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C. G. Jung: a prática da psicoterapia


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C.G.JUNG: A PRÁTICA DA PSICOTERAPIA
Palestra proferida no Instituto Reichiano –eventos comemorativos de 10 anos.

Renata Cunha Wenth

- agosto 2000 -

O título de nossa conversa é o do volume 16 das Obras Completas de Jung, onde encontramos textos sobre psicoterapia e sua prática , transferência, sonhos.

Aquilo que se delineia como psicoterapia está em intrinseca relação com os construtos teóricos de cada autor dentro da psicologia. Desta forma teremos diferentes teorias acerca da prática da psicoterapia, e como diz Jung1, não nos cabe julgar qual seria a melhor e sim aceitarmos que existe “público” para cada uma delas. Já que cada autor define a psique a partir de seus próprios e singulares pressupostos.

Meu intuito com vocês é passar um pouco daquilo que Jung coloca como sendo a psicoterapia, assim como de outros autores junguianos. E, também um pouco de minha prática já que trabalho como analista. Tentei agrupar principais temas relacionados à psicoterapia, como: sua definição, método, objetivos, transferência, mútuas transforma-ções, análise didática, supervisão, formação e mitologia.




  • DEFINIÇÃO

No primeiro parágrafo deste volume Jung define a psicoterapia da seguinte forma:


“[...]se trata de um tipo de procedimento dialético, isto é,

de um diálogo ou discussão entre duas pessoas.[...]A pes-

soa é um sistema psíquico, que, atuando, sobre outra pes-

soa, entra em interação com outro sistema psíquico.[...]

a interação psíquica nada mais é do que a relação de troca

entre dois sistemas psíquicos.”2


Esta definição de psicoterapia, como Jung começa a refletir nos parágrafos seguintes a esse, nos conduz ,como veremos, a uma impossibilidade de um método formatado acerca do que seria a psicoterapia, seus objetivos e talvez dificuldades.

Afinal é esta uma relação de troca e contém toda a sua individualidade! Jung não se cansava de dizer que cada caso é uma nova teoria3.

Porém a psicologia é uma ciência e para tanto precisa possuir “afirmações de validade universal”: existem partes nesse “sistema psíquico” que podem ser comparadas, que mostram as semelhanças entre os seres humanos. Saímos neste ponto de um subjetismo.

Como Jung diz: a individualidade é apenas relativa, isto é, apenas complementa a conformidade ou a semelhança entre os homens.”4

Sendo este o paradoxo da teoria junguiana: somos individuais e coletivos ao mesmo tempo, somos únicos e semelhantes uns aos outros. Para quem conhece um pouco da teoria é o amálgama entre a psique objetiva/coletiva e a psique subjetiva/pessoal, muitas vezes de difícil compreensão.

A análise torna-se objetiva a partir do momento em que sabe-se reconhecer a psique objetiva e essa é tarefa do analista, um conhecimento, uma vivência inclusive em si do que é ,digamos, humano. Como bem coloca Hillman:

“[...] O que torna a análise objetiva e oferece a oportunidade

para uma ciência da alma é exatamente o aspecto objetivo

e coletivo da alma. Este aspecto, a alma o tem em comum

com os outros e aparece na capacidade de conceber, ima-

ginar, comportar-se e ser tocada, de acordo com metáforas

fundamentais que Jung chamou de padrões arquetípicos.”5

Ou seja, a análise nada pode afirmar sobre a individualidade do outro, com o Outro somente (isso é muito e é difícil!!!!) podemos nos relacionar; por isso o procedimento dialético. E, enquanto analistas, o que ao outro oferecemos é o efeito que seu “sistema psíquico” em nossos “sistemas psíquicos” provoca.6

A partir desta visão o conceito daquilo que é uma psicoterapia e seus possíveis efeitos terapêuticos, se modificam. Saímos de um modelo médico, onde o paciente vai fornecendo ao analista dados e este os vai compilando para depois fornecer diagnóstico, prognóstico e tratamento – um modelo onde o analista participaria apenas com seu “saber”. Obviamente a análise compõe um pouco disso, como diz Jung7, muitas vezes é a análise educativa, muitas vezes a própria confissão de algo já ajuda; porém uma profunda transformação somente se processa a partir da relação verdadeira entre analista e paciente.Obviamente com um analista qualificado para tal.




  • MÉTODO/TÉCNICAS

Muito mais forte do que suas frágeis palavras é a coisa que



você é. O paciente é impregnado pelo que você é – pelo seu

ser real – e presta pouca atenção ao que você diz.”8
Como já vimos, torna-se difícil e quase que impossível estabelecer um “método” jun-

guiano específico, com regras pré-estabelecidas. Seria ir contra a sua definição de análise como um sistema dialético, uma relação única. Porém, nada nos impede de ver esta forma

de funcionar, ou seja, considerar, por exemplo, cada caso como único, como o seu “método”. De certa forma, o seu método seria procedimento dialético, no mínimo , perseguí-lo, obviamente levando-se em consideração a especificidade de cada caso.

