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Agricultores familiares e pluriatividade: tipologias e políticas maria José Carneiro


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Uma proposta alternativa
A reconhecida heterogeneidade dos agricultores familiares a que nos referimos acima, tem sido constatada também em documentos oficiais do governo federal, o que é mais uma evidência de que elaborar uma tipologia para essa categoria ampla e genérica não é tarefa simples; implica assumir, previamente, uma posição metodológica o que, por sua vez, exige a revisão de algumas premissas aceitas de maneira naturalizada como verdades inquestionáveis.
Em um esforço de síntese, indicaremos a seguir algumas premissas que orientam a nossa abordagem da noção de agricultura familiar.
1. Os agricultores familiares não constituem um grupo social homogêneo. Não correspondem, portanto, a uma classe social mas incluem uma diversidade social produzida pelas diferentes condições de produção a que estão submetidos, tais como: tamanho da propriedade, grau de emprego de técnicos agrícolas, acesso a créditos; capital cultural [valores, saberes, tradição] e social [número e sexo dos filhos, rede de relações sociais...] disponível; relação com o mercado (Lamarche, 1993).
2. Agricultura familiar não é sinônimo de trabalho familiar. O que distingue a maioria das formas sociais de produção como familiar é o papel preponderante da família como estrutura fundamental de organização da reprodução social através da formulação de estratégia (conscientes ou não) familiares e individuais que remetem diretamente à transmissão do patrimônio material e cultural (a herança) e à transmissão da exploração agrícola (a sucessão). No entanto, não são raras as unidades de produção agrícola sustentadas exclusivamente pelo trabalho do casal ou por apenas 1 dos membros do casal. A autonomização dos membros da família em relação ao mercado de trabalho é uma tendência confirmada em diversos países da Europa, na França sobretudo, e que vem se afirmando também no Brasil. No entanto, o grau de decomposição da unidade de produção familiar é variável.

.3. A forma de exploração agrícola familiar pressupõe uma unidade de produção onde propriedade e trabalho estão intimamente ligados à família. Como já foi apontado acima, essa identidade entre propriedade-trabalho-família não pode ser confundida com a identidade dos grupos formados pelo parentesco e pela produção. Eles se articulam, através de princípios oriundos da organização familiar, mas a lógica das relações sociais em uma esfera do social (a do parentesco, por exemplo) não pode ser reduzida à da outra, assim como a composição do grupo de trabalho não corresponde à composição do grupo familiar.


4. Por diversas razões, a agricultura, em algumas regiões do país, vem se tornando apenas um dos componentes da economia familiar, ainda que as estruturas da produção agrícola (propriedade da terra e dos meios de produção) permaneçam ligadas ao núcleo familiar. No Estado do Rio de Janeiro e em algumas áreas do Estado de São Paulo, por exemplo, as famílias rurais estão cada vez menos agrícolas no que diz respeito às atividades desempenhadas por seus membros.
5. O ressurgimento do recurso a práticas não-agrícolas integradas à agricultura familiar é um fenômeno que tanto pode apontar para uma contradição entre a individualização da força de trabalho e o caráter coletivo da economia familiar como pode acarretar o resgate de laços de solidariedade intrafamiliares que se revelam fundamentais para a combinação do trabalho individual com os interesses coletivos representados pela família e expressos na unidade de produção familiar.
6. O caráter familiar de produção não pode ser reduzido à utilização de mão-de-obra familiar. O recurso à contratação do trabalho assalariado externo e o assalariamento de membros da unidade familiar fora do estabelecimento não são suficientes para afirmarmos a decomposição do caráter familiar da unidade de produção. A total separação entre família e unidade de produção ocorreria quando as contradições entre o individual e o coletivo resultassem na preponderância do primeiro sobre o segundo, ou seja, quando fosse rompido o comprometimento do indivíduo com os interesses da propriedade e da exploração econômica que nela se realiza levando à fragmentação da propriedade e à extinção dos laços valorativos ("valor família") que identificam a família à propriedade - quando a terra passaria a ter valor somente como mercadoria.
