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A dignidade da pessoa humana na vida moderna


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A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA NA VIDA MODERNA

Maria do Carmo Whitaker

Resumo
O grande desafio que se propõe ao homem é à mulher do século XXI é que se conhecendo a si mesmo, saibam encontrar as dimensões da experiência humana, para atingirem a plenitude do dom da vida mediante a edificação do ser integral. Considera-se a dignidade humana, as potencialidades e faculdades da pessoa, sua consciência e a estreita relação entre consciência e lei moral, além de sua característica como ser de relação e sua transcendência. Aborda-se a questão das grandezas e fraquezas da pessoa e o cultivo das virtudes e valores.

Conclui-se que é possível resgatar uma visão de pessoa integral, ajudando a criar um projeto pessoal de inserção no mundo de hoje, praticando a solidariedade para combater o individualismo, a desintegração da pessoa e sua indiferença em face da realidade.



Introdução. As dimensões do Ser. A Dignidade da pessoa. A consciência julgadora. A voz da consciência. A relação existente entre a consciência e a lei moral. O homem e a mulher são seres de relação. A transcendência como característica da pessoa. Grandezas e fraquezas da pessoa. Cultivo dos valores. Solidariedade e Inserção da pessoa no mundo de hoje. Conclusão.


Introdução

Há pouco tempo uma revista1 de grande circulação no Brasil, publicou entrevista2 que propala que, o ser humano é mentiroso por natureza e que a mentira traz vantagens indiscutíveis.


Na mesma época a mídia divulgou a plataforma virtual Second Life. Trata-se de um espaço digital tridimensional, no qual personagens, denominados “avatares,” refletem as fantasias de seus criadores e vivem nessa comunidade paralela, totalmente dissociada da vida real. “Todos já nascem com a certeza de sua imortalidade e não-envelhecimento. Em Second Life, o que importa é viver, experimentar, construir, comprar, socializar e brincar”, afirma Roberta Alvarenga3, em reportagem sobre a inusitada criação tecnológica.
Mentira no mundo real e mentira no mundo virtual.
O culto à mentira é uma das razões pela qual o mundo atual leva ao individualismo, à desintegração da pessoa e sua indiferença diante da realidade. A substituição da verdade pela mentira traz consigo a perda de referências, de princípios e valores, a começar pela perda da própria identidade. O relativismo é outra das razões, já que cada pessoa cria os seus próprios valores, decide segundo seu próprio critério o que é verdadeiro ou falso e acha que ser livre é fazer o que se tem vontade, desprezando as intenções que movem o sujeito.
As expressões clássicas que designam o ser e sua plenitude foram substituídas por palavras esvaziadas de sentido e de conteúdo. O ter se sobrepõe ao ser. Predominam o consumismo, o hedonismo, a busca da comodidade, o querer levar vantagem, o lucro fácil, não importando os meios utilizados para atingi-lo, sem contar a degradação e devastação do meio ambiente.
Há que se construir o ser integral. Aquele que tem consciência de sua dignidade, que encontra um sentido para sua vida e que sabe usar sua capacidade para, quando for necessário, transformar o seu entorno, sem se deixar levar pela indiferença em face da realidade ou pelas circunstâncias do momento. “...Sou o tema de uma história que é minha e de ninguém mais, que tem seu próprio significado peculiar”, observa MacIntyre4 (2001:365). Encontrar o significado peculiar à sua vida e cumprir a sua missão, aproveitando as realidades do dia-a-dia para crescer e se superar é caminhar para a plenitude do ser.
As dimensões do ser
As dimensões da pessoa são uma realidade que revelam a sua unidade. Assim, a esfera corporal está intimamente ligada à psíquica, intelectual, espiritual e social.
Infelizmente, o que se vê hoje é uma desintegração do ser, uma dissolução, que está muito bem retratada por MacIntyre5 (2001:343):
“...a modernidade divide a vida humana numa série de segmentos, cada um com suas normas e modalidades de comportamento. Portanto, o trabalho fica afastado do lazer, a vida privada afastada da vida pública, a vida empresarial afastada da vida pessoal. Assim, a infância e a velhice foram amputadas do resto da vida humana e transformadas em setores distintos. E todas essas separações foram criadas para que seja a diferença de cada uma delas, e não a unidade da vida do indivíduo, que navega por essas partes, segundo as quais nos ensinam a pensar e sentir”.
A unidade de vida e a coerência são imprescindíveis para que a pessoa aja com serenidade, confiança, segurança e firmeza, servindo de inspiração para os demais.
Morris6 (1998:21) trata da unidade existencial básica referindo as quatro dimensões de toda experiência humana. Afirma que, em todas as culturas do mundo e ao longo da história essas dimensões mantiveram sua importância, que persiste até hoje. Coloca, assim, as bases que estruturam toda a vida humana e mostra como esses elementos oferecem quatro virtudes ou forças atemporais, que constituem o alicerce para a excelência humana sustentável.
AS QUATRO DIMENSÕES DA OS QUATRO ALICERCES DA

