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O senhor embaixador


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ÉRICO VERÍSSIMO

O SENHOR EMBAIXADOR
1985

ABRIL

CULTURAL
CIP-Brasil. Catalogação-na-Publicação

Câmara Brasileira do Livro, SP

_____________________________________________________________________


Veríssimo, Érico, 1905-1975.

V619s O Senhor Embaixador / Érico Veríssimo. —

São Paulo : Abril Cultural, 1985.

(Grandes romancistas)

1. Romance brasileiro I. Título.

84-1465 CDD-869.935

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índices para catálogo sistemático:
1. Romances : Século 20 : Literatura brasileira 869.935

2. Século 20 : Romances : Literatura brasileira 869.935


O Senhor Embaixador
© Copyright 1965, by Érico Veríssimo.

© Copyright 1978, by Mafalda Volpe Veríssimo, Clarissa

Veríssimo Jaffe e Luís Fernando Veríssimo.
© Copyright desta edição, Abril S.A. Cultural, São Paulo, 1985.

Publicado sob licença da Editora Globo S.A., Porto Alegre.



http://groups.google.com/group/digitalsource



Érico Veríssimo



APRESENTAÇÃO
Washington, EUA. Aproveitando-se da rigorosa censura que vigora em seu país, membros da Embaixada da República de Sacramento misturam impunemente os negócios de Estado com suas contas bancárias particulares. Contrabandistas e estelionatários, representantes do governo sacramentenho declaram-se patriotas e cristãos praticantes e devotos, inimigos dos comunistas e dos democratas a oposição política que vem sendo sistematicamente aniquilada pela repressão policial em seu país.

O embaixador sacramentenho, amigavelmente recebido pelo presidente dos EUA, é uma figura de prestígio. O governo de seu país favorece os interesses do capital norte-americano, em troca de ajuda estratégica que lhe garante estabilidade. E, enquanto a República de Sacramento vive tempos de miséria, prisões, torturas e assassinatos políticos, seu corpo diplomático nos EUA desfruta o american way of life.

Mas uma rebelião popular na República de Sacramento irá pôr fim a essa situação. A ditadura será exumada e seus crimes denunciados em tribunais populares. Autoridades do antigo regime passam a ser consideradas criminosas e irão tombar na mira dos pelotões de fuzilamento. 0 destino da revolução é, entretanto, incerto: o imperialismo soviético ameaça tornar o país um satélite igualmente oprimido por outra esfera ideológica, também interessada em suas riquezas e na manutenção de uma elite de burocratas que domine o povo, em troca de privilégios.

A política e o cotidiano de homens e mulheres em carne e osso se confundem neste livro crítico e contundente, alternando-se como pano de fundo ou como foco central da ação que segue o modelo da técnica cinematográfica (cortes bruscos, enredos paralelos etc).

Hoje considerado um dos grandes romances da moderna literatura brasileira, O Senhor Embaixador escandalizou muita gente. Houve quem o tachasse de obsceno, por abordar temas como adultério, homossexualismo e descrever a intimidade sexual dos personagens. O próprio Érico Veríssimo (1905-1975) se defende: "Quero contribuir para que o problema do sexo seja examinado com mais coragem, honestidade, espírito adulto e. . . saúde. Fico alarmado em pensar que, relativamente falando, um leitor sinta menos indignação ao (. . .) saber que mais de dois terços da população do Brasil vivem numa miséria infame —- do que quando lê num romance uma cena erótica descrita com clara franqueza. (...) Os mocambos de Recife, as favelas do Rio e de centenas de outras cidades compõem as mais indecentes e repulsivas páginas e cenas da vida brasileira".

Aos que denunciaram a obra como anticristã e politicamente subversiva, Veríssimo responde: "Certos homens de negócio que se dizem piedosos conseguiram erguer uma parede de concreto entre suas igrejas e seus escritórios comerciais, de maneira que assim podem (. . .) acariciar ao mesmo tempo com uma das mãos o Cordeiro de Deus e com a outra o Bezerro de Ouro. E quando algum escritor se refere a essa prática hipócrita, a primeira idéia que ocorre a esses donos do poder é denunciar o 'escriba subversivo' à Polícia ('para isso pagamos impostos!')".

Quanto aos críticos de esquerda que também atacaram o romance por sua "indefinição ideológica", o autor comenta: "Não sou maniqueísta. (...) Quando começo a escrever, não pergunto a que grupo ou partido político vou servir. (. . .) Considero-me dentro do campo do humanismo socialista, mas note-se voluntariamente e não como prisioneiro".

A esses comentários, o autor acrescenta outro, referente ao conjunto de sua obra: "Condenam-me alguns críticos por eu dar demasiada importância à história. (. . .) Ora, na ficção, o personagem se revela na história. (. . .) Há pessoas que na realidade deviam escrever ensaios psicológicos ou políticos, mas insistem em escrever romances. Prefiro a ficção norte-americana, preocupada com os problemas do homem, no aqui e no agora (. . .) às aventuras da técnica e da linguagem".

Essas respostas de Érico Veríssimo explicam o fato de ele ser "o autor mais lido pelos brasileiros alfabetizados", e sua palpitante atualidade. Situado entre os maiores escritores brasileiros de todos os tempos, Veríssimo alcançou retumbante sucesso de público antes mesmo de angariar as simpatias da crítica.

Sua obra se divide em três fases: a da temática urbana e de costumes (que compreende livros como Clarissa, Caminhos Cruzados, Música ao Longe, Olhai os Lírios do Campo, Saga e O Resto é Silêncio), a da epopéia do Rio Grande do Sul (trilogia O Tempo e o Vento, considerada um dos monumentos da literatura brasileira) e a da crítica da realidade política latino-americana (O Senhor Embaixador, O Presidente e Incidente em Antares). Érico Veríssimo escreveu também histórias infantis (As Aventuras de Tibicuera, Viagem à Aurora do Mundo etc), livros de viagens (Gato Preto em Campo de Neve, Israel em Abril), autobiografia (Solo de Clarineta). Destacou-se ainda como tradutor e como um dos maiores publishers brasileiros (como diretor da Editora Globo, introduziu entre nós importantes clássicos da literatura mundial: Thomas Mann, Aldous Huxley, James Joyce, Virgínia Wolf, ]ohn Steinbeck, ]ohn dos Passos e muitos outros).



PARTE PRIMEIRA


AS CREDENCIAIS
1
No dia em que William B. Godkin completou trinta e cinco anos de serviços à Amalgamated Press, na qualidade de correspondente e especialista em assuntos latino-americanos, seus colegas ofereceram-lhe um almoço na sede do National Press Club, em Washington. O companheiro encarregado de saudá-lo temperou em sua oração biografia com humor e teve também o cuidado de deitar à mistura uma pitada de sentimento. Recordou incidentes — dramáticos uns, anedóticos outros — da longa carreira de Godkin. Entre outras coisas, disse: "Para nós, Bill, você é mais que um bom amigo e leal colega. É um símbolo e — por que não? — já uma espécie de monumento".

