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Doutorado em literatura comparada jorge paulo de oliveira neres


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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE – UFF

INSTITUTO DE LETRAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS

DOUTORADO EM LITERATURA COMPARADA

JORGE PAULO DE OLIVEIRA NERES

DA TRADIÇÃO E DA RUPTURA EM LOS SANTOS INOCENTES, DE MIGUEL DELIBES E VIDEIRAS DE CRISTAL, DE LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

NITERÓI
2009


JORGE PAULO DE OLIVEIRA NERES

DA TRADIÇÃO E DA RUPTURA EM LOS SANTOS INOCENTES, DE MIGUEL DELIBES E VIDEIRAS DE CRISTAL, DE LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para a obtenção do Grau de Doutor. Área de Concentração: Literatura Comparada.

Orientador: Professora Doutora Magnólia Brasil Barbosa do Nascimento

Niterói


2009

Do inferno que atormenta, pego as brasas e acendo meu cigarro.

Pra você, Lice, sem sua força, nada aconteceria.

Para Magnólia, não há pessimismo que resista ao seu alto astral.

Ao Pedro, irmão e apoio indescritível.

Aos pais, Zeca e Ná, alguém tinha de chegar lá.


Aos filhos, Carolina e Pedro Ivo, sem ser exemplo de nada, do nada, tiramos tudo.
A Felner e Selma, por simplesmente gostarem de mim.

AGRADECIMENTOS


À Universidade Federal Fluminense.
Ao Instituto de Letras, onde comecei minha trajetória acadêmica.
Aos amigos da Secretaria Municipal de Educação de Angra dos Reis, na gestão do Prefeito Fernando Jordão, impagável minha dívida com vocês.
À Nelma e sua equipe, na Secretaria da Pós, sempre atenciosos.
Aos professores Luiz Fernando Medeiros de Carvalho, Luiz Fernando Gualda e Jorge de Sá, culpados de tudo isso.
A Alcmeno Bastos, aprendi com você o rigor que não tinha.
A Antonio Esteves, pelos caminhos que me abriu, solícito e lúcido.
Aos escritores Delibes e Assis Brasil, pela oportunidade de escarafunchar seus textos.
A todos os que torceram contra e a favor, o carinho da luta.

La novela es un hombre, un paisaje y una pasión.

Miguel Delibes



LISTA DE ABREVIATURAS

LSI – Los santos inocentes

VC – Videiras de cristal

RESUMO

Nesta tese de doutorado, a partir da leitura dos romances Los santos inocentes, de Miguel Delibes e Videiras de cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil, analisa-se a elaboração de cada uma das obras, com destaque para os procedimentos técnicos empregados pelos autores, discute-se o papel desempenhado pelas personagens, notadamente àquelas tidas como loucas, desajustadas, inocentes ou alienadas, freqüentes no texto literário, como confirma a historiografia, bem como a natureza dos relatos, a partir das discussões em torno da presença ou não da matéria de extração histórica enquanto prática discursiva subjacente às narrativas. Do mesmo modo, parte-se do princípio de que as obras, numa perspectiva comparativista, se filiam a uma matriz comum, situada na antiga literatura e nos textos sagrados, num diálogo aberto, desprovido do caráter de ruptura com o passado, permeado, no entanto, pelo olhar irônico da pós-modernidade. Analisam-se, por fim, os tropos presentes nos textos tendo em vista o sentido plural que conferem às narrativas, consubstanciado nos efeitos estilísticos que as tornam, sob o ponto de vista estético, arte, arte literária.


Palavras-Chave: Los santos inocentes - Miguel Delibes – Luiz Antonio de Assis Brasil – Videiras de cristal - ficção – história – pós-modernidade


RESUMEN
Em esta tesis de doctorado, a partir de la lectura de las novelas Los santos inocentes, de Miguel Delibes y Videiras de cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil, se analiza la elaboración de cada uma de las obras, com destaque para los procedimientos técnicos empleados por los autores, se discute el papel de cada uno de los personajes, especialmente aquellos considerados locos, desajstados, inocentes o alienados, frecuentes en el texto literario, como confirma la historiografía, bien como la naturalieza de los relatos, a partir de las discusiones sobre la presencia o no de la materia de extracción histórica en cuatn práctica discursiva subyacente a las narrativas. De la misma manera, se parte del principio de que las obras, comparatista perspectiva, se insieren en una matriz común situada en la antigua literatura con el pasado permeado, sin embargo, por la mirada irónica de la posmodernidad. Se analizan, por fin, los tropos presentes en los textos considerando el sentido plural que confieren a las narrativas, consubstanciado en los efectos estilísticos que las vuelven, bajo el punto de vista estético, arte, arte literario.

