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O imaginário das ilhas em alguns poetas moçambicanos carmen Lucia Tindó Secco a simbologia das ilhas


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O IMAGINÁRIO DAS ILHAS EM ALGUNS POETAS MOÇAMBICANOS
Carmen Lucia Tindó Secco

1. A SIMBOLOGIA DAS ILHAS
O arquétipo dos espaços insulares é recorrente em diferentes tempos e culturas. Desde o maravilhoso arcaico aos dias atuais, o imaginário das ilhas sempre esteve ligado aos temas das viagens, das utopias. Para alguns povos, as ilhas se afiguravam como lugares paradisíacos, locais de proteção e refúgio. Para outros, entretanto, se apresentavam como espaços de perigo, morada de monstros e seres tenebrosos.

Geralmente concebidas como instâncias redentoras, territórios de promessas e eldorados, as ilhas se instituem como paisagens privilegiadas onde se concentram as energias cósmicas e as forças estruturantes de um onirismo primordial. Quase todas as ilhas incitam à imaginação, ora suscitando aventuras instigantes, ora se oferecendo como “locus ameno” de repouso e paz, ora se abrindo ao vôo livre da mente, à faculdade de sonhar.

Com suas configurações circulares, fechadas e arredondadas, as ilhas, cercadas por águas profundas, representam um convite a descobertas que tanto podem ser físicas, como psíquicas. Afastadas do continente, resistem às rápidas mudanças advindas da modernidade, conservando traços originários de culturas e tempos históricos diversos. Desencadeiam, portanto, sonhos e anseios tanto em relação ao passado, fazendo com que muitos partam em busca de utópicas memórias. Como local por excelência de utopias, as ilhas se ligam aos desejos inconscientes que foram recalcados nos silêncios do outrora; projetam também, entretanto, esperanças a se realizarem em tempos futuros.

2. O QUE É UTOPIA ?
A utopia é uma força inerente aos homens que os faz reagir às decepções. Encontra-se, desse modo, relacionada ao “princípio esperança” de que fala Ernest Bloch, consistindo em atitudes sonhadoras contrárias a tudo o que sufoca o ser humano.

Porém, a utopia não pode ser confundida com o sonho puramente romântico que se caracteriza como fuga à realidade. As utopias produzem sonhos ativos, encharcados de desejos, os quais se apresentam como agentes impulsionadores da travessia existencial e social do homem. Dessa forma, impedem o imobilismo cultural.

Esse conceito de utopia se aproxima muito mais do de imaginação, categoria que se define como “força de contradição”, ou seja, como capacidade de superar os limites medíocres da realidade, levando os seres humanos a buscarem, pela transgressão, outros mundos possíveis. Quando falamos de imaginação, não nos referimos apenas ao domínio do individual, mas, principalmente, às instâncias do social, já que estas também exigem uma criatividade capaz de prolongar o real em direção ao futuro. Alguns teóricos contemporâneos chamam de imaginação exigente ou imaginação utópica a esse ponto de contato entre o real e o sonho, que luta pela materialização dos desejos submersos e que, portanto, nunca se esgota, pois opera sempre com um excedente inventivo a funcionar como elemento propulsor de mudanças. Esse conceito de utopia se avizinha da concepção do filósofo alemão Walter Benjamin, para quem o pensamento utópico impulsiona as transformações, sendo, por isso, uma forma de resistência cultural. Essa acepção de utopia nada tem a ver com as formas utópicas clássicas que privilegiam o espaço; ao contrário dessas, prioriza o tempo, projetando o futuro, a partir de uma problematização crítica do passado e do presente.

O conceito de utopia surgiu no século XVI, com Thomas More, que criou a estória da Ilha da Utopia, “ou-topos”, “o não-lugar”, metáfora que, na verdade, foi uma forma simbólica de criticar a repressão existente na Inglaterra dessa época.

As utopias, entretanto, embora não fossem assim designadas, existiam desde Platão, quando este, nos séculos V e IV a.C., defendia, em A República, Atenas como a “pólis ideal”. Esse tipo de utopia enfatizava a necessidade da ordem, da Lei, da razão. Sob o signo do apolíneo, Atenas foi idealizada por Platão como a “cidade perfeita”.

