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O senhor embaixador


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Por que tanto calor no alto da montanha? Decerto por causa da proximidade do sol. Mas por que tudo tão quieto e deserto? Ora, a guerra havia terminado. . . Ele estava contente, ia ser recebido pelo Rei de Espanha. Tinha apostado com o padre como seria capaz de subir até o pico da Caveira. Fazia a escalada meio às cegas. Onde o sol? Talvez fosse noite. Sim, era noite. Não devia chegar tarde à audiência. Perdera o relógio no caminho. A escuridão era tanta, que ele não conseguia desviar-se dos cadáveres que forravam a encosta: pisava neles, seus pés nus enredavam-se em intestinos. Não compreendia. . . Dera ordens para enterrar os mortos, amigos e inimigos. Mas os corpos ainda lá estavam, decompostos, fedendo. Ganhara a aposta, mas como podia aparecer diante do Rei levando aquele mau cheiro entranhado na pele? De repente sentiu que estava completamente nu, sangue e fezes escorriam-lhe pelas pernas. Onde se teriam metido os companheiros? Por que o haviam abandonado? Levou a mão à cintura. Nem cinto nem coldre nem pistola. Desarmado no alto da serra. Estaria na direção certa? A bússola estava quebrada. Mas ele continuava a subir, vendo com a sola dos pés as coisas que pisava: crânios, costelas, vísceras, escrotos. . . Estava imundo, precisava tomar um banho, não podia chegar à presença do Grande Homem naquele estado. Mas que rei ia ver? Filipe? Fernando? Carlos? Um daqueles muitos soberanos das lições de História do vigário? Um Rei Cruzado? Precisava tomar um banho o quanto antes, encontrar um rio. . . O calor aumentava. Ia ver o soberano. Que vitória! Mas estava nu. Não compreendia. . . Lembrava-se de ter vestido sua melhor roupa. Que pensaria o Rei quando o visse? "Majestade, tenho a honra de apresentar a Vossa Alteza meus cojones. Sou o Embaixador da República do Excremento." Os homens da Corte iam rir-se dele, murmurar que índio não sabe andar de sapatos. Uma infâmia! De repente pressentiu o perigo. Tinha caído numa emboscada. Agora ele sabia! Inimigos iam saltar sobre ele, esfaqueá-lo pelas costas. . . Soltou um grito e voltou-se rápido para se defender. . .
Quem primeiro despertou foi o guerrilheiro. Soergueu-se e ficou a escrutar, meio estonteado, o lusco-fusco, enquanto suas mãos palpavam automaticamente o chão, buscando a arma que sempre dormia a seu lado. Em poucos segundos, porém, Gabriel Heliodoro Alvarado situou-se no espaço e no tempo: o fantasma do revolucionário retornou ao território do sonho e então o Embaixador da República do Sacramento junto à Casa Branca, divertindo-se com o próprio susto, rompeu a rir baixinho. Do sonho só lhe restava agora na mente a sombra duma indefinível sensação de perigo, e a meio apagada lembrança de que tinha voltado à mocidade e andava de novo a vaguear nos paramos da serra.

Saltou da cama, acendeu a lâmpada que estava mais ao alcance de sua mão e olhou o relógio, sobre a mesinha de cabeceira. Cinco em ponto da manhã. Cinco era um número constante em sua vida. Nascera num cinco de janeiro, às cinco da madrugada. Fora às cinco de outra madrugada, no ano de 1915, que um pelotão de soldados do 5.° Regimento de Infantaria de Soledad del Mar fuzilara Juan Balsa, o chefe revolucionário que ele tanto admirava. Contava-se que cinco balas se haviam cravado no peito do herói.

O calor abafado no quarto causava-lhe um pesado mal-estar. Vestia apenas as calças do pijama, e o suor escorria-lhe em grossas bagas pelo torso nu. Como era que os americanos podiam suportar aquelas casas superaquecidas?

Pôs-se a andar sem propósito certo pelo quarto, acendendo as lâmpadas que encontrava no caminho. Aproximou-se do termostato, entrecerrou as pálpebras, tentou mas não conseguiu ver quantos graus marcava. Fosse como fosse, não tinha ainda aprendido a lidar com aquela engenhoca. . .

Detestara a decoração daquele quarto desde que ali dormira pela primeira vez, fazia uns quatro ou cinco dias. Ernesto Villalba, seu segundo-secretário, explicara-lhe que os móveis dos aposentos do senhor Embaixador eram de puro estilo Império. "Posso lhe assegurar, Excelência, que essa é uma cópia fiel da cama de Napoleão Bonaparte." — "Mas Titito, precisas compreender que Napoleão era um nanico e eu tenho um metro e noventa de altura!" Gabriel Heliodoro olhava hostil para a cama. Achava-a feia, pretensiosa e incômoda, imprópria para certas atividades. . . Tivera a prova disso aquela mesma noite, havia algumas horas. Rosalía ficara sem dúvida linda, toda nua, no leito napoleônico, mas ambos acabaram fazendo amor em cima do tapete de pele de urso branco. O remédio era mudarem-se para os aposentos reservados aos hóspedes de honra...

Encaminhou-se para o quarto de banho, aliviou a bexiga, bebeu água da torneira da pia, usando como copo as palmas das mãos, como tantas vezes fizera nos regatos e cascatas da serra. Voltou para o quarto de dormir e abriu uma das janelas que davam para a rua. O ar frio da noite envolveu-o. Através da cerração divisou as árvores do parque da Embaixada. As lâmpadas, em meio da bruma, davam-lhe a impressão de olhos apostemados. Esfregando o peito com as palmas das mãos, ficou um instante a olhar a noite. Um táxi solitário descia a Massachusetts, passava pela frente da Embaixada da Inglaterra, uma estrutura de tijolo nu, sólida e sóbria como o próprio Império Britânico. Lá dentro — imaginou Gabriel Heliodoro —, a esta hora, o embaixador inglês, um sir não sei de quantos, deve estar dormindo respeitavelmente com sua esposa legítima, lady não sei de quê. . . Quantos embaixadores em Washington teriam como ele, Gabriel Heliodoro, uma bela e saudável amante de vinte e cinco anos, de peitos empinados e ancas generosas? O que ele não podia compreender era como uma rapariga assim pudesse ter casado com Pancho Vivanco, aquele gordinho seboso e repelente. . .