EXPERIÊNCIA HUMANA EXCELÊNCIA HUMANA


Intelectual Verdade

Estética Beleza

Moral Bondade

Espiritual Unidade

Tabela extraída de Tom Morris. A nova alma do negócio. o.c. p. 22

Essas dimensões revelam o valor e a dignidade de cada pessoa e de seu semelhante.


Hildebrand7 (1995:6) afirma que somente o homem e a mulher, que entendem que há coisas boas e belas por si mesmas é que captam a exigência sublime dos valores, o seu apelo a deixar-se guiar por eles e a submeter-se à sua lei. Somente essa pessoa será capaz de ultrapassar seu horizonte subjetivo e crescer moralmente, entregando-se ao que faz sentido, e vencendo a limitação de se perguntar a si próprio o que o satisfaz.
“Um homem é incapaz de ser moralmente bom se estiver cego para o valor moral das outras pessoas, se não distinguir o valor inerente à verdade do não-valor inerente ao erro, se não entender o valor que há numa vida humana ou o não-valor de uma injustiça. Se alguém se interessa apenas por saber se determinada coisa o satisfaz ou não, se lhe é agradável, em vez de se interrogar sobre o seu significado, a sua beleza, a sua bondade, ou sobre o que vem a ser em si mesma; numa palavra, se não se interessa por saber se essa coisa é valiosa, é-lhe impossível ser moralmente bom”. Hildebrand8 (1995:4/5).
Eis algumas considerações práticas sobre a forma de conduzir as dimensões da experiência humana e alicerçá-las em valores que retratam sua dignidade.
A dignidade da pessoa

O homem e a mulher, na ordem da criação, foram dotados de faculdades e potencialidades, que os distinguem dos demais seres criados. Assim, têm o entendimento (inteligência, razão) que lhes permite conhecer os demais e conhecerem-se a si próprios, fazer juízos e elaborar raciocínios complexos. Além disso, são seres livres, têm a capacidade de dominar seus atos e a possibilidade de escolher ou não o que consideram mais conveniente. Enquanto a inteligência atrai a verdade, a vontade tende para o bem. Pela consciência podem distinguir o bem do mal, o certo do errado, e assim por diante. Inteligência, razão, vontade, liberdade e capacidade de amar - que é ato próprio da vontade livre -, fazem parte daquilo que é essencial ao ser humano. Todas essas faculdades e potencialidades outorgam dignidade à pessoa em face dos demais seres criados.


Afirma Fontrodona,9 (1998:86) que as normas que servirão de referência para o agir humano devem ser buscadas na consciência. “Estão constituídas sobretudo pela verdade sobre o bem e se apóiam na compreensão da natureza do homem e de seus fins”.
“Faça o bem e evite o mal” ficou consagrado como um princípio de conduta.
A consciência julgadora
O ser humano tem a possibilidade de identificar em sua intimidade uma lei maior que o inspira a fazer o bem e o acusa, o deixa infeliz e insatisfeito, quando pratica o mal.
Foi o que levou Uliano10 (2007:266) a chamar atenção para o valioso recurso existente na intimidade de toda pessoa, um comando inimitável, que pode sensibilizar-se ou endurecer-se. Em qualquer situação da vida de cada pessoa, em que se coloque a necessidade de fazer opção, de tomar decisão, seja ela de grande vulto, ou de menor importância, surge como principal mentora a “sagrada senhora Consciência”.
Mas afinal, o que é a consciência? Em um pequeno e valoroso livro, Faus11 (1996:47/48), antes de definí-la, considera o que ela não é. “Não é uma faculdade (como são a memória, o entendimento e a vontade), não é um hábito (como um hábito adquirido, que por assim dizer funciona bem sozinho).”
A consciência se exercita por um ato. Concretamente, afirma Faus12 (1996:48) “é o ato do entendimento (da inteligência, da razão) que julga a bondade ou malícia de nossas ações.”
O problema é que a verdade e o bem, ou a malícia das ações, nem sempre são facilmente identificáveis. Muitas vezes certas situações nos são apresentadas com a aparência de verdade e de bem mas, na realidade não o são. Como distinguir isso com clareza?