Thomas More propôs um outro modelo de utopia clássica: sonhou com uma ilha perdida onde os homens “sem cidade e sem país” viveriam num paraíso regido, entretanto, por rígidas convenções. Essas duas formas de utopia revelam-se, ao fim e ao cabo, como sistemas autoritários que não dão voz às diferenças, convertendo-se em verdadeiras “ditaduras utópicas”.

No final do século XIX e no princípio do XX, entrou em circulação um novo tipo de utopia: a socialista, de orientação marxista. Enveredando por vertentes ortodoxas, esse modelo de utopia acabou por inverter a relação entre dominadores e dominados. Por essa razão, muitas fissuras se abriram, afastando os discursos da prática. Em muitos países onde governos socialistas subiram ao poder, a palavra libertária não se cumpriu de todo, havendo atos tão autoritários quanto os praticados por antigas ditaduras de direita. Esses três tipos constituem as utopias clássicas, todas elas totalitárias.

No fim dos anos 80, com a queda do Muro de Berlim, alguns historiadores proclamaram o fim das utopias. Mas não foram estas que morreram; apenas as utopias políticas é que entraram em falência. Porém, surgiram e surgem ainda novas formas utópicas. O mundo se estilhaçou e a estética dos fractais se erigiu como paradigma do pensamento filosófico contemporâneo. As utopias se tornaram fragmentárias, deslizantes no tempo e no espaço. Como mencionamos anteriormente, o filósofo Walter Benjamin já propunha, desde fins do século XIX, um conceito de utopia mais ligado ao tempo que ao espaço. Defendia as utopias subjetivas, relacionadas aos sonhos recalcados no inconsciente histórico. Nesse sentido, propunha um novo conceito de sonho que lidava com a memória interior e se afigurava como “imaginação exigente”, sendo capaz de redefinir o presente e o futuro à luz da problematização crítica do passado.

Nos tempos atuais, as utopias deixaram de ser apenas sociais e políticas, contemplando também os aspectos existenciais e individuais da vida humana. Antes, as utopias eram espaciais, buscavam locais idealizados; agora, as utopias são temporais e procuram captar subjetividades encobertas, silenciadas, sob os desvãos da História. Poetas e escritores, hoje, desenvolvem projetos utópicos que se assentam, principalmente, em dimensões estéticas e eróticas da escritura literária.

3. UM POUCO DA HISTÓRIA DA ILHA DE MOÇAMBIQUE
No caso de Moçambique, a maioria das ilhas eram despovoadas. As etnias africanas de origem banto habitavam o continente. Em meados do século VII, os árabes islamizaram a costa oriental da África. Quando os portugueses aportaram, no século XV, na Ilha de Moçambique encontraram ali um xecado árabe. Empreenderam, então, a conquista, tentando impor seu poder. Textos de cronistas e poetas relatam como os portugueses, ao ocuparem a Ilha de Moçambique, ergueram fortalezas e igrejas, buscando sobrepor sua cultura à dos mouros:

A povoação portuguesa organizou-se, no século XVI, à volta da Torre Velha, situando-se a dos árabes ou mouros no sítio do Celeiro. O fosso religioso que na época separava os homens obrigava-os a terem bairros diferentes, cada qual com seus templos privativos.1
O domínio português difundiu seus estereótipos e seus fetiches, tratando como Outros não só os negros de origem banto, mas também os indianos, os árabes e os “mouros negros” da região, passando aos colonizados seus preconceitos contra os orientais .

Segundo Edward Said, em seu livro Orientalismo, a relação entre o Ocidente e o Oriente foi edificada em torno de questões de poder; e, para que este fosse alcançado, o Ocidente sempre representou negativamente os árabes e indianos, caracterizando-os como povos nômades, exóticos, desonestos, ladrões, traficantes de escravos, ouro e marfim. Desse modo, a imagem do “Oriente foi, quase sempre, tecida como uma invenção do Ocidente” 2 para justificar a hegemonia deste último.

Com essa caracterização discriminatória, a colonização lusitana procurou silenciar os traços orientais da cultura moçambicana, fazendo com que esta se esquecesse de que “não foi pela mão dos portugueses que a pequena Ilha de Moçambique entrou na História, mas pela dos árabes, que nela se instalaram ao longo da costa oriental da África3, bem antes da chegada de Vasco da Gama.