7. Em termos conceituais, para ser mantido o caráter familiar da produção exige-se a presença de, ao menos, um membro da família que combine as atividades de administrador da produção e de trabalhador. Normalmente, mas nem sempre, esse personagem ocupa as posições de chefe da família e chefe da unidade produtiva, integrando, de um lado, o parentesco ao trabalho e à propriedade e, de outro, a produção ao consumo. No entanto, a necessidade de se distinguir a agricultura familiar da agricultura patronal, resulta na necessidade de se delimitar o número máximo de trabalhadores externos, assalariados, que comporta uma unidade de produção para se manter dentro da classificação de "familiar". Ainda que conscientes, pelo exposto acima, da arbitrariedade desse critério, consideramos que, politicamente, o apoio financeiro ao agricultor familiar deve privilegiar aquele que não emprega mão-de-obra assalariada em caráter permanente. No entanto, tendo em vista a diversidade regional, e a intensificação do processo de individuação dentro da família, com a conseqüente transformação da família em unidade de rendimento - onde a gestão da unidade produtiva seria individualizada -, é prudente incluir no público do Pronaf, famílias com um trabalhador contratado em caráter permanente7
8. O trabalho extra-agrícola executado por um ou vários membros da unidade familiar pode desempenhar diferentes funções, de acordo com a lógica da dinâmica de reprodução social da unidade familiar. A renda dele obtida tanto pode servir como complemento que reforça e garante a reprodução da exploração agrícola como pode indicar uma estratégia de secundarização da atividade agrícola na reprodução social. É importante ter em mente que essas situações, muitas vezes, são conjunturais podendo se transformar, de acordo com mudanças, nas condições de produção ,agrícola e no ciclo de vida doméstico. O recurso ao trabalho não-agrícola não indica, por si só, a falência da atividade agrícola mas aponta para a plasticidade dessa forma de produção familiar que não se enquadra nem nos moldes do agricultor-empresário de ponta nem no padrão da chamada agricultura "tradicional". É justamente o caráter familiar dessa forma de produção que lhe dá maior capacidade de resistir a situações críticas possibilitando a seus membros usufruir das condições favoráveis do mercado de trabalho ou retomar a atividade agrícola em momentos de crise de desemprego.
9. A compreensão da situação da unidade de produção familiar não pode ficar restrita à dinâmica econômica (produtividade, rentabilidade, competitividade....). O significado dos próprios fatores econômicos pode ser dado por outras esferas do social já que a produção não ocorre em um vazio social, nem se resume a uma atividade isolada. A interdependência das esferas sociais se traduz em uma multiplicidade de significados das relações sociais que deve ser levada em conta na tentativa de se elaborar políticas voltadas para a ampliação da cidadania e à melhoria das condições de vida. Nesses termos o conteúdo das relações familiares na agricultura não pode ser generalizado como uma realidade naturalizada.


  1. Alternativa metodológica: no lugar de centrarmos a análise na família como unidade de produção, o que a restringe aos aspectos técnicos e econômicos do processo produtivo, devemos eleger como unidade de observação (e de intervenção) a família como unidade social, isto é que administra a reprodução social de seus membros em situações materiais e culturais distintas. É necessário, portanto, levar em conta os aspectos culturais e o caráter, simbólico embutidos nas práticas sociais no interior do grupo familiar, conforme justificamos acima.


Uma tipologia possível
Reconhecendo os limites de uma tipologia, é necessário que comecemos por eleger os critérios que mais se adaptem aos usos da classificação: os objetivos a que se propõe e os interesses político-ideológicos. Nesses termos, se quisermos elaborar instrumentos para ampliar a categoria dos beneficiados pela política pública no sentido de incluir o maior número possível daqueles que historicamente permaneceram à margem do processo de produção de riquezas, devemos privilegiar aqueles que se encontram em situação de reprodução física e social ameaçada.
Rompendo com a abordagem morfológica propõe-se construir uma tipologia voltada para a análise dos processos sociais, centrada na identificação da lógica de reprodução social e nas diferentes estratégias sociais implícitas. Trata-se, portanto, de incorporar a idéia de dinâmica no exercício classificatório, tentando captar muito mais as tendências que situações cristalizadas. Dessa perspectiva, deve-se dimensionar as potencialidades das unidades familiares quanto a sua inversão diferenciada no mercado, o que deve ser resultado de estudos empíricos regionalizados e centrados em dados qualitativos. A partir daí é possível selecionar as categorias que serão privilegiadas por uma política de apoio à agricultura familiar pautada na inclusão de um maior número possível de unidades e na melhoria da qualidade de vida dessas famílias para, então, formular projetos que se adeqüem às necessidades e potencialidades específicas de cada categoria de produtor.8
AIguns autores têm entendido a pluriatividade como um produto da contradição gerada-pelo progresso técnico cuja mecanização transformou a atividade agrícola numa atividade individual, exercida pelo chefe, descaracterizando as unidades produtivas que deixariam de ser engajadas exclusivamente na agricultura (Lacombe, 1984).