A voz da consciência

A voz da consciência é a voz da razão, observa Faus13( 1996:12). Pois, para se identificar o que é verdadeiro, certo e bom, faz-se mister um estudo sereno e uma ponderação refletida. Somente a razão tem condições de conhecer, de ter noções corretas, de estudar, entender, ponderar, refletir e avaliar. Essas ações são próprias do entendimento e não dos desejos, emoções ou palpites, ou, ainda de interesses escusos, que poderiam falsear as conclusões.


A natureza humana necessita de normas que a ajudem a orientar adequadamente os meios para atingir o bem. Necessita, também, cultivar hábitos que lhe permitam alcançá-lo.
Pérez14 (1991:56) menciona os principais meios naturais para a formação da consciência:


  • a sinceridade de vida, que exige o exame atento das próprias intenções e o julgamento da retidão das suas atuações;

  • o paulatino estudo da ciência ética.

A formação da consciência não pode limitar-se, afirma Perez15 (1991:57) à simples aquisição de uma ciência moral, ela é em si mesma, uma tarefa moral de aquisição de virtudes. Assim, exemplifica, a prudência que leva ao juízo reto e verdadeiro da consciência, não é possível sem o esforço por adquirir as outras virtudes morais.



A relação existente entre a consciência e a lei moral

“A norma suprema da vida humana é a própria lei divina, eterna, objetiva e universal, pela qual Deus, pelo conselho de Sua sabedoria e amor, ordena, dirige e governa o mundo todo e os caminhos da comunidade humana”. É com esta clareza que foi definida pela Declaração Dignitatis Humanae16(1966: 598), a lei natural, também conhecida como lei moral.


Verifica-se, portanto, estreita relação entre a consciência e a lei moral. É que para julgar corretamente é preciso conhecer o bem , o certo, o justo, que estão contidos na norma suprema da vida que é a lei natural. Daí a necessidade de uma boa formação da consciência, de uma boa educação, já que as pessoas estão submetidas a influências negativas e de conceitos incorretos que poderiam falseá-la. É desta formação que os seres humanos estão carentes. Nas escolas, dá-se instrução sobre as diferentes disciplinas, mas não se ensina viver, conviver e ser íntegro. “Ensinam-se vagos sentimentos humanitários pacifistas e ecológicos e o que se estimula a praticar, em vez de virtudes, são apenas habilidades e conveniências.”17 (Faus 1996:51)
Faltam lições de vida, que aliás existem muitas, pena que muito pouco divulgadas. Impõe-se a preocupação com a formação das pessoas, não apenas das crianças e jovens, como também, dos adultos. Foi angustiante ouvir o comentário de um professor de meia idade que constatou a ausência de parâmetros e referências experimentada pelos próprios pais de seus alunos. Como incutir nos jovens princípios e valores, sensibilidade pelo sofrimento alheio, solidariedade, se nem mesmo seus pais contam com essas referências?
o homem e a mulher são seres de relação
O ser humano relaciona-se consigo, com as coisas que se encontram no seu meio ambiente, com os seus semelhantes e com o Absoluto. Para que estas relações se dêem de modo harmônico é preciso que aprenda, primeiro, a se relacionar com ele mesmo.

Guardini18 (1990:7), em precioso livro sobre as fases da vida, menciona a tensão que existe entre a permanência da pessoa e a evolução dos seus sucessivos estados. É característica do ser humano uma contínua renovação. Suas condições psicossomáticas variam constantemente. Nos diferentes relacionamentos manifestam-se os distintos aspectos inerentes ao próprio ser. A complexidade e diversidade de emoções, sentimentos, juízos de valor, manifestações da consciência e da vontade, as escolhas que cada um faz não destroem a unidade da pessoa, pelo contrário, reafirmam sua identidade e revelam sua personalidade. Afirma, ainda, Guardini19 (1990:10) que o homem que vive todas as fases da vida é sempre um e o mesmo, vivendo não apenas como um mesmo indivíduo biológico à semelhança do animal, mas como uma mesma pessoa, como alguém que é consciente de si próprio e se torna responsável pelas decisões que toma. Aí está, de forma muito sucinta, o desafio para a pessoa que deseja encontrar a harmonia no seu interior.