Palabras clave: Los santos inocentes - Miguel Delibes – Luiz Antonio de Assis Brasil - ficción - historia - la post-modernidad




ABSTRACT

In this doctoral thesis, from reading the novels Los santos inocentes by Miguel Delibes and Videiras de cristal, Luiz Antonio de Assis Brasil, analyzes the development of each of the works, with emphasis on the technical procedures used by the authors discusses the role played by the characters, especially those seen as crazy, inappropriate, or disposed of innocent, common in literary text, as confirmed by historians, and the nature of the reports, from discussions about the presence or absence of matter extraction as historical discursive practice undelying the narratives. Similarly, perspective comparativista, part is assumed that the works join a common matrix, lacated in the ancient literature and sacred texts, an open, devoid of character to break with the past, permeate, however, ironic look at postmodernity. Is analyzed embodied in stylistic effects that make them, under the aesthetic point of view, art, literay art.


Key words: Los santos inocentes - Miguel Delibes – Luiz Antonio de Assis Brasil – fiction – history – postmodernity


ESCLARECIMENTO

A 1º edição de Videiras de cristal data de 1990. Utilizamos, no presente trabalho, a edição de 1994, publicação da Editora Mercado Aberto, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO................................................................................................... 16


Capítulo 1. DAS OBRAS: panorama e galeria daS personagens.................. 23

1.1. Sombras no campo espanhol: a narrativa de Los santos inocentes

1.2. O messianismo como válvula de escape: a narrativa de Videiras de cristal
Capítulo 2: DAS RUPTURAS E DA TRADIÇÃO: o silêncio eloqüente e as marcas da História........................................................................................... 90

2.1. Pós-modernidade e tradição nas obras de Delibes e de Assis Brasil

2.2. A elocução interditada em Los santos inocentes

2.3. A pós-modernidade camuflada em Videiras de cristal

2.4. As obras e o gênero narrativo de extração histórica
Capítulo 3. DA LOUCURA E DA ALIENAÇÃO: tontos e loucos como ingredientes narrativos.................................................................................... 150

3.1. O louco na literatura: uma tradição retomada.

3.2. A (in)submissão do inocente e o inocente útil nas narrativas de Delibes e de Assis Brasil

3.3 Da intertextualidade das obras: ironia e paródia em Delibes e em Assis Brasil


CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................... 232
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................. 236
A TESE
Dentre as variadas linguagens da arte, o discurso literário talvez seja aquele que de forma mais completa penetre as vicissitudes humanas, descortinando causas e efeitos de atos e acontecimentos a consubstanciarem aquilo que chamamos mundo. Se observarmos detidamente a epígrafe tomada a Miguel Delibes no presente trabalho, percebemos a imediata associação feita pelo autor entre o tecido narrativo e o mundo, uma vez que, ao afirmar ser “a novela homem, paisagem e paixão”, o autor espanhol confirma a contundente capacidade do texto literário de representar o real empírico a partir do desvendamento daquele que efetivamente move o mundo: o homem.

É importante assinalar, no entanto, que a representação do empírico se dá no plano ficcional, afinal a literatura é uma aventura verbal e o texto de ficção é, conforme Hjemslev (1975), um exemplo de semiótica conotativa, fato que, sem dúvida, esclarece a afirmação de nossa primeira frase e a própria epígrafe de Delibes, uma vez que, ao ser paisagem, a novela situa-se no plano referencial da linguagem; ao ser homem e paixão, atinge o universo mais enigmático da natureza humana, semiotizado de forma especial pelo caráter plurissignificativo do discurso literário.

