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O senhor embaixador


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Leonardo Gris bebeu um gole de água, lançou um olhar rápido para suas notas, e tornou a encarar o público. "Podeis com boa razão perguntar 'Que culpa têm os Estados Unidos desse deplorável estado de coisas na República do Sacramento? De que somos acusados?' Ora, a resposta, caros amigos e vizinhos, está longe de ser simples ou fácil. Tentarei formulá-la em termos sumários.

"Alex de Tocqueville escreveu que a América fora como que mantida pela Deidade como uma reserva para o mundo. O vosso Thomas Jefferson afirmou que este país representava a segunda chance da raça humana. Éreis um mundo novo que nascia cheio de fé nos grandes destinos da humanidade. Foi ainda Jefferson quem disse haver jurado no altar de Deus eterna hostilidade contra qualquer forma de tirania sobre a mente do homem. No século XVIII, os Estados Unidos foram, por assim dizer, o porta-estandarte das reivindicações de liberdade no mundo inteiro, e principalmente a esperança e o apoio dos povos deste continente que procuravam livrar-se de sua condição colonial. A Revolução Francesa contou com a simpatia de vosso ministro na França, o qual disse também palavras de estímulo a alguns jovens brasileiros que sonhavam com a independência de sua terra.

"Não preciso recordar-vos o que foi a vossa marcha épica para o Oeste. Vossa juventude, vossa coragem e audácia, vossa capacidade de criar e construir e mais a consciência de vossa superioridade racial sobre os índios e mestiços do México, vos forneceram a justificativa (se é que precisáveis de alguma) para a anexação da Califórnia, do Texas e do Novo México ao vosso território. E o sonho do Destino Manifesto desta nação vos acompanhou tempo em fora, e ainda hoje vos deslumbra e perturba.

"A política do big stick instituída pelo Presidente Theodore Roosevelt é de ontem. A quem duvidar que o Irmão Grande do Norte exerceu pressões econômicas e fez intervenções militares em alguns países deste continente, recomendo a leitura dum livro edificante, intitulado War Is a Racket, escrito em 1931 pelo Major-General Smedley D. Butler, do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. A obra está hoje esgotada mas podereis encontrar um exemplar dela na vossa Biblioteca do Congresso. Pois bem, nessa autobiografia o referido militar — que recebeu a Medalha Congressional de Honra por sua participação na captura da cidade mexicana de Vera Cruz em 1914 e na tomada do Fort Rivière, no Haiti, em 1917 — narra principalmente seus trinta e três anos de serviço no United States Marine Corps, que ele classifica como 'a mais ágil força militar dos Estados Unidos'. Lá pelas páginas tantas, conta-nos o biógrafo, com uma candura admirável, de como em 1914 ele contribuiu, com seus soldados, para tornar o México e especialmente Tampico uma zona segura para os investimentos de companhias americanas de petróleo, e de como ele e sua força ajudaram a transformar Cuba e o Haiti em 'lugares decentes' para os negócios dos rapazes do National City Bank.

"Narra também como, entre 1909 e 1912, colaborou na 'purificação na Nicarágua', em favor duma outra casa bancária americana, e como mais tarde foi mandado com seus fuzileiros a Honduras, a serviço dos interesses das companhias de frutas de seu país. Lembro-me perfeitamente das cínicas palavras com que o autor termina esse sumário de suas proezas: Olhando para todo esse passado, sinto que poderia dar a Al Capone algumas sugestões. O mais que ele conseguiu foi operar seu racket em três distritos duma cidade. Nós, os Marines, operamos em três continentes.

"Ora, direis que tudo isso são águas passadas, mas eu vos replicarei que a roda do moinho dos interesses das companhias americanas, na América Latina, continua a girar, movida agora por outras forças e táticas."

Leonardo Gris acariciou com a mão, num gesto distraído, o microfone, lançou um olhar rápido, acompanhado dum sorriso quase imperceptível, para o homem que tinha a seu lado na plataforma, e que continuava inquieto, a cruzar e descruzar as pernas.