A responsabilidade pelo fato de a história mais remota da Ilha de Moçambique ser mal conhecida deve-se, pelo menos em parte, aos próprios portugueses, cuja política de ocupação da ilha conduziu à dispersão e ao desaparecimento das comunidades muçulmanas que ali habitavam durante a era pré-gâmica. Com isso, se esgarçaram as lendas fundadoras e as tradições que narravam a história do xecado e do sultanato ali existentes.4
Não conseguindo extirpar totalmente os cultos e costumes árabes, a política lusitana foi a de segregá-los, impingindo uma visão preconceituosa a respeito deles, principalmente a partir da segunda metade do século XIX, época em que se desenvolveu a verdadeira colonização portuguesa em África, pois, até então, Portugal estivera ocupado com o comércio do ouro e com o tráfico negreiro para o Brasil. A Ilha de Moçambique fez parte da rota da escravidão, funcionando como depósito dos escravos que eram vendidos para as Américas. Com o fim do tráfico, a Ilha entrou em decadência, mas os povos que por lá passaram deixaram suas marcas culturais presentes em costumes e cultos que continuaram a ser praticados como registra, por exemplo, José Craveirinha, na crônica “A Voz de Maulide”, onde focaliza velhos macuas, islamizados, a lerem o livro sagrado e a entoarem cânticos animados pelo som da daíra, num ritual de “paciência e fatalismo orientais”. 5

Durante a ocupação portuguesa, as ilhas se tornaram pontos estratégicos de defesa do continente; foram também locais de exílio e prisões. Mais tarde, com as lutas pela Independência e, posteriormente, com a guerra civil, cujas batalhas foram travadas, na maioria das vezes, no interior do continente, alguns desses espaços insulares foram usados como lugares de detenção e tortura; outros serviram de refúgio aos deslocados de guerra.

Esquecidas durante anos, algumas dessas ilhas guardaram, entretanto, em suas entranhas, muitas das tradições, tornando-se, desse modo, metafóricos depósitos de vestígios culturais que resistiram ao tempo e à opressão.

4. AS ILHAS PELAS VOZES DA POESIA EM MOÇAMBIQUE
No fim dos anos 80 e início dos 90, com o enfraquecimento das utopias revolucionárias, poetas e escritores, ao verem o continente aviltado pelos longos períodos de guerra, buscaram os espaços menos atingidos por esta. Voltaram-se, então, para o imaginário do mar e das ilhas, à procura de Eros, do Amor e das origens. Essa é uma das tendências da poesia dessa época, constatada a partir de levantamentos feitos em poemas de Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Nelson Saúte e Eduardo White.

As ilhas, entretanto, foram cantadas também por outras vozes anteriores, dentre as quais: as de Rui Knopfli, Orlando Mendes, Glória de Sant’Anna, Virgílio de Lemos, os dois últimos conhecidos como os poetas do mar do norte de Moçambique.

Rui Knopfli, por exemplo, conseguiu captar as múltiplas religiosidades presentes na Ilha de Moçambique, chamando a atenção para alguns traços característicos do Oriente:

Mas retomo devagarinho às tuas ruas vagarosas,

caminhos sempre abertos para o mar,

brancos e amarelos filigranados

de tempo e sal, uma lentura

brâmane ( ou muçulmana? ) durando no ar...6
Muitos outros poetas e cronistas escreveram sobre essa Ilha, chamada inicialmente Muhipíti, cujas paisagens e monumentos revelam diferentes heranças culturais. Rui Knopfli a chamou de Ilha Dourada e descreveu suas fortalezas portuguesas e naves mouras. Orlando Mendes lembrou que

Por ali estiveram Camões das amarguras itinerantes

e Gonzaga da Inconfidência no desterro em lado oposto.