Sentiu um repentino calafrio. E duma região tão remota e imprecisa quanto a do sonho veio-lhe uma voz: "Fecha essa janela, Gabiliodoro, senão tu pegas uma pulmonia!" Houve um tempo em que sua mãe tinha os olhos permanentemente apostemados. Que terra ou negras aves teriam comido aqueles grandes olhos escuros? Sua mãe morrera durante uma de suas muitas ausências de Soledad del Mar, e ele nunca pudera (nem mesmo tentara a sério) localizar a sepultura da chingada. Uns diziam que o cadáver tinha sido lançado na vala comum. Outros murmuravam que havia ficado insepulto no campo e fora devorado pelos abutres. . . Gabriel Heliodoro fechou a janela, deixando o espectro materno do lado de fora.

Deu alguns passos e, já agora com frio, sentou-se junto da escrivaninha, cruzou os braços para aquecer o peito e ficou a olhar perdido para os dedos dos próprios pés. Voltou-lhe a voz trêfega de Titito: "Esta secretária, Excelência, é uma obra-prima da marchetaria francesa de princípios do século passado". Gabriel Heliodoro sorriu. Os maricões em geral entendiam muito de arte.

Sobre a escrivaninha, ao lado de seus óculos, viu a carta que começara a escrever aquela noite, pouco depois que Rosalía deixara a Embaixada. Cheirou-a para verificar se suas mãos haviam transmitido ao papel o perfume da amante. Pôs os óculos, lançou um olhar enamorado para a própria caligrafia, e releu o que havia escrito: Minha adorada Francisquita: As coisas aqui na Embaixada vão bem. É um casarão enorme, com muito luxo e conforto. Temos um batalhão de criados, e todos me tratam com atenção e respeito. Na próxima sexta-feira dou uma grande recepção ao corpo diplomático e aos representantes da imprensa nacional e estrangeira. E uma pena que não estejas aqui para fazer as honras da casa. Por outro lado, acho muito bom que continues por enquanto em Cerro Hermoso, perto de nossas filhas e netos, pois dizem que o verão em Washington é tremendo, e eu sei bem o quanto sofres com o calor e a umidade. Terei de ir suportando tua falta até setembro ou outubro, quando poderás vir exercer tuas funções de embaixatriz. Não te preocupes porque. . .

Ficou a pensar em Francisquita. Nem na casa dos vinte sua mulher tivera mocidade, graça ou beleza. Católica praticante, afilhada do Arcebispo, estava convencida de que Deus inventara o ato sexual apenas com a finalidade de garantir a propagação da espécie humana, e que portanto era um pecado a gente tirar qualquer prazer físico da união carnal. Desde que entrara na menopausa, julgara-se eximida de suas funções de mulher. Era como se tivesse carimbado o sexo com as palavras: Missão Cumprida.

Pobre Francisquita! Esposa exemplar. Grande alma. Seus olhos ficavam úmidos quando ela pensava nos pobres. Verdadeira dama de caridade, vivia à frente de campanhas de beneficência. Tinha uma educação primorosa, criara muito bem os filhos, era uma doceira de mão cheia, pintava em porcelana e falava até o seu pouquinho de francês.

No caminho de volta para a cama, Gabriel Heliodoro foi apagando as lâmpadas, uma a uma. Deitou-se, com o quarto outra vez em penumbra. Precisava dormir mais: queria amanhecer com a cara descansada. Sentia ainda no travesseiro e nos lençóis o perfume do corpo de Rosalía. Deitado de bruços, pensava na amante, ruminando os prazeres que ela lhe dava. De repente desatou a rir. Viera-lhe à cabeça a história que um dia lera sobre a exigüidade do membro viril de Napoleão, responsável pelos seus malogros amorosos e por suas conquistas militares. E refletiu: "Tenho de agradecer a Deus pela generosidade com que me tratou". E, como fazia todas as noites antes de dormir, beijou a pequena medalha com a imagem da Virgen de la Soledad, que lhe pendia do pescoço por uma corrente de prata.

Foi acordado no dia seguinte por M. Michel, que acumulava na Embaixada as funções de mordomo e valet de chambre. Metido no seu impecável terno cinzento de meia estação, o francês ficou por algum tempo indeciso ao pé da cama, sem ousar falar alto ou tocar o novo patrão, limitando-se a tossir timidamente, a intervalos. Finalmente, Gabriel Heliodoro abriu os olhos, fitou-os no "desconhecido", franziu a testa e por uma fração de segundo seu rosto fixou-se numa expressão de interrogativa estranheza.

— Bom dia, senhor Embaixador. São oito da manhã, a hora em que Vossa Excelência me pediu para despertá-lo.

Gabriel Heliodoro sentou-se no leito, enlaçou os joelhos com os braços, quedou-se por alguns momentos nessa posição a piscar e bocejar, e de repente, para susto do outro, ergueu-se e saltou para o tapete com a agilidade dum puma. Uma alegria juvenil incendiou-lhe o corpo inteiro. O grande dia havia raiado! Aproximou-se duma das janelas e fez correr o reposteiro. A luz da manhã bateu-lhe em cheio na cara. As árvores do parque pareciam dar-lhe um verde "bom-dia". Gabriel Heliodoro pôs-se a caminhar dum lado para outro, ora cocando o peito ora distendendo os braços, e a todas essas, soltando bocejos musicais. De súbito estacou a dois passos do mordomo e examinou-o da cabeça aos pés.

— Como é mesmo o seu nome?

— Michel Michel.

— Por que duas vezes Michel? Não bastava uma?

O outro, sério, fez uma pequena curvatura, e seus braços esboçaram um gesto de escusa.

— Pois, senhor Embaixador. . .