Ao terminar o discurso entregou ao homenageado, como lembrança dos rapazes da Amalpress, um relógio-pulseira suíço e um cachimbo inglês.

Bill Godkin julgou a princípio que podia liquidar o assunto dizendo um "muito obrigado" geral e fazendo um largo gesto que abrangesse os vinte e poucos amigos que o cercavam. Detestava toda e qualquer espécie de oratória, especialmente a que de hábito se produz após os banquetes. Como, porém, de vários setores da mesa partissem gritos — "Discurso! Vamos, Bill! Discurso!" —, não teve outro remédio senão erguer-se e falar.

Não largou o velho cachimbo que tinha na mão, aceso, nem mudou o tom de voz, de ordinário arrastado e monótono, sem qualquer inflexão dramática. Mesmo quando não tinha o cachimbo entre os dentes, articulava com pouca clareza as palavras, pois mal movia os lábios.

Falou mais do que esperava, revelando sentimentos que preferia manter secretos. Apontando com a haste do cachimbo para o colega que o saudara, disse: "Quando eu tinha a idade desse moço, orgulhava-me de possuir a qualidade essencial do repórter: a de só noticiar fatos. Hoje, na adolescência da velhice (pois vocês não ignoram que percorro com certa relutância a derradeira milha que me separa dos sessenta), começo a ter dúvidas. . ." Fez uma pausa para uma cachimbada, e prosseguiu: "Isso a que chamamos fato não será uma espécie de iceberg, quero dizer, uma coisa cuja parte visível corresponde apenas a um décimo de seu todo? Porque a parte invisível do fato está submersa nas águas dum torvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais, isso para não falar nos outros motivos e mistérios da natureza humana, mais profundos que os do mar".

Prendeu o cachimbo entre os dentes e daí por diante falou e fumou ao mesmo tempo, o que lhe tornou ainda menos clara a dicção.

"Ao desintegrarem o átomo, os cientistas de nosso século desintegraram também a semântica e até a ética. Quem é que sabe hoje com certeza absoluta o sentido de palavras que usamos com tão leviana freqüência como liberdade, paz, direito e justiça? Quanto ao Palavrão, verdade. . . que bicho é esse? Quantas verdades existem no mundo de nossos dias? Conheço tantas. . . A da Casa Branca. A do Kremlin. A do Vaticano. A da Wall Street. A da Broadway. A da United States Steel Corporation. A da A. F. L. Sim, e convém não esquecer a da Madison Avenue, talvez a mais fantástica de todas."

Teve um curto acesso de tosse, pigarreou, refez-se, e retomou o discurso:

"O jovem orador disse que sou um símbolo. . . Mas símbolo de quê? Talvez dum tipo de jornalismo em processo de liquidação. Pertenço a uma era em que os correspondentes escreviam sobre os acontecimentos. Vocês os modernos querem competir com Deus Nosso Senhor. Não só procuram dar hoje as notícias de amanhã como também se avocam o direito de, na falta de notícias, criarem acontecimentos para depois escreverem sobre eles!"

Calou-se por um instante e ficou a olhar fixamente para a toalha da mesa, como se nela estivesse escrito o texto de seu discurso.

"Quanto a ser um monumento, bom, talvez o que meu amável colega tenha querido dizer é que já sou uma estátua de cera de mim mesmo, prestes a ser recolhida à poeira dum museu municipal de jornalismo."

Ouviram-se apartes: "Não apoiado!" — "Que é que há com você, homem?" — "Não apoiado!" William B. Godkin ergueu a mão, pedindo silêncio, e perorou: "Seja como for, não pensem que não sei apreciar o gesto de vocês. . . este almoço, as palavras do orador, os belos presentes. . . Bom, mas vou calar a boca para não dizer mais tolices. Obrigado, rapazes!"

Sentou-se em meio de aplausos, mas desgostoso consigo mesmo. Levantara-se para fazer uma alocução breve e jocosa, como convinha à ocasião, e no entanto acabara falando sério e, o que era pior, dando um ridículo espetáculo de autocomisera-ção. Irritado, esvaziou o bojo do cachimbo batendo-o contra a beira dum cinzeiro com uma força exagerada.
Voltou ao escritório da Amalpress, ficou por alguns instantes sentado à sua mesa, examinando com mãos e olhos vagos os papéis que tinha diante de si. Ergueu depois a cabeça e fitou o calendário, na parede fronteira. Abril 6. Segunda-feira. Só havia uma coisa decente a fazer — decidiu. Chamou a secretária. Miss Kay entrou, de caderno estenográfico em punho, um lápis amarelo enfiado nos cabelos oxigenados, entre a cabeça e a orelha. Era uma mulherinha de idade incerta, perfil agudo e olhos de aço.

— Algo de importante?

— Nada, Mr. Godkin.

— Muito bem. Diga aos rapazes que vou sair e não volto mais hoje.

— Perfeitamente, Mr. Godkin.

Admirável Miss Kay! Exata como cronômetro. Eficiente como uma máquina. Nas horas de trabalho jamais se permitia qualquer observação ou gesto de natureza pessoal.

— Acabo de fazer uma grande descoberta. . . — resmungou o jornalista, enquanto vestia o sobretudo e apanhava o chapéu.

— Sim, Mr. Godkin?

— A coisa mais importante de Washington não é a Casa Branca. Nem o Departamento de Estado. Nem o do Tesouro. Nem o F. B. I. Nem a Smithsonian Institution.

Com o rosto impassível, a secretária esperava, perfilada. Junto da porta, Bill terminou o pensamento:

— São as cerejeiras do Potomac na primeira semana de abril! Se os jornais não mentem, elas devem estar hoje completamente cobertas de flores.

Enquanto acendia o cachimbo, olhou disfarçadamente para a secretária, esperando dela um sorriso ou qualquer outra reação humana. Miss Kay, porém, continuava séria, em posição de sentido. Recusava participar da brincadeira. Conservava sua indiferença metálica de máquina. Acaso um teletipo estremece de prazer ou indignação ante as notícias que recebe ou transmite?

— Até amanhã, Miss Kay.

— Até amanhã, Mr. Godkin.