"Os Estados Unidos — prosseguiu — emergiram na Segunda Guerra Mundial como a nação mais poderosa da Terra. Vossa incomparável prosperidade econômica e financeira, protegida por um poderio militar só igualado pelo da Rússia Soviética, e mais o vosso alto padrão de vida, jamais atingido por qualquer outro povo em toda a História, constituem ameaças muito sérias, possivelmente mortais, para o Sonho Americano. A bela Imagem ideal que pintastes de vós mesmos para uso interno e externo começa a deformar-se. . . É que — rica, farta, respeitável, acomodada — esta nação se tornou conservadora a ponto de parecer reacionária, tendo jogado por terra o estandarte libertário que com tanta coragem, nobreza e desprendimento agitou no século XVIII. Ora, os comunistas apressaram-se a empolgar essa bandeira, e agora a estão usando com diabólica habilidade em benefício de sua causa!

"Na minha opinião, só uma coisa iguala a boa vontade deste povo norte-americano: é a sua inocência. Tendes os mais modernos e interessantes jornais do mundo e no entanto sois uma nação mal-informada, principalmente no que diz respeito aos outros países e povos. Não podeis compreender como é que, gastando bilhões de dólares na ajuda a governos estrangeiros, os Estados Unidos, em vez de fazerem amigos, estão comprando inimigos. . .

"Qual a explicação? No caso da América Latina, que me interessa particularmente, passarei a sugerir uma. . . Começarei com um exemplo concreto e atual: o problema cubano. No século passado, os Estados Unidos ajudaram Cuba a libertar-se do jugo espanhol. Temo, porém, que hoje estão mais interessados em proteger os capitais de cidadãos americanos investidos naquela ilha do que em compreender as razões e objetivos da revolução de Fidel Castro e ajudar o pequeno país vizinho a encontrar o caminho da libertação econômica e da autodeterminação. Não sou forte em profecias, mas aventuro-me a dizer que, com essa vossa política imediatista, possivelmente acabareis atirando Fidel Castro e seus revolucionários nos braços do comunismo.

"As boas intenções de vosso Governo e o vosso sacrifício como pagadores de altos impostos são prejudicados pela ganância de algumas companhias e grupos financeiros deste país que têm investimentos na América Latina. Parece interessar ao vosso big business que continuemos a ser banana republics, sem indústria própria, eternos produtores de matérias-primas a baixo preço. Creio que esses grupos de pressão americanos lograram convencer vosso Governo de que seus interesses são os próprios interesses de todo o povo dos Estados Unidos, e como resultado conseguem que esta grande nação empregue seu prestígio, sua força política e, se necessário, sua força militar, para garantir, nos países subdesenvolvidos da América Latina, a continuação dos privilégios que esses trustes e monopólios ianques lá gozam e que — notem bem! — as próprias leis desta nação lhes negam aqui dentro!

"Seria absurdo esquecer os grandes benefícios que os capitais e a técnica norte-americanos levaram para nossos países e o papel que representaram em certa época de nosso balbuciente desenvolvimento. Agora, porém, atingimos um ponto crítico em que esses grupos estrangeiros que na América Latina exploram o petróleo, a energia elétrica, o serviço de telefones, e a extração de minérios. . . etc. . . adquiriram tamanho poderio que chegam a influir decisivamente nos nossos destinos políticos, mantendo ou derrubando governos, dominando a imprensa, subordinando membros do Congresso e conseguindo assim privilégios em matéria de lucros, além de leis que lhes permitam retirar regularmente de nossos países — na forma de royalties, juros, serviços técnicos, dividendos, etc. — grandes somas que constituem sangrias quase fatais para a nossa débil economia. E assim, senhoras e senhores, muitas dessas repúblicas latino-americanas se têm transformado (pensem bem no absurdo!) em verdadeiros exportadores de dólares!

"Vosso Governo apoiou e prestigiou durante muitos anos ditadores cruéis e desonestos como Trujillo, Somoza e Batista pela simples, claríssima (mas imoral) razão de que eles convinham aos interesses dos capitais privados americanos investidos nos países que aqueles tiranos infelicitavam e desonravam.

"Reconheço que a posição dos Estados Unidos com relação às ditaduras latino-americanas está longe de ser fácil. Se vosso Department of State coopera com elas, nós, os liberais, protestamos, exclamando: 'Vós amais os ditadores!' Se, pelo contrário, vosso Governo aplica sanções contra essas tiranias, são ainda os mesmos liberais que gritam: 'Intervenção!', e invocam o direito de cada país à autodeterminação. . .