Quando pensamos em uma tese em torno das obras Los santos inocentes, de Miguel Delibes e Videiras de cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil, dois pontos nos chamaram a atenção enquanto objetos de pesquisa. O primeiro deles, talvez o principal, reside no fato de ambos os autores lançarem mão das personagens ditas alienadas, loucas ou simplesmente diferentes, o que é recorrente nas artes em geral, mas que, nessas narrativas, assumem papéis preponderantes nos destinos das matérias narradas. O outro ponto, diz respeito à natureza das narrativas, sabendo-se que, apesar de contemporâneos – e talvez por isso -, tanto um quanto outro comungam de um procedimento muito comum na atualidade patenteado na preocupação com temas históricos, ou seja, a matéria ficcional de extração histórica. Reside, neste ponto, o outro eixo de nossa pesquisa, materializado na indagação da presença efetiva ou não do substrato histórico comum a ambos os romances.

Dado o exposto, propomos a tese de que tanto Miguel Delibes quanto Assis Brasil, ao elegerem o “louco” ou “alienado” como personagem capital às ações narrativas, conferem a seus textos, aparentemente regionalistas, uma dimensão universal, materializada na representação atemporal das vicissitudes humanas – incluindo-se aí as relações sócio-históricas - filiando-os não só à tradição dos grandes clássicos, quanto ao emprego dos mesmos procedimentos, como também às fontes orais da literatura, onde os “bobos, loucos e alienados” se faziam presentes e, no mais das vezes, desempenhavam papéis fundamentais nos enredos das histórias.

Por outro lado, considerando que as duas narrativas, guardadas as suas especificidades, através de técnicas e de recursos estéticos inovadores, estabelecem relações dialógicas com o atual discurso histórico, defendemos, também, a tese de que Los santos inocentes, de Miguel Delibes e Videiras de cristal, de Luiz Antônio de Assis Brasil não só se inserem no rol das obras pós-modernas, como também se constituem em romances de extração histórica.

INTRODUÇÃO
Num primeiro olhar, as obras Los santos inocentes, do escritor espanhol Miguel Delibes, e Videiras de cristal, de autoria do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, não apresentam indícios de que possam estabelecer algum tipo de diálogo, sob o ponto de vista de uma possível análise no plano intertextual.

Ao mirarmos, no entanto, de forma mais atenta os tecidos narrativos, percebemos a viabilidade de um estudo comparativo das obras, sobretudo no que se refere às técnicas narrativas empregadas pelos autores na confecção de seus textos, sejam elas de natureza formal, sejam, no plano do conteúdo. Em outras palavras, falamos da forma e do fundo, este, no caso, a matéria de extração histórica.

Além desses aspectos, chamamos a atenção para um ingrediente comum a ambas narrativas, patenteado na presença do louco ou alienado como personagem-chave de cada um dos relatos, aspecto primordial ao nosso trabalho haja vista o fato de que, através desta peculiaridade, defendemos a inserção das obras em uma mesma matriz que se encontra nas literaturas antigas, nos Relatos Sagrados e nas fontes orais que os sustentam.

Assim, neste trabalho, nos propomos a uma análise dos romances Los santos inocentes, de Miguel Delibes, e Videiras de cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil, partindo da premissa de que, sem a perda de suas identidades, apresentam procedimentos narrativos que, ao mesmo tempo em que os filiam a uma tradição secular, os inserem na pós-modernidade.

É também nossa proposta o estudo do emprego por parte dos dois escritores de personagens tidas como loucas ou alienadas. Esta técnica, sem dúvida, retoma uma tradição muito difundida no período medievo e no Renascimento de utilização de personagens com este perfil como estratégia narrativa de se descortinar as hipocrisias e veleidades do ser humano, haja vista o fato de serem os loucos, bêbados, bobos e bufões os detentores da verdade que os tidos como normais insistem em não enxergar.

Sob esta perspectiva, analisamos o discurso ficcional como o único capaz de penetrar no âmago das vicissitudes humanas para revelar suas idiossincrasias. Em função disto, ressalvadas as marcas individuais de cada obra, percebemos que, de sua análise, uma convergência sobressai e se impõe de forma inexorável: o epicentro de ambas se situa nas relações das personagens com o contexto social opressor em que estão inseridas. Desta forma, as condições histórico-sociais presentes na ficção também se tornam, juntamente com o impacto sobre as personagens, objetos de nosso estudo.