Era um homem de idade indefinida, estatura mediana e enxuto de carnes. Tinha uma cabeça oblonga, um rosto anguloso, fino como o nariz, que lembrava o de Francisco I, do qual — rumores corriam — ele descendia por linha bastarda. Sua boca era tão pequena e estava sempre tão úmida, que lembrava um botão de rosa molhado de orvalho. Gabriel Heliodoro continuava a analisar seu mordomo com a curiosidade de quem vê um bicho raro. Aos poucos, voltavam-lhe à mente as informações que Ernesto Villalba lhe dera a respeito daquela figura. Michel Michel, natural de Avignon, era um dedicado servidor da Embaixada, para onde viera em 1931, trazido por Don Alfonso Bustamante, quando este fora transferido de Paris para Washington. Gabriel Heliodoro achara cômica a cara do francês desde o primeiro dia. "Tem o ar azedo de quem está sempre chupando limão" — dissera a seu primeiro-secretário, Pablo Ortega. Este, por sua vez, lhe informara que Michel tinha pendores literários, era um leitor voraz, conhecia a obra de Camus e Sartre, além de saber de cor Le Bateau Ivre, de Rimbaud. Don Alfonso — contava-se — costumava ficar longas horas a discutir literatura espanhola e francesa com seu valet.

— Vossa Excelência quer que eu lhe prepare um banho morno? Ou prefere uma ducha?

— Espero que você não pense que tem também a obrigação de me dar banho — respondeu o embaixador, arriando as calças do pijama e atirando-as longe com um pontapé.

Michel Michel pigarreou e citou uma frase de Cervantes. Falava espanhol com fluência mas com um sotaque carregadíssimo, cheio de erres rascantes que faziam Gabriel Heliodoro pensar nas prostitutas francesas dos bordéis de Puerto Esmeralda.

— Que deseja Vossa Excelência para o breakfast?

— Café preto com torradas secas. Nada dessas comidas de gringo, ovos, salsichas, presunto. . . está ouvindo? Ah! Um copo bem grande de suco de laranja sem açúcar.

— Perfeitamente, senhor Embaixador.

Gabriel Heliodoro meteu-se no quarto de banho, olhou-se no espelho da pia, verificou satisfeito que seus olhos estavam limpos e as olheiras não mais acentuadas que de costume. Rompeu a escovar os dentes com o entusiasmo habitual, o que lhe fez sangrar um pouco as gengivas. Enxaguou depois a boca num gargarejo prolongado que mais pareceu um vocalizo. A seguir, tentou barbear-se com o aparelho elétrico e mais uma vez fracassou. (Isto não é para barba de homem!) Ensaboou o rosto, armou a gilete e passou-a pelas faces. Foi a seguir para baixo do chuveiro, abriu a torneira, soltou um urro e começou a sapatear quando o jorro de água fria lhe caiu sobre o corpo. How do you do, Mr. President? Apertava a mão do grande homem, sorria para ele, procurando cativá-lo desde o primeiro minuto. Uma pena, não saber inglês. . .

Ensaboava-se com vigor, orgulhoso de sua cintura fina e da rigidez de seus músculos. Apalpou o ventre raso. Envaidecia-se dele. Outra coisa que o alegrava era não ter ainda essas manchas pardas que em geral a velhice nos pinta nas mãos. Iau du iu du, mister Précidente? — repetiu, agora com uma voz grave que retumbou no quarto de banho. Entregou-se então ao frenesi de enxugar-se com a toalha felpuda, de friccionar o corpo com água-de-colônia, de passar brilhantina nos cabelos, de pentear-se...

Quando voltou ao quarto de dormir, Michel ainda lá estava, levando à boquinha, cada vez que pigarreava, dois dedos bem-educados.

— Que é que você tem, homem? — perguntou Gabriel Heliodoro, com a toalha enrolada na cintura, à guisa de tanga.

— Desembuche!

— Senhor Embaixador — disse o mordomo, depois de breve hesitação —, se permite, sugiro que vista calças à fantasia, casaco trespassado cor de carvão, e gravata de seda cinzenta.

— Visto o que entender. Se me der na veneta, vou à Casa Branca de pijama. Ou pelado.

— Perfeitamente, senhor Embaixador.

— Ó Michel! Não fique com essa cara. Vou botar uma fatiota azul-marinho, camisa branca, gravata escura. . . E sapatos pretos, naturalmente. Está muito fora do protocolo?

Michel fez uma pequena curvatura e o botão de rosa que lhe ornava o rosto entreabriu-se num simulacro de sorriso.

— Não, senhor Embaixador. O Presidente Eisenhower, com toda a probabilidade, estará vestido do mesmo modo.

— Pois então não há problema, amigo!

Momentos depois, já vestida a roupa de baixo, o embaixador sentou-se na cama para enfiar as meias e os sapatos.

— Você deve sentir muita falta de Don Alfonso. . .

— O Dr. Bustamante era um perfeito cavalheiro.

— Coisa que eu não sou, hem, Michel?

— Eu não quis insinuar isso, senhor Embaixador.

— Mas eu sei que não sou. Não pertenço à carreira. Não beijo a mão das damas. Beijo-as noutros lugares. (Quando posso, naturalmente.) Não entendo de literatura e não dou um caracol por esse tal de protocolo.

Michel mantinha os olhos baixos. Suas orelhas se haviam tingido dum vermelho de crista de galo. Gabriel Heliodoro vestiu as calças.

— Quantos embaixadores você serviu nesta casa?

— Vossa Excelência é o quinto.

Cinco! Outra vez o número mágico.

— Você é supersticioso, Michel?

— Sou um céptico, Excelência.

— Esqueci-me de que o cepticismo é o esporte nacional francês. Mas. . . voltando a esses embaixadores, eram todos um pouco difíceis, não?

— Com a licença de Vossa Excelência, prefiro não fazer comentários.

— Perfeitamente. Você é um cavalheiro. E assim sendo, espero que não tenha visto aquela moça que ontem entrou na Embaixada às oito horas e saiu depois da meia-noite.

— Não me lembro de nada, Excelência. Ou, melhor dito, não vi nada.

Gabriel Heliodoro dava o nó na gravata à frente do espelho, no qual podia ver também a imagem do mordomo, que segurava o casaco do terno azul como um toureiro segura a capa com que vai provocar o touro.

— Presumo que, depois de aposentado, você voltará para a França...