"Durante a Grande Guerra vosso Pentágono pedia que, em benefício do plano militar de defesa do hemisfério, vossos homens de Governo tolerassem esses ditadores que no fundo talvez sempre desprezaram, mas com os quais freqüentemente trocavam brindes e amabilidades, sentados à mesma mesa. E, terminada a guerra, que desculpa vos resta? A ameaça comunista? O temor da Terceira Grande Guerra?"

Gris fez uma pausa, como que esperando que alguém se erguesse na sala para responder às suas perguntas. Gonzaga inclinou a cabeça para o lado de Godkin e murmurou: "Nosso amigo está se enterrando. Apesar de estar dizendo muitas verdades, não devia ir mais longe. . . Que é que você acha?" Godkin limitou-se a encolher os ombros e a tirar o cachimbo da boca e metê-lo no bolso, ao mesmo tempo que soltava um suspiro. "Eu preferia que o Dr. Gris terminasse a conferência agora" — sussurrou Pablo. Tirou do bolso um comprimido de aspirina, meteu-o na boca e pôs-se a mastigá-lo. Por um momento a imagem de Glenda passou-lhe pelo pensamento. O professor de Ciências Sociais pigarreou com tanta força, que o conferencista voltou a cabeça para ele, julgando que o homem lhe houvesse feito alguma interpelação.

"Compreendo vosso problema — continuou Gris —, permiti que vos diga isto sem parecer presunçoso. Viveis uma grande contradição. Alimentais um grande sonho de liberdade, igualdade e fraternidade, mas a experiência tem mostrado que se fordes absolutamente fiéis a esse sonho, não só na teoria como também na prática, não podereis manter o vosso alto e crescente padrão de vida. Porque me parece que quando existem países, grupos ou indivíduos extremamente ricos é porque esse enriquecimento se fez à custa de outros países, grupos e indivíduos que tiveram de permanecer extremamente pobres. (Estarei enunciando uma heresia econômica?)

"Creio que não há nação no mundo inteiro em que a religião seja levada tão a sério como nesta. Vossos templos vivem cheios de fiéis. Tenho, porém, a impressão de que erguestes, sem perceber, um muro de concreto entre vossas igrejas e vossos escritórios comerciais, tentando uma separação incoerente. E assim, com uma das mãos afagais o Cordeiro de Deus e com a outra, o Bezerro de Ouro."

Gonzaga falou baixo por um canto da boca: "Nosso amigo enlouqueceu". Pablo sacudiu a cabeça dolorida. Ante seus olhos, a imagem de Gris começava a ficar esfumada e parecia pulsar ao ritmo das batidas do sangue em suas têmporas.

"O mundo ocidental transformou-se no vosso jardim, mas não vos iludais com a calma das árvores, a colorida serenidade das flores, os belos jogos de sombra e luz. Há grandes, terríveis fermentações no solo desse vasto playground, criando miasmas que vos podem destruir espiritualmente se não materialmente. Esse belo jardim bem pode transformar-se num cemitério.

"Julgo ler nas faces de muitos de meus ouvintes uma interpelação. Que direito — parecem perguntar —, que direito tem esse estrangeiro que hospedamos tão generosamente, de nos dizer essas coisas duras e insultuosas? Vós mesmos — responderei — me destes esse direito através da vossa própria pregação democrática, das vossas constantes invocações dos princípios cristãos.

"Creio que chegou a hora de esta nação, por tantos títulos admirável, decidir sobre o que é mais importante: se manter a sua autoridade moral de líderes do mundo ocidental, promovendo realmente o progresso e a felicidade dos povos que dela dependem, ou se continuar aumentando sua riqueza e melhorando seu padrão de vida a qualquer preço. . .

"Creio que nesta conferência cheguei, sem premeditação, a um point of no return. Agora devo dizer tudo. Uma das maiores pedras de tropeço no vosso caminho espiritual é o vosso absurdo orgulho racial, que exclui de vosso convívio, de vossa admiração, de vosso respeito e principalmente da vossa afeição, pelo menos dois terços de toda a raça humana!"

"Oh não!" tornou a gemer a senhora gorda que estava sentada atrás de Pablo Ortega. O professor de Ciências Sociais tirou os óculos e limpou-os com o lenço, num gesto nervoso.