No que tange às técnicas, reportamo-nos novamente à sua definição de psicoterapia: as técnicas podem estar a serviço de não promover o procedimento dialético, o encontro analítico.Sendo utilizadas defensivamente por um analista inseguro, temeroso de uma relação verdadeira.

*

[...]A Psicoterapia como um laboratório de imagens



conduzido pela habilidade artesanal de um psicotera-

peuta e por sua capacidade de gerar imagens”9

Ao mesmo tempo, a análise junguiana propõe a análise dos sonhos, a imaginação ativa,o trabalho com a caixa de areia. Não como técnicas vazias, sendo utilizadas somente pelo analista e sim favorecendo a relação analítica e necessitando da participação do paciente. Inclusive lida-se com algo já produzido pelo paciente: seu sonho, sua fantasia – suas imagens.

“[...] O meu esforço consiste justamente em fantasiar junto com o paciente.

Pois não é pouca importância que dou à fantasia.[...] Toda obra humana é

fruto da fantasia criativa.[...] A fantasia não erra , porque a sua ligação com

a base instintual humana e animal é por demais profunda e íntima.[...] O po-

der da imaginação, com sua atividade criativa, liberta o homem da prisão da

sua pequenez, do ser “só isso”, e o eleva ao estado lúdico. [...] O que viso é

produzir algo de eficaz, é produzir um estado psíquico, em que meu paciente

comece a fazer experiências com seu ser, um ser em que nada mais é definitivo

nem irremediavelmente petrificado; é produzir um estado de fluidez, de trans-

formação e de vir a ser.”10

Ou seja, “cai por terra” aquela imagem de um analista detentor do saber, repleto de instrumentais e respostas para o paciente. As “respostas”vem de dentro, da produção psíquica do paciente. Se é que existem métodos e técnicas, sempre estão apoiados na relação que se estabelece com cada paciente: “A personalidade do doente exige a presença da personalidade do médico e não artifícios técnicos.”11

Isto porque a técnica pressupõe uma suposta igualdade de personalidades e isto é impossível, além do que pressupõe que poderíamos tratar somente a parte “doente” da personalidade, tal qual tratarmos apenas o fígado doente. Na realidade lidamos com uma pessoa que não está bem como um todo, é toda a personalidade dela que está em jogo e , portanto, toda a sua individualidade.

“Muitas vezes me perguntaram qual era meu método psicoterapêutico ou analítico;

não posso oferecer uma resposta unívoca. Cada caso exige uma terapia diferente.

Quando um médico me diz que “obedece” estritamente a este ou àquele “método”,

duvido de seus resultados psicoterapêuticos.[...] As psicoterapias e as análises são

tão diversas quanto os indivíduos. Trato cada doente tão individualmente quanto

possível, pois a solução do problema é sempre pessoal.[...]Uma solução falsa para

mim pode ser justamente a verdadeira para outra pessoa.[...] Cada doente exige o

emprego de uma linguagem diversa. Assim, numa análise, posso falar uma linguagem

adleriana, em outra, uma linguagem freudiana.”12

.
“A técnica é sempre um esquema sem alma e quem considera a psicoterapia como

simples técnica corre, no mínimo, o perigo de cometer erros irreparáveis. Um mé-

dico consciencioso deve ser capaz de duvidar de todas as suas técnicas e teorias,

caso contrário cai nas malhas do esquema. Mas, esquema significa estupidez e

inumanidade.”13


“Inclusive é indiferente qual técnica emprega; o importante não é a “técnica”,

mas a pessoa que usa determinado método.”14

“[...] Todo psicoterapeuta não só tem o seu método: ele próprio é esse método.

“Ars totum requirit hominem” diz um velho mestre. O grande fator de cura, na

psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada “a priori”; con-

quista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias

são inevitáveis, mas não passam de meios auxiliares.”15


-Participação do analista:
O dialético age como uma parteira, dizia Sócrates,

que inventou o método. Sua presença ajuda o pa-

ciente a dar à luz a nova vida que brota de si mes-

mo. O analista intensifica um processo que é fun-

damentalmente do próprio analisando.”16
Isto já é popularmente reconhecido: o analista junguiano “fala”. Em geral utiliza-se de duas poltronas, uma de frente para a outra. Face to face. Se o analista junguiano observa, o paciente também o observa, inclusive como a ele reage.
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