Giussani20 (1994:11) mostra a importância da pessoa, afirmando que a evolução de uma sociedade pode ser medida pelo valor da pessoa que dela faz parte, concluindo que “não existe humanidade a não ser no eu concreto, em cada pessoa”.
Há, também, uma inclinação do homem e da mulher a se relacionarem com o seu ambiente natural. Não se trata, adverte Melé21(1997:96) de simples adaptação, como ocorre com os animais, mas sim de transformá-lo de modo que sirva às suas necessidades e desejos. Quando esse domínio do ser humano sobre o meio ambiente é abusivo gera a devastação das florestas, a degradação do meio ambiente, pescas e caças predatórias, esgotamento dos recursos naturais, aquecimento global, com graves conseqüências para a humanidade.
Quem sabe se valorizar, reconhecendo e desenvolvendo os dons recebidos, terá maior facilidade para valorizar o seu semelhante. São inúmeras as pessoas que cada um encontra em apenas um dia, infinitamente maior é o número de relacionamentos humanos que se formam ao longo de toda uma vida. Muitas vezes surgem encontros com pessoas que o acaso, ou a providência, as aproxima e nunca se sabe se após aquela oportunidade poderão se encontrar novamente. A pergunta que se faz é o que foi transmitido para o outro naquela relação que se travou? A presença, o olhar, o sorriso, a palavra, um gesto de atenção entre duas pessoas podem ser muito enriquecedores para ambos. Pena que tantas vezes o que ocorre é simplesmente ignorar a presença do outro, ou estabelecer uma relação negativa e destituída de valores.
Outras vezes são pessoas do relacionamento diário, marido, esposa, filhos, auxiliares do lar, profissionais, colegas de trabalho, de lazer e estudo. Quantas vezes, devido à pressa imposta pelas contingências do mundo moderno, não se prestam atenção a essas pessoas. Olho no olho, uma acolhida calorosa, um gesto para lhes facilitar a vida, antecipar-se às suas necessidades, são ações que às vezes ficam esquecidas. A correria do dia-a-dia insensibiliza as pessoas, as ensurdecem, as cegam, as tornam indiferentes aos seus semelhantes. Quantas surpresas têm alguns com pessoas que convivem na própria casa.
Nas empresas dá-se mais importância às máquinas que às pessoas, que não valem pelo que são, mas pelo que produzem e pela sua aparência. Somente tratando e sendo tratados com dignidade os homens e as mulheres encontrarão equilíbrio nos seus relacionamentos, deixando de lado a idéia, tão arraigada, de pretender levar vantagem sobre o outro. É o que a sociedade que aí está propala e a mídia infunde.
Esse ser de relações cresce na medida em que ao se relacionar com o outro, descobre no seu semelhante os seus valores, suas capacidades, sua excelência. E, não condiciona o respeito que lhe é devido pelo trabalho que executa, pela sua condição social, ou pelo bem que lhe pode proporcionar. Assim, tomando consciência de que este outro é uma pessoa que tem valor por si mesmo, pela sua dignidade, a relação entre as pessoas passa a ser diferente.
A natureza social do homem e da mulher traz consigo uma grande variedade de rede de relações interpessoais, que manifestam o fato de que cada pessoa necessita da ajuda de outras para o seu aperfeiçoamento. Além disso, a maioria dos empreendimentos humanos se desenvolve em comum ou associado a outros. Fala-se muito em colaboração, rede de contatos, elos da cadeia produtiva nas empresas, e assim por diante. Esta realidade implica em que cada pessoa seja moralmente responsável não somente por seus próprios atos, mas também pelo impacto que pode causar nas outras pessoas. Não basta praticar individualmente o bem, é preciso cooperar para o bem alheio.
Por fim, a pessoa que, como se viu, se relaciona com o meio ambiente, consigo mesma e com seu semelhante, tem o privilégio de se relacionar, também, com o ser transcendente. Com efeito, se não houvesse possibilidade do ser humano manter uma comunicação com o seu Deus, ficaria como um avião à deriva, sem bússola, nem rádio, no meio do espaço aéreo. Não teria um guia, uma direção e perderia a esperança de chegar ao seu destino. Esta elevação da mente e do coração a Deus, que por um ato de vontade se concretiza na comunicação com Ele, permite à pessoa descobrir o sentido de sua vida.
A transcendência como característica da pessoa
É, também, característica do ser humano, a transcendência. O homem não deu vida a si próprio, mas a recebeu, como um dom. Outrossim, foi criado para algo que está além dele. As técnicas científicas procuram hoje a origem da vida e tentam, com incrível ousadia atingir o âmago da criação. Embora manipulem a vida e a morte mediante o uso de meios e métodos artificiais, ainda há muito a ser desvendado, e talvez, corrigido, pelos abusos cometidos pelos cientistas que exorbitam em suas pesquisas.
Todo ser humano aspira algo ou alguém fora dele e superior a ele. É por essa transcendência que a pessoa não se satisfaz consigo mesmo. Nem, ainda, o precário convívio com seus semelhantes poderá preencher o vazio causado pela ausência de resposta à sua atração por algo superior.
Além disso, adverte Lino Nieto22 (2004:34) “o homem não é um ser de consumação, e sim de finalidades”, o que o leva a uma “inquietação permanente, a experimentar tudo e a não se comprometer com nada, ao deserto da falta de raízes e da movimentação contínua”. De fato, uma pessoa concreta é sempre um fim, não pode ser um meio para alcançar outros fins.