"E agora — prosseguiu Gris, depois duma pausa durante a qual passeou lentamente o olhar por toda a sala — agora quero fazer um esclarecimento importante. Com toda esta minha arenga franca e rude, acreditem, eu não quis e não quero atirar sobre os largos ombros dos Estados Unidos toda a responsabilidade de nossas desgraças políticas, econômicas e sociais. Elas cabem principalmente aos nossos homens de Estado, aos nossos capitães de indústria, às nossas chamadas elites. . . Somos nós mesmos que temos de derrubar nossos ditadores, expulsar do poder os exploradores do povo, destruir, liquidar as oligarquias, corrigir os nossos erros e estabelecer a justiça social. Em todos os países da América Latina — creiam-me! — existem grupos de homens de boa vontade, inteligentes, corajosos e decentes. São, em geral, liberais, socialistas moderados (por favor, não se assustem da palavra socialista!), homens enfim que jamais aceitarão um regime totalitário, tanto de direita como de esquerda. Essa é a gente que deve merecer vossa simpatia, vossa confiança e vosso apoio!

"E agora, para terminar, um esclarecimento. Eu seria, além dum ingrato, um insensato, se deixasse de reconhecer que, para nossos países é muito mais seguro e conveniente viver à sombra de Tio Sam do que no flanço do urso soviético. Não esquecerei também que se aqui, nos Estados Unidos, prevalecesse o espírito de censura e intolerância da Rússia Comunista, eu não teria sequer podido pronunciar as primeiras três palavras desta conferência. Tenho a certeza de que ao sair daqui não serei chamado à ordem nem castigado pelo reitor desta universidade ou por qualquer agente da polícia pelas coisas que vos disse esta noite. Sei também que amanhã vossos jornais não hesitarão em reproduzir algumas de minhas observações críticas a este país. Quero também deixar claro que se busquei asilo nestes Estados Unidos é porque ainda confio nas reservas de bondade e no espírito de justiça de seu povo, que não deve ser confundido — repito — com seus grupos financeiros e econômicos.

"Muito obrigado!"

Ouviram-se alguns aplausos, breves e fracos. O professor dos óculos metálicos levantou-se e Pablo teve a estranha impressão de que o homem havia crescido ainda mais, durante os cinqüenta minutos que durara a conferência. Gris passava o lenço pelo rosto suado. Seu olhar estava fixo num ponto no auditório. Pablo soergueu-se, voltou a cabeça e viu o homem da capa clara sentado ao lado dum senhor moreno, de barba cerrada, e cuja fisionomia lhe era vagamente conhecida.

O professor de Ciências Sociais anunciou que o conferencista estava disposto a responder às perguntas que por ventura lhes quisessem fazer. Quem primeiro se ergueu foi um sacerdote católico, que perguntou:

— Dr. Gris, é verdade que o senhor é ateu?

Ouviu-se um murmúrio no recinto. "Golpe sujo. . ." — murmurou Gonzaga. Godkin, não resistindo ao desejo de fumar, ergueu-se e saiu da sala na ponta dos pés. Gris olhava, sorrindo com benevolência, para o sacerdote.

— Não, não sou ateu, mas agnóstico, o que, como o meu amigo sabe, não é a mesma coisa. Asseguro-lhe que tenho uma grande veneração pela vida e uma genuína afeição pelos meus semelhantes. Não será isso o que mais importa no mundo dos homens? Suponhamos que Deus existe, possibilidade que não excluo. . . Amando suas criaturas, estarei amando indiretamente Deus. Uma vez que não tenho certeza da existência de Deus (coisa que sinceramente lamento), não amo o meu próximo apenas para agradar ao Criador e garantir para minha alma um bom lugar no Céu. Esse sentimento de afeição, de solidariedade humana me vem duma misteriosa fonte interior, de algo que existe no âmago de meu ser e que eu não saberia descrever com palavras. . .

O padre sorriu e disse:

— Pois essa força inefável, meu caro doutor, é Deus. Sentou-se. Gris sacudiu gravemente a cabeça e murmurou:

— Espero que seja, reverendo! Espero sinceramente que seja!

Seguiram-se duas perguntas absolutamente idiotas, que fizeram Pablo esconder o rosto nas mãos. A ambas o conferencista respondeu com uma paciência tingida de humor.

O homem moreno que Pablo julgava já ter visto antes ergueu-se. Tinha uma cara severa, maxilares quadrados, olhos muito negros.