— Essa é exatamente a minha intenção, Excelência.

— E naturalmente escreverá suas memórias. . .

— É uma possibilidade.

O patife é irônico — pensou o compadre de Juventino Carrera, recuando dois passos para ver-se melhor no espelho. O mordomo aproximou-se.

— Eu gostaria de saber como vou ser tratado nessas memórias — brincou o embaixador, vestindo o casaco.

— À luz da mais rigorosa verdade — murmurou Michel, pigarreando como para desculpar-se da ousadia da frase.

Gabriel Heliodoro voltou-se para o mordomo.

Verdade? Mas que é a verdade? Escreva o livro com paixão, homem! Porque a paixão é a verdade de cada um de nós.
A pequena sala onde agora Gabriel Heliodoro tomava seu café colombiano preparado em máquina italiana era das mais agradáveis da Embaixada. Seu mobiliário despretensioso, o tom claro das paredes e alfombras, a presença duns quadros a óleo de cores vivas e desenho inocente, da autoria de pintores primitivos sacramentenhos, contribuíam para dar ao ambiente um ar festivo e juvenil, que a luz da manhã acentuava. Gabriel Heliodoro achava-se só: mandara embora o criado que lhe servira o breakfast, pois detestava ser observado enquanto comia.

De onde estava sentado, podia ver, através das vidraças da ampla janela, um trecho do parque, com seus carvalhos e tílias a erguerem-se folhudos acima das copas floridas das olaias e dos cornisos e, mais além, o arvoredo da ravina do Normanstone Park. Mas de todas as árvores que cercavam a mansão, a favorita do embaixador ("Paixão à primeira vista, Pablo!") era um bordo vermelho do Japão que ficava ao pé da fonte. Gabriel Heliodoro jamais vira uma planta assim: mais parecia uma delicada escultura em bronze do que uma árvore de verdade. Ficou a contemplá-la longamente, com afeto, enquanto mastigava, distraído, suas torradas e bebia seu café.

Sutil e silente como uma sombra, Michel entrou na sala e, respeitoso, com um pigarro cheio de subentendidos, depôs sobre a mesa, ao lado do patrão, um jornal dobrado:

— O Sr. Villalba pede-lhe que examine a página marcada deste diário, senhor Embaixador.

Esboçou um sorriso, fez uma meia-volta quase militar, e retirou-se.

Como não sabia inglês, Gabriel Heliodoro conhecia apenas "de vista" os jornais e magazines americanos. À página seis do diário que tinha nas mãos, viu o seu retrato e debaixo dele um parágrafo circundado por um risco de lápis azul. Por alguns instantes o embaixador só teve olhos para a própria fotografia. O namoro, porém, foi interrompido pela sua curiosidade de saber o que haviam escrito a seu respeito naquelas colunas (Diplomatic Carousel, by Miss Potomac). Titito tivera o cuidado de grampear à página do jornal um papel contendo a tradução do texto assinalado. A República do Sacramento tem já um novo embaixador em Washington. É Mr. Gabriel Heliodoro Alvarado, que hoje entregará suas credenciais ao Presidente Eisenhoiver. S. Excia., que chegou aqui há poucos dias, parece já ter conquistado grande número de amigos. Alto, moreno e simpático, uma bela figura de homem, e, segundo me informam, dotado duma franqueia desconcertante, é amigo pessoal do Presidente do Sacramento, ao lado do qual lutou com valor na Revolução de 1925 que libertou sua pátria da ditadura de Don Antônio Maria Chamorro. Afirma-se que S. Excia., Mr. Alvarado, é grande admirador de Abraão Lincoln, cuja vida conhece como poucos. Seja, pois, bem-vindo ao "Carrossel Diplomático", senhor Embaixador!

Mal Gabriel Heliodoro havia terminado de ler a tradução, Michel tornou a entrar na sala, desta vez com um telefone na mão.

— Um chamado para Vossa Excelência.

— De quem?

— Do Sr. Villalba.

— Que é que esse fresco quer?

Pardon, monsieur?

— Nada. Me dê esse negócio.

Apanhou o fone e levou-o ao ouvido.

— Pronto!

A voz aflautada de Ernesto Villalba chegou-lhe aos ouvidos:

— Bons dias, senhor Embaixador!

— Ah! Titito, que é que há?

— Estou lhe telefonando para lhe dar os parabéns.

— Por quê, homem?

— Então não viu ainda o jornal que lhe mandei com uma página marcada?

— Vi, mas que tem isso?

— Vossa Excelência talvez não saiba que ter simplesmente seu nome mencionado na coluna de Miss Potomac, que é lida em todo este país por mais de cinqüenta milhões de pessoas, é um sinal certo de sucesso social. . . Agora, merecer mais de dez linhas no Carrossel Diplomático, como foi o seu caso, é positivamente uma consagração. Parabéns!

Gabriel Heliodoro não sabia como interpretar as palavras do seu segundo-secretário. Estaria o maricão a zombar dele... ou levaria mesmo a sério aquela coisa?

— Quem é essa tal Miss Potomac?

— E o pseudônimo jornalístico de uma das "vacas sagradas" de Washington, senhor Embaixador. Uma das mulheres mais aduladas e respeitadas deste país.

— Bonita?

— Qual, embaixador! Sessentona. Feia como as necessidades e gorda como um hipopótamo.

— Mande então atirar essa bruxa no rio do mesmo nome. Escute, Titito. Falando sério, vocês mandaram a essa gringa um convite para a minha festa?

— Excelência, o nome dela estava no primeiro envelope que sobrescritamos!

— Bueno. Diga ao Pablo que não me chegue atrasado. O Presidente Eisenhower me espera às onze em ponto.

4
Quando em 1930 a legação do Sacramento em "Washington foi transformada em embaixada, o Governo do Generalíssimo Juventino Carrera autorizou seu Ministro das Relações Exteriores a comprar, para sede de sua missão diplomática, uma residência situada na Massachusetts Avenue, quase defronte à Embaixada da Grã-Bretanha, e pertencente a antiga família da aristocracia rural de Virgínia. (Investigações feitas vinte anos depois, quando o Dr. Júlio Moreno, candidato da oposição, foi eleito Presidente da República, e El Libertador encontrava-se asilado na República Dominicana, revelaram o caráter fraudulento dessa transação, que dera ao caudilho e a seu ministro um lucro pessoal e ilícito de quase cem mil dólares.)