Era a rota dos gemidos e das raivas putrefactas

E dos partos que haviam de povoar as Américas

com braços marcados a ferro nas lavras e colheitas. 7

Também Glória de Sant’Anna, cuja linguagem poética se caracterizou por fluir numa liquidez profunda, articulada por uma semântica marítima e abissal, saudou essa Ilha. Por ter nascido em Lisboa e por ser sua poesia de cunho predominantemente universal, versando sobre temas existenciais, a poesia de Glória de Sant’Anna, durante algum tempo, não foi considerada como pertencente ao patrimônio literário moçambicano, embora grande parte de seus poemas tenha sido produzida durante os vinte e três anos vividos em Moçambique. Bastante discutível esse critério, ainda bem que se encontra hoje superado. Atualmente, são reconhecidos em sua poética os pactos afetivos de identificação, tecidos durante sua longa vivência em terras africanas, cujas cartografias geográficas, culturais e humanas integram o imaginário literário de seus versos, como ocorre, por exemplo, no poema “ Ilha de Moçambique”:



(...) É uma ilha toda com fecho de prata

_ sua fortaleza

muito bem lavrada
(...) E palmares e casas

ao pé de outros bairros

descidos na terra

que se amolda e talha
para gente negra

tão esbelta e tão grave.8
Embora fazendo a opção pelo silêncio e pela metáfora, nas entrelinhas do poema, o eu-lírico denuncia os espaços diferenciados que, no passado, isolaram os dominadores portugueses, em suas fortalezas, da gente negra, levada para os bairros pobres da Ilha.

Virgílio de Lemos é outro poeta, cuja obsessão pelas ilhas do Índico é intensa. Em toda sua produção está presente o mar, cujas metafóricas imagens são múltiplas, abrindo-se em vertiginosos movimentos, que se voltam tanto para as oceânicas recordações matriciais, como para o azul infinito da imaginação criadora. O oceano remete ao inconsciente profundo do poeta, ao mergulho em direção às origens, de onde retira elementos para as construções surreais que povoam seu universo poético.

Nascido, na Ilha de Ibo, que integra o arquipélago das Quirimbas, na costa norte moçambicana, Virgílio aprendeu a amar a ilha natal, um dos últimos locais de resistência macua e swahili à colonização lusitana. Um dos defensores da criação de uma poiesis moçambicana, antropofágica e descentrada em relação ao fazer literário imposto pela colonização, Virgílio propunha, nos anos 50 e 60, uma poesia rebelde, reveladora dos múltiplos sabores culturais presentes no tecido social moçambicano. Mesmo nessa época, seu lirismo, entretanto, nunca se circunscreveu apenas às cores locais, bebendo sempre de uma ânsia universal. Sua poesia se organiza por ciclos e subciclos que se movimentam em espirais, numa estrutura barroca puramente estética, transgressora, erótica. Ao mesmo tempo que faz o eu-lírico se sentir atraído pela sedução do abismo e pelo vazio da morte, o incita também a reagir, voltando-se para Eros e para a História. No poema “A Fortaleza e o Mar”, evoca a memória da Ilha de Moçambique e, pela meditação, busca exorcizar “os fantasmas e paradoxos” da história, cuja ambição e cobiça ultrajaram o chão insular:

O tempo quebrado invade

o canonizado lugar e o Amor

deixa-se viver, Eros, talvez mar

desta reflexiva via, meditação.



O tempo e o lugar resistem

como o fruto e a flor. E teu olhar

sobre as coisas vigilante se nutre

de estrelas, de areia, sobressaltos.
Os mesmos fantasmas se cruzam

pela praia, nos paradoxos repetidos

entre a cobiça e o cego desejo.9
O eu-poético desse poema tem consciência de que é preciso de novo recuperar o lugar canonizado” do Amor, introjetando Eros para apagar os “sobressaltos” do passado.

Cantar o amor e os sentimentos humanos universais é uma outra tendência também presente na geração de poetas moçambicanos surgidos nos anos 80, como Luís Carlos Patraquim, Eduardo White, Mia Couto, Nelson Saúte, que reivindicaram uma poética não mais revolucionária apenas no sentido ideológico e social, mas também no plano individual, existencial e literário. Esses poetas propunham uma poesia capaz de recuperar as emoções pessoais. Nela, os versos deviam-se tornar canto, arma de reflexão sobre a vida, a história e a poesia. Para Eduardo White:



Felizes os homens

que cantam o amor.