Apesar de suas negativas, estou certo de que você é um comunista! — disse ele. Tinha uma voz áspera, e falava inglês com sotaque espanhol.

— Você não está fazendo uma pergunta, mas uma afirmação categórica — sorriu o conferencista. — Não, não sou um comunista, mas um velho liberal até meio romântico, um homem, enfim, que, se decidisse seguir suas inclinações mais profundas, passaria o resto da vida a cultivar o seu jardim no meio de bons amigos, bons livros e boa música, e que, se não faz isso, é porque tem a consciência permanentemente assombrada pela lembrança da miséria de seu povo, e um senso dolorosamente agudo de sua responsabilidade para com esse mesmo povo.

O homem moreno sentou-se, carrancudo. Ouviram-se estalidos de cadeiras, tosses, arrastar de pés, murmúrios. Alguém ergueu o braço para fazer uma pergunta, mas Gris deteve-o com um gesto.

— Um momento, por favor! — disse. — A afirmativa desse cavalheiro cuja face e voz não me são estranhos, pois creio que já o vi e ouvi em algum lugar, há muito tempo. . . talvez no meu próprio país. . . creio até que metido num uniforme do Exército Nacional. . . (Estarei certo ou a memória me está traindo?) Bom, seja como for, a intervenção desse cavalheiro me traz à lembrança um diálogo que mantive com um professor inglês da Universidade de Oxford. Conversávamos sobre ideologias quando, em certo trecho do diálogo, ele me disse as seguintes palavras que me surpreenderam pela sua verdade e ao mesmo tempo pela sua desarmadora simplicidade: "A antítese comunismo-democracia é falsa". Explicou que o contrário do comunismo não é a democracia, mas o capitalismo, e a antítese da democracia não é o comunismo, mas a ditadura. O que ocorre é que, quando queremos dizer que somos capitalistas, achamos mais simpático afirmar que somos democratas!

Pablo voltou a cabeça para trás e viu uma escura expressão de mal contida fúria na cara do desconhecido que interpelara Gris. O homem da capa de chuva sorria a seu lado.

Vieram outras perguntas. Estudantes queriam saber que oportunidades de trabalho teriam, na América Latina, os jovens americanos dotados de conhecimentos técnicos. Gris respondeu-lhes com um jeito entre paternal e didático.

Finalmente ergueu-se o homem da capa clara. Gris franziu a testa e preparou-se para rebater a pergunta.

— Doutor, é verdade que o senhor é o chefe aqui em Washington duma conspiração que visa derrubar por meio duma revolução o Governo da República do Sacramento?

Cabeças voltaram-se para ele, curiosas, e depois para Gris. "Temos barulho" — sussurrou Gonzaga. Pablo rosnou uma ameaça. Os óculos do professor de Ciências Sociais fuzilaram. Gris sorriu, calmo:

— Invoco o famoso Fifth Amendment da Constituição dos Estados Unidos para não responder a essa pergunta.

Romperam risadas em vários pontos da sala. O homem da capa de chuva continuava de pé. Insistiu:

— Mas o senhor é ou não é partidário duma revolução armada para derrubar o Presidente Carrera?

— Sim! — exclamou Gris. E repetiu com intensidade. — Sou! Sou!

O homem fez menção de sentar-se, mas o conferencista gritou:

— Um momento! Continue de pé. Agora eu é que lhe vou fazer uma pergunta. — Encarou o interlocutor. A atmosfera da sala parecia carregada de eletricidade. — Há dois meses que você me segue por toda a parte como uma sombra. Quem lhe paga para isso? O embaixador do Sacramento? Vamos, responda, quem é?

O outro sentou-se intempestivamente, mordendo o lábio, a cara mais rubicunda que de costume. O homem moreno que estava a seu lado segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Houve um princípio de tumulto. Ortega ergueu-se, mas Gonzaga puxou-o pela aba do casaco, fazendo-o sentar-se de novo. O professor de óculos metálicos levantou a mão e pediu silêncio.

— Senhoras e senhores, em nome de meu Departamento e no meu próprio, agradeço ao Professor Leonardo Gris pela gentileza que teve em vir nos dirigir a palavra esta noite. Mais uma vez lembro-vos de que as opiniões emitidas por ele não são endossadas pelo meu Departamento nem pela Universidade.