Grandezas e fraquezas do ser humano

Se de um lado se encontram magnitudes no ser humano, de outro lado, verificam-se baixezas incríveis. A mesma pessoa que é capaz de realizar grande ato de solidariedade não está isenta de praticar atos execráveis.

O mito da bondade humana, afirma Espinosa23 (1998:17/18), está se esgotando. Realmente, bastam as notícias veiculadas pela mídia para se constatar a decadência da humanidade. Assaltantes arrastam pelo asfalto criança presa ao veículo, balas perdidas matam inocentes, jovens queimam índios e mendigos, adolescentes matam seus próprios pais e um sem número de ações violentas. Assassinatos em série, drogas, prostituição, corrupção e infindáveis crimes retratam a maldade humana, insensível aos seus semelhantes e sem noção do que significa viver em uma comunidade.
A ignorância, a fraqueza e a malícia24 (Arruda et.al. 2005:47) inerentes ao ser humano o impedem de aderir ao bem e à verdade. Daí a enorme necessidade de que cada pessoa reconheça suas limitações, as aceite e tome as precauções necessárias para combatê-las. A ignorância se vence com estudo, pesquisa, formação, aconselhamento com pessoas idôneas. A debilidade de caráter poderá ser superada com o cultivo das virtudes contrárias àquelas fraquezas que se deseja combater. Finalmente, a malícia, sem dúvida, supõe verdadeira mudança de atitude, radicalidade mesmo, para rejeitar o mal e aderir o bem.
Muito fácil falar ou escrever isso, como espectador ou analista de comportamentos. O difícil é viver e praticar, sem tréguas, as ações que combatem esses três elementos que arrastam a pessoa para a sua decadência.

Cultivo de valores

É na prática dessas atitudes, competências e virtudes que se forja o caráter e a personalidade das pessoas de valor, que têm princípios elevados e deles não abrem mão. Uma pessoa assim, enobrece os seres humanos e pode de fato ser considerada, como qualificou Pareyson25 (1985:176) “única, irrepetível, inconfundível, incomparável, insubstituível”.


Paulo Freire26 (1996:65) fala do esforço que se impõe ao homem e à mulher, para diminuir a distância entre o que eles dizem e o que fazem. “Este esforço, o de diminuir a distância entre o discurso e a prática, é já uma dessas virtudes indispensáveis – a da coerência”. Segue-se uma infinidade de virtudes que contribuirão para o aperfeiçoamento de cada pessoa.

Afirma Solomon27(2000:20) que não basta adotar um valor, mesmo que se acredite nele sinceramente, se este valor não for traduzido em ação. E mais, “as virtudes são valores transformados em ações”... “Nossa visão dita os nossos valores e dá forma às nossas virtudes, de modo que virtude não é só ação. Ela é ação inteligente, de visão, que expressa a noção pessoal de como o mundo deve ser”. (Solomon28 2000:20) Assim, a justiça, a dedicação, a veracidade, a fidelidade, a lealdade, a determinação, a responsabilidade, entre outras virtudes, vividas por cada pessoa, não são algo inacessível ou impossível de se conquistar, mas constituem os valores morais que formam a personalidade do homem e da mulher. Esses valores éticos tornam o ser humano mais transcendente que a criação de bens culturais, afirma Hildebrand29 (1995:4).