Na rua, Bill Godkin sentiu na cara o hálito quase frio da primavera, que recendia a úmidas e verdes distâncias. Decidiu ir a pé até a Tidal Basin. As mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo, entrou na Rua 16, tomando a direção do sul. Pensou em seu amigo Pablo Ortega, primeiro-secretário da Embaixada da República do Sacramento. Num dia de firmamento limpo e luminoso como aquele, o rapaz olhara para o alto e exclamara: "Aposto como Deus hoje encarregou Fra Angélico de pintar o céu. Porque só ele conhece o segredo desse puro azul". Curioso — refletiu Bill —, era justamente nos dias bonitos assim que ele sentia com mais pungência sua solidão. Não tinha filhos e perdera a mulher havia apenas dois anos, de leucemia. . -. E aquela criatura suave, que parecia um retrato pintado a pastel, se fora aos poucos apagando, sem jamais queixar-se, sem perder por um instante sequer o gosto e a esperança de viver, nem seu afetuoso interesse pelas pessoas, animais e coisas. "Deus sabe o que faz" — era a sua frase predileta. "O homem verdadeiramente maduro é aquele que entende a linguagem simbólica do seu Criador."

Pensando ainda na esposa morta, Bill Godkin aproximou-se da Lafayette Square. Avistou a Casa Branca, do outro lado da praça. Era na sua opinião o mais belo edifício de Washington

— feliz combinação de dignidade e graça, simplicidade e harmonia. Em alguma sala daquela mansão o Presidente Eisenhower àquela hora estaria decerto a refletir apreensivo sobre problemas do momento: o destino da revolução cubana e, coisa mais séria ainda, o drama de John Foster Dulles, que, com um câncer de abdômen, encontrava-se num hospital com seus dias contados.

Bill preparou-se para atravessar a Rua H. A imagem de Ruth, acompanhada do fantasma de sua voz, despontou-lhe na mente: "Meu bem, nunca atravesse uma rua sem primeiro olhar para os lados, sim?" Bill cumpriu a recomendação, mas de maneira apenas mecânica, pois nem chegou a ter consciência clara de se podia ou não fazer a travessia sem perigo. Avançou no seu lento trancão habitual, mas teve de acelerar o passo quando viu surgir, à sua direita e a pequena distância, um Cadillac negro, de aspecto funéreo. Oops! Ganhou finalmente a calçada. (Um carro como aquele levara para o cemitério o corpo de Ruth. . .) Lá estava no centro da praça a estátua eqüestre de Andrew Jackson: o cavalo com as patas dianteiras no ar, o cavaleiro com o braço direito erguido, a mão segurando o chapéu bicorne. . . Segundo os entendidos, a posição do cavalo, que se equilibrava nas patas traseiras, oferecera difícil problema de mecânica que o artista resolvera de maneira brilhante. (Orlando Gonzaga, seu amigo brasileiro, lhe dissera um dia: "Vocês americanos confundem arte com artesanato".)

Godkin não tinha nenhum entusiasmo pelas estátuas da capital. Em sua grande maioria eram convencionais e careciam de grandiosidade e beleza. Os mais admiráveis monumentos de Washington eram suas árvores e parques — concluiu, caminhando à sombra dos olmos, ao longo da calçada de Jackson Place. Aquelas árvores altas e esguias, de nobre aspecto, evocavam-lhe a figura de Abraão Lincoln.

Bill parou um instante para observar um bando de estorninhos de escura plumagem iridescente e de bicos amarelos, que chilreavam alvorotados nos ramos duma magnólia. Ruth costumava dizer que as árvores, as flores, os pássaros, as crianças e as outras coisas belas da vida são palavras soltas duma mensagem que Deus manda repetidamente aos homens, um recado de esperança em meio deste mundo cruel, sórdido e absurdo. Sórdido e absurdo. . . Godkin lembrou-se de que, havia alguns anos (Cinco? Seis? Talvez sete. . .), numa madrugada de agosto, de calor úmido e opressivo, depois dum serão particularmente estafante nos escritórios da Amalpress, ele viera espairecer ali na praça, e ficara por alguns instantes parado debaixo daquela mesma árvore. A fragrância adocicada das flores de magnólia no ar estagnado era como uma cálida presença física, perturbadora como uma carícia carnal. Bill jamais esquecera aquela noite e aquele lugar pelas coisas que então e ali lhe haviam acontecido. Um homossexual abordara-o, fazendo-lhe claramente uma proposta obscena. Ele se limitara a lançar um olhar rápido para o desconhecido — louro, esguio, bem vestido, trinta e poucos anos presumíveis — e pusera-se a caminhar, sem responder ao convite nem sequer indignar-se. O que sentia era um certo constrangimento mesclado de piedade pela pobre criatura. O outro o seguira, repetindo a proposta com uma insistência cada vez maior. Ofegava um pouco, e sua voz de contralto era dum grotesco doloroso. E quando o tipo agarrou-lhe o braço, Bill desvencilhou-se dele num repelão, ameaçando esmurrá-lo. O pederasta estacou, recuou dois passos e disse em voz alta: "Se você veio passear aqui a esta hora da noite é porque tem tendências inconscientes".

Bill Godkin não podia compreender por que razão — se é que a razão entrava na história — os desviados sexuais de Washington haviam escolhido para seus encontros amorosos aquela praça a tão pequena distância da Mansão do Executivo.

Parou a uma esquina, já na Pennsylvania Avenue. Depois que a sinaleira, à frente de um dos portões da Casa Branca, lhe deu luz verde, atravessou a avenida e continuou a andar na calçada oposta, ao longo do mastodôntico edifício cor de osso velho e em estilo neoclássico francês, onde antigamente estivera instalado o Department of State. Tornou a pensar em Dulles. Era um homem corajoso e íntegro, mas prejudicado pela sua visão calvinista do mundo. Como poderia um estadista puritano compreender a América Latina? E que iria acontecer agora em Cuba? Continuavam os fuzilamentos dos partidários de Fulgencio Batista responsáveis por atrocidades e vários outros crimes. O governo revolucionário havia empolgado "provisoriamente" a direção da Cuban Telephone Co., subsidiária da U.S. Telephone & Telegraph Co. A nacionalização de outras empresas americanas — refletiu Godkin — viria fatalmente, mais tarde ou mais cedo. Como se portaria diante desses fatos o Governo dos Estados Unidos? Bill sabia que eventualmente um que outro congressista de seu país, invocando os direitos humanos, faria um discurso no Capitólio, protestando contra os fuzilamentos de Havana, mas os Pais da Pátria só ficariam realmente indignados, ameaçando o céu e a terra, quando Fidel Castro começasse a confiscar os bens de cidadãos norte-americanos. Bill Godkin estacou, esvaziou o bojo do cachimbo apagado, batendo-o contra o salto de um dos sapatos. Depois, enquanto o reenchia de fumo e riscava um fósforo, lembrou-se de que Maquiavel aconselhara ao Príncipe que mandasse assassinar seus súditos, quando necessário, mas que evitasse tocar em suas propriedades, porque um homem com mais facilidade esquece a morte do pai do que a perda de seu patrimônio. . .