— Um segundo depois, acrescentou: — Nem por mim. Voltou-se para o conferencista.

— Dr. Gris, muito obrigado. — Voltou-se de novo para o público. — Meus amigos, declaro encerrada esta sessão. Muito obrigado, e boa noite!

Houve aplausos, mas chochos. Gonzaga e Pablo aproximaram-se de Gris, apertaram-lhe a mão e depois ficaram a seu lado — pois iam acompanhá-lo até seu apartamento — enquanto algumas pessoas, em geral compatriotas exilados, vinham cumprimentar o conferencista.


27
Rosalía jurou a si mesma que jamais tornaria a pôr o pé na residência do embaixador. Estava tudo acabado entre ela e Gabriel Heliodoro! Sabia que à noite ele era visto em night clubs e restaurantes na companhia de Francês Andersen. Possivelmente ambos iam depois para algum hotel ou para a própria Embaixada, onde passavam a noite juntos, enquanto ela ficava em casa a agüentar as lamúrias e súplicas de Pancho. "Rosalía, minha vida, vou te fazer uma pergunta muito séria e quero que me respondas com a maior sinceridade. Estás ou não grávida?" Teve gana de soltar uma gargalhada na cara do idiota. "Grávida, eu? Se estivesse, fosse de quem fosse o filho, eu tomaria veneno, fica tu sabendo." Com um desajeitamento ridículo de mau ator, Pancho ajoelhou-se, rindo e chorando ao mesmo tempo, e beijou-lhe a mão, murmurando "Graças a Deus! Graças a Deus!" Nunca, em toda a sua vida, Rosalía desprezara mais o marido do que naquela hora. E o desgraçado passou o resto da noite em silêncio, sentado a um canto, a fazer seus desenhos com lápis coloridos e a olhar para ela de quando em quando, com uma expressão bovina. E como eram longas aquelas horas no seu apartamento! Sua solidão aumentava quando o marido ficava em casa. Que fazer? Seu inglês precário a impedia de interessar-se por programas de televisão e de cinema. Não tinha amigas. Detestava os membros da colônia sacramentenha de Washington. Ficava então com o sentido no telefone. Gabriel Heliodoro podia chamá-la a qualquer momento. . . Fazia quase uma semana que não se viam. Seu corpo estava faminto do corpo dele, mas, ferida no seu orgulho, ela se negava a tomar a iniciativa de lhe telefonar. . . E era curioso, Pancho também parecia esperar ansiado que o telefone tilintasse, como se ele também desejasse que Gabriel Heliodoro levasse de novo a amante para sua cama.

Uma noite, vendo-a ansiosa a olhar para o telefone, ele não se sofreou e perguntou: "Será que ele não vai te chamar?" — "Ele quem?" — "O embaixador. . ." — "Pancho! Eu não te compreendo..." O marido encolheu os ombros. — "Eu também não me compreendo. . ." — e se pôs a rolar o cilindro de papel entre os dedos, a andar dum lado para outro, sem olhar para ela. — "Mas se isso te faz feliz, não serei eu quem vá te impedir de estar com aquele homem. O que não quero é que andes triste. Nem que me abandones. Para continuar a viver contigo, sujeito-me a tudo. Tudo!" Ela sentiu uma espécie de náusea. Aquelas palavras tinham um visgo frio, enchiam a sala, grudavam-se nas paredes, escorriam pelos móveis, como baba. . . Aquelas palavras a sujavam por fora e por dentro. Ela sentiu um arrepio de epiderme, nas costas, ao longo dos braços e das pernas. Veio-lhe uma "canseira" de cabeça, uma estonteada sensação de crânio vazio, e o rosto — principalmente os lábios e a pele em torno da boca — estava bem como quando seu dentista lhe anestesiava as gengivas.

Naquela noite, o telefone permaneceu mudo. Prepararam-se para dormir pouco depois das onze. Pancho, no seu horrendo roupão cor de malva por cima do pijama raiado, saiu do quarto de banho e, com uma voz que recendeu a dentifrício, lhe suplicou: "Posso entrar no teu quarto?" Ó Deus! Se ao menos ela pudesse apiedar-se daquele pobre diabo! Fechar os olhos, "apagar" os pensamentos, morrer durante meia hora, entregar o corpo àqueles beijos moles, à carícia daquelas mãos úmidas, ouvir as coisas absurdas e abjetas que o marido lhe dizia. . . Mas era impossível. "Não, Pancho. Estou com uma enxaqueca horrível. Tem paciência. Amanhã." Ele baixou a cabeça, resignado. E antes de lhe dizer boa noite, murmurou: "Não há de ser nada. Decerto amanhã ele te chama!"