É imperioso verificar como o homem e a mulher chegam a participar desses valores morais. Pergunta Hildebrand30 (1995:4), “acaso se formam por si sós como a beleza do semblante, como a inteligência de que foi dotado, como um temperamento vivo?” Não, responde o mesmo autor, mostrando que esses valores têm origem em atitudes livres e conscientes e exigem uma colaboração essencial. Assim como os valores éticos exigem uma dedicação, uma resposta afirmativa, os contra-valores supõem uma recusa clara, resultado de uma decisão. À medida que o ser humano conseguir distinguir e identificar esses valores e a eles aderir, recusando os antivalores, tanto mais livre será e mais próximo estará da sua plenitude.

A dignidade humana leva o ser a uma grandeza que somente será conquistada à medida que se desapegue do desejo de ser superior aos demais, na medida em que seja o que ele mesmo é, afirma Merton31 (1961:129). Assim, o homem e a mulher perdem a fútil insistência que os levam a se comparar constantemente com os outros para medir a sua grandeza.

Eis outra importante recomendação do mestre da espiritualidade, o uso do que hoje os modernos chamariam de melhores ferramentas para se alcançar a felicidade: equilíbrio, ordem, ritmo, harmonia32 (Merton, 1961:133). Caberia acrescentar o método que, sem dúvida, é importante para quem tenta se esforçar por forjar e lapidar seu caráter. A receita não mudou.

O grande desafio do ser humano é exatamente fazer prevalecer as grandezas e diminuir ao máximo as suas fraquezas, embora ciente de que estas últimas, também, o acompanharão pelo resto de sua existência.



Solidariedade e inserção da pessoa no mundo de hoje

A solidariedade surge da descoberta de interdependências com nossos semelhantes e com quem nos sentimos inclinados a ajudar em suas necessidades por serem pessoas. Melé33 (1997:105/106) define a solidariedade como a “contribuição ao bem comum nas interdependências sociais, de acordo com a própria capacidade e as possibilidades reais”.


É solidário quem ama. Quem olha o seu semelhante com admiração, atento para os seus valores. É solidário quem sai de si mesmo e se coloca no lugar do seu semelhante para melhor compreendê-lo.
Grande lição de solidariedade, de compreensão do ser humano e de como se lhe pode oferecer oportunidade de superação, está contida no livro de Muhammad Yunus34. O vencedor do prêmio Nobel da Paz, conta o que aprendeu com o Grameen Bank35. Este homem, nascido em Chittagong, distrito de Bangladesh enxergou o foco do problema do homem ao afirmar que o conhecimento que se tem sobre os indivíduos e sobre as interações existentes entre eles são ainda muito imperfeitos. Descobriu que cada pessoa é importante. “Toda pessoa tem um enorme potencial e pode influenciar a vida das outras no seio das comunidades e das nações durante sua existência, mas também além dela36”. (Yunus, 2000:9)
Yunus que fez doutorado nos Estados Unidos, como bolsista da Fundação Fulbright tinha verdadeira consciência da solidariedade e grande amor pela sua gente. Ao retornar à sua pátria decidiu voltar a ser estudante. A pequena aldeia denominada Jobra, tornou-se sua universidade, os habitantes dela seus professores. Assumiu o compromisso de conhecer profundamente tudo sobre aquela aldeia, ciente de que só assim teria condições de compreender a vida real de uma pessoa pobre.
Mais que mudanças econômicas, o objetivo de Yunus foi gerar mudanças sociais, como por exemplo, lograr que as mulheres de Bangladesh, consideradas cidadãs de segunda categoria, se tornassem responsáveis, capazes de resolver sua vida e a de seus filhos.
Foi extraindo lições dos erros cometidos por outros bancos que Yunus estruturou, em 1977, o sistema de empréstimos. Optou por um sistema de pequenos valores que permitissem ao financiado manter uma contabilidade diária e honrar o seu compromisso. Preocupou-se com desenvolver certa disciplina entre seus clientes para demonstrar-lhes que eles poderiam pagar, criando neles a auto-estima. Reuniu-os em grupos para terem maior sensação de segurança. O indivíduo isolado, tem tendência a ser imprevisível e indeciso, já no grupo, se beneficia do apoio e estímulo de todos. Seu comportamento se torna mais regular e ele passa a ser um financiado mais confiável. O sentimento de competição que se instala no grupo e entre os diferentes grupos resulta de uma competição saudável que estimula cada um a fazer o melhor. Além disso, Yunus transferiu para o grupo a tarefa do controle dos empréstimos, o que gerava neles autoconfiança, comprometimento e diminuição do trabalho dos empregados do banco.
Eis um excelente exemplo de como resgatar a confiança. Valor tão necessário em nossos dias para a formação do ser integral. Como reconquistar a confiança em um ambiente que todos parecem se armar de instrumentos de defesa para se relacionar? O princípio da boa fé que deveria reger as relações entre as pessoas foi suplantado pelo seu contrário, apesar de as leis pretenderem incorporá-lo. Mas é sabido que nada se incorpora se não fizer parte da vida da pessoa. O indivíduo tem que provar que não está mentindo, que cumpriu o seu dever, que pagou os impostos, que envia seus filhos à escola. Chega ao cúmulo de ter que provar, perante os órgãos de assistência social, que está vivo!
Impõe-se uma mudança de mentalidade. E para tanto, faz-se mister iniciar pelo começo: contribuir para a formação do bom caráter de cada pessoa. Dar lições de vida com o testemunho da própria vida.
O exemplo de superação do ser humano, de sua autodescoberta e auto-exploração de seus valores, revelam os frutos tirados dos ensinamentos captados por Yunus na aldeia de Jobra, transmitidos pelos seus próprios habitantes.
Através deste projeto concreto que se realizou em determinada comunidade, revelou-se que é possível, nos dias atuais, resgatar o ser humano integral.