. A metodologia que propomos nesta tese reside fundamentalmente no estudo teórico-literário da construção narrativa, centrado em dois pólos distintos: o primeiro, diz respeito à elaboração das escrituras em si, ou seja, fixamo-nos na análise dos elementos estruturais que compõem cada uma delas, com ênfase no teor narrativo e na consubstanciação das personagens, querendo isto significar que nossa preocupação centra-se no sentido específico de cada obra, com destaque para alguns aspectos formais. Já o segundo pólo, situa-se na análise comparativista, com destaque para as coincidências de inovações estéticas embutidas nos textos, além de um estudo acerca das personagens com perfis problemáticos, aspecto comum tanto em Delibes quanto em Assis Brasil. Como decorrência desses dois pólos, fechamos as considerações com uma apreciação estilística das obras.

Há, sem dúvida, um lastro de preocupação comparativista neste estudo, uma vez que não só colocamos uma obra diante de outra, como também analisamos as relações dialógicas com outras práticas discursivas, além, claro, de nos ocuparmos com a historicidade das narrativas em suas relações com a tradição. Servimo-nos, aliás, para isto, como princípio essencial ao desenvolvimento do trabalho, da perspectiva de Brunel, Pichois e Rosseau (1990, p. 16), em torno da descrição do que seria a Literatura Comparada:


[...] a literatura comparada não é uma técnica aplicada a um domínio restrito e preciso. Ampla e variada, reflete um estado de espírito feito de curiosidade, de gosto pela síntese, de abertura a todo fenômeno literário, quaisquer que sejam seu tempo e seu lugar.

Não podemos, sob quaisquer hipóteses, deixar de passar incólume o fato de que trabalhamos com romances de escritores de nacionalidades distintas, o que, num primeiro momento, principalmente sob o foco de uma possível análise nacionalista mais apressada, poderia implicar em algum tipo de barreira ao exame intertextual tendo em vista a origem e as peculiaridades de cada um dos escritores e a natureza das duas obras.

A Literatura Comparada resolve esse nosso dilema, pois, na concepção de Guillén (1985, p.13), com quem corroboramos, “la Literatura Comparada consiste en el examen de las literaturas desde un punto de vista internacional”. Este entendimento da Literatura Comparada traz uma visão mais abrangente da literatura, eliminando-se fronteiras que, muitas das vezes, isolam procedimentos comuns.

Assim, de forma mais detalhada, Guillén (Ibidem, p. 28) afirma ser “dialética a tarefa do comparativista”, ou seja, as marcas individuais não estão isoladas em “uma ilha”:


Creo que no es preciso insistir en observaciones tan elementares. No nos es dado eliminar ni la diferencia individual ni la perspectiva unitaria; ni la emoción estética singular ni la inquietud integradora. La tarea del comparativista es de orden dialéctico. Por ello (Arturo Graf) dijo que lo que la caracteriza es la conciencia incesante de un problema. Pues la investigación de relaciones dialécticas conduce al enriquecimiento progresivo de nuestra percepción de sus elementos constitutivos. Por una parte, no todo es individualidad en esa isla encantada que es la obra literaria [...].

A concepção do crítico vem de encontro ao nosso interesse, de forma mais precisa, quando Guillén (Ibidem, p. 408) agrega ao supranacional o que ele denomina de “estructuras diacrónicas”, aspecto que se encaixa na historicidade dos textos, conforme ora aqui propomos:


Decía al principio que la Literatura Comparada se ocupa del estudio sistemático de conjuntos supranacionales. Puede agregarse ahora, tras nuestro largo recorrido, que el comparatismo culmina en el estudio de aquellos conjuntos supranacionales que son estructuras diacrónicas – o de aquellas estructuras diacrónicas que son conjuntos nacionales -. La tarea principal de la Literatura Comparada, a mi entender, es la investigación, explicación y ordenación de estructuras diacrónicas y supranacionales (grifos do autor).
Com base nessas considerações, nosso trabalho, no primeiro capítulo, apresenta um panorama das obras, situando-as em seu contexto de produção, levando-se em consideração, principalmente, a motivação estética patenteada nas relações com outras modalidades discursivas. Como nossa preocupação, neste primeiro momento, reside em uma análise do próprio sentido das obras, ressaltamos sua natureza ficcional, sem perder, no entanto, a dimensão de que vínculos discursivos podem se dar nas mais variadas direções, conforme afirma Todorov (2004, p. 47):
A visão literária pode, é verdade, comparar-se às vezes a outras visões fornecidas quer pelo próprio autor, quer por outros documentos concernentes à mesma época e às mesmas personagens, quando se trata de personagens históricas.