Contrapondo a esse tipo de interpretação, sugerimos que o esforço classificatório dos agricultores familiares deva levar em conta dois fatores: a tradição cultural, ou seja, a identidade com a terra e com a agricultura (o saber e os valores) e a trajetória das unidades familiares. A análise desses fatores possibilitará identificar a tendência ascendente ou descendente da trajetória familiar, e portanto as suas potencialidades, e o peso que a atividade agrícola desempenha nessa trajetória - já que o objetivo da política é estimular a agricultura familiar -, seja qual for a categoria de agricultor familiar em que a família se enquadre.
Recuperando nossa postulação inicial sobre a pluriatividade como articulação de atividades não-agrícolas na dinâmica da agricultura familiar, cumpre então, em primeiro lugar, reconhecer uma agricultura familiar "pluriativa" e outra "não-pluriativa", ou seja, exclusivamente agrícola9. Entre as do segundo tipo encontram-se as formas sociais que dedicam-se tanto à monocultura como à policultura; produtores totalmente integrados aos mercados agrícolas, como também aqueles que combinam a produção de autoconsumo com a produção mercantil. As formas exclusivamente agrícolas, nesse sentido, podem apresentar situações de sucesso como de insucesso econômico e níveis diferenciados de bem estar social e cultural. Além disso, a vivência do sucesso econômico não significa, necessariamente, a vivência de bem estar social e cultural, como pode ser o caso de um sucesso econômico, medido em termos de incremento de produtividade e renda, mas que esteja acompanhado de uma intensificação da exploração da força de trabalho ou da destituição de laços de solidariedade e da desestruturação familiar.10 Todas essas formas podem ser enquadradas na categoria genérica de “verdadeiro agricultor", não no sentido de terem "sucesso econômico" ou de serem "profissionais" mas no sentido de terem sua reprodução social - econômica e cultural - garantida pela produção agrícola.
As unidades pluriativas, por sua vez, também podem vivenciar situações de sucesso ou de -insucesso econômico associadas a padrões diferenciados de bem estar social e de integração aos mercados (agrícolas e não agrícolas). Da mesma maneira que as de outro tipo, nessas formas pluriativas a atividade agrícola pode se aproximar tanto da monocultura como da policultura. O que é importante reconhecer, nesses,.casos, é que, seja por razões de ordem econômica, cultural ou ambas, a reprodução social incorpora atividades de setores distintos da economia, conformando o que alguns de nós temos denominado de "nova ruralidade" ou de "novo rural".
Introduzimos, assim, um critério de classificação que associa uma performance econômica (sucesso ou insucesso em termos de produtividade) - mais impessoal, de aferição provida pelo mercado - e uma performance cultural-psicológica (graus diferenciados de bem estar) - mais pessoal, de aferição provida por valores priorizados pelos indivíduos e famílias, ou ainda pelos valores locais e regionais.
Construir classificações e tipologias que envolvam estes dois elementos constitutivos implica reconhecer a obrigatoriedade de incorporar análises qualitativas às análises quantitativas. No que diz respeito à combinação de atividades não-agrícolas à agricultura familiar, somente uma análise qualitativa poderá oferecer elementos para respondermos a questão do lugar da pluriatividade na dinâmica das unidades familiares na agricultura. Nesse sentido é importante destacar que as categorias "atividade não agrícola" e "pluriatividade" exprimem uma ampla diversidade de possíveis inserções nos mercados - comércio, prestação de serviços diversos, turismo, manufaturas, artesanatos, transformações agroindustriais etc - que assumem significados distintos nas trajetórias familiares, impossíveis de serem homogeneizados simplesmente pela sua magnitude econômica, como por exemplo, 20 % da renda familiar. As diferentes implicações do recurso a práticas não-agrícolas podem expressar trajetórias sociais, culturais e econômicas variadas que afetam, de forma diferenciada, as dinâmicas das formas sociais da agricultura familiar com efeitos sobre seus padrões de bem estar social e cultural.