A eles a vontade do inexplicável

e a forma dúbia dos oceanos.10

De novo a metáfora marinha assinala a dubiedade de uma identidade problemática, porque engendrada na encruzilhada de dois oceanos: o Índico que banha o litoral do país e serviu à rota oriental dos mercadores árabes e o Atlântico que, embora distante, a ocidente, trouxe as caravelas e o imaginário lusitano. Eduardo White, apesar de cantar o amor, não esquece as questões sociais, mostrando a morte que sufocou Maputo, durante os anos de guerra civil: “Amor! / Os nossos mortos estão apodrecendo pelas ruas.11



Essa geração teve a clareza de que o rigor do marxismo ortodoxo, cujos princípios orientaram certos discursos ideológicos dos tempos da poesia do combate, tornou sem expressão os sentimentos individuais. O aspecto surreal dessa poesia expressou poeticamente o absurdo e a violência da própria realidade; apontou também para os sonhos dispersos que se encontravam adormecidos no imaginário dilacerado de Moçambique. Procurou, assim, redefinir a identidade do país, reconhecendo-a mestiça e plural. Como navegantes à deriva, vários poetas assumiram, então, a consciência da “pátria dividida” e mergulharam seus versos em direção às origens, tentando recuperar, através das correntes subterrâneas da memória, as ruínas do passado submerso, como comprovam os seguintes versos de Nelson Saúte :

(...)Mulher de m’siro feitiço do Oriente

os poemas do irredimível encantamento

levantam-se sobre as ruínas.
Na proa da memória a evocação das velas

sonolentas na imaginária romaria(...)
A odisséia celebra o nome da pátria

na errância das naus pelo Índico.

Os homens a terra e o tempo:

suas vozes descubro na História.12
Através da errância dessa poesia que objetiva desvendar as fendas e fraturas da própria identidade, as vozes poéticas retornam aos espaços matriciais da colonização, percebendo que até estes locais se encontram cindidos pelas lembranças de culturas várias, em que estavam presentes tanto as tradições e os ritmos africanos das etnias negras do chão banto, como as marcas ocidentais trazidas pelos portugueses e os temperos acres deixados pelos comerciantes árabes e pelos indianos. Luís Carlos Patraquim, por exemplo, cantou essa mesclagem de traços, presentes na Ilha de Moçambique:

(...) tufo persa, arábia das noites à deriva, memória do sal, langor plasmando-se em marítimas vozes sensuais.... Foste uma vez a sumptuosidade mercantil.(...) Sobre a flor árabe a excisão esboçada .( ...) Fadário quinhentista de “armas e varões assinalados”. 13
Subvertendo o conhecido verso camoniano, o eu-poético declara sua recusa à conquista lusitana que descaracterizou seu país durante longos anos. Redescobrindo a sensualidade e o paladar árabes ainda existentes na Ilha de Moçambique, inscreve-os na textualidade de sua poesia, reconhecendo o multiculturalismo presente no imaginário moçambicano : “(...) ao princípio era o mar e a Ilha. Simbad e Ulisses. Xerazade e Penélope. Nomes sobre nomes. Língua de línguas em macua matriciadas.14

A eroticidade marítima invade a da linguagem, convertendo-a em um ritual de metapoesia, em que o corpo da ilha, o da mulher e o do poema se entrelaçam, na busca das híbridas raízes moçambicanas. Procedimento semelhante é encontrado também na poesia de Eduardo White:



Sou ao Norte a minha Ilha, os sinais e as sedas que ali se trocaram e nessa beleza busco-te e para mim algum percurso, alguma linguagem submarina e pulsional, busco-te por entre as negras enroladas em suas capulanas arrepiadas, altas, magras, frágeis e belas como as missangas (...) Que viagens eu viajo, meu amor, para tocar-te esses búzios (...) Amo-te sem recusas e o meu amor é esta fortaleza, esta Ilha encantada, estas memórias sobre as paredes (...)15
Conforme palavras de Mia Couto16 e Fátima Mendonça17 em prefácios a livros de Eduardo White, voar através de Eros e dos sonhos é um dos caminhos encontrados por essa poesia que se insurge contra a solidão da sociedade moçambicana, ainda fraturada em conseqüência da guerra. A denúncia social é feita por intermédio do apelo ao poético e ao onírico, à leveza do vento e do ar, símbolos da imaginação criadora.

Também a poesia de Nelson Saúte opera nessa linha de resgate da memória por via do desejo. O corpo do poema, da História e da Ilha se fundem em busca das matrizes moçambicanas:



Ó m’siro

encantamento de meus olhos

perfaz a tua insular imagem.