Neste primeiro capítulo, buscamos embasamento teórico, além de Todorov, dentre outros, em Bakhtin, no que se refere à inclusão das obras no gênero da sátira “menipéia”. Em Hutcheon, Baudelaire, Rui Facó e em Antonio Esteves nas questões históricas e da pós-modernidade. Em Iöwi, nos fundamentos em torno do messianismo, além de Gustavo Martinez, na sua analogia do romance de Delibes com o texto bíblico.

No segundo Capítulo, tratamos das questões da pós-modernidade, com base em Auerbach, Santiago, Hutcheon, Nascimento, Rosenfeld, Lukacs, dentre outros. No que se refere à inclusão dos romances no rol das narrativas de matéria histórica, além de outros especialistas do assunto, mais uma vez lançamos mão de Hutcheon e de Esteves, bem como de Trouche e de Alcmeno Bastos.

Quando tratamos da loucura, no Capítulo 3, nossos fundamentos se encontram em Foucault, Costa Lima, Hall, Hutcheon, Martinez e mais alguns para não nos alongarmos. Finalmente, partimos dos estudos estilísticos de Candido, para tratar da estilística dos textos momento em que, mais uma vez, incidem os teóricos já citados, além de outros.

O interessante dessas fontes é que, no mais das vezes, dada a concepção aberta em relação ao objeto literário, os teóricos transitam nas mais variadas abordagens, o que justifica a reincidência de nomes nos diferentes capítulos.

A proposta desta tese, portanto, além dos pontos que defendemos de forma explícita, conforme exposto no item “A Tese”, reside, num sentido mais genérico, em confirmar a idéia de que os grandes temas humanos não mudam, pois, em verdade, estão intrinsecamente ligados às indagações existenciais, ontológicas que, em nossa pequenez, estamos muito longe de responder. Em outras palavras, ainda estamos distantes, se é que lá haveremos de chegar, das respostas às indagações fundamentais (“O que sou? De onde vim? Para onde vou?”) de nossa existência. A grande mudança destas velhas perguntas essencialmente se dá na linguagem, na roupagem que as atualiza e, concomitantemente, também torna eternamente contemporâneo o conflito humano no transcorrer dos tempos.

Assim, no exame das obras de Delibes e de Assis Brasil, perceberemos o quão presentes estão algumas das vicissitudes que, pelo caráter humano, tornam-se implacavelmente atemporais.

Para fins de ilustração, apresentamos, a seguir, um esquema contendo alguns pontos que consideramos básicos nas duas obras.









CAPÍTULO 1
DAS OBRAS: panorama e galeria das personagens.

A leitura das obras, levando-se em consideração os conceitos referenciados, nos fornece a evidência de que o texto literário, como diria Aristóteles, narra o que poderia ter acontecido. Diante disso, se entendemos a literatura como prática discursiva que redimensiona a realidade empírica, não poderíamos ignorar o fato de o texto literário ser, antes de tudo, linguagem, discurso semiotizado e plural, o que nos leva a Todorov (2004: p. 44), quando associa suas reflexões em torno da narrativa aos estudos lingüísticos de Peirce: “Segundo a definição de Peirce, o sentido de um símbolo é sua tradução em outros”.

Reside, portanto, nesta afirmativa, a essência daquilo que poderíamos entender enquanto compreensão do mundo que, na verdade, nada mais é do que compreensão de símbolos ou, em última instância, compreensão de linguagem. Em função disto e, ainda, conforme Todorov (ibidem, p. 54), o estatuto da literatura é privilegiado, o que a diferencia:
A literatura goza, como se vê, de um estatuto particularmente privilegiado no seio das atividades semióticas. Ela tem a linguagem ao mesmo tempo como ponto de partida e como ponto de chegada; ela lhe fornece tanto sua configuração abstrata quanto sua matéria perceptível, é ao mesmo tempo mediadora e mediatizada.