Essa mansão de dois andares, em estilo georgiano, ergue-se com discreta graça colonial em meio dum parque de tílias, freixos, teixos e bordos. A severidade de suas paredes de tijolos nus, dum tom de sangue coagulado, é quebrada pelo branco esmaltado dos caixilhos da muitas janelas, altas e estreitas, com vidraças de guilhotina, alinhadas simetricamente nas quatro faces da casa.

Com um frontão de moldura também clara a coroar-lhe a parte central da fachada, acima do pórtico saliente, sustentado por quatro colunas dóricas, a atual residência dos embaixadores do Sacramento tem acentuada semelhança com a histórica Dumbarton House, de Georgetown.

Durante algum tempo a chancelaria funcionou à Rua 30, numa casa alugada. Ao Dr. Alfonso Bustamante — primeiro embaixador escolhido por Juventino Carrera para representar seu Governo junto à Casa Branca — coube a tarefa de inspirar e supervisar a construção dum edifício especialmente destinado à chancelaria. Como El Libertador, seu amigo pessoal e admirador, lhe tivesse dado carta branca, o velho diplomata, humanista de formação européia, e um apaixonado dos homens e das coisas do Renascimento, não hesitou em mandar construir ao lado da mansão residencial um prédio que Ernesto Villalba agora vive a dizer à boca pequena que não passa dum ridículo pasticho de vários palazzi italianos. É uma estrutura quadrangular de granito claro, de dois andares. O primeiro, de alvenaria rusticada, tem um ar eriçado e defensivo de fortaleza, suavizado, é verdade, por uma loggia central, com duas serenas arcadas guarnecidas de pilastras iônicas. Na fachada do segundo, onde entre suas quinze janelas se repete o motivo das pilastras, notam-se reminiscências do Palácio Rucellai, de Florença, onde Don Alfonso, nos seus tempos de moço, serviu como cônsul de seu país.

Uma escada de cinco degraus, também de granito, leva diretamente da calçada da Massachusetts Avenue à loggia da chancelaria. Incrustadas numa das pilastras, entre os dois arcos, luzem as armas da República do Sacramento. Na parte superior do brasão, logo abaixo do barrete frígio, contra um fundo vermelho, a figura dum puma de ouro segura orgulhosamente uma espada antiga, que divide o escudo em dois campos. Num deles se vê um sol nascente, simbolizando o dia; no outro, uma estrela, representando a noite. Na parte inferior destaca-se em letras douradas o lema da República: Libertai y Honor.

Quem entra no vestíbulo da chancelaria é recebido por um homem taciturno, de nacionalidade e sotaque insituáveis, geralmente sentado a uma mesa diante dum telefone branco. No andar térreo encontram-se a bibloteca, os arquivos, o almoxarifado e as salas das datilógrafas e dos outros funcionários menores. No centro do andar superior fica o amplo gabinete do embaixador, ladeado por uma sala de espera e por um outro compartimento um pouco maior, no centro do qual se vê uma mesa de mogno, cercada por dez cadeiras. As demais salas do pavimento principal são ocupadas pelo ministro conselheiro, pelos secretários e pelo adido militar e seus ajudantes.

Segundo o folclore oral da Embaixada, a figura mais importante da representação sacramentenha em Washington não era nunca o embaixador, fosse ele quem fosse, mas sim a cidadão americana Miss Clare Ogilvy, funcionária contratada. Os embaixadores chegavam, assinavam papéis, faziam discursos e conferências, davam entrevistas à imprensa, pavoneavam-se, papavam muitos jantares, bebiam incontáveis coquetéis e um dia eram transferidos para outro posto: passavam. . . Miss Ogilvy, porém, ficava. Nunca ninguém conseguiu descobrir um título capaz de abranger descritivamente suas múltiplas atribuições. Porque a americana combinava as funções de secretária particular do embaixador com as de tradutora de documentos, ofícios e cartas do espanhol para o inglês e vice-versa. Era ela também quem preparava ou revisava discursos escritos em sua língua materna, tanto para o embaixador como para o ministro conselheiro e os secretários. Cabia-lhe também zelar pelo sossego de seu chefe, evitando que ele fosse desnecessariamente importunado. Costumava-se dizer na chancelaria que quem quisesse chegar à presença do embaixador teria de primeiro passar por cima do cadáver de sua secretária.

Verdadeiro manual vivo de conhecimentos enciclopédicos, Clare Ogilvy entesourava na sua memória fotográfica as informações mais variadas sobre universidades, bibliotecas, museus, embaixadas, questões de protocolo, patentes industriais, tarifas alfandegárias, impostos de renda. . . Sabia de cor não só a carta da O.N.U. e a da O.E.A. como também a Constituição do Sacramento. Horários de trens, ônibus e aviões? A altura do monte Everest? O nome daquele vulto histórico que disse tal e tal coisa em tal e tal ocasião? A cotação da libra no momento? Ora, perguntem a Miss Ogilvy!

Quando alguém comparava essa prodigiosa americana com um computador eletrônico, não faltava colega que se apressasse a acrescentar: "Mas com uma alma!" Porque Miss Ogilvy exercia também duas funções que não constavam de sua ficha de trabalho: a de muro das lamentações e a de casa bancária. Quando algum de seus colegas tinha algum problema de natureza pessoal (casos sentimentais e mágoas a narrar ou queixas a formular) era no ombro da amiga americana que ele vinha chorar. Miss Ogilvy escutava com paciência fraternal e às vezes maternal e, finda a jeremiada, murmurava: "Isso não é nada, filho. A coisa podia ser muito pior". E em seguida dava-lhe conselho e consolo. Se o problema era de ordem financeira, Clare Ogilvy lá estava sempre de bolsa aberta, disposta a emprestar seus dólares, sem juros nem prazo certo.