Mas como pode alguém ter pensamento cínico numa tarde de primavera como esta? — perguntou Godkin a si mesmo, ao começar a travessia da Elipse, em diagonal, na direção do monumento a Washington. Andava no ar um contentamento vadio e luminoso de feriado. Centenas de pessoas (ou seriam milhares?) caminhavam no gramado e nas calçadas: homens, mulheres e crianças, manchas multicores e móveis que sugeriam a Bill uma paródia moderna dum quadro de Brueghel — A Boda Campestre — que ele vira com Ruth num museu de Viena. (Pobre Ruth! Apesar de saber que teria apenas mais um ano de vida, com que menineira alegria ela gozara sua primeira e última viagem à Europa!) Todas aquelas pessoas encaminhavam-se para os cerejais da beira do Potomac ou voltavam de lá. Os ônibus da Greyhound — azul e prata —, embandeirados e cheios de turistas, rolavam pela Constitution Avenue, onde o tráfego era intenso. Numa das calçadas da South Executive Avenue, muita gente fotografava ou apenas olhava por entre as grades os jardins e a fachada meridional da Casa Branca.

O cheiro de relva nova, entrando pelas narinas de Bill, trouxe-lhe à mente uma paisagem da infância: os prados de Kansas em abril. Sem tirar o cachimbo da boca, pôs-se a chiar por entre dentes uma melodia que sempre associava à idéia de folga e feriado. Parou um instante para atirar migalhas de pão a três esquilos, dois cinzentos e um negro, que se haviam aproximado dele. Durante o almoço no Press Club tivera o cuidado de meter no bolso algumas bolotas de miolo de pão, pensando especialmente naqueles "fregueses".

Olhou para o obelisco do Monumento, no cume de sua colina verde, todo cercado de bandeiras nacionais, que a brisa bulia. De novo lhe voltou ao pensamento a voz de Orlando Gonzaga: "O obelisco? Está claro que este burgo federal precisava dum imponente falo artificial de pedra, como compensação para seu complexo de castração". Bill, sorrindo à observação do amigo, perguntara: "Castração por quê?" A resposta viera rápida: "Ora, para principiar, Washington, a capital do tédio e da impotência, é um conglomerado de funcionários públicos e diplomatas (alguns de sexo duvidoso) e de velhos aposentados. E depois, meu caro, este enclave apertado entre Maryland e Virgínia não tem sequer o direito de voto".

Subindo lentamente a colina do Monumento, Bill mantinha agora um diálogo imaginário com o primeiro-secretário da Embaixada do Brasil. "Veja bem, Gonzaga. Como podem vocês chamar-nos de povo materialista, preocupado apenas com o dólar, quando essas pequenas árvores japonesas que florescem em abril têm o poder de atrair todos os anos a esta cidade centenas de milhares de cidadãos, de todos os quadrantes do país?"

Já na metade do caminho, Bill Godkin avistou a copa das cerejeiras que cercavam a Tidal Basin. Parou ofegante, não sabia bem se do esforço da subida ou se de pura emoção ante a paisagem. Ali estava um quadro tão belo e ao mesmo tempo tão frágil, que a simples tentativa de descrevê-lo com palavras, pintá-lo ou mesmo fotografá-lo, poderia quebrar-lhe o encanto. . . Sentiu que devia aproximar-se do cerejal florido com a maior cautela, pisando e respirando de leve.

Pensou na esposa morta, a tristeza embaciou-lhe o olhar. Pobre Ruth! Ela tinha razão. Deus era um poeta. O maior de todos. Desgraçadamente, os homens, obtusos e analfabetos, não sabiam ler os poemas que o Criador escrevia. "Obtusos e analfabetos" — murmurou Bill, continuando a andar na direção das cerejeiras. "Todos! Inclusive eu. Principalmente eu!"



2
Quando, horas mais tarde, chegou ao pequeno bar da Connecticut Avenue, onde combinara encontrar-se com seus dois amigos diplomatas, já lá estava Orlando Gonzaga, sentado à sua mesa habitual, de costas para a parede do fundo da sala. O brasileiro costumava dizer que se parecia com seu avô materno, façanhudo chefe político do interior de Minas Gerais, senhor de vastas terras e numerosos inimigos: jamais se sentava de costas para janela ou porta; só se sentia seguro quando tinha a proteger-lhe o lombo a solidez duma parede ou dum muro.

— Bill, meu velho! — exclamou Gonzaga, apertando a mão que o jornalista lhe estendeu. — Chega atrasado. Faz quase meia hora que aqui estou esperando Godkin. Se ao menos fosse Godot!

Bill, que não era homem de teatro nem de literatura, não entendeu a alusão nem pediu explicações. Sentou-se e contou de onde vinha.

— As flores de cerejeira! — exclamou o diplomata, franzindo o nariz. — O grande lugar-comum botânico de Washington!

— Não seja esnobe! Não acredito que você não aprecie o espetáculo, como todo o mundo.

Gonzaga sorriu.

— Que é que vai beber?

— Um Campari.

— Fale baixo, senão alguém pode denunciar você ao Congresso por atividades antiamericanas. Abandonou definitivamente o Bourbon?

— Um Campari — confirmou o jornalista, acendendo o cachimbo e afrouxando depois o nó da gravata dum verde bilioso, que seus colegas não cessavam de proclamar horrenda.

Gonzaga, que terminava seu segundo Martini, chamou o garçom e transmitiu-lhe o pedido do amigo.

— Se eu tivesse juízo — resmungou Godkin —, o que bebia mesmo era cicuta.

— Por quê, Sócrates?

— Cheguei hoje à conclusão de que nenhum homem deve consentir no próprio envelhecimento. Estive comparando o re-florescimento anual das cerejeiras com o endurecimento progressivo e irreversível de minhas artérias.

— Tolice. Não acredito no que você está dizendo. Considero-o um "cidadão sólido".

— Hoje me sinto oco. . . — confessou Bill. "E só. . ." — pensou.

O garçom pôs sobre a mesa, na sua frente, o copo de Campari. Godkin propôs um brinde:

— Como dizem vocês no Brasil: "Às nossas belas qualidades!"

— ... que não são poucas — acrescentou o outro, erguendo também o copo.

Godkin observou que os olhos do amigo fixavam-se com insistência em algo ou, antes, alguém — provavelmente uma mulher — que se encontrava na outra extremidade da sala. Era um olhar tão lambuzado de sensualidade — achava Bill —, que parecia deixar um rastro viscoso no ar.