Caberia perguntar sobre os elementos propulsores da pluriati idade.11 Sem dúvida, a queda da renda agrícola tem sido apontada como um desses elementos, no entanto, é também verdade que este fenômeno é bem mais ampIo do que o exercício da pluriatividade. Em outras palavras, a insuficiência da renda oriunda da agricultura atinge um contingente de agricultores muito maior que aqueles que recorrem à pluriatividade. Logo, a questão permanece: o que faz como que alguns se tomem (mesmo temporariamente) pluriativos e outros não? É nesse aspecto que a tradição cultural, o saber fazer, a rede de sociabilidade - enfim, o patrimônio cultural - se colocam como elemento definidor do recurso às práticas não-agrícolas. As estratégias familiares vão depender, além do capital econômico disponível - e, obviamente, das condições do mercado (de trabalho, sobretudo) - do patrimônio familiar, ou seja, das capacidades (individuais e coletivas) existentes para enfrentar a situação de queda do rendimento familiar e, então, inovar ou reinventar a tradição.
Por outro lado, é necessário considerar também que, nem sempre, as estratégias familiares são formuladas visando responder exclusivamente a determinações de ordem econômica. Por exemplo, o esforço de manutenção de uma unidade produtiva agrícola que é reconhecidamente inviável em termos econômicos, pode mobilizar estratégias familiares (pluriativas) motivadas pelo valor cultural expresso no patrimônio territorial e na atividade agrícola. Mas, é importante ter em mente que a dinâmica interna da unidade familiar agrícola não se realiza em um ambiente "harmonioso" onde o "bem coletivo" se impõe ao individual. Essa dinâmica é resultado de um jogo de disputas e de negociações que, não raro, resultam em conflitos e tensões que expressam as contradições cada vez mais presentes entre a individualização crescente no interior da família e os interesses poderes familiares. Nesse contexto, é importante avaliar os efeitos desse processo na transformação da unidade produtiva em unidade de rendimento e de conservação do patrimônio.
A tendência à individualização do processo de produção agrícola introduzida pela mecanização e pela combinação da atividade agrícola com outras fontes de renda é marcante em vários paises da Europa. No caso brasileiro, contudo, cabe um esforço de levantamento de dados qualitativos que nos permita dimensionar e qualificar o caráter dessa "individualização". Pois, experiências de campo pessoais nos indicam que os laços familiares no Brasil são muito mais fortes e presentes do que na França, por exemplo, fazendo com que grande parte dos familiares disponíveis sejam acionados em determinadas fases do processo produtivo, mesmo em famílias onde a responsabilidade sobre a produção recai sobre apenas um membro. É o caráter familiar da produção, ai fortemente presente, que permite acionar irmãos que já migraram para a cidade, noras e até mesmo suas empregadas domésticas, num esforço "coletivo" de dar conta das necessidades de mão-de-obra em determinadas fases do processo de produção. É o caráter familiar da propriedade e da produção que define esse trabalho como "ajuda" e permite lhe atribuir um sentido de remuneração distinto da do mercado. O número de trabalhadores sazonais empregados pelas unidades de produção, assim "individualizadas", vai depender justamente da dimensão dessa "ajuda" familiar.
Após essas considerações sobre a possibilidade de distinguir modos de conduzir a agricultura mas que não definem categorias de agricultores, nos, arriscamos, cientes de todos os limites inerentes a uma tipologia genérica, a propor dois cantinhos de classificação, como ponto de partida para estudos de detalhamento futuros.
Começaremos pela classificação das unidades familiares agrícolas segundo os princípios que orientam sua reprodução social. Caracterizando-se pela íntima relação entre trabalho, terra e família, a distinção entre elas repousa sobre a maneira específica de combinar as alternativas colocadas à disposição, pelo contexto sócio-econômico (condições extra-familiares) e pelo campo de possibilidades (condições internas à família) específicos para realizarem suas escolhas e formularem suas estratégias particulares.