Que ia ser de sua vida? Na colônia sacramentenha local (Ninfa encarregava-se de contar-lhe os falatórios. . .) era conhecida como a "concubina do embaixador". Glorioso título! Uma mulher de vinte e seis anos que, se quisesse, poderia ter a seus pés os mais belos e jovens amantes, estava presa, submissa a um homem que tinha idade para ser seu pai!

Tentava, então, analisar seus sentimentos para com Gabriel Heliodoro. Fora ele o primeiro macho que conseguira dar-lhe o prazer completo do orgasmo, a sensação plena de ser mulher. Junto dele ela sentia que estava "viva de corpo inteiro". As coisas que ele lhe dizia davam-lhe a sensação de ser importante, de existir mesmo. Não negava que no fundo de sua atração física por aquele homem que tanto lhe lembrava certas figuras de ídolos maias que ela via em revistas e livros, quando menina, havia um elemento de temor. Quantas vezes ela beijara, num misto de fascínio e repulsa, a cicatriz esbranquiçada que lhe riscava a testa tostada? E na deliciosa agonia do orgasmo, quando aquele corpo enorme a cobria e aqueles braços musculosos a apertavam, quantas vezes ela desejara absurdamente que ele a matasse, esmagando-a contra seu peito? Mas quase sempre, passado o momento espasmódico do gozo, ela rompia a chorar, transformava-se numa pobre menina órfã e abandonada, que nada mais queria de Gabriel Heliodoro, senão que ele lhe afagasse a cabeça, deixando-a aninhar-se no seu corpo quente e firme, e lhe dissesse coisas que nada mais tivessem a ver com o amor da carne.

E o ingrato agora a enganava com a americana. E não negava, o cínico!


Um dia, à hora do entardecer, o telefone tilintou. Pancho não havia ainda chegado da chancelaria. Ela saltou, sôfrega, apanhou o fone: "Alô" — "Rosalía, minha querida!" — Era , a voz dele. — "Boa tarde, Gabriel Heliodoro." — "Que indiferença é essa, meu bem? Estou sentindo uma falta danada de ti. Por que não vens esta noite?" — Ela ficara em silêncio, sem saber que dizer. Começou a tremer e, num esforço, conseguiu balbuciar: "Não sei se posso. . ." — "Claro que podes! Espero-te com uma ceia, como de costume." — "Não sei. . ." — "Como não sabes? Vou mandar o Aldo te buscar às oito em ponto. Está combinado!"

E agora aqui estava ela — ela que jurara nunca mais pôr os pés na Embaixada — a descer do Mercedes do embaixador, e a apertar a campainha da entrada principal. Michel veio abrir-lhe a porta, e, como sempre, fez uma curvatura, sem mirá-la (sua obrigação era não ver, não identificar a visitante da noite). Bonsoir, madame! E de novo ela estava no vestíbulo. Os "cheiros da Embaixada" (tapetes, madeira dos móveis, a remota fragrância de pinheiro dum desinfetante) entraram-lhe pelas narinas, associando-se a lembranças eróticas e a uma vaga vergonha. E de novo ela sentiu que voltava por completo e que tudo estava como antes.

Gabriel Heliodoro desceu as escadas de braços abertos.

"Rosalía! Que bom teres vindo! Que bom!" E ela se deixou abraçar, beijar e levar para o andar superior.

Só depois de se terem amado com uma fúria de possessos é que Rosalía falou em Francês Andersen. Estavam ambos ainda deitados.

— No fim de contas, querida, quem deve preocupar-se com esse assunto é a minha esposa legítima e não tu. O importante é que eu te quero e não posso viver sem ti.

— Estás dizendo a verdade?

— Que é a verdade? Se tu sabes o que é a verdade, quero que me digas. Eu não sei. Só sei o que sinto.