Resistiu à tentação de voltar a cabeça para trás, e ficou a examinar o amigo com seu olho de repórter. Tinha Orlando Gonzaga um rosto carnudo, quase na fronteira da gordura, olhos castanhos meio exorbitados e de pálpebras machucadas. Um bigode cuidadosamente aparado, negro como os cabelos, coroava-lhe os lábios bem modelados. Sua voz, grave, macia e persuasiva, era dessas apropriadas à penumbra das alcovas. Homem de estatura mediana, tinha o diplomata esse porte atlético que Godkin costumava atribuir aos jogadores de judô. Vestia-se com uma elegância discreta (cinza e azul eram suas cores favoritas), só usava camisas feitas sob medida e revelava decidida predileção pelas gravatas e sapatos italianos e pelas roupas inglesas. Era quando estava na presença daquele homem sempre bem vestido, bem penteado, bem escanhoado e bem escovado que Bill Godkin sentia mais agudamente que nunca seu próprio desmazelo. Havia pouco, num concurso de brincadeira realizado pelos colegas, seu nome aparecera entre os dos dez correspondentes mais mal vestidos de Washington. Punha hoje no corpo uma roupa nova em folha e no dia seguinte ela já parecia velha: as calças perdiam o friso, o casaco, a forma, e seus bolsos como que engravidavam, enchendo-se de papéis, migalhas de pão, selos postais, moedas de cobre e níquel, tocos de lápis, livros e, não raro, jornais inteiros.

— E o nosso Pablo? — perguntou Bill.

Sem tirar os olhos da "visão", Gonzaga respondeu:

— Telefonou há pouco dizendo que não pode vir. Anda às voltas com seu novo embaixador, que amanhã apresentará suas credenciais ao Presidente Eisenhower.

— Pobre rapaz! Eu não queria estar na pele dele.

— Nem eu. Esses embaixadores que, além de não pertencerem à carrière, são amigos do peito do Presidente e dão um trabalho danado... Mas, Bill, mudando de assunto, disfarce e examine aquela pequena lá no fundo. . . Faz horas que estou metendo o olho nela, mas não há jeito de fazer a bichinha olhar para mim.

Godkin sorriu, esperou uns segundos, depois voltou a cabeça e viu, sentada a uma mesa, contra a parede oposta, uma atraente mulher que bebia e fumava, solitária.

— Que lhe parece?

— Bela, colorida e irreal como uma ilustração em tricromia para uma novela do Saturday Evening Post.

— Isso! Perfeito! Você acaba de definir à maravilha as mulheres bonitas deste país. Coloridas como poucas outras no mundo. . . Inodoras porque tomam banho todos os dias e têm a obsessão dos desodorizantes. . . Mas, como a comida americana, não têm sabor. . .

— Não têm sabor?

— Escute, Bill. Pegue uma dessas páginas de revista em que aparecem pratos de comida em magistrais reproduções litográficas. . . Que cores! Que realismo! Que beleza! Produzem-nos água na boca. Mas você pode comer as próprias páginas das revistas em que aparecem essas tricromias, porque o gosto do papel impresso é o mesmo da comida propriamente dita.

— Não me diga que levar para a cama uma mulher americana ou o seu retrato em cores é a mesma coisa. . .

— Quase.


— Não seja exagerado! Gonzaga franziu o cenho.

— Não precisa olhar para trás, Bill, porque vou lhe descrever o que está acontecendo com nossa beldade. Acaba de chegar um sujeito de dois metros de altura, louro, tipo de fullback, cara de bocó, talvez herói da Guerra da Coréia. . . Inclinou-se e deu um beijo no rosto dela, o bandido! Ela sorri. Ele se senta. Conversam. Serão casados? Bom, o beijo me pareceu matrimonial. . . Suponhamos que sejam. Devem ter relações sexuais uma vez por mês, porque ele, eficiente júnior executive numa firma próspera, tem preocupações sociais e comerciais que o tornam um tanto negligente no cumprimento de seus deveres matrimoniais.

Godkin fumava, sorria e escutava. Gonzaga inclinou-se sobre a mesa, como se fosse revelar um segredo de Estado.

— Depois que povoaram o Oeste, vocês, americanos, vivem à procura de novas fronteiras para vencer. Escalam montanhas, dedicam-se à caça submarina, batem recordes de velocidade na terra e no ar, entregam-se aos esportes mais perigosos e vertiginosos para provarem a si mesmos e ao mundo que são empreendedores, hábeis e principalmente másculos. No entanto não perceberam ainda que a mais importante Fronteira interna deste país ainda aí está, virgem e inconquistada. A mulher americana, Bill! Abandonem por um momento os brinquedos eletrônicos, e tratem de usar melhor o pênis do que o tacape de baseball. Esqueçam-se das suas mamas e atirem-se sem medo à Grande Conquista!

— Vocês latinos sabem tudo, não?

—- Olhe, uma coisa eu lhe digo, meu caro, pelo menos sabemos usar nossos corpos sem inibições. . . Espere! O fullback está pagando a nota ao garçom. . . A deusa levantou-se. Oba! Tem um traseiro primoroso.

Como tantos outros brasileiros de suas relações — refletiu Godkin —, Gonzaga parecia sentir uma atração especial por aquela parte da anatomia feminina.

— Outro Camparí?

— Não. Bebi vinho ao almoço, coisa que raramente faço.

— Aah! Como correu a homenagem?

— Ora. . . a coisa de sempre. Piadas, trotes, discursos. . . Bill olhou em torno. Luzes veladas davam ao ambiente uma intimidade crepuscular. Andava no ar uma fragrância de gardênia (viria da loura fornida da mesa vizinha?) misturada com emanações de uísque. Um alto-falante invisível derramava docemente na sala a melodia triste e mormacenta dum blue.

— Mr. Godkin, você é um verdadeiro herói. Trinta e cinco anos com a mesma firma! Um ano mais do que eu tenho de existência neste vale de lágrimas.

— E você quer que eu me sinta feliz hoje? Estive dando um balanço na minha vida, sentado num banco à beira da Tidal Basin. Entro em breve na casa dos sessenta. Não sou rico nem famoso. Pelos padrões americanos, devo considerar-me um fracassado.

— Mande para o diabo esses padrões, Bill. Quem são os americanos para estabelecerem padrões absolutos para a humanidade? Super-homens? Deuses?

— Não sei, mas mesmo assim. ..

Gonzaga recostou-se no espaldar de couro de seu banco e olhou, abstrato, para o terceiro Martini que, a um sinal que fizera havia pouco, o garçom punha agora em sua frente.

— Você nunca me contou como foi parar nas garras da Amalpress.

— Quer mesmo saber?

— Claro, homem!

Bill olhou indeciso para o diplomata. Duvidava da autenticidade do interesse dele. Sabia que, como a maioria dos latinos, Orlando Gonzaga era um mau interlocutor. Gostava de falar mas não sabia escutar.