Este privilégio, percebido por Aristóteles quando afirma ser o discurso do poeta superior e universal, é que nos possibilita vislumbrar a imensa carga plurissignificativa presente nas obras Los santos inocentes (1981), de Miguel Delibes e Videiras de cristal (1990), de Luiz Antonio de Assis Brasil.

Tensão e densidade dramática são ingredientes explícitos nas personagens de Los santos inocentes e de Videiras de cristal, respectivamente de Miguel Delibes (1920), escritor contemporâneo espanhol, e do também contemporâneo escritor brasileiro Luiz Antonio de Assis Brasil (1945), aspecto que repercute decisivamente nos tecidos narrativos com impacto profundo no sentido de cada uma das obras, uma vez que são nelas, as personagens, que reside a força motriz dos relatos, ou seja, são, concomitantemente, sujeito e objeto das ações relatadas, conforme afirma Candido (1972, p.53) “ [...] O enredo existe através das personagens; as personagens vivem no enredo.[...].”

Sob esta perspectiva, torna-se inegável que as personagens dos romances adquirem profunda relevância no conjunto de cada obra, fato que nos leva a concluir que são narrativas extremamente vinculadas às suas vicissitudes, mormente àquelas intrínsecas, do recôndito psicológico e inescrutável de cada uma delas. Dentre estas, duas são extremamente caras em ambas as construções ficcionais: Azarías, em Los santos inocentes; Jacó-Mula, em Videiras de cristal.

Estas duas personagens adquirem dimensão capital no fazer narrativo, principalmente se levarmos em conta o fato de que desempenham papéis-chave na consolidação do sentido de cada um dos enredos. Como, as matérias narradas são rubricadas pela denúncia das desigualdades sociais – em Los santos inocentes, a secular opressão social no universo camponês espanhol; em Videiras de cristal, a histórica negligência das autoridades em relação aos camponeses, causa dos muitos eventos messiânicos no Brasil e do conseqüente massacre daqueles que se levantaram – Delibes e Assis Brasil, cada um a sua maneira, se utilizam de recurso das narrativas antigas, no caso, a sátira menipéia, largamente empregado ao longo dos tempos, conforme Bakhtin (2005: p.113), para dar voz a personagens socialmente desajustadas, conferindo-lhes, em suma, a relevância que só a ficção é capaz de proporcionar, no contraponto ao que chamaríamos convenções sociais de realidade empírica:
A “sátira menipéia” exerceu uma influência muito grande na literatura cristã antiga (do período antigo) e na literatura bizantina (e, através desta, na escrita russa antiga). Em diferentes variantes e sob diversas denominações de gênero, ela continuou a desenvolver-se também nas épocas posteriores: na Idade Média, nas épocas do Renascimento e da Reforma e na Idade Moderna. Em essência, sua evolução continua até hoje (tanto com uma nítida consciência do gênero quanto sem ela). [...] A “sátira menipéia” tornou-se um dos principais veículos e portadores da cosmovisão carnavalesca na literatura até os nossos dias. [...].

Ora, sendo personagens socialmente desajustadas, alienadas ou inocentes, somente elas seriam capazes de romper as barreiras hierárquicas da convenção social e é exatamente o papel que desempenham. Azarías, na sua aflição pela perda do único canal de comunicação que mantinha com o mundo, a milana, vinga-se matando o señorito Iván, representante do estrato social opressor. Jacó-Mula, por sua vez, é a voz encarregada de referendar o discurso messiânico de Jacobina Maurer

Delibes e Assis Brasil, portanto, constroem personagens vistas como loucas e as torna essenciais ao transcurso do tecido narrativo, recurso amiúde encontrado na historiografia literária, renovado na escrita contemporânea dos autores em questão, conforme Bakhtin (ibidem, p. 116-117):
Na menipéia aparece pela primeira vez também aquilo a que podemos chamar experimentação moral e psicológica, ou seja, a representação de inusitados estados psicológico-morais anormais do homem – toda espécie de loucura (“temática maníaca”), da dupla personalidade, do devaneio incontido, de sonhos extraordinários, de paixões limítrofes com a loucura. Todos esses fenômenos têm na menipéia não um caráter estreitamente temático, mas um caráter formal de gênero [...].