Apesar de todos os seus esforços, Rosalía não pôde evitar que lágrimas lhe viessem aos olhos. Gabriel Helíodoro sentiu-as a escorrerem-lhe por entre os cabelos do peito.

— Que é isso, minha flor?

— Que é que vai ser de mim?

— Nada. Já te disse mil vezes e agora repito. Nada de mal pode acontecer a quem possui a tua juventude e a tua beleza. Olha para mim. Estou no fim. — Ela agora soluçava. Ele lhe afagava a cabeça. — Se eu te contasse as coisas que penso quando estou sozinho neste casarão. . . Imaginas, por acaso, que não tenho sentimentos, que sou um bruto? Antes fosse. No princípio da minha vida tudo e todos conspiraram para fazer de mim um bandido vulgar, um eterno revoltado. Mas venci todos os meus inimigos. Pensa no tempo em que eu andava descalço, esfarrapado, com o estômago doendo de fome. O que tenho hoje só o devo a mim mesmo e a mais ninguém.

Teve ímpetos de confessar-lhe: "Minha mãe era uma prostituta. Não sei quem é meu pai. Eu até podia dizer que minha fabricação custou três lunas. Era essa a tabela de preços da chíngada. Havia um desconto especial aos sábados para os soldados do 5.° Regimento". Mas calou-se.

— Nunca pensas na tua mulher — perguntou Rosalía —, nas tuas filhas, nos teus netos?

— Claro que penso, e muito. Mas minha família não me preocupa. As filhas, com exceção da mais moça, estão todas bem casadas. Sou um homem rico. Se me acontecer alguma coisa, Francisquita e as meninas ficarão protegidas. Não sou nenhum inconsciente. Penso na minha gente. Se o Governo cair, mandarei todos para a Ciudad Trujillo. Poderão depois vir para este país. . . ou ir para a Europa.

— E tu?


— Eu vou para o inferno. Mas não desacompanhado. Levarei muita gente comigo. . .

Rosalía brincava agora com a pequena medalha de alumínio que pendia do pescoço de Gabriel Heliodoro, que sorriu e disse:

— É a efígie de Nossa Senhora da Soledade, minha madrinha. Conheces a história da imagem que está na igreja do meu pueblo? Não? Pois um dia houve um furacão medonho, parecia um fim de mundo, o mar ameaçou invadir a terra. O vigário de Soledad del Mar rezou uma missa na hora da tormenta, pediu a Deus que tivesse compaixão de toda aquela boa gente. Durante a noite inteira, a ventania continuou uivando, o mar batendo na praia. Os que moravam na parte baixa da vila se refugiaram nas casas de parentes e amigos na parte alta. Um raio caiu na cadeia municipal, matou dois guardas, e todos os presos fugiram. (Nesse tempo eu devia ter uns dez ou onze anos.) Fiquei na janela do meu rancho boa parte da noite, olhando para a montanha, que eu avistava longe, ao clarão dos relâmpagos. . . para a montanha onde Juan Balsa se escondia com seus guerrilheiros. Eu rezava, pedia a Deus que poupasse os revolucionários mas atirasse seus raios contra o quartel do 5.° Regimento de Infantaria. Quando o dia raiou, o furacão tinha passado, o céu estava limpo, o sol de novo apareceu. E então os pescadores descobriram na areia, à beira do mar, um vulto estendido. A princípio pensaram que era o cadáver de algum náufrago. Depois viram que era a imagem de madeira duma santa, que as ondas tinham atirado na praia. Veio o pároco e mandou levar a figura para a igreja. Durante muitos dias procuraram saber de onde tinha vindo a imagem. Ninguém sabia dizer. Não se tinha notícia de nenhum naufrágio. Só podia ser um milagre. . . Então o cura mandou restaurar a escultura, e Maestro Natalicio veio com suas tintas e pintou a santa. E ela ficou mais bonita que a Virgem de Macarena que está numa igreja de Sevilha e é a padroeira dos toureiros. E o arcebispo veio em pessoa de Cerro Hermoso a Soledad del Mar para consagrar a imagem, que recebeu o nome de Nossa Senhora da Soledade, foi posta num nicho na igreja e passou a ser padroeira da vila. . . e minha madrinha. . .

Gabriel Heliodoro calou-se. Rosalía revolvia a medalhinha entre os dedos. Não podia compreender aquele homem. Mas. . . podia ela compreender-se a si mesma?



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