— Entre minhas escassas proezas acadêmicas no City College de Nova York, a mais notável foi uma dissertação que escrevi sob o título pretensioso de Radiografia das Ditaduras Latino-Americanas.

— Pretensioso por quê?

— Ora, eu era um verde rapaz de vinte e quatro anos incompletos, e jamais tinha posto o pé na América Latina. Sabia um pouco de espanhol, nutria uma admiração romântica por figuras como Bolívar, Zapata, Juárez. . . e havia devorado na Biblioteca Pública dezenas de livros sobre a América Espanhola. Como vê, meu aparelho de raios X não passava dum binóculo de segunda mão. . .

— Prescott escreveu seu famoso Conquest of México sem nunca ter visitado o México.

Bill sorriu, pondo à mostra os dentes amarelados.

— Não me lembro como nem por que um dos diretores da Amalgamated Press leu a minha dissertação, achou que eu tinha qualidades de repórter e me ofereceu um emprego na sua agência. Aceitei, fui mandado para uma dessas republiquetas da América Central onde se esperava barulho nas vésperas duma eleição presidencial. . . Passei um mês duríssimo naquele inferno tropical. Um correspondente de outra agência, meu companheiro de quarto de hotel e vítima dos mesmos mosquitos, contraiu malária. Tive mais sorte. Saí da aventura apenas com uma colite amebiana, que levei cinco anos para curar completamente. . .

— E a revolução?

— Não houve. Nem as eleições. A história de sempre. Mas. ..

Calou-se, percebendo que Gonzaga não prestava mais atenção ao que ele dizia.

— Bill, meu velho, acaba de entrar uma morena subversiva. Deve ser latina. Ah! Sei quem é. Filha do embaixador de El Salvador. Que olhos, homem! Mas continue, Bill, continue. . .

— Conheço essa moça, Gonzaga. É casada e séria. Perca a esperança.

— Eu sei. Mas é pecado olhar? Continue a história, Bill. Não seja ciumento. Meus olhos podem estar na morena, mas meus ouvidos estão com você.

— Ora, não vale a pena.

— Está bem. Se insiste, olho também para sua cara, embora os ruivos sardentos e cinqüentões não sejam o meu tipo. Garçom! Mais azeitonas. Adiante, Bill!

— Minha grande oportunidade surgiu em fins de 1925. Na República do Sacramento, onde Don Antônio Maria Chamorro exercia sua ditadura havia quase vinte e cinco anos, um jovem tenente, Juventino Carrera, revoltou um batalhão do Exército, no quartel da cidade de Los Plátanos, e refugiou-se com seus soldados na Sierra de Ia Calavera, de onde começou uma luta implacável de guerrilhas contra os federales.

Bill Godkin depôs o cachimbo apagado sobre o cinzeiro, tomou um gole de Campari e prosseguiu:

— Um dia resolvi entrevistar pessoalmente o Tenente Carrera na sua toca ou, melhor, no seu ninho de águia. Meu chefe achou a idéia um tanto esdrúxula. Sacramento era um país sem importância. Todos consideravam perdida a causa do jovem revolucionário. Don Antônio Maria Chamorro estava solidamente estabelecido no poder. O povo sacramentenho vivia aterrorizado. Os camponeses que ajudavam os revolucionários eram sumariamente passados pelas armas. Além de tudo, El Chacal del Caribe (era assim que os inimigos chamavam ao ditador) contava com o apoio moral de Don Herminio Ormazabal, Arcebispo Primaz do Sacramento.

— E provavelmente com a proteção da United Plantations Co. — acrescentou Gonzaga.

— Sim, e da Caribbean Sugar Emporium. Em suma, o Governo de Chamorro parecia firme como os Andes. Mas a verdade é que ninguém conseguiu me tirar a idéia da cabeça. Eu simpatizava com a causa dos rebeldes. E, cá para nós, sendo um homem da planície, sempre senti o fascínio da montanha. Pois bem. Entrei em contato com a Embaixada dos Estados Unidos em Cerro Hermoso. O embaixador americano tentou me dissuadir do propósito, e foi com uma tremenda má vontade que empregou seus bons ofícios junto ao Governo de Chamorro para conseguir o que eu queria. Para resumir a história, obtive um salvo-conduto, jurei perante as autoridades sacramentenhas que não aproveitaria a oportunidade para prestar qualquer serviço aos revolucionários e prometi submeter à censura ditatorial a minha entrevista com Carrera, antes de publicá-la.

O brasileiro parecia agora realmente interessado na narrativa.

— Você não conhece o Sacramento, Gonzaga. A Serra da Caveira fica na extremidade oriental da Cordilheira dos índios, que corta a ilha na direção leste-oeste. — Bill tirou do bolso sua caneta-tinteiro e esboçou num guardanapo de papel o mapa da República do Sacramento. — Veja, aqui, a uns vinte e poucos quilômetros dos contrafortes da serra, fica a vila de Soledad del Mar. Foi por aí que comecei a escalada. . . Você não pode calcular o trabalho que tive para encontrar um nativo que me servisse de guia até o esconderijo de Carrera. . . .

— Está claro que todos desconfiavam de você.

— Era natural. As autoridades temiam que eu fosse levar alguma mensagem aos rebeldes. Os camponeses suspeitavam que eu era um agente secreto da ditadura encarregado de assassinar Carrera. Finalmente veio em meu socorro o Padre Catalino, o jovem pároco de Soledad del Mar, flor da raça humana. Murmurava-se que já tinha sido repreendido várias vezes pelo Arcebispo por "dar conforto" aos revolucionários. Pois bem, o padre me arranjou secretamente um vaqueano de sua confiança que me prometeu levar até a primeira sentinela de Carrera. E lá me fui, serra acima, montado num burro, e com uma câmara fotográfica a tiracolo.

— Que tipo de homem era esse Juventino Carrera?

Fisicamente, parecidíssimo com Simón Bolívar. Ele sabia e tirava partido disso.

— Nessa sua subida da serra você correu o risco de levar balas dos dois lados. . .

— Não será essa a eterna posição do liberal? Um homem entre dois fogos. . .

— Quando você voltou da montanha, naturalmente foi interrogado pelos homens de Chamorro. . .

— Sim, interrogado, apalpado, cheirado... Preparei, expressamente para mostrar às autoridades sacramentenhas, uma reportagem fictícia em que descrevi os revolucionários como um bando de aventureiros indisciplinados, mal-armados e municiados, com o moral baixíssimo e em vésperas dum colapso total. Consegui esconder o rolo de filmes com as fotografias que tirei dos guerrilheiros e guardei na memória os diálogos que mantive com Carrera. De volta a Washington escrevi uma série de artigos ilustrados favoráveis aos revolucionários e contrários à ditadura de Chamorro.