Seguindo esse recorte é possível reconhecer as seguintes categorias12
1. Família agrícola de caráter empresarial (ou o chamado, "verdadeiro agricultor"): cuja lógica de reprodução social é determinada pela realização de uma produção orientada para o mercado, obedecendo à satisfação de índices de rentabilidade e de produtividade crescentes; caracterizar-se por uma conjunção de fatores econômicos, técnicos e uma situação patrimonial (e social) favorável à rentabilização da exploração. Esses agricultores, beneficiados por uma situação favorável no passado (capital patrimonial herdado, acesso a saberes técnicos específicos, condições físicas de produção etc...) lograram implementar trajetórias ascendentes pautadas no padrão hegemônico de modernização agrícola.13

2. A família camponesa14: cuja lógica da atividade agrícola não é dada, em termos de prioridade, pela busca de taxa de Produtividade e de rentabilidade crescentes mas pelo esforço de manter a família em determinadas condições culturais e sociais, isto é, a manutenção da propriedade familiar e da exploração agrícola. A família é um valor que se impõe à produção embora seja indissociável da propriedade e da exploração agrícola. A multiplicidade de estratégias individuais e familiares deriva das fracas condições de produção: recorre-se a vários meios para manter a unidade de produção e garantir a reprodução social estruturalmente ameaçada. O esforço de preservação do patrimônio territorial familiar se confunde, aqui,.com o exercício da atividade agrícola ainda que esta, em muitos casos, não seja mais suficiente para a manutenção do grupo familiar.


3. A família agrícola "rurbana": não se orienta prioritariamente pelos padrões produtivistas mas também se distingue da "família camponesa" apesar de resgatar alguns de seus valores e de expressar um forte vínculo com uma localidade particular. Esse modelo de família rural repousa sobre um sistema de valores próprios (em elaboração) que orienta a produção agrícola, não em função do lucro e da produtividade crescentes, mas para a melhoria da qualidade de vida, sem deixar de considerar a realidade do mercado e, obviamente a capacidade de retomo em termos de rendimento. A diversificação da produção e das fontes de renda - o recurso à pluriatividacie - são características dessa tipo de agricultura familiar. A identidade entre família e unidade de produção, típica do modelo produtivista e da família camponesa, é colocada em xeque com a prática de atividades não-agrícolats inaugurando um movimento contraditório onde a indlvidualização da força de trabalho convive com o caráter unitário da economia doméstica. Essa nova forma de unidade familiar de produção agrícola se caracterizaria não mais pela organização coletiva (familiar) do trabalho e do consumo, mas pela capacidade de gerar coletivamente o capital econômico, social e cultural visando a reprodução biológica e social dos indivíduos. Essa categoria de família rural estaria sendo engendrada pelos novos processos sociais no campo caracterizados pela diversificação das atividades econômicas e pela incapacidade da agricultura em prover renda suficiente para essas famílias se manterem em condições dignas de vida (Graziano da Silva e Del Grossí, 1998). Em se tratando de uma categoria em formação e da atualidade dos processos sociais que a engendram, a sua definição carece de estudos mais aprofundados.
Como colocamos acima, a pluriatividade é uma possibilidade que se apresenta para qualquer das categorias acima, mas sendo menos provável de ser exercida pelo chamado "verdadeiro agricultor". Sendo assim, é impossível distinguir um tipo de família simplesmente pelo recurso à atividade nâo agrícola ou pelo tempo de trabalho dedicado à agricultura. Restaria identificar e compreender o significado (e o peso) das práticas não-agrícolas nas estratégias reprodutivas de cada tipo de família no sentido de reconhecer a tendêrtcia de sua trajetória futura em relação à agricultura e às demais opções de renda, o que exigiria um aprofundamento qualitativo da análise dessas famílias.
Afora essas categorias de agricultores familiares reconhece-se outros tipos de famílias rurais relacionadas à propriedade mas cujo tratbalho não é familiar e nem sempre pautado pela atividade agrícola. Entre eles destacam-se os chamados neo-rurais que, desenvolvendo atividades produtivas agrícolas ou não, caracterizam-se pela ausência de uma tradição assentada na atividade agrícola, pelo caráter essencialmente mercantil da exploração econômica da propriedade (produtiva ou de serviço) e pelo recurso à mão-de-obra assalariada, assumindo o proprietário a posição de mero administrador da produção (Giulianni, 1990).
