informara, na véspera, que o tempo se manteria bom nas próximas vinte e quatro horas: a temperatura oscilaria entre 23 e 28 graus Centígrados, a umidade relativa do ar não subiria além de 60%, e os ventos soprariam do quadrante leste, brandos e frescos.

Era voz geral que nunca, em toda a sua história, a Gran Plaza de Toros abrigaria um público tão numerosos, a não ser talvez durante certa memorável corrida, num domingo de 1943, em que ali se exibira Manolete, o famoso matador espanhol.

O céu daquele domingo era dum azul inocente e límpido, e um rútilo sol, que de tão claro lembrava mais a prata que o ouro, iluminava os veludosos verdes do cerro, dos parques, bem como os telhados da velha capital do Sacramento.

Centenas de pessoas, temerosas de não encontrarem lugares, apesar de possuírem bilhetes de entrada — pois só havia cadeiras numeradas para as autoridades e para os representantes da imprensa —, começaram a chegar à Plaza de Toros às sete da manhã.

Cerca das nove horas, vendo que a plaza estava já completamente lotada, as autoridades mandaram fechar todos os portões. A polícia de choque foi obrigada a entrar em ação várias vezes, e em duas oportunidades teve de usar bombas de gases lacrimogêneos para conter a multidão que cercava o circo e investia contra a barreira de policiais ou contra os portões, protestando seu direito de assistir o espetáculo.

Escreveu o cronista de Revolución: Era um gosto ver-se o povo, gente de todas as camadas sociais (menos, ê evidente, os membros de nossa decadente oligarquia e os representantes das chamadas "classes superiores"), sentado nas arquibancadas da Gran Plaza, na mais comovedora das confraternizações, a cantar e a dançar ao som de paso dobles, boleros e marchas tocadas pela excelente Banda de Música do brioso Corpo de Bombeiros. Quando o observador olhava para as arquibancadas, principalmente para as que ficavam do lado do sol, aquele incessante movimento de camisas, bandeiras, lenços, rebozos e vestidos nas mais ricas e variegadas cores dava a impressão dum gigantesco calidoscópio em constantes e ricas mutações. O sol emprestava à arena cambiantes de cobre. . .



Quando o General Miguel Barrios, presidente do Comitê Central Revolucionário, entrou no camarote de honra, acompanhado de outros membros de seu Governo, a multidão, calculada em mais de trinta mil pessoas, ergueu-se como um só homem, prorrompendo numa ovação ao Chefe que durou mais de dez minutos. Cantou-se em seguida o Hino Nacional.

O produtor do programa de televisão que ia transmitir o espetáculo ao vivo prometia desde a véspera uma "cobertura dramática e realista da execução". Ia dar aos senhores telespectadores a oportunidade de ver, na mesma tela dividida ao meio, as imagens de duas câmaras. Uma delas mostraria em long shot o pelotão de fuzilamento no instante preciso de disparar seus fuzis e a outra, graças a uma lente telescópica, daria um primeiro plano da cara do condenado no momento exato em que as balas lhe penetrassem o corpo!


Doze minutos depois das dez da manhã, Gabriel Heliodoro Alvarado entrou na arena, cercado de soldados armados. Manquejava, movia-se com dificuldade, a ferida da perna latejava e doía com tal intensidade que ele tinha de morder os lábios para não gritar. Caminhava, porém, tão teso quanto lhe era possível, e de cabeça erguida.

Ao vê-lo, a multidão rompeu em assobios e gritos, mas sem a ferocidade manifestada durante o julgamento no Palácio dos Esportes. Afinal de contas, o dia estava radioso, várias centenas de espectadores haviam ido à missa das oito horas, e aquela festa popular com músicas alegres tinha quase o caráter duma competição esportiva.

O Padre Sender, que caminhava ao lado do condenado, conseguira que as autoridades não lhe amarrassem as mãos nem lhe vendassem os olhos no momento de la verdad.

Gabriel Heliodoro mantinha a face erguida para o sol, os olhos ofuscados. Isso o impedia de ver a multidão. Um frio suor escorria-lhe pelo corpo surrado pela febre. Ele não via mas tinha consciência de que marchava a seu lado o vulto negro do padre, que apertava contra o estômago um crucifixo negro com um Cristo de cobre.

— Alto! — gritou o tenente que comandava o pelotão de fuzilamento, o qual já se encontrava formado no centro da arena.

Gabriel Heliodoro não ouviu a ordem, deu ainda dois ou três passos, mas o Padre Catalino puxou-o pela manga da camisa, fazendo-o estacar. Dois soldados seguraram o condenado pelos braços e o colocaram contra uma alta e larga chapa de ferro erguida à frente do portão por onde, nas tardes de corrida, costumavam surdir os touros.

Saída dum alto-falante, uma voz grave e imensa, que parecia vir do céu, como a própria voz de Deus a anunciar o Juízo Final, leu em tom lento e dramático a sentença que condenava à morte Gabriel Heliodoro Alvarado. O público escutou em silêncio a enumeração de todos os crimes cometidos por aquele inimigo da pátria. Por fim calou-se a voz apocalíptica.

O tenente que ia dar a ordem de fogo ao pelotão aproximou-se do camarote de Barrios, estacou, bateu os calcanhares e fez uma continência. O Chefe ergueu-se e inclinou a cabeça num sinal afirmativo. Começaram a rufar os tambores.

O Padre Catalino Sender aproximou-se do condenado e, como um espião de Deus, murmurou-lhe ao ouvido: "Coragem, meu filho. Dentro de alguns minutos estarás nos braços do Pai". Aproximou o crucifixo dos lábios de Gabriel Heliodoro, que beijou a imagem de Cristo. E depois, tomando nos dedos a medalha com a efígie da Virgem da Soledade, sua Mãe, apertou-a contra os lábios, longamente, e preparou-se para morrer.

Mas uma súbita fúria ferveu-lhe no peito. O comandante do pelotão de fuzilamento tinha gritado: "Preparar!" Dez homens armados contra um homem desarmado! Ele estava sozinho! Tinham-lhe tirado tudo, tudo! Só lhe restava o corpo dolorido e doente, a sua febre, o seu fedor, a perna que apodrecia. . . E os covardes iam crivá-lo de balas. "Apontar!" — gritou o tenente, no luminoso silêncio da manhã.

Gabriel Heliodoro olhou em torno da praça, meteu uma das mãos entre as próprias pernas, e reunindo as forças que lhe restavam, berrou, rouco, para toda aquela gente que ia gozar sua morte:

— Lego os meus cojones ao Museu Nacional!

E como lhe parecesse haver uma hesitação da parte do tenente que comandava o pelotão, tornou a gritar, petulante, quase feliz:

Atirem duma vez, filhos duma. . .

A descarga cortou-lhe a frase. Crivado de balas e esguichando sangue, seu corpo como que rodopiou e tombou na arena. A banda de música rompeu num dobrado. E a multidão começou a gritar: Olé! Olé! Olé!

O tenente tirou o revólver do coldre e, a cara tensa, aproximou-se do corpo ainda estrebuchante de Gabriel Heliodoro Alvarado e meteu-lhe uma bala no crânio como quem pinga o ponto final numa história.


Fim

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