— E esses artigos, divulgados pelo mundo, naturalmente ajudaram a causa dos rebeldes.

— Tenho boas razões para acreditar nisso.

— Podiam ter-lhe dado o Prêmio Pulitzer de jornalismo de 1925 — observou Gonzaga, mastigando uma azeitona e lançando um olhar lânguido para a morena, por cima do ombro do amigo.

Godkin sacudiu a cabeça, pegou o cachimbo e começou a enchê-lo de fumo.

— Qual! Não nego que meus artigos continham fatos descritos com objetividade, mas faltava-lhes o que os críticos chamam de "distinção literária". Conheço minhas limitações, meu caro. Não sou um escritor brilhante. Meus chefes me consideram um "profissional competente". Os colegas costumam dizer que tenho olhos prismáticos de sapo... o que não deixa de ser uma vantagem para o repórter. Sei que possuo uma memória fotográfica. — Tocou a testa com a haste do cachimbo.

— Mas acontece que esta câmara fotografa apenas em preto e branco. Acredite, Gonzaga, sou um homem pobre de fantasia e imaginação.

— Mas. . . continuando a história, que aconteceu depois da publicação desses artigos?

— Minha situação na Amalpress melhorou extraordinariamente. Em 1926, Juventino Carrera derrubou o ditador e foi eleito Presidente da República. Convidou-me oficialmente para a cerimônia de sua posse e me concedeu uma entrevista exclusiva, como me havia prometido "lá em cima". . .

— E seus chefes então começaram a olhar para você com mais respeito.

— Pior que isso. Passaram a me considerar "especialista em assuntos latino-americanos". Em 1928 me fizeram correspondente itinerante, com base de operações primeiro na Cidade do México e depois no Rio. Fui dos primeiros jornalistas estrangeiros que entrevistaram Vargas quando em outubro de 1930 ele chegou do Sul, à frente das tropas revolucionárias que acabavam de tomar o poder.

— Nesse tempo (deixe-me ver...), nesse ano eu entrava para o jardim da infância. . .

— Creio que fui o último correspondente que entrevistou o General Augusto César Sandino, na Nicarágua, poucas semanas antes de o assassinarem.

— Que espécie de homem era ele?

— A imprensa oficial apresentavo-o como um bandido. Mas Sandino, engenheiro de minas e agricultor, era um patriota, e um liberal. Pegou em armas contra a sua ditadura e lutou seis anos, enfrentando não só os soldados do Governo como também os marines dos Estados Unidos. Jamais foi capturado. Quando os fuzileiros navais americanos se retiraram da Nicarágua, Sandino concordou em depor armas, e dedicou-se pacificamente à realização dum plano de cooperativas agrícolas. . . Um dia foi visitar o Presidente Moncada e, quando saía do Palácio do Governo, um dos guardas o assassinou traiçoeiramente. . .

— Há capítulos bem sórdidos na História desta nossa América, hem, Bill?

— E por falar em capítulo sórdido, em princípio de 1935, a Amalpress me mandou ao Chaco Boreal para cobrir uma das guerras mais insensatas da História. Numa região árida e desolada, soldados paraguaios e bolivianos, em sua maioria índios e mestiços, matavam-se havia anos por Ia pátria. . .

— E pelos interesses da Standard Oil.

— Exatamente. Os redatores da Amalpress costumavam eliminar de meus despachos toda e qualquer referência a essa companhia. Eu acompanhava as forças paraguaias e tive a oportunidade de examinar algumas armas apreendidas dos bolivianos. Eram de fabricação norte-americana e tudo indicava que haviam sido usadas pelo Exército dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial.

Por alguns instantes Bill ficou a fumar e beber em silêncio, depois rompeu a rir um riso inaudível mas visível, pois lhe sacudia os ombros e lhe contraía o rosto numa expressão cômica.

— Duma feita — disse — levei em Buenos Aires uma surra memorável que quase me matou. . .

— Mas você nunca me contou isso!

— Em 1943, a Amalpress me mandou à Argentina para escrever uma série de artigos sobre a situação política do país. O Governo de Castillo havia sido deposto por um golpe inspirado pelo Grupo de Oficiales Unidos, cuja alma, você deve estar lembrado, era o Coronel Juan Perón. No primeiro artigo denunciei as ligações dessa pandilha com a espionagem nazista. No segundo, opinei que nosso Department of State não devia reconhecer o governo revolucionário do General Pedro Ramirez porque esse oficial tinha inclinações hitleristas e iria fatalmente sabotar o programa de defesa do hemisfério. La Nación reproduziu esses artigos. Os jornais nacionalistas naturalmente me atiraram os insultos mais virulentos e pediram ao Governo que me expulsasse imediatamente do país. . .

Godkin fez uma pausa durante a qual ficou a desenhar com a caneta círculos concêntricos no guardanapo de papel.

— Uma noite, já tarde — continuou —, voltava eu para meu hotel em Buenos Aires, quando três sujeitos desconhecidos aproximaram-se de mim, agarraram-me sem dizer palavra e arrastaram-me para uma rua deserta. Ó Gonzaga, por que é que um homem tem vergonha de gritar e pedir socorro? Eu podia ter posto a boca no mundo. Até hoje não compreendo por que apertei os lábios e me preparei para o pior. O brasileiro sorriu:

— Decerto porque inconscientemente você achava que merecia a punição.

— Não sei. Recebi o primeiro soco, que me quebrou o nariz. . . veja, e me deixou com esta cara de boxeador aposentado. Respondi com um murro que atingiu o queixo do meu agressor. Um dos brutamontes então procurou me estrangular com uma "gravata", um outro me imobilizou os membros e o terceiro então serviu-se à vontade. . . Pelo vulto do homem e pelo impacto dos socos, senti que devia ser um atleta. Um golpe na boca do estômago me deixou sem ar. Um pontapé numa outra parte ainda mais sensível de meu corpo me fez desmaiar de dor. Enquanto fiquei estendido no chão, sem sentidos (não sei ao certo por quanto tempo), fui pisoteado na cara, no peito, nos rins. . . Quando recobrei os sentidos, me vi num leito de hospital, com o embaixador dos Estados Unidos a meu lado. Eu tinha vários dentes e costelas quebrados, escoriações por todo o corpo, hematomas ao redor de ambos os olhos. . . Em suma, da cabeça aos pés eu era todo uma "dor". Passei dias sob a ação de sedativos.

— E a polícia, que providência tomou?

— Nenhuma. Simulou um inquérito em que se "apurou" que eu havia sido assaltado por desconhecidos com intenções de roubo. Mas ficou evidente que meus agressores eram nacionalistas. Quando me deram alta no hospital, fui declarado persona non grata pelo Governo de Ramirez e convidado a deixar o país.