Destacam-se ainda os recém-assentados rurais de oriqern urbana, para quem a relação com a terra é uma alternativa às restrições do mercado de trabalho urbano onde a baixa remuneração da mão-de-obra desqualificada e o crescente custo da reprodução social na cidade impulsionaram a migração cidade-campo como uma alternativa às limitações impostas à sobrevivência na cidade (Alentejano, 1997).
Para cada uma dessas categorias é possível estabelecer uma outra classificação baseada nas estratégias familiares associadas a graus diferenciados de compromisso com a atividade agrícola e com o patrimônio familiar podendo-se reconhecer trajetórias ascendentes ou descendentes. Entre essas estratégias destacam-se basicamente dois tipos: as que investem na manutenção da atividade principal agrícola e as que tendem a diminuir o peso da atividade agrícola na renda familiar reorientando o uso da propriedade e da mão-deobra familiar para outros setores. Em cada uma delas a atividade não-agrícola vai responder a necessidades distintas.
Entre as que tendem a secundarizar a atividade agrícola em função da implementação de atividades não-agrícolas podemos distinguir, basicamente, três estratégias:
1. Com a desvalorização da produção agrícola, a propriedade familiar é mantida seja como reserva de valor ou como bem simbólico associado à família, sem que a produção nela desenvolvida seja suficiente para manter os membros do grupo doméstico. A pluriatividade permite preservar o funcionamento da exploração agrícola mesmo que esta não reverta em benefícios econômicos imediatos para a família. Seja pela área reduzida da propriedade, seja pela ausência de meios para intensificar a produção agrícola, a atividade agrícola é secundarizada. A motivação ideológica para manter a exploração agrícola está, normalmente, associada ao interesse em preservar o patrimônio familiar e uma identidade social sustentada na utilização agrícola desse patrimônio, na maioria das vezes identificado à figura do pai que é mantido na agricultura graças à ajuda financeira de filhos que já se estabeleceram em outros setores.
A partir de uma maior interação com valores urbanos decorrentes da unificação dos mercados econômico e simbólico, uma nova transformação do sistema de referência do mundo rural se produz. A inserção individual crescente no mercado de trabalho e a intensificação da subordinação da família rural à sociedade industrial, neutraliza o papel da família como instância privilegiada de mediação entre o indivíduo e a sociedade abrindo espaço para estratégias concorrentes e antagônicas entre indivíduo e família, acelerando o processo de individuação no interior da família e a transformação definitiva da terra em mercadoria. Assim, em situações em que atividade agrícola é meramente residual e tem a função social de manter a residência e a ocupação de membros da geração mais velha, a tendência é de abandono da atividade produtiva após a morte dos pais acarretando a fragmentação da propriedade familiar acompanhada normalmente de mudanças nas regras de transmissão da propriedade: a herança cede lugar a transações de compra e venda entre os herdeiros. Observa-se a ruptura dos laços entre família, propriedade e trabalho com a conseqüente perda da identificação da propriedade à exploração agrícola, abrindo-se espaço para novas utilizações do patrimônio fundiário e para a elaboração de novas identidades sociais no meio rural.
2. Investir na formação educacional dos filhos visando ampliar sua capacidade de inserção no mercado de trabalho, pode ser uma outra estratégia que mobilize a família agrícola a desativar ou secundarizar a produção agrícola buscando novas alternativas de,renda. Privilegiar a formação profissional dos filhos longe do meio agrícola pode ser uma opção que se insira numa trajetória de abandono, a curto termo, da propriedade como unidade de produção agrícola. Essa estratégia atinge particularmente os jovens que, liberados da responsabilidade de manter o funcionamento da unidade de produção, podem alcançar níveis de escolarização mais elevados que outros jovens, cujos pais insistiram em preservar a exploração agrícola. Sob tais condições, contraditórias para a reprodução social da unidade familiar, a exploração agrícola toma-se desinteressante para os filhos de agricultores, inaugurando-se uma crise motivada pela ausência de sucessor para o chefe da unidade produtiva e que pode acarretar o abandono do investimento familiar na exploração agrícola.
3. A diversificação do investimento econômico procurando setores mais rentáveis, como o comércio (Garcia Jr., 1989) ou a prestação de serviços (pousadas, restaurantes, pesque e pague..) é reconhecida como uma estratégia de ampliação da capacidade de capitalização da propriedade que pode levar à secundarização da atividade agrícola enquanto durarem as condições favoráveis para os outros investimentos ou ao abandono definitivo da atividade produtiva.
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