Alta, duma magreza sólida (um metro e setenta e cinco, descalça), essa solteirona cordial e extrovertida, a quem chefes e colegas chamavam carinhosamente La Ogilvita, era duma fealdade tão simpática, que chegava a ser fascinante. Seus dentes graúdos e salientes davam-lhe à cara alongada algo de eqüino. A boca rasgada, de lábios grossos, era dotada duma plasticidade de argila. E seus claros olhos frios não revelavam — ao contrário, até negavam — o calor de seu coração. Tinha uma voz grave e meio rouca, e suas risadas, que rompiam com espontânea freqüência, quase sempre degeneravam numa tosse bronquítica de tabagista. La Ogilvita fumava cigarros em cadeia, e era vista invariavelmente com o pito aceso no canto da boca.

De sua vida pregressa pouco se sabia a não ser que pertencia a uma família rica de Connecticut que a crise financeira de 1929 arruinara e que, terminado seu curso no Vassar College (1930), encontrara logo um posto na Legação do Sacramento. Em geral as pessoas que privavam com ela aceitavam-na como um ato de Deus, e pareciam pensar que para explicar a existência de Clare Ogilvy era necessário não apenas uma biografia, mas toda uma cosmogonia.

"Meu primeiro salário" — costumava ela contar divertindo-se — "mal me permitia manter corpo e alma juntos. E mesmo hoje, passados quase trinta anos, acho que ainda não consegui uma união muito sólida entre essas duas partes de minha pessoa. . ."

Quando se sentia inclinada a reminiscências, La Ogilvita costumava dizer que, firme no seu posto, sobrevivera a dezenas de crises sacramentenhas, uma revolução, um golpe de Estado, quatro embaixadores e vários ministros e secretários. Era duma discrição exemplar no que dizia respeito a assuntos de chancelaria. Mas, vez que outra, em rodas íntimas, permitia-se fazer certas confidencias, em geral depois do primeiro copo de uísque. — Um dia vou publicar meu livro Branco — declarou certa noite, numa reunião de velhos amigos. — Mas posso desde já adiantar a vocês alguns capítulos. Quando fui admitida como funcionária da Embaixada do Sacramento, era eu uma fresca donzela de vinte e quatro anos, recém-saída do colégio. O primeiro serviço que me confiaram foi o de redigir e datilografar estranhas e misteriosas cartas, dirigidas a um senhor de nome italiano que morava em Virgínia. A correspondência referia-se a uma coisa designada sempre como "a mercadoria", sem ficar claro de que se tratava. Discutiam-se preços, lugares e datas de entrega. Isso foi ainda no tempo da proibição, pouco antes da eleição de F.D.R. Pois bem, amigos. Um dia as autoridades americanas descobriram toda a tramóia e o escândalo estourou como uma bomba. O secretário da Embaixada que assinava (com pseudônimo, é claro) as cartas que eu redigia e datilografava servia-se de seus privilégios diplomáticos para importar caixas de rum de seus país e vendê-las a bootleggers americanos que agiam em Washington e arredores. Graças à boa vontade do Department of State, o encarregado de Negócios do Sacramento conseguiu abafar o escândalo e mandou de volta para Cerro Hermoso o secretário contrabandista. Quanto a mim, meninos, só por um milagre escapei às garras dos agentes federais. Imaginem, eu costumava pôr orgulhosamente minhas iniciais em todas essas cartas comprometedoras!

La Ogilvita cascalhou sua risada. Veio mais uma rodada de uísque e ela continuou:

— O primeiro embaixador a quem servi chegou a Washington em 1931. Don Alfonso Bustamante era um rico velhote, gordinho, baixo, viúvo e triste. Tinha o ar dum tapir amestrado. Gostava de ler, era apreciador das artes, um verdadeiro intelectual. Toda a vez que recebia de seu chefe, o Ministro das Relações Exteriores, ordens que achava absurdas, punha-se a andar dum lado para outro no seu gabinete, resmungando: "Vou pedir demissão do cargo. Não cumpro ordens de primários. Sou um civilizado. Um homem do Renascimento. Um florentino!" Mas não se demitia, gostava demais do posto. Era louco por títulos honoríficos e condecorações. Cada vez que recebia uma comenda em sessão solene e tinha de ouvir e fazer discursos, sentia tonturas, dores no peito, o coração lhe disparava. . . Depois da festa o homenzinho atirava-se na cama e chamava seu médico com urgência.

La Ogilvita foi interrompida por um acesso de tosse, tomou um gole de uísque e, refeita, prosseguiu:

— Isso, entretanto, não impedia nosso embaixador de continuar desejando e até procurando fazer jus a novas condecorações. Coitadinho de Don Alfonso! Nos dez anos que passou nesta aldeia federal, que ele detestava com todo o ardor de sua alma florentina, pouco mais fez que trotar de festa para festa, queixando-se duma sinusite crônica (a doença oficial de Washington, vocês sabem) e suspirando pelo cargo de embaixador de seu país em Roma, que ele só chamava de Cidade Eterna.

Vendo que os amigos divertiam-se com sua narrativa, Clare Ogilvy fez uma pausa de efeito teatral antes de terminar a história de seu primeiro embaixador.

— No dia 7 de dezembro de 1941, depois de ouvir pelo rádio a notícia de que aviões japoneses haviam bombardeado Pearl Harbor, Don Alfonso meteu-se, lívido, no quarto de banho. Como depois de duas horas ele continuasse ainda trancado lá dentro, Michel, o mordomo, arrombou a porta e encontrou seu chefe sentado no sanitário, morto dum colapso cardíaco. Benza-o Deus! Como vocês vêem, morte inglória para um florentino do Renascimento. . .

— Mais um uísque, Clare?