Este aspecto, por si só, revela uma marca comum aos dois autores no que se refere aos procedimentos formais, especificamente naqueles inerentes ao gênero, que se mostra, tanto em um quanto em outro, extremamente permeável. Em outras palavras, as narrativas se inserem no âmbito genealógico das obras literárias, sem romperem de todo os fios da tradição, mas experimentando as múltiplas possibilidades do universo dos gêneros literários.

Se as duas narrativas em muitos momentos se filiam à tradição, não podemos negar, em contrapartida, que rompem com ela em outros. Em Assis Brasil, por exemplo, a polifonia é uma das marcas da narrativa, com o detalhe de que um dos principais narradores utiliza-se de cartas, quer dizer, do gênero epistolar, em seu relato, fato que, de alguma maneira, pulveriza e fragmenta a narração, principalmente se levarmos em conta que este narrador é também uma personagem. Apesar disto, a narrativa está aparentemente ainda presa a um modelo realista. Já Delibes, rompe completamente com o padrão realista e insere sua narrativa nos escaninhos daquilo que se convencionou chamar de pós-modernidade. São, portanto, narrativas que transitam entre a ruptura e a tradição; Delibes mais no primeiro caso; Assis Brasil, de forma escamoteada, a partir do percurso no segundo.

Em Los santos inocentes, há a presença do que chamamos de eloqüência do silêncio, ou seja, a representação feita por Delibes de personagens típicas de um universo rural que, dadas às circunstâncias do contexto sócio-histórico em que estão inseridas, apresentam profundas dificuldades de elocução, mormente originadas do próprio contexto opressor em que vivem, ou seja, o signo lingüístico, enquanto ingrediente principal do discurso é lacônico e subserviente, como no exemplo:


digo, Regula, que tú habrás de atender al portón, como antaño, y quitar la tranca así que sientas el coche, que ya te sabes que ni la Señora, ni el señorito Iván avisan y no les gusta esperar,

y la Régula,

ae, a mandar, don Pedro, para eso estamos,

y don Pedro,

de amanecida soltarás los pavos y rascarás los aseladeros, [..]

y la Régula,

ae, a mandar, don Pedro, para eso estamos,

(LSI, 1981 p.44).


A concisão ou interdição da linguagem se dá, podemos assim dizer, no plano do significante, mas não no do significado, quando consideramos que, no âmbito intra-mental, este camponês tem plena consciência de suas agruras, não as manifestando em função das imposições do meio. Assim, quando Régula acata docilmente as determinações de Pedro, expressa a consciência plena da submissão secular, materializada no significante “ae, a mandar, don Pedro, para eso estamos,”. Do mesmo modo, a fluência e as ameaças implícitas, presentes na fala de Pedro, representam o contraponto do discurso do poder em relação à passividade discursiva do oprimido, mais ou menos naquela perspectiva do ditado popular do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. E “quem pode”, evidentemente, tem o dom do discurso completo e escorreito.

Neste contexto, somente uma personagem tida como desajustada socialmente, imune ao vassalismo consubstanciado em séculos poderia romper as convenções de submissão histórica para restaurar algum laivo de justiça e essa personagem vem a ser Azarías. Movido pela angústia da perda de sua milana, perpetra a vingança contra aquele que lhe tirou o seu bem mais precioso, o señorito Iván, representante cabal do discurso opressor. Se, por um lado, observamos em Régula, como citado anteriormente, uma aceitação tácita da hierarquia secular a reger os estratos sociais da Espanha, por outro, notamos a quebra desta mesma hierarquia com o ato extremo de insubmissão praticado por Azarías, só possível a uma personagem inocente e considerada louca. Neste ponto, reiteramos a observação do emprego de um recurso narrativo, corrente na literatura, e porque não dizer, nas artes em geral, de lançar mão de personagens alienadas, inocentes e loucas para instaurar alguma forma de justiça.

Em Videiras de cristal, além do destaque à inserção da matéria de extração histórica na linguagem ficcional, observamos a presença de personagens densas em um contexto opressor similar, permeado pelo evento histórico do messianismo dos muckers, palavra alemã, usada em tom pejorativo pelos opositores à seita de Jacobina Maurer, que significa “santarrões”.