Conclusão

O grande desafio que se propõe ao homem é à mulher do século XXI que desejam viver em plenitude o dom da vida é que, conhecendo-se a si mesmo, saibam trabalhar e bem explorar as grandezas e fraquezas que encontram em suas existências.


Esse desafio se concretiza em algumas considerações, ações e atitudes muito concretas, que forjam a figura do ser integral.


  • solidificar a verdade, a beleza, a bondade e unidade que são os alicerces da excelência humana;

  • nutrir a inteligência, lapidar a vontade, formar bem a consciência, para, com determinação, liberdade e reta intenção, buscar e executar o bem e a verdade, em todas as circunstâncias;

  • aproveitar a riqueza que geram os seus relacionamentos (consigo, com a natureza, com seus semelhantes e com o Absoluto);

  • recuperar a identidade do eu, eventualmente fragmentado, tomando consciência de sua unidade como pessoa;

  • reconhecer e aceitar a própria fraqueza, a fim de descobrir os melhores meios e métodos de se superar;

  • definir a finalidade de sua existência, respondendo a que veio, assumindo sua missão, desempenhando-a imerso nas realidades favoráveis e adversas da vida;

  • viver o amor e a solidariedade ao exercer a sua missão e o seu protagonismo

Vale concluir, ainda, que a formação faz parte da vida. Sob esse aspecto a educação não é monopólio das famílias, ou do governo, exercido mediante as escolas e universidades, mas torna-se um imperativo para cada pessoa. Todo ser humano é um educador em potencial, é o grande protagonista da educação tanto no papel do educador como na posição de educando.


No mundo ocidental, tanto quanto no oriental, o ser humano tem riquezas incomensuráveis, tão infinitas quanto a sua sede do transcendente. Basta desenvolver habilidades para descobrir este tesouro. Isso mostra como é imprescindível a preocupação com a formação de cada pessoa.
Finalmente é imperativo para o homem e a mulher que desejam desenvolver um projeto pessoal de inserção no mundo de hoje, descobrir o sentido de sua vida. Esse sentido haverá de ser muito concreto, segundo a missão de cada pessoa. A pessoa é única e insubstituível, tal como a sua missão. Viktor Frankl37 (1985:98), que passou por uma situação extremamente desumanizadora no campo de extermínio nazista durante a segunda guerra mundial, soube encontrar sentido para aquele momento trágico. Tem, portanto, autoridade para afirmar:
“Cada qual tem sua própria vocação ou missão específica na vida; cada um precisa executar uma tarefa concreta, que está a exigir realização. Nisto a pessoa não pode ser substituída, nem pode sua vida ser repetida. Assim, a tarefa de cada um é tão singular como a sua oportunidade específica de levá-la a cabo”.
Impõe-se o resgate da pessoa, a valorização de sua dignidade, a busca da verdade e do sentido da vida. Somente em face desses conceitos será possível encontrar o ser integral que tenha um ideal e um plano para atingí-lo, que olhe em volta de si e se sinta responsável por trabalhar pela transformação do mundo. Somente um ser integral poderá cuidar da sustentabilidade da humanidade e do planeta, contribuindo para elevar o nível moral da humanidade.