— Venha! — exclamou ela, sentindo-se dona da festa. Sacudiu o copo para ouvir aquele tintinar tão agradável a seus ouvidos, produzido pelos cubos de gelo batendo uns nos outros. E como visse os amigos calados, com os olhos postos nela, passou à história do seu segundo embaixador. Era cunhado do Presidente Carrera e tinha delírios paranóicos. Fechado no seu gabinete, discutia em altos brados com interlocutores imaginários (sempre personalidades importantes), proferindo os mais sujos palavrões da língua castelhana. La Ogilvita jamais pôde esquecer aquela tarde cinzenta de inverno, em 1942, quando, de sua sala, ouviu o chefe gritar: "Mr. Cordell Hull! Mandei chamá-lo à minha presença para lhe apresentar um protesto. Meu Governo não vê com bons olhos a utilização de Puerto Esmeralda como base naval americana. Fique sabendo que não somos colônia dos Estados Unidos, seu canalha! Somos uma nação livre e soberana, crápula! Leia o lema da nossa República: Libertad y Honor. E diga ao Presidente Roosevelt que se. . ." Neste ponto Clare Ogilvy engoliu o palavrão de quatro letras, certa de que os ouvintes sabiam de que se tratava.

A quarta rodada de uísque provocou a história do terceiro embaixador.

— Esse correspondeu ao período do Governo do Dr. Júlio Moreno. Era um solteirão franzino e cor de açafrão, que sofria de úlceras gástricas e usava óculos de lentes escuras por trás dos quais procurava esconder sua timidez. Era um homem culto, introspectivo, muito escrupuloso, e que só tomava suas decisões depois de muito meditar. Falava pouco, fazia ioga e era admirador da filosofia oriental, que conhecia a fundo. Não durou muito no cargo. Quando o Dr. Moreno foi deposto, pediu asilo ao Governo americano e foi viver em Miami, onde morreu dois anos mais tarde. Úlcera perfurada complicada com nostalgia da pátria.

Clare Ogilvy fez uma pausa comovida e acrescentou:

— Foi esse embaixador que me condecorou com a comenda da Ordem do Puma de Prata (o de ouro se confere apenas a estadistas estrangeiros e heróis nacionais). Foi ele também que me entregou o título de cidadã honorário do Sacramento. . .

— E o quarto embaixador?

— Era um maníaco sexual, apesar de sexagenário. Vivia correndo atrás das datilógrafas. Um verdadeiro fauno. Um dia esse tarado teve a desfaçatez de me aplicar uma palmada nas nádegas, com a cara mais inocente do mundo. Acreditem ou não. Isso tudo, entretanto, não impediu que um desses nossos colégios menores lhe conferisse um diploma de doutor em leis, honoris causa.
Se alguém algum dia pedisse a opinião de Clare Ogilvy sobre o caráter e os hábitos de seus atuais companheiros de trabalho, ela responderia com um silêncio olímpico, apertando os lábios, e seu queixo avançaria, rígido, numa expressão de obstinada e ressentida negativa. Poço de segredos, era duma discrição a toda prova. Tinha, naturalmente, para uso pessoal uma espécie de fichário mental em que registrava suas impressões tanto dos superiores como dos colegas — coisas que observava através dum convívio diário com eles, somadas às histórias que ouvia sobre um e outro, em geral contadas pelo irrequieto e indiscreto Titito Villalba. Se tivesse de reduzir essas impressões a expressão verbal, eis o que provavelmente escreveria:

"General Hugo Ugarte. Adido militar. Já próximo da casa dos setenta. Índio parrudo, de pernas tortas e olhos mortiços e visguentos de crocodilo. Dizem que foi o chefe de Polícia mais cruel que o Sacramento conheceu. Submetia seus prisioneiros a torturas requintadas, algumas delas de sua própria invenção como a famosa agulha elétrica que ele fazia um dentista da polícia pôr em contato com os nervos dos dentes da vítima, que em muitos casos confessava até o que não sabia — isso quando não desmaiava de dor. (No entanto, sempre que o monstro agora tem hora marcada com seu dentista aqui, em Washington, precisa tomar tranqüilizantes.) Ganhou o posto que ocupa hoje na Embaixada como prêmio pelos bons serviços prestados ao Presidente Carrera. Além de seus honorários de três mil dólares mensais, livres de qualquer imposto, ganha uma fortuna, comprando nos Estados Unidos, com descontos, refrigeradores, rádios, e outros aparelhos elétricos, que remete para o Sacramento, onde os revende com um lucro de mais de setenta por cento. A mercadoria entra no país através de Puerto Esmeralda, sem pagar qualquer tarifa, pois os chefes da Aduana fazem parte da quadrilha.

"Segundo Titito, nos 'bons tempos' Ugarte entregava-se a orgias sexuais com meninas de idade escolar. Meu título particular para esse sujeito é 'O Sátiro do Caribe'. Tem uma risadinha de taquara rachada. Sua presença me é desagradável como a dum grande sapo de baba venenosa.



"Sra. Ugarte. Dona Ninfa já vai adiantada na casa dos quarenta. Segunda esposa do general. Parece-se fisicamente com a odalisca do quadro de Matisse que está na Galeria Nacional de Arte. Gorda, morena e de olhos árabes. Como a maioria das latino-americanas que conheço, sofre de delírio aquisitivo. Gulosa, adora principalmente bombons de chocolate, bolos, nata batida, enfim, todas essas coisas engordantes. Desde que a conheço ela anuncia que vai começar uma dieta 'na próxima segunda-feira'. Está dando muito' na vista seu interesse pelo jovem chofer italiano da Embaixada, Aldo Borelli.

"Pancho Vivanco. Um pobre homem enganado pela mulher, que é amante do novo embaixador. Um mês antes de sua chegada a Washington (informação da "titito Press), Don Gabriel Heliodoro pediu ao Presidente a transferência de Vivanco para esta chancelaria, onde lhe entregaram a chefia do serviço consular. Triste criatura! Não é de admirar que seja um neurótico cheio de tiques nervosos e cacoetes. Um dia destes entrei no seu gabinete e fui atingida em pleno nariz por um dos passarinhos de papel que de vez em quando o cônsul solta no espaço. Inseguro de si mesmo, tem o hábito de rolar entre os dedos uma nota de dólar nova que enrolou num cilindro mais fino que um cigarro: uma espécie de bengala psicológica. Tenho pena desse pobre-diabo e procuro tratá-lo bem. Sinto que ele esboça tentativas para se aproximar de mim e fazer confidencias, mas no último momento recua. Todo o mundo na Embaixada sabe da existência desse triângulo amoroso.