— Que honra, Bill!

— Quando voltei a Washington, a Amalgamated Press me deu uma bonificação e me mandou para San Juan de Porto Rico, com férias pagas. Foi lá que conheci a mulher com quem vim a casar em fins de 1944. . . — Fez uma pausa e depois acrescentou, com uma tristeza resignada: — . . .e que perdi há dois anos.

— Que foi que você fez durante a última Guerra Mundial?

Godkin esteve a pique de confessar que, de mistura com tarefas jornalísticas, fizera "uns servicinhos especiais" para o F. B. I., mas achou de melhor aviso guardar o segredo.

— Ora. . . — resmungou, soltando uma baforada de fumaça despistadora. — Andei de Herodes para Pilatos. . . Em 1945 estava no Rio quando os generais brasileiros depuseram Getúlio Vargas. Não vou lhe contar minhas aventuras no bogotazo, em 1948, porque a história é comprida demais. . . Mas, para terminar esta novela de capa e espada, em 1952 meu chefe me chamou e comunicou que eu havia sido promovido (veja bem: "promovido"), e me acorrentou a uma escrivaninha em Washington, com o pomposo título de Chefe do Bureau Latino-Americano. Fim de carreira, você compreende. . .

Gonzaga lançou para o amigo uma mirada afetuosa.

— Mas. . . voltando a Juventino Carrera, que peste nos saiu esse herói da Sierra de la Calavera!

Bill encolheu os ombros:

— Seguiu a regra geral latino-americana. Derrubou o tirano e acabou tornando-se também um tirano. Sabe qual foi a primeira coisa que fez depois que se aboletou no Palácio do Governo? Assinou um decreto, promovendo-se a si mesmo a generalíssimo, à feição de Trujillo, de quem se tornou mais tarde amigo, compadre e aliado. E como desejasse também um título, como o do ditador dominicano, não faltou um escriba que propusesse ao povo o de El Libertador, que pegou logo.

— Mais um Campari?

— Não, obrigado.

— Nem cicuta? '

— Nem cicuta. Agora me sinto melhor. Acho que me fez bem recordar todas essas histórias. . .

— Depois da cerimônia da posse de Carrera você naturalmente tornou a vê-lo algumas vezes. . .

— Muitas. Sempre que havia algum barulho no Sacramento, a Amalpress me despachava para Cerro Hermoso.

— Você deve então conhecer pessoalmente esse embaixador que o Generalíssimo mandou agora para cá, não?

— Don Gabriel Heliodoro Alvarado? Claro que conheço. A primeira vez que o vi, ele estava ao lado de Juventino Carrera, na Sierra de la Calavera. Era um de seus mais jovens e valorosos companheiros. Teria no máximo vinte e um anos. . .

— Que tipo de homem é ele?

— Fisicamente? Um metro e noventa de altura, mais ou menos... Uma face acobreada cujos traços lembram um pouco certas esculturas maias. Olhos vivos, escuros, dotados duma perigosa força hipnótica. De todos os homens que conheci na cordilheira ao lado de Carrera, a fisionomia que mais fundo me ficou gravada na memória foi a desse Gabriel Heliodoro. O sobrenome que usa é adotado, mas senta-lhe bem.

Orlando Gonzaga apanhou o jornal que estava a seu lado, no banco, e estendeu-o em cima da mesa.

— O News traz hoje uma notícia com retrato sobre a sua "escultura maia". Veja este clichê. . . o salafrário tem mesmo uma cara atraente. A nota biográfica diz que ele nasceu em 1903... de sorte que deve ter hoje 56 anos. Esse retrato deve ser antigo, pois representa um homem de 45 ou 48 anos, no máximo.

Bill tirou os óculos do bolso, ajustou-os no nariz e inclinou-se sobre o jornal.

— Não. A fotografia é recente. Esses índios não mostram a idade na cara.

— O jornal conta também uma história de heroísmo que me parece fabricada pelo nosso inefável Titito Villalba, na sua furiazinha de fazer publicidade para seu novo embaixador. . . pelo qual já deve estar ardendo de paixão.

Bill Godkin sorriu. — O caso da granada de mão? Asseguro-lhe que é verdadeira, Gonzaga. Quem primeiro a divulgou fui eu, na minha reportagem de 1925. Ouvi-a da boca do próprio Juventino Carrera. A coisa aconteceu no princípio da campanha. Um dia, para se safarem duma emboscada, os revolucionários tiveram de refugiar-se dentro duma gruta. Um dos federales conseguiu jogar para dentro do esconderijo uma granada, que caiu aos pés de Carrera. O nosso Gabriel Heliodoro não teve um segundo de hesitação: saltou, agarrou a granada a unha, correu para a saída da gruta e atirou-a de volta na direção do inimigo. A granada explodiu no ar e um estilhaço feriu Gabriel Heliodoro na testa. Neste retrato pode-se ver claramente a cicatriz em forma de corisco.

— Que fera!

— Isso explica tudo o que Carrera fez em favor de Gabriel Heliodoro, depois que se estabeleceu firmemente no Governo. Tornaram-se amigos íntimos, compadres. . . e sócios. E nosso herói fez social e financeiramente uma carreira espetacular. E aí o temos agora como representante de seu país junto à Casa Branca e à Organização dos Estados Americanos.

— É fantástico! O Pablo me disse que Gabriel Heliodoro nem sequer terminou o curso ginasial.

— Mas El Libertador confia na habilidade e na simpatia de seu compadre para arreglar um assunto delicado com o Governo dos Estados Unidos. Você deve estar lembrado que o Vice-Presidente Nixon visitou no ano passado a República do Sacramento, e nas ruas de Cerro Hermoso foi vaiado por populares e estudantes, que atiraram contra o automóvel oficial que o conduzia pedras, tomates e ovos podres. Ora, um desses ovos bateu em cheio e quebrou-se no peito de Mr. Nixon. . .

Gonzaga soltou uma risada e terminou a frase:

— E agora Don Gabriel Heliodoro vai tentar, com o fluido de seu encanto pessoal, limpar a mancha de ovo da roupa de Nixon e da bandeira americana. . .

— Sim, e como era de esperar, traz também a missão de preparar o espírito de Tio Sam para lhe arrancar mais um empréstimo substancial. . .

Gonzaga tornou a olhar para o retrato.

— Mas o salafrário é inegavelmente simpático.

— Talvez dê um bom embaixador.

— Será mesmo índio puro?

— Por parte da mãe, sem a menor dúvida. . .

— E por parte do pai?

O jornalista deu de ombros.

— Só Deus sabe. A mãe de Gabriel Heliodoro nunca teve marido. Era prostituta.

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