O redimensionamento de fatos da realidade empírica, no plano da ficção, notadamente quando pensamos nas personagens, merece nossa atenção especifica, principalmente porque, da mesma forma que o romance de Miguel Delibes, Assis Brasil lança mão de um inocente, só que esta personagem alienada, ao invés de funcionar como meio de restabelecimento de uma suposta justiça, é o instrumento de consolidação da matéria narrada, transformando-se em um eixo fundamental à narrativa.

Notamos, em linhas gerais, que Assis Brasil, ao utilizar-se de um modelo narrativo realista, de certa maneira revela uma intenção de parodiar este mesmo modelo, pois, conforme Hutcheon (1991, p. 22) “a metaficção historiográfica [...] sempre atua dentro das convenções a fim de subvertê-las.” E completa a autora, “Em certo sentido, a paródia é uma forma pós-moderna perfeita, pois, paradoxalmente, incorpora e desafia aquilo que parodia.” (ibid., p.28). Observamos tal procedimento principalmente na pulverização do narrador-onisciente, típico do modelo tradicional e que é completamente fragmentado em Videiras de cristal, fato que, de alguma forma, o insere no rol daquilo que poderíamos chamar de texto pós-moderno, conforme, Esteves (2008, p. 63):

Dentro dos princípios da pós-modernidade, o romance histórico contemporâneo rompe com as grandes narrativas totalizadoras, [...]. O narrador, sabendo-se voz de tantas outras vozes, apresenta uma ou mais versões da história. Coerente com a globalização que rompeu as fronteiras tradicionais e estilhaçou as formas clássicas de relações econômicas e sociais, esse narrador faz desaparecer as fronteiras espaciais e, principalmente, as temporais [...].

Em Videiras de cristal, além do narrador onisciente, nos moldes tradicionais da narrativa, encontramos outras vozes, notadamente o narrador-personagem, Christian Fischer cuja voz narrativa é apresentada através do emprego do gênero epistolar – uma marca a evidenciar a permeabilidade dos gêneros na narrativa de Assis Brasil. O relato de Christian é feito em forma de cartas ao tio, Hans Willibald Genz, que vive na Alemanha. Na sua duplicidade de funções, ao mesmo tempo em que participa da ação, na qualidade de personagem, também é um narrador de 1ª pessoa, aliás, extremamente irônico, como no exemplo que se segue:


É evidente que não fui a Porto Alegre com a intenção de visitar von Koseritz. Procurei-o com um objetivo bem definido, para o qual ele não me deixava nenhum momento. É possível que o socialismo tenha algumas virtudes, mas os socialistas poderiam ser menos ardorosos e deixar os outros falarem.

...............................................................................................


À noite, uma sessão do Partenon Literário, uma espécie de academia de letras da qual von Koseritz faz parte. Apresentou-me vários cavalheiros, a intelectualidade da Província. Quase todos têm o mesmo aspecto insone e usam gordura nos cabelos expressando-se por imagens: - “Muito prazer em conhecer este representante do Walhala germânico”.

(VC, 1994, p. 238).

Como notamos, Christian é um narrador que permeia o relato com impressões subjetivas marcadas pela ironia, fato, aliás, justificado no próprio delineamento desta personagem ambígua, construída de forma peculiar, pois, ao mesmo tempo em que mantém um distanciamento crítico em relação ao universo conflituoso da colônia alemã, gradativamente toma o partido de um dos lados da contenda, sem perder sua postura glacial.

Videiras de cristal é uma narrativa de extração histórica que trata do conflito ocorrido na colônia alemã do Padre Eterno, atual município de Sapiranga, na região de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, de 1872 a 1874.. Foi um evento messiânico, liderado por Jacobina Maurer, que se intitulava um “Novo Cristo”, provocando dissensões no seio da colônia que culminaram com a intervenção do Exército, resultando disso, uma verdadeira carnificina.

Los santos inocentes, por sua vez, é um romance ambientado no campo espanhol, aparentemente de natureza estritamente ficcional, mas que, de forma subjacente, revela matéria de natureza histórica, notadamente pela presença de índices significativos do injusto universo social espanhol, secular, e pela “onipresença implícita” da personalidade histórica do ditador Franco, como uma espécie de sombra a acentuar o contexto opressor em que se dá o relato.

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