No litoral do teu corpo

a apoteótica espuma

do orgasmo das ondas.18

Ilha, sedução, encantamentos do Oriente _ presença constante na memória dos poetas. Ilha, lugar do reencontro com as origens, local do repensar da poesia e da história, como se depreende do seguinte poema de Mia Couto:



Ilha de Ibo

Pequena borboleta

com asas de corais vermelhos

a nossa ilha

não foi criada para cela

onde morrem os meus irmãos
o nosso mar

não foi feito para grades

onde se ensombram os olhos,

os olhos negros dos meus irmãos.

(...)
assim me contaram

os que sobreviveram.
E enquanto os olhos dos peixes

guardavam a luz e levavam

o dia para o fundo do mar

as mãos assassinas dos carrascos

vasculhavam segredos

rasgando na carne dos prisioneiros

a incurável ferida de serem homens,

companheiros firmes e leais.
Dizem ainda que eram os pescadores

que remando entre a fome

e a ilha da fortaleza

traziam a lua perto das marimbas

cujo canto se espalhava

sobre as ondas inquietas

e sossegava o peito cansado

dos meus irmãos.
Mas os carrascos não sabiam

(talvez porque fossem

ainda mais prisioneiros que os meus irmãos)

que uma fortaleza

cheia de crimes incontáveis

pesa demasiado

para uma pequena borboleta vermelha

com asas de corais vermelhos
e a ilha-prisão submergiu

levando consigo

um tempo manchado de sangue

de sangue dos meus irmãos.19
A poesia dessa geração, representada, entre outros, por Patraquim, Mia Couto, Eduardo White, Nelson Saúte, tenta, portanto, exorcizar o tempo de opressão em que as ilhas foram transformadas em prisões, lupanares, espaços de exílio e tortura. Essa poética busca reinventar os territórios insulares, recuperando as imagens das ilhas como espaços eróticos do sem-limite, da liberdade e da imaginação criadora, onde mar e poesia se irmanam, refletindo sobre o próprio fazer poético.

Essa postura é encontrada também na obra poética de Virgílio de Lemos, tanto em seus poemas dos anos 50 e 60, como na sua produção mais recente, quando, nos anos 90, revisita a Ilha de Moçambique e a define assim:



A ilha é

o elíptico retomar

dos regressados sinais

ausência e memória

futura,

mar surreal

memória que os mitos

tecem,

história na história

exílios dentro

do exílio

na tragédia

da palavra (...)20
Fecho esta comunicação, com esse poema de Virgílio de Lemos, poeta em que a presença insular é uma constante na sua obra, desde os anos 50. Ele foi um dos grandes cantores das ilhas de Moçambique no passado e, no presente, continua a sê-lo, acompanhado de vozes, como as de Luís Carlos Patraquim, Eduardo White, entre outras, cuja poesia também persegue recorrentemente os arquétipos insulares. Para esses poetas, as ilhas nunca foram apenas um tema. Sempre se constituíram, visceralmente, como corpo da própria poesia, plasmando-se claramente relacionadas à procura das origens e da beleza estética.

Na poesia de Virgílio, as ilhas se encontram ligadas ao erotismo próprio de seu “barroquismo estético”, que se expressa enquanto jogo, perda, desperdício e gozo em relação ao objeto perdido. A “ilha, resumo metafísico do mundo”, segundo palavras do próprio Virgílio, é o que é buscado, embora o importante seja a viagem. Ibo, espaço matricial, se torna o lugar da meditação e do reencontro com as paisagens remotas, assim como também as outras ilhas de sua poesia, espaços cheios de luz e cor, de raios solares incandescentes. Da sua errância marítima e insular, emergem a memória do azul, os sons do swahili, do oriente africano, as imagens de peixes e pássaros, de íbis cruzando os horizontes, que lembram ao sujeito poético os quadros de Klee, Miró e Kandinsky. A intertextualidade da poesia virgiliana não se restringe, apenas, à literatura; é mais ampla, estabelecendo diálogos e correspondências também com a pintura moderna. Virgílio pinta com palavras. Plástica e visual, sua poética brinca barrocamente com a sedução das cores, dos ritmos, com a forma das palavras, das rochas e dos corais, com o brilho do sol, com os reflexos da água do mar, lugar do movimento, do labirinto, da vertigem, da dispersão do eu lírico, sempre em busca das grutas de silêncio e do mistério do indizível.