1 Revista Veja. São Paulo: Ed. Abril, ed.1978, ano39, nº41, 18/10/2006, p.11-15.

2 A entrevista foi concedida por David Livingstone Smith, autor do livro “Por que mentimos – Os fundamentos Biológicos e Psicológicos da mentira” (Ed. Campus Elsevier, 2005).

3(http://wnews.uol.com.br/site/colunas/materia.php?id_secao=9&id_conteudo=378, capturado em 30/04/2007).

4 MACINTYRE, Alasdair. Depois da Virtude, 2ª ed. Bauru, São Paulo:EDUSC, 2001

5 MACINTYRE, Alasdair. o. c.

6 MORRIS, Tom. A nova alma do negócio. Como a filosofia pode melhorar a produtividade de sua empresa. 7ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

7 HILDEBRAND, Dietrich von. Atitudes éticas fundamentais, 2ª ed. São Paulo: Quadrante, 1995.

8 HILDEBRAND, Dietrich von. o.c.

9 WOJTYLA,Karol. Mi visión de hombre. Hacia una nueva ética. Madrid:Palabra, 1997.p.245ss. apud FONTRODONA, Joan Felip, PARRA, Manuel Guillén e SEDANO, Alfredo Rodríquez. La ética que necesita la empresa. s/e., Madrid: Union Editorial, 1998.

10ULIANO, Suely Caramello. Ética na vida das Empresas. Depoimentos e Experiências.(coord. Maria do Carmo Whitaker)

São Paulo: DVS, 2007.



11 FAUS,Francisco. A voz da consciência. São Paulo:Quadrante,1996.

12FAUS,Francisco. o.c.

13 FAUS,Francisco. o.c.

14PÉREZ, Rafael Gómez. Deontologia Juridica, 3ª ed. Universidad de Navarra: Pamplona, España, 1991.

15 PÉREZ, Rafael Gómez. o.c.

16 Declaração Dignitatis Humanae, n.3, Documentos do Vaticano II, Petrópolis, RJ: Vozes, 1966.

17FAUS,Francisco. o.c.

18GUARDINI, Romano. As idades da vida. O seu significado ético e pedagógico. São Paulo: Quadrante, 1990

19GUARDINI, Romano. o.c.

20 GIUSSANI, Luigi, É, se opera.Suplemento 30 Dias, São Paulo:Ed Loyola, nº6, junho de 1994

21 MELÈ, Domenec. Ética en la Direccion de Empresas. Barcelona: Ediciones Folio, S.A., 1997

22 NIETO, José Lino C. A vontade de poder. Nietzsche, hoje. São Paulo: Quadrante, 2004

23 ESPINOSA, Jaime. Questões de Bioética. São Paulo: Quadrante, 1998

24 ARRUDA, Maria Cecilia Coutinho de, WHITAKER, Maria do Carmo e RAMOS, José Maria Rodriguez. Fundamentos de Ética Empresarial e Econômica. 3ª ed. São Paulo: Atlas, 2005

25 PAREYSON, Luigi. Esistenza e persona. Genova, Italia: Il Melangolo s.r.l., 1985.

26 FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

27 SOLOMON, Robert C. A melhor maneira de fazer negócios: como a integridade pessoal leva ao sucesso corporativo.São Paulo: Negócio Editora, 2000.

28 SOLOMON, o.c.

29 HILDEBRAND, Dietrich von. o.c.

30 HILDEBRAND, Dietrich von. o.c.

31 MERTON THOMAS. Homem algum é uma ilha. Rio de Janeiro: Agir, 1961.

32 MERTON THOMAS. o.c.

33 MELÉ, Domenec. o.c.

34 YUNUS, Muhammad. Com Alan Jolis. O Banqueiro dos pobres. São Paulo: Ática, 2000.

35 Trata-se de um banco fundado em 1976 por Muhammad Yunus, para conceder pequenas quantias a camponeses pobres (entre 15 e 35 dólares), a fim de que comprassem gado, sementes, ferramentas ou matéria-prima para sua atividade artesanal. Para compensar a falta de garantias, que os pobres não podiam oferecer, o sistema do Banco baseia-se na pressão social e nos incentivos econômicos.

36 YUNUS, Muhammad. o.c.

37FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Um psicólogo no campo de concentração, 18ª ed. São Leopoldo. RS: Ed. Sinodal/ Vozes, 2003.






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