"Sra. Vivanco. Olé! Olé! Rosalía navegava fagueira no mar azul dos vinte e poucos anos. Talvez o mais certo fosse dizer que ela voa, pois, com seus seios aerodinâmicos e rijos, mais parece um avião bimotor. Moça de origem humilde, deve ter casado com Pancho por interesse. Tem uma cara e um corpo que não podem inspirar pensamentos puros aos homens. Titito costuma dizer: 'É tão linda que se eu fosse mulher me apaixonaria por ela'.

"Ernesto Villalba. Titito é um tipo epiceno, e esta é a classificação mais eufemística que lhe posso dar. Gosta de camisas em tons de pastel, adora o ballet, é entendido em coisas de arte e tem mesmo bom gosto. Segundo-secretário desta Embaixada. Serviu em Atenas e em Ancara, onde fez horrores. Considera a Turquia o país mais civilizado do mundo porque lá, conta ele, a pederastia é aceita como coisa natural. Não há dia em que Titito não me apareça com algum mexerico novo sobre os colegas ou sobre as 'vacas sagradas' de Washington. Idade? Não confessa. Deve andar pelos quarenta. Sua cara às vezes me lembra a dum menino que tivesse murchado de repente. Baixo, fino de corpo, sinuoso. Gosto dele. Acho que ele me estima.

"Dr. Jorge Molina. Ministro conselheiro. Já começa a avistar a porta gris da casa dos cinqüenta. Não decifrei ainda essa esfinge. Homem retraído, introspectivo, de poucas falas. Caminha sem olhar para os lados. Tem uma cara até bonita, para quem gosta do gênero. Mas de que gênero se trata? Ora, é uma face ascética como a dos monges que a gente vê nos quadros de certos pintores espanhóis antigos: cara longa, descarnada, barba sempre azulando, mesmo quando escanhoado, lábios finos, testa alta, olhos escuros e intensos. Estudou vários anos no Seminário Maior de Páramo, mas abandonou o curso antes de ordenar-se. Não sei por quê. Talvez nem Deus saiba. Ninguém toma liberdades com o ministro conselheiro. É, no entanto, um homem polido, que nunca ergue a voz para ninguém. Lê muito, sabe coisas. Mas é um jardim fechado. Jardim estéril, na minha opinião. Ou muito me engano ou ele detesta Ugarte. Não creio também que seja amigo de Don Gabriel Heliodoro. Nunca o vi sorrir. É solteiro, mora sozinho, e nunca foi visto na companhia de mulheres. Titito garante que o homem é casto. Ou castrado — acrescenta, com um sorriso maldoso.

"Mercedes Batista. Mercedita (datilógrafa) parece uma coruja, não apenas por causa dos óculos enormes e de seu ar noturno, mas também pelo próprio formato da cabeça, larga em cima e fina no queixo, e pelo nariz em forma de bico. Baixinha, rechonchuda e melancólica, vive alimentando o sentimento de que é uma injustiçada, tem o choro fácil e fala um espanhol macio e pneumático como o da maioria dos sacramentenhos. É uma espécie de bode expiatório do marido de Rosalía, o qual parece sentir prazer ou alívio em fazê-la sofrer. Mercedita é das minhas mais assíduas confidentes.

"Pablo Ortega. Este é o meu preferido! Mal chegado à casa dos trinta. Cara morena, extremamente atraente, boca de desenho nítido com uma expressão em que se combinam doçura e energia. Diferente da quase totalidade de seus compatriotas, tem o bom gosto de não usar lubrificante nos cabelos. li um intelectual, embora não goste de ser classificado como tal. Publicou um livro de poesias e outro de ensaios. Detesta ambos. Considera-se frustrado como escritor. Pinta também, mas não está satisfeito com o que faz. Solteiro. Noto que as mulheres caem facilmente por ele e, digam o que disserem, sou também mulher. Titito afirma que com relação a Pablo devo ser enquadrada no complexo de Jocasta, já que tenho idade para ser sua mãe. Ortega tem tido algumas aventuras sexuais inconseqüentes aqui em Washington, mas é sério demais para se satisfazer com coisas desse gênero. Homem de natureza um tanto reservada, não me faz confidencias espontâneas: tenho de arrancá-las a ferro. Seus pais são os famosos Ortega y Murat, ricos senhores de terras, plantações e usinas de açúcar, uma das famílias mais influentes do Sacramento. O rapaz parece estar atravessando uma séria crise, que a chegada de Don Gabriel Heliodoro só poderá agravar. Vive atormentado por um agudo sentimento de culpa por servir um Governo que considera corrupto.

"E o resto do pessoal da chancelaria? Ora, são esses pequenos funcionários, pessoas incolores — boas e até interessantes quando chegamos a conhecê-las melhor, mas bidimensionais e vagas quando apenas as vemos por estas salas e corredores no exercício de suas atividades rotineiras.

"Sim, há ainda os assistentes do adido militar; um coronel dispéptico, um major alucinado pelo jogo de cartas, um capitão que coleciona selos e uns três tenentes com muita brilhantina nas melenas negras e nos olhos lúbricos. Vivem pelos corredores a fumar e a conversar, sem muito que fazer; ou então ficam sentados a suas mesas vendo figuras de mulheres nuas em velhos números do Playboy. Quase todos esses assistentes de Ugarte são donos de grandes automóveis e dão a entender que andam sempre metidos em conquistas amorosas — o que pode ser e pode não ser verdade, coisa que pouco me importa.

"E o novo embaixador? Cedo ainda para opinar. O que posso adiantar é que Don Gabriel Heliodoro é um homem e tanto. Irradia um perigoso magnetismo animal. Se por um lado a cicatriz que tem na testa lhe dá um ar nada respeitável de gangster, por outro, constitui uma espécie de condimento picante que aumenta a curiosidade sexual que as mulheres devem sentir por ele. Contam-se desse homem muitas histórias — algumas negras, mas todas interessantes. Não é de admirar que Rosalía tenha prazer em ir para a cama com um tipo assim. Titito me fez sobre Don Gabriel Heliodoro uma observação que é a um tempo grotesca e terrível: 'Ai, Clare! Ele deve ter um falo de obsidiana!' "


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