Concluindo, observa-se que o imaginário moçambicano das ilhas, tanto para Virgílio de Lemos, como para os poetas anteriormente referidos, se institui como local do erotismo primordial, lugar matricial onde a linguagem rejuvenesce a cada instante, encharcada de desejo e sensualidade, de poeticidade e lirismo. As ilhas se apresentam também como espaços de revisão crítica da história e da memória, como lugares metafóricos da metapoesia, onde os poetas refletem sobre o próprio fazer literário. Em suma, as ilhas se apresentam como instâncias simbólicas, a partir das quais se torna possível ainda inventar novos caminhos e outras utopias.

NOTAS:

1. LOBATO, Alexandre. “A Ilha de Moçambique: notícia histórica”. In: SAÚTE, Nelson e SOPA,

António. A Ilha de Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa: Edições 70, 1992. p.171.

2. SAID, Edward. Orientalismo. SP: Companhia das Letras,1990.p.13.

3.LOBATO, Alexandre. “A Ilha de Moçambique: notícia histórica”. In: SAÚTE, Nelson e SOPA,

António. A Ilha de Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa : Edições 70, 1992. p.169.

4. LOBATO, Manuel. “A Ilha de Moçambique antes de 1800”. In: Oceanos. - no 25. Revista da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Lisboa, jan.- março 1996, p. 11.

5.CRAVEIRINHA, José. “A Voz de Maulide”. In: SAÚTE, Nelson e SOPA, António. A Ilha de Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa : Edições 70, 1992. p.133.

6. KNOPFLI, Rui. In: SAÚTE, Nelson (1992) p. 35 .

7. MENDES, Orlando. In: SAÚTE, Nelson e SOPA, António. A Ilha de Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa : Edições 70, 1992. p.39.

8. SANT’ ANNA, Glória de. “Ilha de Moçambique”. In: SAÚTE, Nelson e SOPA, António. A Ilha de Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa : Edições 70, 1992. p. 28.

9. SAÚTE, Nelson e SOPA, António. A Ilha de Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa : Edições 70, 1992. p.76.

10. WHITE, Eduardo . In: SAÚTE, Nelson. Antologia da nova poesia moçambicana. Maputo: AEMO,, 1993. p.88.

11. idem, ibidem. p.88.

12. SAÚTE, Nelson.(1992)p.163.

13. PATRAQUIM, Luís Carlos. In : SAÚTE, Nelson(1992) p.55.

14. idem,ibidem.p.55.

15. WHITE, Eduardo. Os Materiais do amor seguido de O Desafio à tristeza. Lisboa: Caminho, 1996. p. 24-27.

16. COUTO, Mia. Prefácio.In: WHITE, Eduardo.Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Caminho, 1992. p. 9-10.

17. MENDONÇA, Fátima. Prefácio. In: WHITE, Eduardo. Os Materiais do amor seguido de O Desafio à tristeza. Lisboa: Caminho, 1996. p. 10-11.

18. SAÚTE, Nelson (1992) p.123.

19. COUTO, Mia. Apud SAÚTE, Nelson: 1993, p.313 e 314.

20. LEMOS, Virgílio de. Ilha do Ibo, julho de 1996. ( poema inédito)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COUTO, Mia. Prefácio.In: WHITE, Eduardo.Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Caminho, 1992.

__________. “Ilha de Ibo”. In: SAÚTE, Nelson. Antologia da nova poesia moçambicana. Maputo: AEMO, 1993.

CRAVEIRINHA, José. “A Voz de Maulide”. In: SAÚTE, Nelson e SOPA, António. A Ilha de Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa : Edições 70, 1992.

KNOPFLI, Rui. In: SAÚTE, Nelson e SOPA, António. A Ilha de Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa : Edições 70, 1992.

LEMOS, Virgílio de. Ilha do Ibo, julho de 1996 ( poema inédito ).

LOBATO, Alexandre. “A Ilha de Moçambique: notícia histórica”. In: SAÚTE, Nelson e SOPA, António. A Ilha de Moçambique pela voz dos poetas. Lisboa: Edições 70, 1992.

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